Meu Raio de Sol

4 Um encontro na ilha Kanon. Parte 2


— Eu quero você Defteros! — Quase não acredito na firmeza das minhas palavras ao deixarem meus lábios, mas a boca fala aquilo que o coração está cheio, não é? E em meu coração residia à certeza que eu o amava e o queria, com todo o meu ser, com todas as minhas forças, e agora dependeria apenas dele aceitar meu amor ou aniquilar de uma vez por todas, minhas esperanças.

Defteros estava estático. Era palpável a desordem emocional em seu interior, eu podia sentir! Eu podia sentir seu corpo retesar em meio à água, podia sentir sua respiração pesada e os batimentos acelerados de seu coração. Eu esperava uma resposta, mas ela não veio, não com palavras...

***

“Já não sou criança há muito tempo Defteros, e o que eu quero é apenas sanar minhas dúvidas e desejos, assim como extinguir os medos que me impedem de alcançar a iluminação. Eu quero você Defteros!”

Eu queria ter certeza que aquilo não fora uma alucinação! Com os olhos muito abertos encarava aquele ser divino parado à beira do lago, era de fato Asmita! Todas as fibras do meu corpo retesaram ao ouvir aquela declaração feita com tamanha segurança, fiquei tão surpreso quanto havia ficado ao constatar que seus belos olhos estavam abertos. Surpreendeu-me sua determinação e ousadia de vir até mim, mas porque ainda me surpreendo? Sempre partiram dele todos os movimentos que nos aproximaram até então.

Foi Asmita que veio a mim na infância.

Foi Asmita que veio a mim como cavaleiro de ouro.

Foi Asmita que veio a mim mesmo depois da morte.

Sempre foi ele! E era ele agora a declarar seu desejo, e a mim caberia apenas dar-lhe uma resposta.

E eu a daria.

Da minha maneira.

Por um milésimo de segundo travei a mandíbula e cerrei os punhos, no instante seguinte soltei lentamente o ar dos pulmões e suavizei a minha expressão facial, enchendo-me de determinação reassumindo minha postura confiante e inabalável que me dera o título de demônio desta ilha. Lentamente deixei o acolhimento das águas e me ergui, caminhando a passos firmes para a margem do lago.

Podia ver as narinas de Asmita dilatadas em busca de mais ar, uma tensão esmagadora preenchia o interior da caverna, mas agora não havia volta para nenhum de nós, Asmita veio a mim e eu o receberia.

***

Em minha mente eu podia visualizar cada detalhe de Defteros: Sua altivez, sua beleza selvagem ao caminhar em sua direção, as gotículas de água que escorregam sem pudor algum pelo peito forte trilhando um caminho sinuoso desviando-se de cada gomo de sua barriga bem definida acabando por desaparecer no cós semiaberto da calça de algodão cru que permitiria a um vidente vislumbrar os escuros pelos púbicos que insistiam em sair pela pequena abertura, bem como o volume delineado do membro ainda adormecido do santo de Gêmeos.

Ergueu meu queixo para poder formular com maior nitidez as expressões da face do homem que amo, ao mesmo tempo em que sentia a minha própria face queimando sobre a mirada quase intimidadora do demônio da ilha Kanon, que por fim parou a poucos centímetros de mim.

Defteros parou bem na minha frente, fitando-me analiticamente sinto minha face esquentando, mas não permitiria que ele lesse o que se passava na minha cabeça. O silêncio entre nós dois me incomodava então reunindo toda coragem que ainda possuía, ousei a quebrar o silêncio:

— Eu quero você Defteros — reafirmei convicto e emendei com o questionamento que sempre assola minha mente. — E você? Quer-me também?

Defteros segurou com firmeza meu queixo, com firmeza sem, entretanto machucar-me.

— Então me quer, criança? — Sua voz soou perigosamente baixa em um ar que flutuava entre o indignado e o divertido.

Sentiu meu peito doer com aquela réplica. Fechei os olhos entristecidos e tentei inútilmente abaixar a cabeça sentindo a esperança esmaecer dentro de mim, mas Defteros me impediu.

— Asmita... — sussurrou rente aos meus lábios. A voz que eu adora ouvir soou desta vez lânguida causando em mim um arrepio gostoso e uma euforia ao perceber a mudança de tom de Defteros.

