Meu amor está ao seu lado.
35 Começo do fim.
Notas iniciais
“Estragar? É alguma coisa séria?” Perguntei.
Mesmo sentindo que nada poderia interromper nossa felicidade teria que confessar dizendo ter me assustado com a sentença de Peter.
Observei o moreno escorregar de meu colo e se sentar ao meu lado. Correu os dedos pelos cabelos lisos e suspirou alto. Todos seus atos pareciam durar muito a meu ver, enquanto eram executados senti meu coração se acelerar mais e mais.
Conhecia Peter o bastante para saber que escolhi as palavras, para saber que era um assunto delicado de se tratar e por isso seu cuidado.
“Já atuo na área de medicina há dois anos, como você já sabe” Começou e concordei maneando a cabeça levemente. “Com isso já posso me especializar na área que escolhi, sendo essa cardiologia. O fato é que farei a prova para minha residência em Los Angeles” Se calou. Despejou rapidamente o que era de seu desejo e se calou me deixando sem palavras.
Então Peter ficaria longe?
Maneei a cabeça algumas vezes na intenção de ter certeza de que havia escutado certo. Cheguei à conclusão de que sim, havia escutado tudo com muita clareza e a prova disso era os olhos aflitos de Peter pousados em meu rosto, esperando por minha reação.
Que reação poderia ter? Muita coisa me passava em mente. Senti vontade de chorar, de me atirar em seus braços e pedir para que dissesse que era uma brincadeira. Mas não, me mantive na mesma posição nos minutos que se passaram lentos, tentando de alguma forma me organizar para que ao menos pudesse entender como aquilo seria. Como ficaríamos nós dois.
“Phillippe?” O moreno me chamou, porém não obteve uma resposta. “Sei o quanto isso pode ser difícil se pensarmos nesse instante, está sendo complicado para mim ter que entrar nesse assunto, contudo não tenho saída se não lhe contar a verdade e...”
“Por que Los Angeles? Por que não aqui mesmo?” O cortei com minhas perguntas.
Um suspiro. Foi tudo o que escutei em resposta. Um suspiro alto e longo.
Peter se remexeu ao meu lado, claramente incomodado com a conversa que tínhamos. Não era como se para mim estivesse sendo fácil, não estava. Mas ao contrário dele não conseguia sentir nada. Nada. E isso parecia me afligir ainda mais. Nem ao menos o nervosismo dele existia em mim.
“Porque é um desejo do meu pai. Sou o único filho que escolheu por medicina o que para ele é um orgulho. Se conseguir passar nessa prova conseguirei a residência para trabalhar no mesmo hospital onde meu pai hoje em dia trabalha, isso de certa forma foi planejado antes do fim da minha faculdade” Explicou.
“Achei que seu pai morava também em Montreal, como seus irmãos” Respondi, mas dei de ombros para esse detalhe. “E nós?”
“Como assim nós?”
“Como ficaremos? A distância é grande, Peter. Não é como atravessar a cidade para estarmos juntos.”
“Eu sei... Iremos dar um jeito. Viajarei para cá sempre que for possível” Buscou por uma de minhas mãos para que entrelaçasse nossos dedos. “Não posso pedir que venha comigo, primeiro por achar que seria egoísmo fazê-lo abrir mão da vida que tem aqui e também por não poder tê-lo perto de meu pai, ele não pode imaginar...”
“Já entendi. Não precisa me explicar, mesmo que eu fosse capaz de me mudar e enfrentar seu pai”
“Ele não iria aceitar! Ele nunca mais me consideraria um filho seu, não posso passar por isso. Não posso!” Peter se alterou em questão de milésimos, consequentemente me assuntando com sua reação.
“Tudo bem, Peter” Tentei acalmá-lo. “Não iremos mais cogitar esse hipótese, falei apenas para mostrar que sou capaz de qualquer coisa para não me ver longe de você”
“Iremos dar um jeito” Repetiu, dessa vez olhando em meus olhos aparentemente mais calmo.
Gostaria muito de ter acreditado em suas palavras. Para ele parecia extremamente simples, mas não para mim. Me soava como uma promessa em vão. Não iriamos nos ver com frequência razoável, sabia que seus estudos lhe tomariam muito tempo. Esse era o lado ruim de ser realista, me fazia sentir dor, como se muitas agulhas me perfurassem o estômago. O lado bom era conseguir me prevenir do que de mal poderia me acontecer.
“Confio em você. Iremos nos manter fortes” Disse mais para mim do que para Peter. De certa forma tentei suprir aquelas palavras e me enganar.
