Notas iniciais
Antes de tudo quero agradecer a todos que leram os dois primeiros capítulos e elogiaram, isso é muito importante para que eu possa continuar escrevendo. A estória está ainda meio parada, mas logo tudo começa a acontecer, não me abandonem, hein?

Domingo, onze e meia da amanhã. Um barulho ensurdecedor preenchia meus ouvidos. Fazia uns dez minutos que a capainha tocava, tentei ignorar ao máximo, mas era impossível.

Levantei-me xingando quem quer que fosse incomodando naquele horário. Caminhei cambaleando e ainda muito sonolento até a porta. Tentei abrir os olhos e fazer minha expressão de “eu não estava dormindo” o que tenho certeza que tinha sido em vão. Ao abrir a porta dei de cara com um Thomas encostado no batente já meio desanimado.

“Te acordei, não foi?” Ele parecia se sentir culpado, mas não pude deixar de sorrir ao escutá-lo.

“Acordou sim. Mas não tem problema, é bom te ver logo pela manhã”

Sem aviso prévio ele enlaçou os braços em meu pescoço e selou nossos lábios em um toque rápido, mas teve o tempo suficiente para me fazer arrepiar e ansiar por mais contato.

Talvez houvesse apenas desejo um pelo outro e com certeza carência da minha parte. Ele me fazia bem, me arrancava sorrisos facilmente só por ser compreensivo e sincero em todos seus atos e palavras ditas. Sempre gostei de pessoas sinceras, transparentes por assim dizer, pessoas as quais podemos confiar e nos abrir, sabendo que independente de sua opinião, um apoio seria sempre consentido. De alguma forma sentia um carinho e afeto se formar calmamente, ou pelo menos aparentava isso. E iria agarrar isso com todas as forças, não deixaria me escapar facilmente.

“Iremos ficar aos beijos no seu corredor?” Segurou meu lábio entre os dentes rindo em seguida de sua própria pergunta.

“Algum problema Thomas?” Resolvi entrar em sua brincadeira agarrando sua cintura e o empurrando até a parede do outro lado do hall.

“Alguma vizinha pode ver e achar coisa de outro mundo, principalmente a senhora que saiu assim que toquei a campainha a primeira vez. Sabe, eu até que gostei dela, me desejou um bom dia, disse que você é muito desligado e que não atenderia a porta tão cedo, mas o fato dela ser legal não quer dizer que não seja uma preconceituosa, e tenho certeza que ela não quer ver dois homens se beijando ao lado da sua porta, um deles de boxer ainda por cima...”

“Você fala demais Thomy” Não deixei que ele argumentasse depois disso, capturei seus lábios rapidamente para mim. Ficamos nesse contato por alguns instantes até que eu me dei conta que estávamos no hall e eu de boxer. Thomas estava certo, minha vizinha não gostaria de ver essa cena, assim como nenhum outro vizinho.

“Quer dizer que eu falo demais, é? Vou começar a agir então” Lhe acompanhei no riso e o guiei para dentro.

Ficamos a manhã inteira juntos. Vimos todos os desenhos que havia passado em meu quarto por debaixo do edredom. Eu sabia que não era algo que agradasse Thomas, mas em momento algum ele contestou sobre minha programação preferida.

Estava começando outro episodio de mais um desenho aleatório quando ele bufou irritado. Levantei minha cabeça de seu peito para que pudesse encontrar seus olhos. Segurei a risada ao ver sua cara de entediado.

“Esse é o último, eu te prometo” Levantei as mãos para que ele visse que não cruzava os dedos.

Mas eu não havia visto mais desenho algum. Suas mãos seguraram minha cintura me puxando para seu lado. Não passamos apenas a manhã juntos, mas à tarde também. Levantamos apenas para almoçar e logo voltamos para cama.

Fazia frio naquele final de semana, não era nossa vontade sair de um lugar acolhedor e enfrentar a neve que caia constantemente sem parecer que pararia tão cedo. Ficamos aos beijos e carinhos, nada mais malicioso, eu sabia que não era a vontade de Thomas e muito menos a minha, iríamos com calma, não havia motivos para a pressa.

Era oito da noite quando ele se levantou dizendo que precisava ir. Não precisei dizer que não queria isso, ficaria sozinho novamente. Confesso que já havia me acostumado com sua presença, só queria que durasse um pouco mais, a solidão era minha pior companhia.

Levantei no mesmo instante que ele e o empurrei para que deitasse novamente. Coloquei uma perna a cada lado de seu corpo lhe segurando ali.

“Só mais um pouquinho Thomy, ou passe a noite aqui, acho que sua mãe não veria problema em saber que está comigo” A frase parecia ter saído da boca de uma criança e por alguns instantes me senti envergonhando por estar pedindo atenção.

