A semana havia passado em um piscar de olhos, o que já era extremamente normal para mim. Minha vida sempre foi uma rotina, isso desde quando me conheço como gente, mas de uns tempos para cá já estava sendo irritante seguir horários, em fazer todos os dias às mesmas coisas nas mesmas horas. Eu queria não saber como iria ser meu dia de amanhã, queria poder abrir os olhos e fazer o que me desse vontade, sem ter a responsabilidade de ir trabalhar ou qualquer coisa do tipo.

Era sábado, felizmente minha folga, e eu não tinha o que fazer. Talvez passasse o dia todo em casa, sozinho. Antes preservava muito isso, queria ficar sozinho o tempo todo sem que ninguém viesse me dizer o que fazer. Hoje sinto falta de alguém me dando bronca ou apenas escutar um bom dia. Queria poder conversar sobre assuntos bobos ou brigar pelo controle da televisão com Julie, mas isso não vai acontecer, afinal, estava completamente sozinho. O silêncio chegava a ser constrangedor, se manter meus pensamentos quietos poderia escutar minha respiração ou até mesmo as batidas do meu coração. Às vezes saia com Robert para bebermos uma cerveja, mas isso começou a perder cada vez mais a freqüência. Ele é casado e há poucos dias nasceu alguém para completar sua família. Sempre observei as pessoas a minha volta tomando seu rumo na vida e eu continuo na mesma, definitivamente sozinho.

Resolvi que tomaria café na tão conhecida cafeteria, ao menos passaria minha manhã na companhia de alguém e não de meu tédio.

Dispensei agasalhos pesados porque naquela amanhã o sol havia resolvido sair, não estava quente o suficiente, mas um moletom caia bem. A neve ainda era visível pelas ruas, mas o frio parecia ter dado uma trégua, as crianças até tiveram a liberdade de sair para brincar-nos vários parques que existia pela cidade.

Ao chegar à cafeteria e olhar para a porta de entrada meu coração disparou na esperança de ver o tal homem novamente, mas tratei de me livrar de tais pensamentos, talvez eu estivesse mesmo precisando de uma boa conversa com alguém.

Ao abrir a porta do local pude sentir o cheiro de café ali presente, era algo de dar água na boca. Sentei-me em um dos vários bancos que exista de frente para o balcão na intenção de esperar Beth me atender e foi ai que o vi novamente. Senti que meu coração podia pular de meu peito a qualquer momento. Estava sentando a uns três ou quatro bancos ao meu lado e falava alto ao celular, parecia um discussão, mas não me dei tempo de prestar atenção sobre o que falava, meu olhos foram ligados a ele como imãs, tamanha era sua beleza. Devo ter ficado minutos observando quando a voz de Beth me tirou dos meus devaneios:

“Ei Phillippe, respire” Disse em meio a risadas. Talvez eu estivesse como uma cara de bobo.

"Beth!" A repreendi extremamente envergonhado.

"Não sou tola Phillippe você está olhando Peter feito bobo desde a hora que se sentou ai"

“Peter, é?” Não pude deixar de sorrir. Era um nome bonito e que combinava com ele.

“É, Peter. Diga-me, o que se passa nessa cabeça?” Já disse que ela parecia uma mãe? Notava qualquer coisa em mim sem que eu não lhe dissesse nada, mas dessa vez não lhe contaria nada.

“Não se passa nada Beth, deixe de ser boba. O que iria querer com um homem casado?” Não pude evitar outro desapontamento. Meu estômago revirou-se ao lembra-me disso. “Vamos, me dê um café e deixe de bobagens”

E ali morreu o assunto, só por hoje. Logo ela me cutucaria novamente, eu sabia disso e tinha que pensar em uma desculpa convincente para dar. Ela não poderia saber que me viciei naqueles olhos bonitos e cheios de mistério, ele era só uma pessoa que vi duas vezes. Era loucura.

Beberiquei meu café o mais lentamente possível para que tivesse motivos de permanecer no local. Ele parecia mais calmo, já havia desligado o celular e lia um jornal. Perdia-me em cada milímetro de seu corpo. Decorava cada movimento que fazia. Não estava vestido formalmente, usava calças jeans desbotadas e uma jaqueta um tanto quanto largada, mas não perdia a beleza, sabia que isso não aconteceria de jeito algum.

Sem que eu o percebesse se levantou repentinamente. Deixou largado o jornal que lia e jogou uma nota sobre o balcão. O vi caminhando em minha direção e resolvi abaixar os olhos para que não me notasse ali, o que pareceu completamente impossível e digamos, infantil. Quando fui executar tal ato nossos olhos se encontraram como na primeira vez, borboletas dentro de mim pareciam bater as asas constantemente e foi ai que ele sorriu para mim, senti que se estivesse em pé, não seria capaz de lidar com a moleza de minhas pernas. Não pude deixar de sorrir de volta, tinha algo nele tão convidativo, era como se tivesse algum poder sobre mim, e não precisou mais de dois sorrisos em minha direção para que me desse conta disso.

