Meu amor está ao seu lado.

1 Desde o primeiro dia.


Assim que abri meus olhos pude ver pela janela que o dia estava nublado e havia começado a nevar. Suspirei lembrando que teria que trabalhar, afinal, era uma segunda feira.

Aninhei-me melhor no meio do edredom e fechei os olhos por alguns segundos podendo aproveitar um pouco mais a temperatura e o conforto de minha cama. Devo ter cochilado, os abri novamente podendo ver os números vermelhos a minha frente, o radio relógio marcava sete e quinze, isso constatava que eu estava atrasado, como já era de costume.

Levantei-me em um pulo, e corri para o banheiro. Tomei um banho rápido, sem muita demora como costumava ser em dias normais. Coloquei uma roupa quente e luvas. Sai de meu apartamento alguns minutos mais tarde podendo ver que a cidade está em uma brancura irradiante, chegava a doer os olhos. Estava tudo coberto pela neve que havia começado a cair pela madrugada. As arvores com suas folhas verdes estavam irreconhecíveis e as pessoas caminhavam apresadas tentando de alguma formar fugir do frio. Inevitável.

Caminhei o mais rápido que minhas pernas suportavam para a tão conhecida cafeteria. Estava ali todos os dias, a balconista, Beth, já me conhecia, não precisava mais fazer meu pedido, ele estaria pronto assim que seus olhos me vissem na porta de entrada. Era uma rotina que eu seguia, dia após dia.

Ao estar diante da porta de entrada a empurrei para entrar no local, mas alguém a empurrou para que pudesse sair. Concedi a passagem em um gesto de educação, ou talvez não quisesse deixar que um jogo infantil me atrasasse ainda mais. Assim que a porta foi aberta me senti congelar, mas não era por culpa do frio. Ele era lindo, com certeza não parecia mal educado. Ao olhar em seus olhos pude ver castanhos brilhantes, suas bochechas salientes estavam rosadas, talvez pela temperatura, e o que mais me chamou atenção, seu sorriso. Era bondoso e simpático. Os dentes branquinhos e bem alinhados caiam perfeitamente com sua feição bonita. Senti-me hipnotizado, tamanha era beleza daquele homem, eu não cansaria de olhá-lo, e já tive certeza disso naquele mesmo instante.

“Desculpe-me pela grosseria. Estou meio atrasado” E riu, um risinho baixo que fez arrepiar-me ao escutar.

“Bom, você não é o único.” Tive que acompanhá-lo no riso. Ficamos alguns segundos com os olhos fixos um ao outro. Mas logo o contato foi quebrado por ele.

“Desculpe-me mais uma vez. Tenha um bom dia.”

Ele havia proferido essas palavras secamente, senti-me envergonhado, pode ser que tenha tomado seu tempo. Com medo que ele pudesse notar o rubor que meu rosto havia adquirido abaixei o olhar e logo meus olhos foram pousados na sua mão que ainda segurava à porta. Em um de seus dedos longos existia uma aliança dourada, ele era casado, ótimo. E então o moreno a minha frente pareceu notar meu desapontamento e saiu apressado como se tivesse visto algo assustador.

Segui seus passos até desaparecer na esquina.

Essa foi a primeira vez que o vi, eu não sabia, mas seria a primeira de muitas.

Por que eu havia ficado tão decepcionado ao ver que esse homem era casado? Oras, eu não tinha nenhum vinculo com ele, não fazia nem idéia de seu nome. Devia afastá-lo de meus pensamentos, não havia porquê perder meu tempo com algo tão fútil.

Entrei por onde ele havia saído há alguns minutos atrás. Beth já havia me visto e foi preparar meu pedido. Esperei até que estivesse pronto, consultando o relógio e constatando mais uma vez que estava realmente atrasado. Sabia que levaria uma bronca enorme, não seria a primeira, acho que nunca me dei bem com horários. Beth logo chamou minha atenção com sua voz cantada:

“Bom dia Phillippe. Atrasado de novo?” Me passou o copo completo com café e se inclinou no balcão para beijar minha testa como já era de costume.

Conhecia Beth assim que me mudei para Nova Iorque, considerava ela como minha segunda mãe e ela agi como tal. Lembro de quando cheguei, ela ia fazer meu jantar com o intuito de me dar aulas de como cozinhar. Pode ser que seja injusto dizer algo assim, mas ela é melhor que a verdadeira. Não me julga e mesmo que eu esteja errado em minhas decisões me apóia sabendo que vou aprender com meus erros, talvez eu a ame como se fosse realmente minha mãe.

“Bom dia Beth. Estou só um pouquinho.” Tentei mostrar que não estava me importando com isso porque sabia que a primeira bronca seria dela e não de meu chefe.

“Phillippe, você não está só um pouquinho. Esta quase meia hora atrasado. Vamos corra.” Disse em tom de brincadeira me beliscando no braço logo em seguida, mas eu sabia que falava sério e tratei de me apressar.

“Tchau Beth, até amanhã.” Beijei sua bochecha e sai da cafeteria o mais rápido possível.

Aliás, acho que ainda não me apresentei. Chamo-me Phillippe Clarke e tenho vinte anos . Ok, Phillippe Arthur Clarke. Nunca gostei do Arthur que tenho no meio, parece nome para velhos. Chamavam-me de Phill, isso há muito tempo já. Quando ainda morava em Montreal com meus pais e Julie. Morava porque sai meio que fugido de lá. Minha vida era monótona, mas talvez esse não seja o real motivo de minha fuga. Namorei oito meses com Frankie, alguém que não devia ter passado de amigo. Ainda me pergunto onde havia errado. Acredito que tenha o sufocado, então resolveu me deixar e foi para algum lugar desconhecido por mim. Foi ai que vi que teria que andar com minhas próprias pernas. Sai de Montreal e vim parar em Nova Iorque. Hoje vivo sozinho em um apartamento alugado, pequeno, mas extremamente aconchegante. Trabalho e ainda penso em voltar a estudar. Sou gay, acho que desde sempre. Minha família não pôde aceitar no início, mas acredito que sempre tiveram certas duvidas, e me apoiaram quando mais precisei. Eles adoravam Frankie, que antes de ser meu namorado era melhor amigo e cresceu comigo. Nunca tive problemas com isso e de certa forma sou muito agradecido por tudo, principalmente por Julie que além de irmã mais velha era uma grande amiga e capaz de guardar segredos facilmente. Hoje em dia estamos muito distantes, de todo jeito, nunca deixei de admirá-la pelo o que significou nos anos em que dividimos a mesma casa.

Sinto orgulho do que me tornei, não tanto como queria, mas acredito que ainda serei olhado com outros olhos pela minha família e por minha irmã. Sempre que nos falamos, isso raramente, ela se mostra decepcionada com o que me tornei, acredito que ela me veja só como o garoto que fugiu de si mesmo assim que teve o coração partido. Eu sou muito mais do que isso, e ainda mostraria o que ela não esperava.

Sei que ainda encontrarei alguém que me ame de verdade e que me queira por muito tempo. Alguém que sorria ao me ver acordar pela manhã, que esteja ao meu lado todos os dias e que segure minha mão nos meus momentos de medo, ou não. Só viria descobrir mais tarde que não podemos desejar mais do podemos dar conta. Veria que nem tudo é realmente como desejamos. E que nem sempre escolhemos a quem amar.