Meu amor está ao seu lado.
6 Roubado
Notas iniciais
Lá fora fazia sol. Foi à primeira coisa a ser notada assim que abri os olhos pela manhã, pois o mesmo incomodava meus olhos, me dei conta de que havia esquecido as cortinas abertas, o que já era extremamente comum. No relógio a minha frente os números vermelhos marcavam nove e quarenta e seis, era sábado e eu poderia ficar até mais tarde na cama, mas é irônico como nesses dias acordo cedo e sem sono algum. Decidi por levantar-me e preparar um café. A cozinha estava realmente bagunçada por conta da pia cheia de louça acumulada. Apenas ignorei e sentei-me na pequena mesa, com apenas duas cadeiras-nunca recebia ninguém ali, era inútil mais lugares-. Beberiquei meu café calmamente enquanto por vezes tragava o cigarro acesso alguns segundos depois. Lembrei-me de que encontraria com Peter mais tarde e no mesmo instante senti as borboletas se manifestarem em meu interior. Não podia negar, estava realmente nervoso, quando percebia que estava mais perto parecia que aumentava ainda mais. Eu tinha medo do que ele pudesse pensar sobre mim, qualquer coisa perto dele parecia ser insignificante, afinal, já havia notado que ele era médico e talvez tivesse uma boa vida, constatei depois de ver seu carro e acredito não esperar menos do lugar em que morava. Resolvi por deixar aqueles pensamentos de lado e levantei-me depois do cigarro entre meus dedos já estar quase queimado por completo. Deixei a xícara usada junto com as tantas outras louças na pia e segui de volta para meu quarto na intenção de tomar um banho demorado.
Já era exatamente quinze para uma da tarde quando finalmente entrei em um acordo com o espelho. Optei por usar calças jeans, que em minha opinião estavam um tanto quanto apertadas em minhas coxas e uma camiseta de lavagem escura com gola em v. Mesmo que as roupas escuras dessem um contraste um tanto quando chamativo em minha pele clara, eu não ligava, não ligava também para as piadas de Thomas sobre precisar tomar mais sol. Peguei minhas chaves junto com carteira e meu celular. Sai dando as costas para toda a bagunça presente em cada cômodo do apartamento, isso incluía a cozinha virada do avesso e a cama para arrumar, mas não daria tanta importância para isso, meus pensamentos estavam em outro lugar.
Já me encontrava em frente à cafeteria quando vi o carro de Peter estacionar a minha frente. Respirei calmamente e segui em sua direção vendo o moreno dar a volta no mesmo e abrir a porta para minha de forma educada e, diga-se de passagem, um tanto quanto clichê.
“Obrigado” Murmurei assim que a porta foi fechada.
“Vamos para onde?” Perguntou já sentando ao meu lado, dando partida e seguindo em frente até parar em um semáforo.
Expliquei-lhe onde ficava o restaurante mencionado na ligação e o trajeto foi silencioso, apenas era possível escutar uma música tocando ao fundo por conta da rádio ligado, mas tão baixa que era quase impossível deduzir seu gênero. Ao chegarmos ao restaurante logo escolhemos uma mesa e nos acomodamos. O local era pequeno, porém extremamente aconchegante. Naquele horário não se encontrava muito cheio, o que agradeci mentalmente. Decidimos-nos por um prato de massa, salada e um vinho, esse escolhido cuidadosamente por Peter.
“Como foi sua semana?” Peter perguntou enquanto esperávamos nossos pratos. Foi à primeira vez no dia que começávamos um assunto sobre nós mesmos.
“Tranqüila. De casa para o trabalho todos os dias” Respondi sem pensar muito. “E a sua?”
“Ao contrário da sua” Riu. Eu percebi que ele tinha um bom humor, mas completamente controlado e educado, o que em minha opinião se tornava atraente. “Essa semana, no hospital em que trabalho, foi muito corrido, nada grave. Acalma geralmente nos dias em que faço plantão”
Conversamos e nos conhecíamos enquanto comíamos. Com algumas perguntas de minha parte descobri que Peter tinha vinte e seis anos e trabalhava na área da medicina há apenas dois anos. Ele tinha irmãos que coincidentemente moravam em Montreal, onde eu havia nascido assim como Peter. Falei também sobre mim, de certa forma me sentia seguro para falar com ele sobre qualquer coisa. O mesmo não era muito de falar sobre sua vida pessoal, notei quando a maior parte das perguntas eram direcionadas a mim, de todo jeito, não me importei. A situação era nova para mim, alguém se interessando pelo o que eu tinha para falar e aquilo me deixava contente de certa forma.
Quando nossos pratos foram retirados e apenas as taças de vinho ficaram me peguei observando sua mão, a mesma que continha a aliança dourada. Ele ao buscar meus olhos percebeu e deixou que um sorriso no canto dos lábios finos nascesse.
“Casei obrigado” Mais uma vez naquele dia riu e claro, levei na brincadeira.
“Claro, hoje em dia os pais ainda escolhem a mulher para filho”
“Foi quase isso” E aquela quase afirmação me surpreendeu. “Eu a engravidei. Os pais dela, por incrível que pareça, não aceitaram e exigiram que nos casássemos o mais rápido possível, eu nem ao menos sabia se a amava! Foi tudo muito rápido, cerimônia, tudo. Quando Alicia estava com três meses perdeu o bebê, só soubemos depois que seria um menino”
“Sinto muito” Foi tudo o que pude dizer. Ao mesmo tempo que era triste eu também me sentia aliviado. Aliviado? Senti-me péssimo por deduzir tal sentimento.