“Olá” Ele disse animado deixando de lado o estresse que eu havia presenciado ao vê-lo minutos mais cedo.

“Olá” Repeti seu ato não sabendo mais o que falar.

Não passamos disso. Ele me lançou mais um sorriso e saiu dali, tão mais animado como parecia estar. Só eu sei como meu coração batia rapidamente, o quão feliz estava por ter visto Peter -como me disse Beth- novamente.

E essa foi à segunda vez que o vi. Alguma coisa me dizia que não seria a ultima. Algo dentro de mim sabia que passaríamos do “olá”, mas tentava com todas as forças que me restavam não mergulhar nessa esperança. Eu não podia me apaixonar novamente, era impossível me apaixonar por Peter, eu sairia machucado, sabia disso. Mas como enganar meu coração e fugir desse amor que estava pronto para se aflorar? Bastava apenas mais um sorriso do moreno.

Terminei meu café e fui me despedir de Beth que estava do outro lado do balcão. Talvez eu precisasse ficar um pouco sozinho para colocar meus pensamentos em ordem. Minha cabeça se encontrava em uma bagunça enorme.

“Antes que vá Phillippe, quero te convidar para jantar lá em casa hoje, para que conheça uma pessoa.” Sorriu gentil. Ela sempre me trazia segurança e já fez tanto por mim. Mesmo não estando afim eu sabia que não poderia recusar.

“Claro Beth, passo por lá as sete, certo?” Ela maneou a cabeça concordando com o horário imposto e se despediu de mim com um beijo no rosto.

Talvez fosse bom ter alguém para conversar. Beth sempre foi uma boa companhia e confesso que havia ficado curioso para saber quem era a tal pessoa que ela queria que eu conhecesse. Seria bom, eu sabia disso.

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Passei o resto do meu dia á frente da televisão, variava para canais de filmes, noticiários ou até mesmo desenhos animados. Acompanhei a programação da tarde toda com cerveja e comendo besteiras. Aliás, já havia mencionado que minha vida era tediosa?

Por volta das seis e meia resolvi ir me aprontar para o tal jantar, estava em uma situação deplorável. Tomei um banho demorado e tentei me vestir melhor do que apenas colocar um moletom e pentear os cabelos. Vesti uma calça jeans escura com uma camisa vermelha e claro, meu costumeiro all star. Caminhei alguns quarteirões até o apartamento de Beth, agradeci mentalmente por ser perto. Ela não morava em apartamento mais elevado que eu, a única diferença era que ele se encontrava em um bairro melhor do que o meu, o que para mim não fazia muita diferença.

Ao chegar toquei a campainha e logo a porta foi aberta por um garoto. Não devia ser muito mais novo do que eu. Vestia calças jeans e uma camiseta de banda, Pink floyd. Tinha grandes olhos azuis com os cílios loiros assim como os cabelos, que eram lisos e que caiam sobre os olhos, a pele era tão branca como a minha. Lindo, sem duvidas.

“Você deve ser o Phillippe de quem mamãe falou a tarde toda” Me assustei com seu jeito animado, mas sentia que seria bom fazer amizade com ele. “Vamos, entre. Não fique ai todo quieto” Deu alguns passos para o lado me dando passagem e entrei no apartamento tão conhecido por mim.

“Você é filho de Beth?” Ela nunca havia mencionado um filho, só havia me dito que era divorciada, mas nunca passou pela minha cabeça que ela teria um filho da minha idade.

“Ah, acho que nunca tinha te dito Phillippe” Beth apareceu na porta da cozinha usando um avental e segurando um pano para pratos. “Thomas é meu filho, morava com o pai, mas resolveu passar um tempo comigo”

“Talvez exista muita coisa que ainda não saiba sobre você Dona Elizabeth” Falei em tom de brincadeira fazendo a mulher a minha frente rir.

“Minha vida não é tão interessante como parece. Sente-se ai e faça amizade com Thomas até que eu acabe nosso jantar” E voltou para cozinha me deixando sozinho com o garoto.

Acomodei-me no sofá vendo Thomas fazer o mesmo, se sentando ao meu lado. A situação, para mim, era de certa forma desconfortável. Sempre fui muito tímido e tinha dificuldade para fazer amizade, nunca fui bom em tentar puxar assunto, isso fazia com que eu parecesse indiferente, mas sempre foi meu jeito.

