Meu Refúgio Em Teus Braços

2 Capítulo II: Ensinamento De Uma Mãe


Notas iniciais
Segundo capítulo!

Passei a metade da noite, sentado no capo de um carro, tomando chuva com uma desconhecida e quando cheguei em casa minha mãe já dormia serenamente como um anjo. Antes que eu acordasse, ela já havia saído para o trabalho.

Coloquei um novo curativo adesivo na testa, comi umas torradas e fui para o colégio bochechando e forçando-me a caminhar. Enquanto eu seguia para o colégio, minha mente estava em um lugar distante. Talvez por trás das olheiras, meu rosto ainda transmitisse alguma felicidade...

Disse a mim mesmo que não estava apaixonado por Sora. Não havia como está apaixonado, pelo menos ainda não. Sora representava para mim o inalcançável. Uma mulher mais velha que faz o que bem entende e nunca entrar em pânico. Sempre acreditei que ao se conhecer mais profundamente uma pessoa toda a magia que a envolvia acabava e o que restava era alguém comum, com Sora parecia acontecer o contrário, quanto mais eu tentava me aproximar e compreendê-la mais misteriosa ela tornava-se.

Afastei a noite passada de meus pensamentos. Eu já não deveria ser tão ingênuo assim... Talvez não tivesse aprendido nada com Diana. Eu já não era a mesma criança inocente que acreditava que o pai estava sempre ausente por ser um super-herói. O mundo real ainda guarda algumas belezas, mas nenhuma magia. Mesmo erguendo meu braço o mais alto que eu puder jamais conseguirei tocar o céu. Sora provavelmente tinha por volta da idade de minha mãe e já era uma mulher com a vida feita. Mesmo se eu tentasse não conseguiria alcançá-la. Ficar pensando nela fazia eu me sentir uma garotinha idiota esperando pelo príncipe encantado, o que não era tão ruim comparado a como me sentir ao ser traído.

Ao entrar no colégio e atravessar os corredores me deparei com Diana, não era a primeira vez que nos víamos um diante do outro nos corredores, entretanto foi a primeira vez que ela falou comigo desde que descobri as traições.

— Sua testa?! Você se machucou? – Ela quase parecia preocupada comigo. Não estava disposto a acreditar em qualquer coisa que ela dissesse.

— Isso importa para você? – Alguém que não se importou em feri meu coração e meu "orgulho masculino" (se bem que eu nunca tive tal coisa) não deveria se importar com um pequeno corte em minha testa.

— Importa sim... Mesmo que não acredite – mais mentiras.

— Então vá dizer isso para os garotos com quem me traía, ou será que você não consegue falar com um pau na boca? – Não pensei antes de falar, muito menos imaginei que me sentiria mal ao ver Diana correndo com lágrimas nos olhos.

"Nunca faça uma garota chorar, não importa como ela seja ou o que tenha feito, nunca faça uma garota chorar." Eu sempre me lembrava dos conselhos de minha mãe nos momentos mais inoportunos. Motivado por esse conselho corri e segurei Diana pelo braço, com cuidado para não machucá-la e firme para ela não se soltar.

— Desculpe pelo que eu disse. – Os papéis se inverteram e eu quem estava me desculpando com a garota que me traiu com metade da escola. – Você não mereceria ouvir aquilo. – Na verdade eu achava que ela merecia ouvir muito mais, só que minha mãe me ensinou a ser sempre gentil com garotas.

Antes que Diana pudesse dizer qualquer coisa, o sinal tocou e me salvou daquela situação desconfortável. Dirigi-me para a sala de aula, sem esperar pela resposta de Diana. Não havia motivos para continua com aquilo. Por sorte agora seria aula do Sr. Ramires o professor que eu menos detestava.

Apenas pouco tempo depois da chegada de todos os alunos o professor Ramires entrou na classe. Era um homem inconfundível, baixo, manco de uma perna e com longos cabelos castanhos. Ele disse que teríamos uma aula diferente hoje. Ele era professor de História e Sociologia, mas apesar disso sempre jogava a matéria de lado e promovia debates sobre os mais diversos temas. Naquele dia, ele escreveu na lousa "Válvula de Escape" e perguntou se alguém conhecia o significado daquilo.