“Agora já está tudo bem. Foi realmente triste, mas acredito que não estávamos prontos para sermos pais. Ainda estamos casados porque existe amor entre nós, não sei se da parte dela também, só que não é o mesmo amor que um casal deveria ter, pelo menos não para mim. Nós só nos damos bem, talvez seja isso”
Eu me encontrava encantado por Peter e acredito ser impossível qualquer outra pessoa não se encantar. Assim como ele sabia me fazer rir também conseguia manter uma conversa séria e inteligente. Confesso me sentir culpado por me encantar pelo ser que se encontrava a minha frente, podia assim dizer que era inevitável, apenas não podia controlar.
Já estávamos há quase uma hora e meia dentro do restaurante. Não sentimos as horas passando, então quando nos demos conta nos decidimos por levantarmos.
“Não acredito que você não gosta de Ramones!” Já estávamos na rua, voltando para o estacionamento.
“E por que não? Qualquer pessoa pode até mesmo não conhecer”
“Ah Peter, não me venha com essa, acho que você tem um gosto musical muito pequeno. Preciso te emprestar alguns dos meus discos”
“Não posso acreditar que você tenha discos. Quantos anos você tem mesmo?”
“Vinte e sim, tenho uma coleção pequena de discos, alguns eram do meu pai. Qualquer dia, quando tiver um tempo pode dar uma passada em meu apartamento para dar uma olhada”
“Bom, hoje tenho tempo, se não for te incomodar”
De certa forma ele estava se convidando e eu não podia recusar. Apenas concordei e seguimos para meu apartamento.
O elevador parou no quarto andar, caminhamos até o número quinze, uma porta verde musgo, no mesmo instante me lembrei da bagunça deixada mais cedo e me envergonhei sem ao menos ele entrar.
“Algum problema?”
Encontrava-me estático com a mão na maçaneta, se não fosse vergonhoso poderia até ser engraçado, mas não naquela situação.
“Vai ter que entrar de olhos fechados e esperar uns dois minutos”
“Algum tipo de ritual?” Peter riu quando olhei para ele sem expressão alguma, fechou os olhos e estendeu a mão para que eu o acompanhe para dentro. Tranquei a porta atrás de nós e o deixei parado em frente da mesma.
“Algum dia talvez eu te explique. Agora não abra os olhos até que eu diga que pode”
Corri pelos cômodos pegando sapatos e meias no chão, recolhendo colheremos e xícaras de café jogando na pia já cheia. Arrumei as almofadas no sofá e tentei dar um jeito em minha cama, afinal ele entraria em meu quarto.
“Quer beber alguma coisa?”
“Não, obrigado”
Encaminhamos-nos até meu quarto e ficamos perdidos entre meus discos. Ele fazia piada quanto a meu gosto, mas eu não ligava e até ria junto. Não sei em que momento entre uma piada ou outra que demos nosso primeiro beijo, para mim foi tão confuso que ainda não consigo colocar todas as cenas em ordem na minha cabeça. Ele me puxou para perto e encostou seus lábios aos meus. Foi um beijo muito... Compatível, até parecia ter nascido de uma antiga conexão. Nossos lábios não se moveram muito, apenas aproveitaram as sensações que o contato proporcionava. Foi engraçado como nos encaixamos perfeitamente e como os olhos se fecharam no instante que as bocas se tocaram, eu explicaria aquilo como um momento único.
E como usar outra palavra além de roubado? Naquele momento eu fui roubado e ele era capaz de fazer qualquer coisa sem que eu me importasse. Eu não sabia de onde vinha todo aquele domínio que ele tinha sobre mim, domínio esse que havia me encantado e agora, com toda certeza, fazendo com que eu me apaixonasse pelo moreno. Separamos-nos em busca de ar e nossos olhos foram conectados, eles sorriam e eu não poderia acalmar meu coração que pulava forte dentro da minha caixa torácica.
“Acho que já está na hora de ir embora” E todo o ar que foi prendido por mim saiu em um suspiro, quase uma reprovação.
“Te levo até a porta” Muita coisa passava na minha cabeça. Talvez ele não tivesse gostado. Talvez tenha pensando que foi um erro ou até mesmo empolgação do momento.
Destranquei a porta e me assustei ao encontrar Thomas prestes a tocar a campainha. O mesmo tinha uma mochila pendurada em um dos ombros e uma cara de poucos amigos. Não notou Peter ao meu lado e assim que me viu deu alguns passos até já estar com os braços em volta do meu corpo, abraçando o mesmo fortemente.
“Preciso ficar por aqui, pelo menos essa noite” Sua voz era um tanto quanto chorosa e manhosa.
“Esse é Peter. Peter, esse é o Thomas” O afastei cuidadosamente e o loiro encarou Peter de cima em baixo, me deixando constrangido. Talvez aquele olhar fosse de ciúmes, não pude deduzir, pois logo senti Peter se movimentando e parando já fora, no hall.
Fale com o autor