Meu amor está ao seu lado.

19 Alvo de decepções.


Notas iniciais
Pronto, o capítulo já está aqui com explicações do que houve, mas as coisas ainda não estão numa boa. ):Boa leitura!

Minha cabeça doía horrores quando voltei à consciência, não soube onde estava no primeiro instante, tudo era claro demais. Assim que meus olhos se acostumaram com as luzes florescentes do local me dei conta que estava em um quarto de hospital.

Um hospital? Ao me dar conta foi como se fleches piscassem em minha mente rapidamente, me lembrei de tudo. Eu era um suicida? Talvez, mas não intencionalmente, era confuso. Não tentei me matar tomando aqueles comprimidos, só queria me sentir relaxado e poder parar de chorar por causa do cara casado que eu amava, isso não é errado, é? Ok, havia muitos olhares em minha direção e queria me explicar, dizer que não tentei me matar, mas era o que qualquer um diria se realmente fosse essa a verdade.

“Como se sente?” Peter foi o primeiro a perguntar.

“Minha cabeça dói um pouco” Respondi.

“É normal, quando caiu você a bateu. Tomou cinco pontos na região da nuca”

“Caramba!” Me sentia extremamente envergonhado. Thomas me olhava magoado e eu desejava desaparecer. “Quanto tempo faz que estou aqui?”

“Algumas horas. Chegou aqui já sem consciência. Thomas te encontrou sem poder se movimentar e suando muito, consequência de uma overdose”

“Me desculpa” Foi tudo o que pude dizer ao loiro que não tirava os olhos de mim.

“Você precisa descansar agora, quando estiver bem iremos ter uma conversa” Disse Thomas.

“Só diz que me desculpa” A sentença saiu quase como um suplica. Era dolorido ver aqueles olhos claros tristes por minha culpa.

“Descanse” Finalizou já saindo do quarto com Beth logo atrás.

Sentia-me péssimo e não era para menos. Thomas parecia me odiar e tudo aquilo me causava repulsa de mim mesmo. Só queria que entendesse meus motivos, porém ao pensar bem me dei conta de que nada poderia justificar minhas atitudes até ali. Lembrava-me claramente de encontrar os comprimidos no bolso de um dos meus jeans e os toma-los com uma garrafa de vinho já esquecida no armário. Fui inocente ao pensar que não sentiria mais do que tranquilidade, era só o que desejava, esquecer por algum tempo da vida frustrada que tinha.

Senti uma movimentação em minha cama e me livrei dos meus pensamentos no mesmo minuto. Peter se sentou na ponta da cama que eu me encontrava e fixou seus olhos castanhos nos meus.

“Devo estar horrível, então por favor, não me olhe assim” Pedi.

“Por que Phillippe?” Me perguntou.

“Por que?” Repeti.

“Por que fez isso? Quando fui avisado que a ambulância estava a caminho e que era uma vitima de overdose fui prontamente para sala de emergência e a vitima era você! Você desacordado em uma maca” Soltou o ar fracamente e continuou. “Não soube o que fazer, sinto que entrei em choque, você sangrava bastante e tinha dificuldade para respirar, se não fosse a enfermeira eu não teria conseguido te salvar... Por que fez isso?”

“V-você não me ligou...” As palavras saiam com dificuldade uma vez que o nó em minha garganta já houvesse se formado. “N-não me procurou o mês inteiro. Eu me sentia sozinho todos os dias, não tinha mais o Thomas por perto e nem ao menos tinha certeza se ainda tinha você. Acho que enlouqueci me vendo sozinho naquele apartamento, o silêncio parecia estar me enlouquecendo. Eu não sei o que me deu, sinto muito... Sinto muito!”

As lágrimas não tardaram para cair. Sabia que elas viriam e chorei feito uma criança nos braços de Peter, molhando seu jaleco impecável. Não fazia ideia de onde vinham, elas simplesmente não paravam de cair, uma atrás da outra caiam fazendo com que tudo dentro de mim doesse, talvez entendesse o motivo de querer desaparecer, era a dor existente em meu interior.

