Passei horas pensando no que dizer para Thomas, que palavras usar, imaginando qual seria sua reação. Ainda não havia me decidido se passava meu dia de folga enrolado em uma pilha de livros e uma garrafa de vinho barato ou iria ao encontro que ele marcou. Tinha vinte anos e se não tomasse uma atitude poderia me achar infantil pro resto da vida. Exagero talvez, mas estava aflito. Acabei me decidindo por ir encontrá-lo e ser sincero sobre tudo.

Caminhei alguns minutos até já estar na cafeteria. Procurei uma mesa vazia logo depois de cumprimentar Beth e me sentei, esperando por Thomas que já estava há dez minutos atrasado. Enquanto isso beberiquei meu café calmamente, vasculhando em minha mente tudo aquilo que havia planejado falar. Depois de algum tempo, com a xícara a minha frente já vazia eu o vi cruzando a porta de entrada e vindo em minha direção. Ele sorria e naquele momento me senti egoísta.

“Oi Phill” Antes de se sentar deposito um beijo em meus lábios que não foi inteiramente correspondido.

"Oi Thomas...” Comecei a me perguntar se devia mesmo fazer o que planejei.

“Tudo bem? Você me parece meio nervoso”

“Quero lhe dizer algo, mas antes disso já quero me desculpar e te dar todo o direito de sair por aquela porta e não olhar mais em minha cara”

“Hum, então é algo sério” Riu e eu não acreditei. Mesmo em momentos tensos ele parecia ver graça em qualquer coisa e acho que isso era uma das coisas que amava em Thomas.

“Você é uma boa pessoa, Thomy. Acho impossível não se apaixonarem por você... Sabe, você tem sido meu primeiro amigo desde que coloquei os pés em Nova Iorque, só acho que não estou sendo justo mantendo essa relação entre nós e acredito que seja melhor colocar um ponto final antes de se tornar algo sério e ficar ainda mais difícil tomar essa decisão”

Para minha surpresa ou quase isso, senti sua mão procurando por uma das minhas sobre a mesa e a segurando firmemente ao encontrá-la. Em seus olhos era possível enxergar o brilho de sempre e ele sorria, fracamente, porém sorria.

“Está tudo bem, não pense que virarei as costas para você. Acho que de certa forma nós estávamos apenas nos aproveitando da situação que nos permitimos criar” Pausou. Percorreu todo meu rosto com seus olhos azuis curiosos. “E você dorme de meias mesmo em noites quentes! Não posso agüentar isso, Phillippe Arthur!”

“E você ronca, Thomas Campbell!” Estávamos rindo da situação. O que menos esperei, que ele levasse tudo numa boa e ainda fizesse piada.

“Não ronco, é apenas culpa da minha bronquite” Rebateu rapidamente mesmo não acreditando em sua própria desculpa.

Passamos o resto da tarde assim, rindo de nós mesmos e vez ou outra nos conhecendo mais ainda. A partir daquele momento eu tive certeza de que tinha um amigo ao meu lado, seria a pessoa para a qual contaria todos os meus medos, a primeira pessoa que saberia sobre Peter. Caminhávamos pelas ruas sem pressa, ele segurava minha mão como se nada houvesse acontecido. Foi então que resolvi contar sobre ele.

“Tem um cara... Peter é seu nome. Eu o vi a primeira vez na cafeteria, antes de te conhecer. Ele é casado...” Nos sentamos em um dos vários bancos que continha no parque em que estávamos. “Nos vimos duas vezes, até que semana retrasada nos encontramos e ele me ofereceu carona. Acabei ganhando um cartão com seu número”

“Está esperando o que para ligar?”

“Como o que? Não escutou quando eu lhe disse que ele é casado?”

“E daí? Se te deu o telefone é porque quer que ligue”

O que Thomas havia falado fazia sentido, mas eu não podia simplesmente ligar e inventar uma desculpa para vê-lo novamente. Se algo acontecesse eu seria um destruidor de casamentos, só que de alguma forma eu não conseguia ligar para quem era sua esposa ou se ela seria prejudicada, só queria estar ao seu lado e ser capaz de sentir todas aquelas sensações que só ele me causava.

“Talvez você esteja certo...”

“Estou certo. Pare de pensar um pouco e aja Phill, pode ser que ele seja a felicidade que você procura, caso não der certo, vou estar de braços abertos te esperando”

Ele era um palhaço! Não pude segurar o riso ao escutá-lo, apenas o abracei e fiz meu dever: Agradecer por quem ele era e pela força que me passava. O abraço foi retribuído fortemente e naquele momento me senti protegido como nunca antes.

__

Ao chegar em meu apartamento a primeira coisa que fiz foi correr até o telefone e discar o telefone escrito no cartão dado por Peter. Poderia ser loucura tal atitude, mas eu nunca me arriscava, estava precisando correr riscos e talvez escutar um não. Um toque, dois, três, quatro e quando estava prestes a colocar o fone no gancho ele atendeu e eu perdi a fala.

“Alô...” Esperou por uma resposta que não veio. “Alicia, é você?”

Congelei. O que eu estava fazendo? Ele já nem devia se lembrar de mim, me sentia um estúpido por ter ligado e agora, por me decepcionar.

“Oi... É o Phillippe, se lembra? Da carona”

“Phillippe, claro!” Um suspiro foi ouvido do outro lado. De alivio? Talvez, não tinha certeza. “Achei que não fosse ligar e me culpei por não ter pedido seu número”

“Confesso, não ligaria, acho que me senti envergonhado depois do que aconteceu” Estava sendo sincero e ele pareceu gostar disso porque o escutei rir.

“Não tem porque, fique tranqüilo. Agora me diga o motivo da sua tão esperada ligação”

“Acho que devo te agradecer melhor então resolvi te convidar para, não sei, talvez um café ou até mesmo um almoço. O que acha?” Aquele não era o mesmo Phillippe. Eu estava convidando alguém para sair? Surpreendi-me comigo mesmo.

“Eu aceito” Respondeu naturalmente.

“Aceita?”

“Por que não? Pode ser no sábado, podemos nos encontrar em algum lugar”

“Tudo bem. Tem um restaurante no centro, é novo e acho que vai gostar do lugar, podemos nos encontrar em frente à cafeteria”

“Sábado as duas então?”

“Sim, pode ser. Até sábado, Peter” Eu sorria e era impossível controlar o ato.

“Boa noite, Phillippe” Escutei em seguida o fone sendo colocado no gancho e o silêncio logo depois.

Não sabia o que realmente estava acontecendo, parecia tudo tão novo dentro de mim e isso me afetava pois minhas mãos tremiam enquanto também colocava o fone no gancho. Ainda era terça feira, tinha exatamente três dias para me reorganizar e finalmente ter a resposta para todos aqueles sentimentos novos. Sentimentos esses que reviravam meu estômago mais ainda só por saber que ele estava esperando por minha ligação.

Não perdia por esperar.