O mais alto me puxou para perto me abraçando de forma desajeitada e incrivelmente dolorida. Era uma despedida, contudo não pude ao menos derrubar uma única lágrima naquele momento.
Depois de o contato ser quebrado decidimos nos deitar. Convenci Peter a passar a noite comigo alegando não ter problema com roupas, pois havia algumas mudas dele esquecidas em meu guarda roupa.
Peter não se demorou muito no banho. O escutei fechar o registro e alguns poucos minutos depois se encaminhou até a cama onde já me encontrava deitado. Meu noivo engatinhou até o lado vazio da cama de casal e escorregou para baixo da coberta. Seu braço me puxou para perto e me segurou pela cintura colando nossos quadris. O assisti fechar os olhos, ajeitar a cabeça no travesseiro e se perder em sonhos, isso sem antes dizer me amar.
“Eu te amo meu anjo” Disse baixo. Pude sentir sua respiração me bater no rosto ao falar.
“Eu também”
E então ele estava entregue, longe o bastante, perdido em sonhos que eu não poderia ter conhecimento.
Peter havia partido me deixando com os olhos bem abertos e sozinho. Tão sozinho e assustado ao pensar no que nos esperava
_________
Depois da conversa que tivemos em que Peter me contou ter que se mudar para Los Angeles recebi a noticia de que havia passado na prova e iria mesmo para longe.
Tentei ficar feliz, poderia jurar por qualquer coisa que tentei. Forcei uma alegria que não sentia ao receber uma ligação sua onde se encontrava completamente eufórico e orgulhoso de si mesmo ao relatar que tirou uma das melhores notas. Sempre soube que Peter era capaz e talvez por esse motivo não pudesse ser totalmente sincero ao lhe parabenizar, já havia me preparado para aquele momento, só não me preparei para a dor que senti ao escutá-lo dizer que em uma semana teria que se mudar em definitivo.
“A melhor nota, amor! Da para acreditar?” Repetiu a mesma coisa pela terceira vez naquela ligação.
“Claro que sim. Você se esforçou o bastante para que fosse um dos melhores. No fundo sabia que era a única coisa que lhe cabia”
Palavras. Palavras jogadas de qualquer forma, ditas na esperança de desaparecerem, de não fazer lembrar-me delas assim que colocasse o telefone no gancho.
Ficamos em silêncio tempo o bastante para que Peter escutasse meus soluços do outro lado da linha. Não pude evitar deixa-los escapar, poderia me despedaçar caso os segurasse por mais tempo.
“Phillippe, você está chorando?”
“E-eu, não...” Menti. O que foi em vão já que minhas palavras saíram tão baixas por conta do soluço alto que veio em seguida.
“Sei que está, sua voz está diferente” Me repreendeu ao que tentei negar. “Sinto-me tão culpado por fazê-lo sofrer assim”
“Não se sinta, devo te apoiar em qualquer coisa. Só não pensei que o perderia tão cedo” Disse a última sentença extremamente baixa, me condenando logo a seguir por dizê-la.
“Você não está me perdendo, não diga isso!”
“Só tenho medo... Não quero que isso aconteça. E-eu não posso me imaginar sem você”
“Ei, vai ficar tudo bem. Confia em mim, não é?”
Ao concordar desligamos pouco tempo mais tarde com Peter alegando precisar procurar por um apartamento antes de voltar para Nova Iorque e ajeitar tudo para sua mudança.
Dois dias depois ele estava de volta. Estava feliz e me parecia tão leve, sempre sorrindo e tentando de alguma forma me embalar em sua felicidade. Os dias que ficamos próximos me sentia um monstro por não provar de sua felicidade.
Em sua última noite em Nova Iorque ficamos juntos em meu apartamento já que Peter havia entregado as chaves do seu por ser alugado. Todas suas malas estavam prontas na sala enquanto nos amávamos no quarto.
Senti como se a entrega fosse como à primeira vez, quando me senti roubado pelo homem que podia dizer amar loucamente de forma única e inesquecível. Deixei que me conduzisse sem questionar. Entreguei-me para seus braços e sem que soubesse Peter poderia fazer o que quisesse comigo, não iria me negar.
Em minha mente era a última vez que nos amávamos. Última vez que olharíamos nos olhos e sem que precisasse ser verbalizado dizíamos que nos amávamos. Não tinha esperança, era ridiculamente negativo em todos meus pensamentos relacionado a Peter e sua partida. Não conseguia me culpar por esse fato.