Abri meus olhos como havia me proposto a fazer, porém por puro reflexo acabei fechando os olhos quando senti em meus lábios o delicado beijo de Defteros. Delicado, porém carregado de desejo, carinho, admiração entre outros mil sentimentos emaranhados, eu pude sentir, antes que a minha mente ficasse nublada de vez por causa do calor dos lábios carnudos a se moverem sinuosos sobre os meus. Ah, eu podia sentir o gostoso aroma de vinho e ervas do campo que caracterizavam Defteros, sentia a pele úmida das grossas mãos acariciava meu rosto e desejei sentir mais.

Levei a mão à nuca de Defteros e aprofundei o beijo invadindo com a língua a boca dele saboreando o contato íntimo, adorando o bailado das línguas enquanto com a outra mão sentia a rigidez dos músculos do peitoral largo do meu amigo mais chegado. E na ânsia de sentir mais de Defteros, interrompi o beijo e me afastei dando dois passos para trás deixando ele confuso.

— Não gostou do beijo?

— Não — sentenciei firme, e logo emendei com um breve riso. — Gostar é muito pouco perto do que senti! Eu amei conhecer o sabor do seu beijo Defteros. Amei tanto que quero mais de você, quero você por inteiro.

— Então porque se afastou de mim?

Talvez meu riso tenha sido petulante, pois senti um pouco de irritação em Defteros.

— Apenas para lhe oferecer aquilo que não posso desfrutar.

Com os olhos abertos na direção de Defteros, me desfiz lentamente do tecido que lhe cobria meu corpo.

Daria qualquer coisa para saber o que se passava na mente dele, pois podia sentir a desordem dentro dele, mas também sentia a emoção crescendo cada vez mais. O que será que você está pensando hein, Defteros?

***

Olhei enternecido, consciente que sendo cego Asmita não poderia enxergar meu corpo nu, mas poderia presentear-me com a visão da própria nudez. banqueteei-me com a visão erótica do belo e austero cavaleiro de virgem revelando aos poucos a pele alva de seu corpo esguio e bem tonificado. Não podia deixar de pensar que Asmita evocava uma imagem tentadoramente pueril e simultaneamente sensual. Sentia-me terrivelmente atraído pelos hipnotizantes olhos que não piscavam, e pelos os delicados lábios avermelhados pareciam implorar para serem novamente beijados, ou pelas mechas de cabelo como fios de puro ouro que desciam sobre o peito imberbe cobrindo parcialmente os mamilos rosados, mechas que Asmita fez questão de jogar para trás dos ombros, se mostrando por completo para mim.

Meus olhos desceram pelo ventre plano até se depararem com a fina penugem que recobria o sexo de Asmita. Surpreendentemente desviei o olhar fazendo Asmita rir.

— Ora, ora. Está envergonhado Defteros?

— Estou apenas surpreso.

— Não gosta do que ver?

— Gosto! E esse é o problema... Por favor, Asmita não me provoque desse jeito, eu posso acabar não resistindo.

— Não precisa resistir. Aliás, eu não quero que resista, eu quero que me tome em teus braços e me ame. Isso é, se essa for tua vontade Defteros, eu quero que tu me tome.

— Eu não sei o que fazer... — reconheci envergonhado, pois em matéria de amor era tão inexperiente quanto o virginiano que tanto desejava.

— Apenas deixe seu corpo te guiar, ele sabe mui bem o que fazer.

— E se eu te machucar?

— Você não vai! — Asmita caminhou novamente para mim e enlaçando meu pescoço tomou meus lábios novamente para si. Correspondi seu beijo com igual vontade e necessidade, agora sentindo meu membro latejando de tanto desejo. Fechei as mãos em torno do quadril estreito de Asmita erguendo-o e apertando-o contra o peito.

Em resposta ele envolveu minha cintura com as pernas se permitindo sentir o calor daquele abraço. Assim caminhamos para mais próximo das cristalinas águas. E com extremo cuidado deitei Asmita sobre a minha túnica, a mesma que tirei antes dele mergulhar no lago. Afastei-me e mais uma vez se maravilhou com a beleza daquele corpo alvo, imaculado, puro.

Jamais tomei um homem para mim.

Jamais tomei ninguém.

Tomaria Asmita, seria um com ele, roubaria sua pureza e daria a minha a ele em troca.

Deixaria que meu instinto me guiasse e então o amaria sem mais dúvidas.