— Válvula de escape não é um cano de esgoto? – Perguntou Breno, um cara que nunca foi com a minha cara, mesmo assim não podia dizer que não gostava dele, diferente dos outros garotos que fingiram serem meus amigos e me apunhalaram pelas costas, ele nem tentou me iludir com uma falsa amizade. Talvez seja o cara mais sincero daquela escola.

— Não estou falando desse tipo de válvula. Mais alguém? – Indagou o professor manco.

— Expressão que designa um modo de escapar de alguma situação turbulenta – Disse um aluno qualquer.

— Você acabou de ler isso no Google que eu sei! Vamos, parece que vocês ainda estão dormindo. Quero que alguém me responda sinceramente. – O professor estava implorando por alguém que pudesse responder aquela questão.

— Válvula de escape é algo que temos para aliviar o estresse e os problemas do dia-a-dia. Pode ser desde um lugar a um passatempo ou... Uma pessoa. – Quem respondeu foi Laura a garota novata.

— Bingo! – exclamou o professor. – Agora, Laura, pode nos dizer qual é a sua válvula de escape?

— Bem... Eu gosto de tocar violão... Principalmente quando estou triste – a garota respondeu timidamente meio que se escondendo por trás dos óculos.

— Você tem cara de quem gosta de se "tocar" e não de quem toca violão. – A piadinha veio de Breno e deixou Laura vermelha como um tomate.

— Você deveria procurar aprender a tratar uma garota melhor. Não vejo ninguém rindo da sua piada – Falei a Breno e o cara não gostou nem um pouco. Não tinha razão para defender a novata, não precisava de razão, tinha dito aquilo apenas por impulso... E por tédio também.

— Eu não sei tratar uma garota?! Olha só quem fala isso, o cara que foi traído com a escola inteira, talvez você quem precise aprender algumas coisinhas. – Houve alguns risinhos. Agora a classe inteira estava esperando pela minha resposta.

— A traição é algo mais vergonhoso para quem traí do que para o traído, mas não espero que alguém feito você entenda isso, afinal... As únicas namoradas que você já teve foram suas próprias mãos. – Não vou menti, eu já tinha essa resposta planejada caso alguém fizesse alguma brincadeira de mau gosto comigo. Não esperava que todos entendessem minha piadinha, mas a julgar pelas risadas da classe eles entenderam e muito.

— O que disse?! – Ele levantou bruscamente da cadeira e foi em minha direção. Quando dei por mim, ele estava me segurado pela gola de minha camisa.

— Hey! Tire essas mãozinhas sujas de mim. Não quero nem pensar os lugares onde elas passaram. – Já essa tirada eu improvisei na hora! Todos riam inclusive o professor Ramires.

— Com essas mãos sujas eu vou socar sua cara! – Ele ergue o punho para me bater.

— Não me importo de apanhar. Você apenas poderia lavar as mãos antes? Só para garanti também podia passar um álcool em gel? – A classe inteira riu. Aquilo era uma palhaçada não uma briga. Pensei que Breno realmente iria me bater, se ele tivesse me batido doeria menos... Lágrimas escorreram por seus olhos e o valentão saiu da sala chorando.

O resto dos alunos gritou e vaiou Breno, após ele sair todos, ou pelo menos a maioria deles deu-me uma salva de palmas. Eu ouvia até os mais tímidos colegas de classe gritando: "Isso aê!", "ensinou uma lição para esse valetão", "Tu tens coragem", "O Breno deve ter ido tocar uma no banheiro!"... Eu me sentia estranhamente mal. Nunca quis humilhar ninguém. Sabia o que era ser o motivo de piadas do colégio e não desejava isso para ninguém... Minha mãe me ensinou a nunca fazer uma garota chorar, entretanto ela nunca disse nada sobre garotos e eu tinha 99% de certeza que Breno era um garoto. Sentei novamente em minha cadeira e fingir que nada daquilo tinha acontecido. Com todos os alunos eufóricos eram difícil me isolar de tudo e esquecer o acontecido, foi quando lembrei que naquela mesma manhã eu já havia pedido desculpas a garota que me traiu com a escola inteira. Se eu me desculpei com ela, não vejo razão para não fazer o mesmo com Breno, motivado por essa lógica barata me levantei e perdi licença ao professor.