Ao que caímos exaustos ao chegarmos ao ápice Peter se moveu para o lado e alcançou uma corrente de prata que se encontrava em cima do criado mudo, tal objetivo que não tinha visto até então. Em silêncio o assisti tirando a aliança de seu anelar para que pudesse passar a corrente por dentro da mesma e a colocar e em seu pescoço.
Ele nem ao menos teve tempo de se virar para mim uma vez que puxei o lençol que nos cobria o enrolando em volta de minha cintura cobrindo minha nudez e correndo para o banheiro. Tranquei a porta e desabei contra a madeira. Permiti-me chorar depois de vê-lo tirar sua aliança. Não tentei controlar meus soluços, queria que se danasse sua altura. Chorei o bastante, até sentir não ter mais ar em meus pulmões. Meu noivo bateu na porta enquanto lágrimas escorriam quentes por meu rosto, pediu, implorou para que abrisse o que foi negado em todas suas tentativas. Era aquele um momento meu. Não queria escutar suas desculpas, não queria que se sentisse culpado.
Tentei ser forte e falhei. Não poderia ser feliz tendo a consciência de que faltava exatamente oito horas para que Peter entrasse em um avião com destino ao seu futuro longe de mim.
No dia seguinte inventei uma desculpa para não acompanha-lo até o aeroporto. Seu olhar desapontado me doeu, porém senti que ele entendeu meu lado, pelo menos naquele momento. Despedimo-nos na calçada em frente ao prédio em que morava já com o taxista o esperando. O beijei com vontade, provando de seu gosto mais uma vez e tentando guarda-lo em minha memória. Escutei mais uma vez todas suas promessas e pedidos que me cuidasse. Fiz o mesmo para então vê-lo entrar no carro e partir do meu campo de visão.
Um mês e meio depois.
Caminhava calmamente para fora do edifício onde trabalhava depois de meu expediente. Havia sido um dia cheio onde até mesmo almoçar tinha sido quase impossível uma vez que meu chefe tivesse me atolado com tanto trabalho para última hora. Agradecia pelo dia ter passado rápido e finalmente voltar para casa.
“Phillzinho!” Escutei alguém chamar. Não precisava olhar para trás para que tivesse certeza de quem era. Apenas uma pessoa tinha a mania de me chamar assim sem que quisesse me agradar ou algo do tipo.
Anthony praticamente corria em minha direção me alcançando rapidamente.
“Está rico ou o que?” Perguntou assim que parou ao meu lado.
“Como?”
“Está rico? Já não lembra mais do pobres!”
Ri com sua pergunta. Havia me esquecido como meu colega podia ser palhaço até mesmo com um olá dito.
“Quem sumiu aqui foi você, então não me venha com essa. Perguntei sobre você e me disseram que estava de férias”
“Sim, tive alguns problemas com minha mãe que estava doente, por isso as antecipei, mas agora está tudo bem”
“Quem não me parece bem é você”
Anthony tinha olheiras escuras, estava levemente bagunçado por conta de roupas amassadas e podia apostar que seus cabelos não haviam sido penteados pela manhã.
“Vim trabalhar direto depois de uma festa” Deu de ombros como se fosse normal em pleno meio da semana alguém fazer aquilo. “Você também não me parece bem”
“Cansaço” Respondi rapidamente.
“Tem certeza?” Seu cenho estava franzido enquanto esperava por minha resposta. Me observava como se quisesse me ler, aquilo de certa forma me incomodava.
“Sim, tenho”
“E como estão as coisas com Peter?”
“Tudo bem, acho”
A verdade era que desde sua partida Peter havia me ligado apenas duas vezes, tendo sido a última há três semanas. Não me atrevi a ligar, não por orgulho e sim por não querer atrapalhá-lo. Já não tinha conhecimento de seus plantões e tinha medo de acordá-lo caso descansasse.
“Acha? Vamos tomar um café enquanto me conta”
Não recusei. Aceitei o braço de Anthony e caminhamos até a cafeteria de meu bairro. Talvez precisasse conversar com alguém.
Ao chegarmos ao local que pouco frequentava ultimamente escolhemos por uma mesa afastada e Anthony me escutou por minutos a fio. Lhe contei sobre o acontecido desde o ano novo até a mudança de Peter para longe.
“Vejo que essa mudança te afetou de verdade” Comentou.
“Sim. Ele me pediu em casamento a pouco e então diz que vai se mudar em seguida. Não tem sido fácil à distância, mas entendo que é por um bom motivo e torço para que passe rápido”
O moreno a minha frente concordou enquanto bebericava seu chocolate quente.
