Meu amor está ao seu lado.
4 Peter.
Estava a exatamente uma hora em frente a várias pilhas de papéis intermináveis, depois do meu expediente, o que não era agradável. Não fazia idéia de que horas eram. O céu havia sido coberto por nuvens negras e então resolvi que já era hora de voltar para casa.
Ao estar fora senti o vento forte e avisando que em instantes iria cair um temporal. Por incrível que pareça todos os taxis pareciam ter sumido. Esperei por vários minutos até que minha única opção fosse voltar caminhando, mas não era meu dia de sorte. Logo gotas enfurecidas começaram a cair, tentei caminhar beirando lojas onde houvesse toldos para que pudesse me proteger das gotas pesadas que já eram capazes de encharcar minhas roupas.
As ruas estavam repletas de carros e trânsito como era já totalmente comum naquele horário. Ao estar prestes a atravessar a avenida sou detido pela voz de alguém, me chamando. A figura de Peter, sorridente e deslumbrante em uma Pajero preta foi tudo o que pude notar ao seguir o olhar para aquele que me chamava. No momento me senti congelar em baixo do casaco molhado.
Meus músculos se contraíram e era como se todas as palavras arranhassem minha garganta e não quisessem sair de jeito algum.
“Phillippe, não é? Entre, você está encharcado”
Obviamente ele me conhecia, sabia meu nome. Meu estômago se revirava, não esperava por aquilo. Nunca, em momento algum fomos apresentados. Eu não sabia o que estava acontecendo e por qual motivo ele estivesse pedindo que eu entrasse em seu carro. Ele me olha esperando uma resposta ou apenas um movimento, me olhava e mantinha o sorriso no canto dos lábios. Fiquei tentado em fingir que nada daquilo estava acontecendo, atravessar e continuar caminhando, mas algo nele era convidativo, quando percebi já estou sentando ao seu lado, no banco do passageiro.
“E-eu...” Sentia frio, meus dentes batiam uns nos outros, tanto que meu queixo começou a doer, não conseguia controlar. Era impossível dizer uma frase sem que fosse impedido.
“Quem precisa se explicar sou eu” Peter disse bem humorado, sem deixar de prestar atenção na rua a nossa frente, pois já havia voltado a dirigir. “Te avistei algumas ruas antes e ao te reconhecer deduzi que precisava de uma carona” Deu de ombros como se fosse algo extremamente normal.
“Costuma dar caronas para desconhecidos todos os dias?” A pergunta escapou de minha boca tremula facilmente. Não queria parecer grosso, mas a situação era totalmente incomum.
“Tenho cara de quem faz isso?” Seu riso preencheu o silêncio dentro do carro e de alguma forma relaxei ao escutá-lo. “Vamos, você não é desconhecido. Já nos vimos algumas vezes”
“Duas vezes... Mas você sabe meu nome, nunca havia lhe dito”
“Ah, isso? Foi Beth. Perguntei depois do nosso quase encontro na entrada da cafeteria” Ele era surpreendente e a cada vez que mergulhava naqueles olhos castanhos me sentia perder o chão abaixo dos meus pés.
Me permiti observá-lo com mais cuidado. Desde que entrei ali só pude me focar em seus olhos. Ele usava jaleco branco, algo estava escrito em azul sobre o bolso esquerdo do mesmo, acredito que seu sobrenome, mas não pude ler. Médico talvez. Seus cabelos pareciam precisar de um corte, caiam lisos sobre a testa, mas não era de todo mal, faziam com que parecesse mais humano e mesmo assim, lindo. Perdi-me e quase me esqueci de respirar. Ele notou e nossos olhares foram cruzados, por pouco tempo.
Lhe disse meu endereço e o resto da caminho foi silencioso. Aquele estranho ao meu lado estava me fazendo sentir borboletas nervosas batendo as asas nas paredes do meu estômago. Ao mesmo tempo em que desejava sair correndo também queria que aquilo durasse para sempre. Quando por vezes seus olhos pousavam sobre mim me fazendo sentir acolhido. Ao vasculhar respostas dentro da minha cabeça nada encontrava, eu estava vazio e naqueles minutos meu mundo parou de rodar.
Eu nunca tinha pensado pra valer sobre o amor, não antes desse dia. Para mim o amor era o sentimento mais puro e verdadeiro que alguém pudesse sentir e quando o encontrávamos em outra pessoa seria para sempre. Eu nunca havia amado, foi engano pensar que sim. O que senti por Frankie não era amor, era carinho e nada mais. Descobriria que o amor nos faz cego, nos faz viver apenas para o beneficio de outro alguém e não saberia que isso não iria me incomodar quando chegasse a hora e a pessoa.
Peter me tirou de meus devaneios quando brecou já em frente do meu prédio.
“Chegamos” Ele disse.
“Obrigado por isso. Posso te agradecer melhor lhe preparando um café?” Ao me dar conta do convite feito senti minhas bochechas queimarem.
“Nunca recuso café, mas preciso realmente dormir. Estava de plantão desde ontem” Ele era médico, já não tinha mais duvidas quanto a isso. Seu tronco se virou no momento em que se inclinou para pegar um maço de cigarros no console, pude ler “Humphrey” em seu jaleco.
“Tudo bem. Qualquer coisa, o café ainda estará de pé”
E sem um aviso prévio senti seus lábios quentes sobre minha bochecha, ali deixou um beijo rápido e voltou a abrir um de seus sorrisos deslumbrantes, colocando o cigarro entre os lábios em seguida e o tragando lentamente.
Peter conseguia ser surpreendente e eu nunca me cansaria de tudo aquilo. Não, não me cansaria de sentir meu coração dar saltos em meu peito.
“Não me esquecerei disso” E eu queria responder que também não, mas resolvi segurar minhas palavras dentro da boca. “Tome, caso precise de uma carona” Me estendeu um cartão em tom pastel com letras pretas e bem desenhadas, nele continha seu nome, Peter Humphrey e seus telefones.
Guardei seu cartão e saltei de seu carro antes de não conseguir mais controlar minha vontade de agarrá-lo ali mesmo. O vi dar partida e desaparecer na esquina.
Meu coração ainda estava descontrolado e enquanto subia as escadas para meu apartamento podia sentir minha bochecha queimar por culpa do beijo depositado na mesma minutos antes. Talvez ele só estivesse sendo gentil, me sentia culpado por estar sentindo todas essas sensações estranhas, mas era complemente impossível não se sentir fraco ao seu lado, não enquanto ele tivesse aquele poder incrível quando sorria mostrando seus dentes perfeitamente alinhados.
Thomas me veio em mente e tive certeza que precisávamos conversar. Já havia adiado por um mês, mas era à hora de jogar limpo e assim tirar o peso de minha consciência.
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