— Aonde você vai? – Ele perguntou com um sorriso que denunciava já saber o que eu responderia.

— Me desculpar com o Breno. – Todos da classe ficaram supressos com o que disse até mesmo eu fiquei. O professor Ramires tinha um sorriso com um ar malicioso, não tinha idéia do que se passava em sua mente.

— Laura! – O professor chamou a atenção da garota. – Vá junto dele. Caso os garotos briguem, chame o supervisor. – O que já não era fácil, ficou mais difícil ainda. O professor Ramires só queria ver o circo pegando fogo, manda justamente a Laura só confirmou isso.

Timidamente Laura me acompanhou para fora da sala, enquanto os nossos colegas de classes sussurravam e o Prof. Ramires tentava disfarçar o sorrisinho travesso. Aquilo parecia o tipo de coisa que a Sora faria caso fosse professora. Quem sabe ela e o Ramires não são parentes? Não! Sora nunca seria parente daquele maluco.

— Você vai mesmo se desculpar com Breno? – Perguntou-me Laura. Ela sempre foi para mim apenas uma garota qualquer que parecia tentar se esconder por trás de seus óculos. Agora eu reparava que ela era bela e possuía um longo cabelo negro que mantinha sempre preso em rabo de cavalo e tinha belos olhos verdes.

— Sim. Minha intenção é essa. – Respondi enquanto caminhávamos pelos corredores.

— Por quê? – Perguntou-me novamente.

— Eu também queria saber...

— Não sabe o motivo de querer pedir desculpas?

— Ultimamente estou fazendo muitas coisas sem motivo, talvez seja influência das más companhias com quem ando. – Pensei em Sora ao dizer aquilo. No fundo acho que estava querendo agir igual a ela.

— Você ao menos sabe onde o Breno está? – Conforme aquela garota fazia perguntas menos vontade eu tinha de pedir desculpas para aquele idiota.

— Também não faço idéia. Tem alguma sugestão?

— Hum... Ele estava chorando e as pessoas costumam ir ao banheiro para chorar. – Aquilo era o melhor palpite que tínhamos.

— Ótimo! Então vamos ao banheiro... Isso soou meio estranho, não?

— Não tanto quanto a sua idéia de pedir desculpas ao Breno – ela respondeu com um sorriso.

Já que era o banheiro masculino apenas eu entrei e Laura me esperou do lado de fora. Uma das cabines do banheiro estava fechada e parecia haver alguém chorando nela. Sem pensar duas vezes comecei a me desculpar de frente à cabine:

— Ai... Foi mau por ter dito aquelas coisas na frente de todo mundo. Não acho que você se "toque" nem nada... Eu tava só me defendendo cara...

De dentro da cabine saiu um garoto magricelo que definitivamente não era o Breno. O tal garoto olhou para mim como se eu fosse louco e saiu correndo. Parecia que eu não levava mesmo jeito para me desculpar.

— Ele não tava aqui... Mais alguma idéia de onde ele possa ter ido? – Falei com Laura ao sair do banheiro e ela me respondeu balançando a cabeça em sinal negativo.

Caminhávamos sem rumo pelo pátio da escola. Já tinha desistido de procurar por aquele imbecil. Estava pensando novamente na noite passada e em Sora. Por mais que eu tentasse aquela noite sempre voltava aos meus pensamentos. Enquanto eu viajava em pensamentos Laura ouviu alguns barulhos, como se alguém estivesse socando uma parede. Fomos ver e lá estava ele, com os punhos em carne viva, dando socos e mais socos no muro da escola. Laura olhou horrorizada para aquilo, já eu compreendia bem a situação. É bem mais fácil para alguns enfrentar as frustrações com socos do que com palavras. Caminhei sem medo até o boxeador de paredes.