Não queria parecer egoísta dizendo não concordar com a partida de Peter, de certa forma sempre senti que nossa relação seria difícil, teríamos sempre obstáculos para vencer e no que dependesse de mim iriamos conseguir.
Em suas ligações Peter parecia cansado, havia dito que estava sendo mais cobrado que o normal por seu pai, porém podia notar a felicidade em seu tom de voz, não poderia nunca lhe fazer sentir culpa por ir atrás de seu futuro, que sem duvida alguma seria brilhante. A última vez que nós falamos a ligação se prolongou por tempo o suficiente e fez com que a saudade se amenizasse. Peter disse várias vezes sentir minha falta, de certa forma meu coração se acalmou ao saber que pensava em mim, que não havia me esquecido. Suas declarações ao fim mostrou-me que poderia ser forte. E seria.
“Phill, não passará rápido” Anthony disse e sem demora alguma recebeu um olhar incrédulo em resposta. Devia me manter esperançoso, de certa forma eu deseja que mentisse para que pudesse me manter bem. “Entendo o que está fazendo, mas não pare sua vida! Você não pode deixar que seu mundo gire a volta dele. Precisa ir atrás do seu futuro, assim como ele fez”
“Anthony, o que está querendo dizer?” Conseguia entender onde ele queria chegar, mas precisava da confirmação, mesmo sabendo que as palavras a seguir poderiam me afetar bastante.
“Ele não pensou duas vezes em fazer as malas e pegar um avião para longe, pensou? Não estou dizendo que não se importa com você, só que está pensando nele também”
“E-eu...” Tentei me defender de alguma forma, contudo não existia o que dizer, ele estava certo.
“Não pare seu tempo enquanto ele está correndo atrás do que quer. Sei que não gosta do seu emprego, então procure por outro. Não pode se deixar sem viver e esperar sentando até que ele volte. Vá atrás do que quer também”
“Não fale o que não sabe!” Me defendi. Anthony estava indo longe demais, mal sabia o que se passava entre mim e Peter. “Thomas mora extremamente perto de onde Peter trabalha, logo poderei vê-lo. Não deixarei que minha vida pare por ele, mas também não posso deixar de inclui-lo, mesmo com sua distância”
“Não está mais aqui quem falou” Ergueu as mãos na altura do rosto em sinal de rendição. “Só quero seu bem”
“Eu sei. Estou bem, não tem motivos para se preocupar”
“Espero que sim” Depositou a xícara já vazia sobre o pires. “Agora preciso ir” Levantou-se vestindo o casaco em seguida antes esquecido no encosto da cadeira. “Se cuide” Beijou-me a testa e caminhou para fora.
Senti um incomodo novo em meu interior. Seria mentira dizer que o que ouvi de Anthony não me fez pensar, podia estar errado em teimar, mas o que sentia por Peter faria com que qualquer coisa passasse facilmente, até mesmo nosso distanciamento.
Era o que pensava.
Alguns minutos depois que Anthony partiu resolvi ir embora. Me encaminhei até a porta de saída, mas fui impedido de sair quando uma mão pequena e com unhas pintadas de vermelho me pararam.
“Onde pensa que está indo?” Era Beth. Talvez estivesse chegando para iniciar seu expediente.
“Embora?” Minha resposta saiu em tom de pergunta.
“Quando pensava em vir me ver? Faz dias que não aparece aqui, estava quase indo até seu apartamento para ter certeza de que não estava morto”
“Beth, que horror!”
“Estou mentindo por acaso? Tem sido muito desnaturado”
“Me desculpe” Me vi desarmado ao escutá-la dizer aquelas coisas. “É só falta de tempo”
“Não justifica” Sem que pudesse ao menos assimilar o que faria a mulher a minha frente segurou minha orelha com certa forma e a puxou. “Sua mãe pode estar longe, mas eu ainda estou aqui”
Afastei-me para que pudesse me livrar se suas garras vermelhas. Com sucesso.
Beth me olhava com seus olhos bonitos, azuis brilhantes e mais uma vez no dia me senti lido com facilidade, tinha até mesmo a sensação de estar nu diante de si.
“Passe para conversamos um dia desses” Pediu sincera.
“Pode deixar”
Seus braços curtos me abraçaram por um longo momento, quase podia me tirar o ar, mas não reclamei, apenas o retribui na mesma intensidade inalando seu perfume já decorado.
Enfim pude ir para meu apartamento e ser recebido por um Dylan carente já que havia passado o dia sozinho. Sim, Peter não tinha como leva-lo e o cão acabou ficando em definitivo em meu apartamento. Era bom não me sentir tão sozinho e de certa forma havia uma parte de Peter comigo.
