Meu Raio de Sol

3 Um encontro na ilha Kanon. Parte 1


Notas iniciais
Quero deixar um agradecimento especial a Vasilisa Athena Dragomir , pelo carinho de ler comentar e recomendar essa estória. Obrigada petit. Atenção, amores nossos, a partir desse capitulo tem alternância de ponto de vista sempre marcados por ( *** ), então ao ver *** significa que o trecho abaixo será narrado por outra pessoa ou Defteros ou Asmita de forma alternada.

Naquela mesma madrugada, Defteros estava sentado na escadaria quando Kardia pediu passagem.

— Claro que pode passar Kardia, mas o que faz acordado a essa hora?

— Tenho fome e não tenho maçãs em casa e na casa do Deg, só tem aquelas comidas frescas que ele gosta. Vou ao vilarejo e retorno antes do amanhecer para tomar o desjejum ao lado do meu geladinho.

— Kardia, eu vou com você.

— Também quer comprar maçãs frescas?

— Na verdade, quero apenas respirar. Kardia, quando você e Dégel eram apenas amigos, não teve medo de revelar seus sentimentos e perder a amizade dele?

— Mais é claro que eu tive! E olha que perder a amizade do Dég, poderia significar perder a vida! Literalmente... Mas não tê-lo, digo, não ter seu amor significaria me condenar a uma existência fria e vazia, então morrer não era uma opção tão ruim assim...

­— Entendo...

­­— Está apaixonado Defteros?

— Talvez...

­— Não sendo pelo MEU Dégel, pode contar com o meu apoio.

Defteros riu e se levantou sacudindo a poeira das vestes e juntamente com Kardia desapareceram pelos corredores de gêmeos.

Antes do amanhecer, Defteros, já estava naquele que sempre foi seu refúgio, o lugar onde ele se sentia um com a natureza desordenada, furiosa e agressiva. Ele precisava reorganizar os próprios pensamentos e a Ilha Kanon parecia um lugar perfeito para isso.

Quando os primeiros raios de sol surgiram no horizonte, Asmita permitiu abrir lentamente os olhos deixando todo o cosmo contido se esvair de forma calma e ordenada para o imenso jardim. Não queria correr o risco de se descontrolar novamente e com isso acabar por ferir alguém ao mesmo tempo. Estaria de olhos bem abertos quando se encontrasse com Defteros, e só os fecharia caso o seu corpo o desobedecesse.

Foram longos minutos intercalando inspiração e expiração liberando ondas suaves de energia pura e reluzente. Todo o jardim de Virgem parecia reluzir, entrando em pleno equilíbrio com o cosmo de seu cavaleiro.

Asmita enfim levantou-se para travar aquela que seria sua talvez sua mais difícil missão. Sim, ao contrário da vez que precisou se sacrificar para criar o rosário de 108 contas, desta vez sentia um insólito medo, mas não iria recuar. Resoluto, deixou seu templo e rumou em direção de Gêmeos. E ao chegar a seu destino frustrou-se ao encontrar Aspros em vez de Defteros.

— Ele não está. — Aspros respondeu calmo antes mesmo de Asmita o perguntar algo, pois sabia que se o cavaleiro de virgem ainda não havia pedido passagem, era porque esperava para falar com seu melhor e talvez único amigo.

— Eu sei. — Asmita respondeu por instinto já que não havia encontrado rastros do cosmo quente e agitado de Defteros.

— Posso passar?

— Claro Asmita.

Em passos firmes, Virgem atravessou o terceiro templo sem mais nada proferir. Não ousou perguntar onde estava o causador de suas dúvidas, pois se ele não estava em seu templo e não o podia sentir em todo o santuário, Defteros só poderia estar em um lugar.

Defteros havia se despedido de Kardia na rua do comércio local, e agora seguia sozinho para seu antigo lar. Se desfaz das sandálias à beira do rio de magma incandescente, e sem hesitação se pôs a caminhar sobre ele. Andou alguns minutos e logo estava em sua caverna.

