Meu amor está ao seu lado.
38 E lá se vai minha vida.
Notas iniciais
O terno que usava estava completamente amassado, mesmo depois de tentar arrumá-lo no corpo da melhor forma possível. Peter não estava muito diferente, sua camisa escura se encontrava amarrotada combinando com o cabelo desarrumado e a gravata torta.
Saímos do banheiro rapidamente para não sermos pegos, o que não aconteceu pois o segundo andar estava vazio.
“Phillippe, espere”
Parei no primeiro degrau da escada ao escutar o chamado de Peter. Assim que me virei o mais velho correu os dedos pela minha franja e a ajeitou atrás de minha orelha.
“Pronto” Sorriu. “Iriam dizer que passou por uma tempestade”
“E eu responderia que essa se chama Peter”
Recebi um beijo na testa e então descemos para retornarmos ao jardim onde acontecia a festa.
Os convidados dançavam uma música animada na pista de dança improvisada quando chegamos. Pude encontrar Julie ao centro com os braços de Alex a sua volta enquanto mexiam seus corpos ao ritmo da melodia e riam abertamente. Era possível sentir a felicidade do casal mesmo os observando de longe, consequentemente era passada para mim e a absorvia por completo. Saber que minha irmã estava feliz me deixava tranquilo, sabia que ela estava em boas mãos.
Peter passou um braço em volta dos meus ombros e nos encaminhou até a mesa onde meus pais ainda estavam sentados, agora juntos de Thomas e Frankie.
“Olha quem apareceu! ” Frankie anunciou nossa chegada. “Onde os pombinhos estavam? Se é que podemos saber”
Não respondi no primeiro instante. Senti meu rosto se esquentar, isso porque tinha certeza que não era preciso uma resposta para Frankie, seus olhos brilhavam maliciosos em nossa direção.
“Estávamos conversando” Peter respondeu.
“Hum, percebemos” Frankie provocou. “As roupas amassadas provam isso”
“Cala a boca, Baker” O cortei.
“Meninos, parem com isso” Minha mãe interrompeu uma possível troca de farpas. “Sente Arthur, sua irmã estava procurando por você e Peter”
Sentamo-nos e logo fomos inclusos na conversa acalorada que tinham até então.
Depois de algumas músicas Julie finalmente se cansou e veio para junto de nós praticamente mancando.
“Esses sapatos estão me matando” Reclamou. Sentou em uma cadeira ao lado de Peter voltando a se pronunciar em seguida. “Meu irmão é muito mal educado quando quer, nem ao menos nos apresentou Peter. Sou Julie” Minha irmã lhe estendeu a mão e foi retribuída por Peter. “Não tivemos tempo de nos falarmos, claro, só quando chegou”
“Me desculpe por aquilo, não era minha intenção interrompe-la” Peter se desculpou pelo ocorrido mais cedo.
“Não se preocupe com isso! ” Julie respondeu entre risos. “Chegou na hora certa”
Assisti o sorriso de minha irmã se dissipar de seus lábios em questão de milésimos ao que seus olhos foram depositados na mão esquerda de Peter sobre a mesa. Minha atenção foi para o mesmo ponto no momento em que o ato ocorreu e todo o meu corpo se enrijeceu ao me dar conta do motivo de sua reação.
Peter usava sua antiga aliança de casamento.
Todos na mesa pararam suas conversas e voltaram suas respectivas atenções no anelar de Peter. Era impossível não notar a joia dourada brilhando em seu dedo. Impossível!
Como não a vi antes? Me senti estúpido por não tê-la notado desde o início. Não havia como não ver uma vez que a aliança brilhava em seu dedo.
A raiva me consumiu mais rápido do que o normal. Logo todo o sangue de meu corpo pareceu correr por minhas veias fervendo. Senti minhas mãos tremulas ao que me levantei em um salto da cadeira em que me encontrava sentado. Meus olhos foram presos no rosto de Peter a minha frente, ele estava mais pálido do que o normal, sua boca abriu várias vezes, mas nada lhe saiu, apenas um gaguejo incompreensível.
Nos minutos em que nada dissemos um para o outro desejei sumir. A vergonha me consumiu por inteiro. Diante de meus pais e irmã Peter usava uma aliança de casamento. Aliança essa que jurava tê-la descartado assim que os papeis de seu divórcio foram assinados.
Qual era o motivo para ainda mantê-la?
“P-peter, por que...” Tentei perguntar, porém sem que pudesse terminar fui interrompido por ele.