“Só não consigo pensar em te perder. E-eu tenho tanto medo de te perder” Confessei baixo.

Seus braços se apertaram em volta do meu tronco, me segurei firmemente contra seu corpo e pedi que toda aquela dor fosse embora, pois estava entre seus braços e foi tudo o que desejei no último mês, sentir-me seguro, sentir seu cheiro e escutar sua voz.

“Agora está tudo bem, você não vai me perder” Sussurrou.

“Não sei quando isso aconteceu, foi tão rápido Peter. Sou tão apaixonado por você que quase não consigo explicar”

Seus olhos me fitaram por um tempo consideravelmente longo me deixando nervoso, seus lábios foram depositados sobre os meus e era como flutuar, senti os mesmos se movimentando preguiçosamente me tirando o fôlego. Foi um beijo singelo e rápido, mas cheio de sentimento.

“Você às vezes me deixa sem palavras” Riu envergonhado. “Também sou apaixonado por você, baixinho” Selou nossos lábios uma última vez e se levantou. “Agora você precisa dormir um pouco”

“Tudo bem” Concordei.

“Estarei aqui de manhã para te dar alta”

Já estava com a porta aberta e saindo quando lhe chamei uma última vez.

“Peter?” Se virou ao me escutar. “Amo você”

“Te amo” Piscou em minha direção e saiu fechando a porta.

Ajeitei-me da forma que pude e fitei os pingos de soro que caiam devagar pela mangueira de soro para depois correrem por minhas veias. Não demorei muito para perder a consciência e dormir tranquilamente.

A casa de Peter estava uma bagunça, caixas por todos os lados e muitos móveis já faltando. Ao subir em seu quarto me deparei com malas já fechadas sobre a cama, eram muitas por isso tive a constatação de que não seria uma viagem o motivos delas estarem ali e sim uma partida.

Partida.

“Peter!” Chamei, porém não tive resposta. “Peter” Insisti.

Desci as escadas de volta para a sala quando me deparei com alguns homens levando as caixas com os objetos.

“Por favor, sabe onde está o dono?” Perguntei para um dos homens que se preparava para levar a última caixa.

“Já foram, só estamos levando o que foi empacotado”

“Foram para onde?” Perguntei já em pânico.

“Embora. Não achou que ele ficaria por você, achou?” A pergunta saiu em tom de deboche, os olhos do homem brilhavam, parecia gostar do meu desespero. “Você achou que ele ficaria com você para sempre? Que ele largaria a esposa por você? Idiota... Idiota!”

“Não...”

Sentia meu corpo de debater na cama em que me encontrava, gritava e tinha noção dos meus atos, mas não conseguia para-los, era como estar preso dentro do meu próprio corpo. O homem ainda ria alto, conseguia escutá-lo claramente. Queria parar tudo aquilo, me livrar da angústia! Foi quando senti me segurarem contra o colchão. Era Peter.

“Phillippe, acorde!” Suas mãos me balançavam e me deparei com seus olhos quando acordei. “Você estava gritando, pude escutar do corredor. O que houve?” Sua voz saia preocupada.

“Pesadelo. Está tudo bem”

“Tem certeza? Você está tremendo” Segurou minha mão e começou a acaricia-la com o polegar.

“Sim” Tentei sorrir. “Peter, acho que devemos conversar, hum?” Não queria mais adiar, já o havíamos feito por um mês, teríamos que colocar tudo em ordem. Eu precisava me impor sobre os últimos acontecimentos.

“Quer conversar sobre o que?” Seu semblante mudou no mesmo instante.

“Sobre nós. Sobre Alicia” Enfatizei o nome dela, queria que ele notasse que falava sério e que aquela conversa seria para definir tudo de uma vez por todas.

“Sobre Alicia?” Ele parecia muito surpreso, fato que não entendi o motivo no primeiro momento. “Phillippe...”