— Veio Brigar Alex?! – Ele disse ao me aproximar.

— Não e a garota veio para se certificar disso. Vim te pedir desculpas pelo que eu disse. – Como já era esperado ele não pareceu acreditar muito nas minhas intenções.

— Espera mesmo que eu acredite?!

— Não. – Me virei e comecei a andar. Já havia pedido desculpas e aquilo era o bastante para mim, mas aparentemente não para ele.

— Espere! – Breno gritou e eu me virei. – Você não precisava vim se desculpar... Eu também falei coisas desagradáveis a vocês dois...

— Eu já lhe perdoei e com certeza a garota também. Estamos Kits. – Já ia me virando quando ele me falou novamente.

— Não! Eu também quero me desculpar... Com os dois...

Aquilo estava correndo muito bem... Bem até demais pro meu gosto. O que íamos fazer depois? Voltar para sala de mãos dadas saltitando? Mesmo dando certo, não foi uma idéia tão boa ir pedir desculpas.

— Ninguém daqui foi tão legal comigo quanto vocês... Na verdade, ninguém aqui nunca quis ser meu amigo... Ninguém – prosseguiu Breno. Talvez se ele fosse mais sociável é menos imbecil fizesse mais amigos.

— Nós queremos! – Exclamou Laura. Vale notar que ela disse "Nós" sem nem me consultar ou pedi minha opinião.

— Mesmo depois de tudo? – Ele estava supresso e com rosto corado.

— Claro! – Laura respondeu contente e pegou Breno e a mim pelas mãos e nos levou de volta a classe.

Estávamos de mãos dadas, só faltava saltitar. Ao voltamos para a classe, todos se espantaram com a curiosa cena. O professor Ramires nos olhou com aquela cara de dever cumprido. Com certeza eu não tinha previsto nada daquilo, contudo não estava totalmente arrependido. Breno nunca fingir-se de meu amigo o que o tornava bem mais meu amigo que a maioria. Ele também foi um dos poucos garotos a não "fica" com a Diana, embora eu acredite que não foi por falta de vontade dele.

Ao fim das aulas Breno e Laura me convidaram para ir à sorveteria com eles. Como eu não tinha nenhum pouco de vontade de ir, inventei uma desculpa qualquer e eles só acreditaram por acharem que eu estava dando uma de cupido deixando os dois sozinhos.

Voltei para casa e como já era esperado não havia ninguém me esperando. Talvez eu devesse comprar um animalzinho de estimação, infelizmente o condomínio não aceitava animais.

Liguei a Tv e para minha supressa estavam noticiando o assalto de ontem a cafeteria. Na legenda da matéria dizia o seguinte: "Garoto enfrenta assaltante e salva funcionários e clientes de cafeteria!" O gerente da cafeteria deu entrevista logo no jornal mais sensacionalista da cidade. Pelo menos ninguém lá sabia meu nome. Ficaria difícil não ser reconhecido caso eu voltasse naquela cafeteria. Não queria que aquela mentira fosse longe demais. Chega um momento em que a verdade sempre aparece... Como foi com Diana. Talvez por isso passei a detestar mentiras.

Vasculhei algumas roupas antigas até que encontrei um longo casaco com capuz. Pensei que usando aquele casaco com capuz poderia passar despercebido na cafeteria, isso se não achassem que também queria a assaltar.

A curiosidade foi o combustível que me levou de volta aquele lugar. O capuz sequer foi necessário, o gerente não parecia está lá e talvez fosse o dia de folga da garçonete ou ela muito bem podia ter pedido demissão depois daquilo. Pedi uma fatia de bolo de morango e sentei-me sozinho a mesa.

Meus pensamentos voavam sob as nuvens. Eu ainda não estava apaixonado por Sora naquela época, mas a curiosidade que ela me despertava era indiscutível, tal como sua beleza. Estava tão distraído com pensamentos bobos que nem percebi a pessoa que se sentou comigo na mesa. A primeira coisa que notei foi seu sorriso travesso. Bem diante de mim estava a mulher por quem eu me questionava tanto.