“Posso te explicar”
“É claro que sim. Você me deve uma explicação! ” Minha alteração de voz se elevou alguns tons. A raiva possuía todo meu ser e nada nem ninguém me faria tentar manter o tom baixo e calmo.
Era possível observar seus olhos aflitos correndo por todo meu rosto. Seus lábios finos foram cerrados junto com uma careta que poderia ser descrita como de dor. Peter se levantou ficando a me encarar por segundos torturantes. Era possível sentir todos os olhares em nossa direção e tudo o que eu podia sentir era raiva misturada com a vergonha.
“Vamos conversar em outro lugar” Pediu baixo.
Lhe dei as costas já caminhando a passos largos por entre os convidados. Senti que ele vinha logo atrás em todo o trajeto que fizemos até onde aconteceu a cerimônia de casamento, no mesmo lugar onde nos beijamos a primeira vez.
Já longe de todos deixei que meus passos cessassem e Peter fez o mesmo. Cruzei os braços contra o peito tentando controlar minha vontade de gritar em plenos pulmões todos os xingamentos e palavrões que conhecia.
“Vamos, estou esperando! ” Cortei o silêncio. “Me explique o motivo dessa merda em seu dedo! O motivo para ter me envergonhado diante da minha família”
Peter balançou a cabeça em movimentos negativos enquanto seu lábio inferior era mordido. Sinais de puro embaraço.
“Meu pai...”
“Claro, seu pai! ” O interrompi deixando que minha frustração fosse posta para fora ao escutar mencionar seu pai outra vez. “Sempre seu pai. O que foi dessa vez? ”
“Phillippe, se acalme, por favor” Pediu em vão.
“Me acalmar? Ainda tem coragem para pedir que me acalme? ” Um riso irônico escapou por entre meus lábios. Era óbvia minha indignação com seu pedido. “Onde está com a cabeça, Humphrey? Acho que andou bebendo e não me dei conta. Só pode! ”
“Não, e-eu...” Suspirou alto ao notar que suas palavras, ou melhor dizendo, desculpas não funcionariam. “Meu pai não sabe que me separei de Alicia, por isso a aliança. Não me lembrei de tirá-la a tempo, a correria para vir para cá fez com que me esquecesse. Não era para vê-la” Confessou baixo o bastante para que nem se quer o ouvisse.
Um balde de água fria me foi jogado ao que escutei sua explicação. A dor e frustração que senti ao escutar sua confirmação de que fui negado outra vez não se comparava a nada sentido antes.
Me sentia como um pedaço de papel sem valor, amassado e jogado em um canto qualquer. Vez ou outra era chutado para os lados sem nunca receber a devida importância.
Era isso. Muito pequeno para receber valor. Senti como se ser reconhecido por aquele que amava estivesse fora de cogitação.
“Não acredito nisso” Minha primeira reação foi negar. “Não pode estar fingindo ainda ser casado para seu pai. Você simplesmente não pode...” Minha frase miou, fraca demais para ser completada.
“Não pude colocar tudo a perder agora que as coisas parecem bem entre nós. Por favor... Me entenda. O relacionamento com meu pai me é muito importante”
“Não! Não Peter! ” Gritei o assustando. “Chega de ser negado, não mereço isso! ” Não me importava se fosse chamar a atenção de alguém com meus gritos. Nada me importava. Me sentia cego por conta de toda a raiva contida em meu interior.
“Nunca te neguei Phill”
“Não. Me. Chame. Assim” O repreendi pausadamente. Percebi tê-lo assustado ainda mais ao que seus olhos se arregalarem. “Você tem me negado desde o início. Sempre me escondendo e eu estúpido aceitei achando que era passageiro. Mas não, mais uma vez me vejo negado”
“Isso não será para sempre, contarei a verdade para meu pai. Logo ele se dará conta de que Alicia não irá para Los Angeles e então falarei do nosso divorcio"
“Não posso acreditar no que estou ouvindo! Um adulto com medo do próprio pai”
“Não tenho medo dele...”
“Você tem! O medo está estampado em seus olhos” Me aproximei perigosamente de seu rosto, pude notar mais uma vez os olhos castanhos do mais velho me fitando assustados. “Você é gay Peter. Gay! ” Cuspi as palavras em sua direção. “Não pode negar isso nem para si mesmo. Não pode camuflar essa verdade de seu pai, ele sabe e assim como você tenta se enganar! ”
A essa altura meus gritos eram estridentes. Meus passos me levavam de um lado para o outro em uma demonstração clara de nervosismo. Contudo Peter não se movia desde que chegamos a aquele local.