“Olá amigão” Lhe acariciei as orelhas peludas já sabendo que isso lhe agrava muito. “Está com fome?” Dylan abanou o rabo e correu para cozinha comigo em seu enlace para que pudesse alimentá-lo.
Depois de um banho demorado para que pudesse me livrar do dia estressante que tive, busquei por algo qualquer para comer e logo me vi esparramado no sofá assistindo um filme qualquer com Dylan por perto.
Decidi por ligar para Peter. Como havia dito não nos falávamos a três semanas.
Disquei o número decorado e o escutei chamar até que por pouco não caísse na caixa de mensagem.
“Alô” O mais velho atendeu. Sua voz saiu baixa e mais rouca que o normal.
“Meu amor...” O chamei. Meu coração batia acelerado desde o momento em que ele atendeu. “Estou te incomodando?”
“Não estou podendo falar agora, ainda estou no hospital” Se não estivesse prestando o máximo de atenção seria quase impossível escutá-lo.
“Oh, me desculpe”
“Te ligo assim que sair daqui”
“Estarei esperando. Estou com saudades”
“Humphrey?” Alguém chamou ao fundo por Peter. “Preciso desligar...”
“Ok, eu te...” E então a ligação ficou muda.
Suspirei em frustração ao ver a ligação ser terminada daquela forma. Me controlei para não arremessar o celular longe. Tentei de todas as formas relevar o ocorrido.
Uma, duas, três horas depois e Peter não ligou. Desisti de esperar e mais uma vez com Dylan dividi minha cama. Não foi difícil dormir por conta do cansaço.
Era por volta de quatro da manhã quando acordei com Dylan latindo desesperadamente diante da porta fechada.
“Ei, chega!” O São Bernardo nem me deu ouvidos, continuou latindo para a porta. “Quer sair?” Perguntei como se ele pudesse me responder.
Levantei para abrir a porta e assim que o fiz o cão correu para fora já não latindo mais. Foi então que escutei o toque de meu celular vindo da sala. Foi encontrado praticamente em baixo do sofá, mas consegui atender a tempo. Antes já havia visto que era Peter no visor.
“Oi”
“Estava dormindo?” Me perguntou. Ao fundo era possível escutar uma música tocando extremamente alta. Quase não era possível escutar o que Peter dizia.
“Não é óbvio? Cansei de esperar que me retornasse”
“Iria ligar antes, mas não consegui”
“Onde você está?” Perguntei não me dando ao trabalho de prestar atenção em suas desculpas. “Está em alguma boate?”
“Na verdade sim...”
Não respondi. Senti meu rosto se esquentar assim como o restante de meu corpo. Raiva talvez, não sabia explicar.
“Olha Peter, ao contrário de você irei acordar cedo, então voltarei a dormir. Se divirta...”
“Ei, espera!” Pediu praticamente gritando. “É só o aniversário de um amigo que também trabalha no hospital, viemos comemorar”
“Não estou pedindo uma explicação” Respondi ácido.
“Mas estou lhe dando. Teria te ligado antes, de verdade”
“Tudo bem. Agora preciso mesmo desligar, está tarde”
“Me diz, como você está?” Cortou-me mais uma vez.
“Estou bem, Peter”
“Também estou sentindo saudades...”
“Eu sei”
“Queria mais do que qualquer coisa estar ai com você”
“Eu sei...” Solucei.
Odiava ser fraco e chorar com facilidade. Odiava me sentir tão indefesso diante de Peter, mas simplesmente não podia controlar. Fazia tão pouco tempo, porém a falta que sentia era tamanha que pareciam anos.
“Não chore, por favor. Me sentirei péssimo por estar longe e não poder te segurar em meus braços”
“Dizendo essas coisas é impossível” Me permiti rir com o que disse. Peter conseguia me desarmar em um piscar de olhos.
“Tudo bem” Me acompanhou no riso. “Volte a dormir, abrace o Dylan e pense em mim” Brincou.
“Prefiro seus beijos do que lambidas dele”
“Te amo, anjo. Tenha bons sonhos”
“Eu também. E volte para casa logo. Não quero imaginar os olhares que está roubando para si nesse lugar”
“Não me importo, apenas se fossem seus”
“Bobo!”
Ele desligou.
Fiquei por minutos olhando para o visor do aparelho tentado em ligar novamente. Controlei-me e acabei me contentando em olhar sua foto em meu papel de parede, assim dormi rápido o encontrando em meus sonhos.
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