— Olá! – Aquela doce e inesperada voz acelerou meu coração. Havia vários outros lugares vazios. Ela se sentou ao meu lado porque queria conversar comigo. O sorriso dela não me deixava esquecer que ela era imprevisível como uma criança longe dos pais.

— O... Oi! Como está? – Tentei não parecer um idiota, infelizmente não sou bom nisso.

— Estou viva ou acha que me pareço com um fantasma? Ou melhor, com um zumbir? – Não esperava que ela já chegasse brincando. Seus olhos azuis pareciam me analisar enquanto ela esperava por uma resposta.

— Acho que zumbis não tem um cheiro tão bom quanto o seu, já fantasmas não sei dizer, nunca vi nenhum. – Ela pareceu satisfeita com a resposta.

— Nunca viu nenhum porque fantasmas não existem. Os mortos não voltam para nos assombrar, apenas as lembranças deles. – No mesmo momento em que ela parecia brincalhona, sua expressão mudava por completo. Era como se ela sorteasse suas emoções ao acaso.

— As lembranças dos vivos também assombram... Pelo menos a mim. – Tentei ser profundo assim como ela.

— E que tipo de lembranças o assombram? Lembranças como as do assaltante de ontem? Lembranças de um fora que levou de uma garota? Ou algum outro tipo? – Não sabia se ela queria me analisar ou se estava zombando de mim. Eu não sabia o que responder então me mantive em silêncio. – Estou só brincando – ela tocou a minha mão demonstrando carinho. – Além do mais você não parece o tipo que uma garota rejeitaria. – Não pude segurar o riso ao lembrando-me de Diana.

— Diga isso a minha ex. Ela me traiu com metade do colégio, traiu não só com beijinhos se é que me entende. – Caímos os dois na gargalhada. Era a primeira vez que eu ria daquele fato.

— Desculpe por rir. Deve ter sido difícil para você. Desculpe mesmo! – Desculpas não eram necessárias. Eu também havia rido e as lembranças de Diana e das traições estranhamente não me machucavam naquele momento.

— Não precisa pedir desculpas. Hoje passei o dia me desculpando sem motivo. Desculpei-me até com essa minha ex.

— Mesmo?! Não importa o que você tenha feito não há como ter sido pior do que ela te fez! – O sorriso de Sora era radiante e contagiante. Seus dentes brancos, seus lábios rosados, Tudo resplandecia aos meus olhos.

— Eu fui grosso com ela e a fiz chorar. Minha mãe me ensinou a nunca fazer uma garota chorar...

— Então você é um garoto obediente a mamãe? Acho que isso não faz seu estilo. – Uma garçonete veio a nossa mesa e anotou o pedido de Sora. Não resistir em contemplar seu rosto enquanto ela falava com a garçonete.

— Realmente não sou tão obediente assim o tempo todo. Quase não vejo minha mãe últimamente qualquer maneira...

— Isso é uma pena... E o seu pai? Ele também lhe ensinou a ser um cavaleiro com as mulheres? – Lembrar do meu pai sempre me machucou, naquele momento a dor da lembrança dele doeu menos.

— Não... Ele tem outra família. O vi apenas uma vez e não foi um encontro nada amigável. – As lembranças daquele dia ainda permaneciam vivas dentro de mim. Por mais que eu quisesse nunca conseguir esquecer o rosto indiferente do meu pai.

— Eu sinto muito. – Sora se inclinou e tocou meu rosto. Seu toque era acolhedor, até mesmo suas longas unhas arranhando minha bochecha sem quere eram acolhedoras a sua maneira.

— Fui eu quem não quis me relacionar com ele, nem com ele, nem com minha avó e meio irmãos. Minha mãe é minha única família. – O sorriso de Sora se desfez. Seus olhos refletiam um ar de compaixão, ou talvez fosse outra coisa, nunca vou saber. Sora era um livro aberto, porém escrito numa língua que eu nunca compreendi.