“Não, não vamos mais fugir desse assunto. Não podemos fingir que tudo está bem, por favor, seremos racionais”

“Tudo bem” Se rendeu e mesmo que não o fizesse, conversaríamos de qualquer jeito. “Irei assinar sua alta e quero que vá para casa e me espere, meu turno acaba em uma hora e então passarei por lá”

“Tudo bem, Doutor” Não pude deixar de rir do seu tom extremamente profissional.

“Espero não ter que vê-lo mais nesse hospital, pelo menos não como paciente” Escrevia na prancheta antes deixada ao lado da cama. “Pronto. Pedirei para que a enfermeira que tire o soro e traga suas roupas” Disse já se encaminhando para porta.

“Acho que está esquecendo de alguma coisa”

O moreno olhou a sua volta e então sorriu, ele entendeu. Deu passos até mim, apoiou as mãos no colchão e se aproximou do meu rosto. Senti sua respiração lenta, seu nariz encostou no meu e se demorou por poucos segundos naquela brincadeira até encostar a boca na minha e mover os lábios devagar sobre os meus. O segurei pela nuca e deixei que o beijo se aprofundasse explorando sua boca com a língua, logo encontrei a sua e lutamos em uma batalha sem ganhadores, nos rendemos juntos por falta de ar.

“Não é certo um paciente se aproveitar assim de um médico inocente” Brincou.

“Você não é inocente Peter” Entrei em sua brincadeira.

“Como ousa falar isso de mim?”

“Ok, eu entendo que não resista aos meus encantos, tudo bem”

Selou nossos lábios uma última vez e se despediu:

“Você é minha parte fraca. Até mais tarde, anjo” E com isso saiu voltando a me deixar sozinho.

Era bom ter momentos como aquele com Peter, nos últimos meses eram poucos, podia contar nos dedos, o que claro, me deixava frustrado, em pouco tempo faria um ano em que estávamos juntos e gostaria de mudar isso, queria poder assumir para todos nosso relacionamento, sem nos esconder porque não fazíamos nada de errado, nos amávamos e a única certeza era de que devíamos ficar juntos. Tentaria impor que fosse levado a sério e sem Alicia no meio de nós. Adiei por muito tempo, teríamos e iriamos resolver esse assunto. Meu pesadelo não podia se tornar realidade.

Já estava trocado, terminava de amarrar os tênis quando bateram na porta.

“Pode entrar”

Era Thomas. O loiro não entrou, apenas se encostou no batente e esperou que eu me levantasse e o encarasse.

“Vim te buscar, fui avisado que sairia logo cedo” Sua sentença saiu automática, parecia ter sido decorada antes de aparecer naquele quarto.

“Thomas, sei que estraguei tudo, era para ir te buscar no aeroporto. Eu sei, era o nosso final de semana e deixei que fosse por água a baixo...”

“Chega Phillippe” Sua voz se alterou e me assustei. “Chega! Você não pode pedir desculpas depois de errar e achar que tudo ficará bem, essas palavras estúpidas não vão apagar o que aconteceu, será que não entende isso?”

“Thomas, e-eu não queria, eu juro...” Não sabia o que dizer, nada do que pudesse falar consertaria o que houve, não curaria meu melhor amigo magoado diante de mim. “Não sei o que dizer, não sei...”

“Então cale a boca e pegue suas coisas” Saiu do quarto apressado, sem olhar para trás.

Tentei me manter calmo e mandar mensagens para meu celebro para que pudesse me mover, mas parecia impossível me mexer, eu estava assustado, com medo do que pudesse ouvir de Thomas, ele nunca havia falado comigo daquele jeito, eu havia errado feio.

Os corredores do hospital não passaram de um borrão enquanto caminhava pelos mesmos, meus olhos estavam inundados por lágrimas que lutava para não deixar cair. Vi Peter sorrindo para uma enfermeira enquanto escutava a mulher contar algo que não podia entender. Seus olhos me seguiram até a saída, pude sentir.

Naquele dia teria conversas que seriam cruciais e sentia medo, meu destino poderia ser alterado em instantes.