“Você machucou Alicia e está me machucando dia após dia... ” Mais uma vez minha frase miou até se perder no ar.
Me afastei do moreno dando passos para trás. Não conseguia me manter perto dele. Me sentia traído. Toda a confiança que depositei no homem a minha frente escorreu por meus dedos como se fossem grãos de areia soprados.
Aqueles olhos castanhos que outrora me trouxeram paz me pareciam desconhecidos. Os lábios comprimidos não eram os mesmos que beijei inúmeras vezes. Seu corpo parecia me expulsar de seu interior sem que houvesse explicações.
“Você não me ama” Deixei que meu pensamento fosse compartilhado com ele. “Não me ama...” Disse para mim mesmo.
Peter me olhou incrédulo. Sua expressão era de pura surpresa ao que me escutou.
Podia dizer que até eu havia me surpreendido com minha própria declaração. Talvez fosse uma forma baixa de ataca-lo, porém era difícil não ter dúvidas depois da distância imposta para nós e mais uma vez ser escondido por Peter.
Estava claro que estava sendo injusto ao acusa-lo de tal maneira, porém era tarde para voltar atrás. Um dos meus maiores medos foi exposto.
Não ser amado.
“Acho que nunca acreditou no meu amor por você” Peter finalmente respondeu. Sua voz era calma, mas carregada de um peso novo. Sabia que eu havia tocado em um assunto delicado. “E todos os momentos que passamos juntos? Isso não contou como prova do meu amor, Phillippe? Você precisa parar para ver o que fiz até chegarmos aqui e não apontar apenas os momentos ruins. Está sendo injusto”
“Isso não é verdade. Se estamos aqui agora é pelo fato de ter acreditado em seu amor cegamente” Confessei. “E-eu só não entendo o motivo de não conseguirmos ser felizes”
Silêncio.
Por longos minutos nem ao menos podíamos escutar nossas respirações. Peter escondeu o rosto entre as mãos e não disse uma só palavra. Não sabia nem ao menos se chorava uma vez que nenhum som partia dele.
Eu o observei por tempo o bastante. Seus ombros estavam rígidos, tensos demais para que relaxassem. As mãos que tampavam o rosto, escondendo seus olhos, me privando da única forma de poder entender o que acontecia.
“Estou cansado de sempre esperar” Me pronunciei, mas ele não se moveu. “Estou sempre esperando por alguma coisa e nunca a tenho. Esperei por você desde o início... Minha vida se tornou uma espera constante e isso está me matando aos poucos”
Em alguns passos voltei a me aproximar de Peter. Ao sentir minha presença deixou que seus braços caíssem como se não tivessem vida alguma. Seus olhos finalmente foram conectados aos meus e em seu brilho existia o mesmo cansaço que eu sentia em meu interior. Pude sentir um arrepio percorrer todo meu corpo ao que enxerguei aquele brilho triste.
“O que você quer que eu faça? ” Peter perguntou. “Me diga, o que quer de mim? ”
“Quero que me ajude a carregar todo esse peso. Nós precisamos lutar juntos, não apenas eu. Não vê que não está sendo o suficiente? ”
“Você não entende, não se coloca em meu lugar”
“E você não me ama! ” Voltei a repetir. “Amor não é isso. Não é machucar o outro e mesmo tendo consciência não tentar evitar! ”
“Não diga isso, nunca mais! ” Pela primeira vez Peter alterou seu tom de voz. Seu rosto ganhou uma coloração avermelhada, assim como sua respiração se tornou forte. “Não tem noção do que está dizendo”
“Tenho” Respondi rapidamente. “Tenho noção e todas suas atitudes me provam isso. Só pensa em si mesmo, o tempo todo! ”
“Cale essa maldita boca, Phillippe! ”
“Egoísta ” Gritei. “Egoísta de merda! ” Cerrei os punhos e avancei em Peter. Estava cego pela raiva e dor. Desferi o primeiro soco em seu peito e depois do primeiro vieram outros, um atrás do outro tentando fazer com que ele sentisse a mesma dor que a mim. Soquei seu peito incontáveis vezes. “Egoísta, egoísta... É o que você se tornou, cada vez mais e-egoísta...”
Sentia-me fora de mim, como se não fosse responsável por meus próprios atos. Nunca me passou em mente que teria coragem de bater em Peter, mas aquela era a prova de que a raiva poderia transformar o ser mais calmo que existisse.