“Então, por que resolveu vir para cá?” Tentei puxar assunto para que ele não percebesse logo de cara que eu era um sem graça sem assunto, pelo menos não havia começado um assunto perguntando o que ele achava do tempo, me sentia aliviado por isso.

“Vim porque ganhei bolsa em uma faculdade. Irei cursar comunicação visual.” Virou-se ficando de frente para mim parecendo bem animado com o assunto. “Sabe, fotografia... Essas coisas. Sempre fui apaixonado por fotos e resolvi de uma vez que é isso que quero para minha vida, isso quando meu pai me levou para...” Ele contava o porquê de amar fotografia com entusiasmo. Tentei acompanhá-lo no assunto, mas acabei me perdendo, só me dei conta quando já havia acabado. “E você, o que faz de bom?”

Eu mesmo já tinha me pergunto isso varias vezes. O que eu fazia de bom?

“Acho que seria melhor reformular a questão e me perguntar o que faço para sobreviver, porque de bom não faço nada” E então caímos na risada. “Trabalho em uma empresa, na parte da contabilidade”

“Parece ser legal” Disse sem jeito. Até ele havia percebido que minha vida era um saco, mas não pareceu se importar com tal fato.

Beth nos chamou dizendo que o jantar já estava posto. Comemos macarrão com queijo, sua especialidade e meu prato favorito. O jantar havia sido divertido como há muito tempo eu não havia vivido. Thomas era um cara legal e animado, nos fazia rir o tempo todo com seu jeito brincalhão.Contou um pouco sobre sua vida e o relacionamento com o pai, pude até entender o motivo da separação de Beth e ficar feliz por saber que os dois ainda eram muito amigos, Thomas era o vínculo entre eles e por sorte, era muito amado.

Estávamos conversando na sala e tomando a terceira garrafa vinho quando me dei conta da hora. Já passava da meia noite.

“Acho melhor eu ir” Mencionei escutando logo em seguida um sonoro “ah” de uma Beth já acima do nível.

Levei a mesma até seu quarto tendo certeza que ela havia parado de beber e estivesse na cama quando eu chegasse em casa. Thomas me esperava na sala, seus olhos já estavam quase se fechando quando percebeu que eu havia voltado.

“Estou indo Thomas, boa noite” Ele levantou-se do sofá em um pulo fazendo uma cara desolada.

“Fique mais Phill. Podemos ver algum filme” Não pude conter um sorriso ao escutar aquele apelido, mas dessa vez eu recusaria. Minha cama já parecia me chamar.

“Deixe para outro dia ou passe em casa para vermos, sim?” Ele sorriu, era um sorriso bonito, mas não tanto quanto de Peter.

“Então te levo e não me fale que não precisa” Rodeou o braço por meu corpo e descemos algumas escadas chegando a uma rua silenciosa.

Andamos sem dizer nada, era um silêncio acolhedor e não nos incomodava de forma alguma. Chegamos ao prédio que eu morava em alguns minutos de caminhada.

“Chegamos. Obrigado por vir até aqui comigo Thomas” Tirei meu braço que se encontrava em sua cintura.

“Boa noite Phillippe. Foi bom te conhecer, e vê se não se esqueça de mim, hum?” Beijou o canto de minha boca rapidamente e sem duvida alguma, propositalmente.

Por que não arriscar? Eu não tinha o que perder. Thomas era uma pessoa legal e eu não precisava pensar em compromisso ou algo do tipo no momento.

Voltei minhas mãos para sua cintura trazendo seu corpo gentilmente para perto do meu. Ele por sua vez segurou meu rosto entre suas mãos e selou nossos lábios, fechei os olhos de imediato aproveitando o contato e me entregando ao beijo calmamente. Nossas línguas brincavam sem pressa uma com a outra, o contato fazia nossos corpos se esquentarem em baixo dos casacos. Logo nos separamos em busca de ar e terminamos o beijo com alguns selinhos. Ao abrir meus olhos encontrei os seus me fitando, tão azuis que eu me perdia naquela imensidão, ele sorria e senti meu coração bater com uma esperança boba.

“Boa noite Thomas” Selei nosso lábios mais uma vez o vendo sustentar o sorriso. Afagou meu rosto com carinho e virou voltando a caminhar pelo caminho que havíamos andado até ali.

Fui me deitar feliz, não conseguia fazer meu coração se acalmar por apenas um instante. Eu estava realmente feliz pelo que tinha acontecido nessa noite. Sentia que tinha dado um passo a frente. Talvez um passo para algo bom... Ou não.

Fechei os olhos me lembrando de como era bom beijá-lo até que já não tinha consciência de nada. O sono havia me levado para longe.