— Tenho certeza que sua mãe é uma boa mulher. Estou começando a entender porque você dá tanto valor aos seus ensinamentos. – A garçonete trouxe um cappuccino acompanhado a uma torta de maçã.

— Sim ela é... Por isso não conseguir suportar a ideia de viver sem ela. Ano passado minha avó paterna e a esposa do meu pai marcaram um encontro para que eu pudesse conhecer a todos, quis muito recusar, aceitei apenas por insistência de minha mãe. Minha avó me recebeu muito contente no terminal rodoviário. Apenas o corpo dela era velho, seu coração era o de uma criança. A caminho da casa de meu pai de tão ansiosa ela não aguentou e me revelou que já conversará com meu pai, madrasta e meio-irmãos e que todos ficariam contentes caso os visitasse com frequência ou até mesmo morasse com eles por um tempo. Eu já tinha até um quarto na casa deles que minha madrasta e meio-irmãos decoraram. A casa do meu pai era muito grande e bonita. Entrei nela ao lado de minha avó e vi que toda família estava na sala me esperando. Meus dois meio-irmãos estavam brincando no chão, o mais velho deveria ter uns sete anos, ele me olhava admirado enquanto o mais novo continuava a brincar. Minha meia-irmã estava sentada no sofá, ela desviou a atenção do mangá que lia assim que me viu, aquela garota tinha praticamente a minha idade. Minha madrasta sorriu de orelha a orelha ao me vê e disse um sonoro "Bem vindo!" diferente de todo resto o rosto do meu pai era uma muralha de gelo e indiferença. Nunca vou esquecer aquele rosto sério, aqueles longos cabelos grisalhos e seus olhos me encarando como se eu não fosse nada...

Eu nunca tinha me aberto daquela maneira antes. O olhar de Sora era completamente oposto ao de meu pai. Aquele olhar sempre foi indecifrável, mas era quase palpável o carinho e amor que possuía. O olhar de meu pai já era bem mais claro, eu não era bem vindo, os olhos dele me gritavam isso. Tomei forças e prosseguir:

— Minha avó me amaria, ela já me amava antes de me conhece, simplesmente por eu ser seu neto. O garoto de sete anos me veria com admiração, aquele tipo de admiração que os irmãos mais novos têm. Meu outro meio-irmão cresceria me vendo como seu irmão genuíno e não um parente distante. Minha meia-irmã e eu seriamos confidentes um do outro, acredito que teríamos muito que conversar e nossos gostos eram parecidos. A esposa de meu pai era uma mulher bela e gentil, ela tentaria conquistar minha confiança e me trata como se eu fosse seu filho, provavelmente não conseguiria, mas tentaria. E meu pai... Talvez um dia ele me visse com outros olhos. Eu pensei tudo isso e sentir ânsia de vômito. Eles não eram minha família. Mandei todos enfiaram seu amor familiar bem naquele lugar... Minha avó e madrasta choram, acho que minha meio-irmã também, não sei. Só conseguia olhar para o rosto inalterado de meu pai. Não lembro o que me disseram depois. Simplesmente sair de lá sem olhar para trás e voltei para minha mãe, minha verdadeira e única família...

Sora não disse nada, seu olhar e a ausência de seu carismático sorriso diziam mais que mil palavras. Quando eu ia dar mais uma grafada no pedaço de bolo, Sora levantou-se e abraçou-me. Meu rosto foi de encontro aos seus fartos seios e seus braços envolveram meus ombros. Sentir um beijo no topo de minha cabeça. Não sei se despertei o seu instinto materno, se ela sentiu pena de mim ou se compadeci seu coração. Sora sempre foi indecifrável. Os motivos para aquele abraço pouco importava para mim.

Não me sentia triste ao contar para Sora aquele triste acontecimento. Não conseguia ficar deprimido na presença dela. Não existia tristeza ao ser abraçado por ela.

Notas finais
Obrigado por ter lido! Comente se tiver algo a dizer, se não tiver comente mesmo assim.