Só parei de agredi-lo quando o mais velho conseguiu segurar meus pulsos fortemente. Tentei resistir e me soltar de suas mãos, porém era mais fraco comparado a ele. Senti que chorava quando os soluços me tomaram, meu corpo todo tremia por conta dos solavancos. Minha respiração se tornou falha e a força que fazia para que meus pulmões trabalhassem só fazia com que o peito doesse ainda mais.
Me deixei vencer quando seus braços me acolheram e contra seu corpo me manteve próximo. Enterrei meu rosto contra sua camisa sem me importar com os soluços e às vezes até engasgos me tomassem, mais uma vez Peter foi testemunha de minhas lágrimas quentes lhe molhando a roupa. Mais uma vez se manteve forte enquanto esperava que meu choro acalmasse.
“Odeio te ver assim” Peter sussurrou perto de meu ouvido. “Pode pensar que não, mas dói em mim”
Empurrei seu corpo para longe de mim em uma gentileza desnecessária, queria que nos afastássemos. Com as costas das mãos limpei as lágrimas de meu rosto rapidamente e me voltei para Peter outra vez.
“Me prove que se importa” Pedi. Vi seu cenho se franzir em uma confusão clara. Busquei por sua mão esquerda e escorreguei a aliança dourada de seu anelar, sem protestos de sua parte. “Conte a verdade para seu pai e nos livre disso de uma vez por todas” Sem que Peter pudesse assimilar o que faria com a joia a arremessei para longe a vendo cair e se perder em um ponto do vasto gramado. Escutei um grunhido do mais alto em reprovação, mas apenas isso. “Me prove seu amor”
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Já era oito da noite quando os últimos convidados foram embora. Depois de Peter partir para o hotel onde estava hospedado me mantive mais um tempo na festa, porém afastado de meus pais para não precisar lhes dar explicações do ocorrido, deixaria para mais tarde. Frankie e Thomas ficaram por um tempo comigo até que os obrigasse a irem dançar e aproveitar o tempo que tinham juntos. Simplesmente não queria que olhares de pena recaíssem sobre mim.
Em meu quarto guardava o terno alugado na mala, pois irei para o aeroporto cedo no dia seguinte. Já havia tomado um banho quente cumprindo a ordem de minha mãe para tentar expulsar toda a tensão contida em meu corpo.
Escutei toques na porta e já sabia quem era.
“Entre”
Ainda com o vestido de festa minha mãe entrou encostando a porta atrás de si.
“Como está se sentindo? ” Perguntou preocupada.
“Melhor”
“Então Peter é casado? ” Sem rodeios perguntou. Era de se esperar que ela não prepararia o campo antes de chegar a seu objetivo.
“Divorciado”
“Mas...”
“O pai dele ainda não sabe, por isso manteve a aliança” A cortei respondendo rapidamente.
“Arthur, essa é mesmo a pessoa certa para estar ao seu lado? ”
“Por que está perguntando isso? Eu o amo”
“Amar nem sempre é o suficiente e deve se dar conta disso antes que seja tarde para se arrepender. Nem sempre podemos nos doar por completo para uma pessoa” Minha mãe suspirou e se aproximou para se sentar ao meu lado na cama. “Sei o que aconteceu com você desde o início desse relacionamento e tirei minhas próprias conclusões”
“Como você...” Não terminei minha pergunta, estava claro. “Julie! ”
“Sua irmã só quer seu bem. Quando não soube mais como te ajudar me procurou para contar tudo o que estava passando. Acho que já deu oportunidades o bastante para esse homem, agora é a vez dele fazer sua parte e isso não inclui mentir para o próprio pai”
“Eu sei” Dei total atenção em minhas mãos sobre meu colo. Era difícil olhar nos olhos de minha mãe uma vez que sabia que tudo o que ela dissesse era verdade. “Ele não pode contar sobre nós, o pai não o aceita”
“Não é fácil para um pai saber da condição de um filho, nós não queremos que venha a sofrer, pois é isso o que está sujeito a acontecer. Porém Peter já é a adulto e precisa se impor, ele te escolheu e o mínimo que deve fazer é lhe dar o devido valor. Não espere menos do que isso, nunca. Caso não venha a ter talvez seja hora de seguir em frente”
“Mas mamãe, eu o amo muito, não posso...”