Suas sobrancelhas foram unidas por culpa do cenho franzido logo em seguida, mas conseguiu se livrar de mim invertendo nossos corpos, dessa vez ficando por cima do meu corpo, sentando sob meus quadris.

“Eu não posso mesmo, prometi a ela que ajudaria em algumas coisas” Ele fez bico, quase querendo debochar da situação, me fazendo, propositalmente, querer agarrá-lo novamente, mas me contive.

“Tudo bem”

E ele pareceu acreditar que havia concordado tão facilmente. Levou uma de suas mãos até meu rosto fazendo um leve carinho no local. Fechei os olhos me concentrando naquele toque. Seu polegar dançava sobre as maças do meu rosto quase como se estivesse desenhando traços confusos.

“Volto amanhã. Trago seu café antes que vá trabalhar. Mamãe disse que chega quase todos os dias atrasado na cafeteria. Irei mudar sua rotina” Piscou divertido. Apenas me livrei da cara emburrada e lhe sorri.

Lhe acompanhei até a porta de saída e despediu-se de mim com mais alguns beijos demorados, por insistência minha. Prometeu mais uma vez que estaria logo cedo de volta.

Pude sentir falta da sua presença algumas horas depois, mas não me mostraria carente a esse ponto, não queria assustá-lo por tal apego. Eu não queria dar falsas esperanças e no fim não ser nada do que eu mesmo fantasiei em minha cabeça. Como disse, nós iríamos com calma, isso até que eu tivesse certeza do que estava fazendo.

Depois de um banho quente me encaminhei para a cozinha que sempre foi pouco usada. Mesmo com as tentativas de Beth, tinha certeza de que nunca aprenderia a cozinhar mais do que um macarrão, mas me contive em apenas preparar um café e voltar para cama, mais uma vez no dia. Ao estar novamente em baixo das cobertas senti o celular vibrar em baixo do travesseiro, em seu identificador constatei de que era Julie. Atendi depois de alguns toques:

“Alô...” Não sabia exatamente o porquê, mas já era tarde e tinha quase certeza de que não me ligará a toa.

“Phill, estava com saudades, nunca me liga” Sua voz soava animada do outro lado da linha. “Já faz duas semanas desde a última vez que nos falamos”

“Claro Julie, a última vez você não estava de bom humor, se lembra?” E ela riu. Riu como se não se lembrasse de ter me xingado sem motivo algum.

“Me desculpe por aquilo. Preciso te contar algo... Alex me pediu em namoro!” Precisei afastar o celular alguns centímetros para que não ficasse surdo com seu grito repentino. “Finalmente Phill, achei que isso nunca aconteceria.”

“É, acho que ele sentiu dó de você, já te enrolou por muito tempo” Soltou um suspiro em reprovação, mas continuou contando todos os detalhes.

Já passava das onze da noite quando Julie terminou todo aquele papo sobre estar completamente apaixonada e ter certeza de que Alex era o amor da sua vida. Mesmo que fosse cansativo escutá-la minutos a fio, eu estava feliz, mesmo que quisesse aconselhá-la a manter os pés no chão, mas apenas optei em lhe apoiar e dizer que estava feliz. E realmente estava. Julie merecia alguém cuidando dela, pois eu conhecia minha irmã muito bem e sabia que merecia muito mais que o melhor.

“Eu também estou feliz e queria poder compartilhar... Conheci um cara, ele se chama Thomas e é apaixonante”

“Está dizendo isso porque já transaram?” Ela não era capaz de medir suas palavras, apenas as atirava e esperava que a pessoa a recebê-las soubesse se desviar com cuidado.

“Julie!” A repreendi me sentindo extremamente envergonhado.

“Ok, por um segundo me esqueci que você faz o cara antiquado” Seu deboche não me atingiu, talvez por já estar acostumado.

“Não é bem assim, só não faço o cara desesperado” Retruquei.

“Tudo bem, me conte como ele é...”

Não faço idéia de quanto tempo ficamos conversando sobre nossas vidas. Era sempre assim quando parávamos para ter um momento só nosso, aquilo fazia com que eu sentisse uma esperança boba voltando a tona, estávamos voltando a ser os mesmos de anos atrás. O Phillippe e a Julie que se trancavam no quarto e trocavam segredos intermináveis.

Talvez fosse precipitado, mas algo dentro de mim estava acordando. Depois de tanto tempo escondida, a felicidade estava preenchendo minha vida novamente, mesmo que viesse sonolenta. Aquilo me fazia bem e eu desejava que durasse o bastante.