“Posso ver e sei que ele também o ama, mas não pode deixar que isso o faça cego a ponto de aceitar esse tipo de coisa. Sei o quanto merece e isso ainda está sendo pouco”
“Não sei o que fazer, só quero ser feliz”
“A felicidade nem sempre está onde pensamos”
Busquei pelos braços de mim mãe que já estavam prontos para me acolher. Me sentia como uma criança assustada, quase como se voltasse a ter cinco anos e buscasse pelo acolhimento de minha mãe quando apavorado por algum motivo bobo. Mais uma vez me encontrava perdido dentro de mim mesmo, desejando sair de meu próprio corpo para escapar de toda a dor e aflição sentida, desejando ser outra pessoa em qualquer outro lugar do mundo, menos um Phillippe assustado.
“Sempre estarei aqui, independentemente da decisão que tomar. Irei torcer para que se entenda com Peter e possam viver em paz, contudo se essa não for a vontade de Deus você ficará bem”
“Não posso viver sem ele” Confessei mais para mim do que para minha mãe.
“Toda ferida cicatriza, demore o tempo que for”
Depois da conversa com minha mãe Julie apareceu para se despedir às pressas pois estava atrasada para sua viagem em lua de mel, mal conseguimos nos falar, porém minha irmã prometeu tentar ir me visitar em Nova Iorque. Me decidi por ir dormir, caso quisesse chegar a tempo para meu voo. Cai no sono com facilidade, me deixando perder em sonhos confusos e descansar.
Achei já ser de manhã quando senti um toque calmo em meus cabelos. Mantive os olhos fechados gostando da caricia que recebia, contudo não durou muito. Logo o toque cessou e pude escutar uma movimentação. Abri os olhos e na penumbra do quarto pude enxergar apenas uma sombra por conta da fresta da porta aberta e o feixe de luz que entrava pela mesma.
“Peter? ”
Não tinha certeza se era ele uma vez que a escuridão não me deixasse decifrar os traços, deduzi apenas pelo perfume amadeirado que conhecia perfeitamente. A pessoa voltou a se mover para perto e se agachar a minha frente.
“Me desculpe, não queria acordá-lo” O mais velho sussurrou. “Volte a dormir”
“Onde está indo? ” Perguntei mesmo já sabendo a resposta.
“Meu avião sairá daqui a algumas horas, vim me despedir mas já estava dormindo”
“Que horas são agora? ”
“Por volta de onze e meia”
“Achei que só iria amanhã”
Usávamos um tom desnecessariamente baixo enquanto mantínhamos uma conversa curta. Podia sentir a respiração quente de Peter em meu rosto, mas era só, não podia ver seu rosto, apenas o sentia próximo.
“Tecnicamente será amanhã. Volte a dormir” Pediu novamente. “Tenho que ir agora”
“Tudo bem...” Concordei mesmo tentando controlar com todas as forças a vontade de pedir para ficar mais um pouco.
O escutei se levantar e mais uma vez se encaminhar para a saída. Senti todo meu interior se comprimir ao me dar conta de que ele estava indo embora e não teríamos uma previsão de quando nos veríamos de novo. Não queria escutá-lo fechar a porta e partir, não agora. Não tão rápido.
“Peter” Fui respondido com apenas um grunhido em confirmação. “Fica mais um pouco? ”
“Tem certeza? ”
“E-eu... Não” Respondi sincero. “Só fique”
Assisti o feixe de luz ser quebrado quando a porta foi fechada. Peter se aproximou de minha cama às cegas e se sentou em sua ponta, lhe dei espaço para que se deitasse ao meu lado e ele o fez, mesmo que estivéssemos muito desconfortáveis por conta de estarmos dividindo uma cama de solteiro minúscula. Não reclamos. Lhe cedi parte de meu travessei e o senti pousar sua mão em minha cintura, ficando assim de frente para mim. Nossos corpos estavam colados, porém nenhum outro toque foi executado. Sabia que os dois ainda estavam abalados pela briga ainda cedo e apenas aquilo bastava para trazer conforto aos nossos corações confusos.
Não demorou muito para que eu voltasse a dormir, acredito que primeiro que Peter. Deixei que meus olhos cansados se fechassem ainda consciente da presença dele. Apenas voltei a abri-los quando já era manhã e estava sozinho na cama, podia jurar ter sentido um beijo em minha testa pouco mais cedo, porém não sabia dizer se foi real ou apenas um sonho. De todo jeito estava sozinho novamente.
Peter havia partido outra vez.
“E lá se vai minha vida
Passando por cada voo de saída
E isso tem sido tão difícil
Tanto tempo tão longe [...]
Mas eu vou ver você de novo
Eu vou ver você de novo daqui a algum tempo”
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