O lugar era quente e úmido, assustador a priori. A entrada "decorada" com restos mortais como um tapete de boas vindas se encarregaram de espantar qualquer curioso que por milagre conseguisse chegar até ali, mas no fundo daquele sombrio lugar a natureza dava mostras de como poderia ser surpreendente.

A temperatura diminuía drasticamente a cada passo dado em direção do lago de águas cristalinas, o acúmulo de cristais no fundo do lago dava a impressão que ele era de um azul puríssimo que ganharia ainda mais encanto quando os raios de sol penetrassem pela abertura que um dia fora uma das chaminés de um vulcão extinto.

Como sentia falta daquele lugar! Desde o fim da Guerra Santa ele não se entregava ao prazer de nadar naquelas águas cálidas.

Aquele azul lhe fazia lembrar o azul cristalino dos olhos de Asmita. Como amava aquela cor!

E sem pensar em mais nada senão no desejo de rever aqueles olhos, ainda que fosse em plena fúria de um combate, Defteros se desfez da túnica e saltou sendo prontamente acolhido pelo profundo lago. Relaxado sob as águas rememorar seu primeiro encontro com aquela criança incomum.

***

Creio que ainda que eu o quisesse jamais poderia esquecer aqueles olhos límpidos e inertes. Senti pena, eu confesso. Logo eu que jamais sentiria nada senão mágoa das pessoas, pelo que eu sofri. Sim, eu quis odiar a todos pela infância roubada, pelo abandono sofrido, pelos maus tratos... Ser temido sempre me fez me sentir bem, e eu me fechei, me tornei o demônio que nenhum mortal poderia ferir novamente, ainda que... Que o meu coração teimoso insistiu que eu deveria me abrir com alguém além do Aspros, e que esse alguém poderia ser aquela criança teimosa.

Sei que trago um sorriso tolo nos lábios agora, entretanto nada posso fazer se pensar nele sempre me deixa assim...

Sempre o admirei e não nego, o admiro desde o dia que ele me confrontou antes de explorar meu rosto com suas delicadas mãozinhas. Admiro o sorriso franco e até levemente petulante que ele dá quando sabe que está certo. Admiro a sua determinação e às vezes mesmo a sua teimosia, assim como seu jeito confiante e paciente e acima de tudo a admiro sua fidelidade. Asmita sempre foi meu amigo mais fiel, a criança que me alegrava os dias e que agora me confunde com os sentimentos.

Não, eu sei o que sinto! Mas temo a rejeição. Logo eu que sempre fui rejeitado...

Sei que não sou de fato o monstro que eu criei, eu fiz com que todos acreditassem que eu era. O fato é que quando se é preciso crescer distante de tudo e de todos, acabamos criando uma imagem agressiva para afastar as pessoas! Assim ninguém me machucaria novamente, meu verdadeiro eu, poderia ficar protegido oculto nas sombras, “o problema é que Asmita é como um raio de sol” penso admirando os teimosos raios luminosos que começam a penetrar a abertura no alto da caverna intensificando o brilho azulado do lago. Ele insiste em querer passar pelas frestas da minha fachada e iluminar meu interior...

Cansado apenas respiro fundo e mergulho novamente de deixando acolher pelas águas cálidas.

***

Depois de deixar o Santuário, não foi difícil para Asmita presumir para onde Defteros teria ido tão cedo, e guiado como que por uma força que o atraía, ele logo se viu caminhando pelo solo acidentado a selvagem Ilha Kanon.

Sorriu pensando em quantas vezes já havia percorrido aquela trilha. Sabia muito bem aonde precisava ir. Caminhou sobre a lava, amando sentir nela uma fúria conhecida e até acolhedora. A falta de visão lhe poupava de contemplar a horripilante entrada da caverna, mas não o privava de sentir cada vez mais próximo o cosmo de seu demônio particular.

Ironicamente o temido demônio da ilha Kanon, era o ser mais divino que o homem mais próximo de deus conhecia. Puro em toda sua maneira de ser e agir, puro como a natureza que se fundia a ele quando sua voz acalmava não apenas o vulcão, mais a ilha como todo. E curiosamente ninguém era capaz de ver isso naquele imponente ser. Asmita dava graças ao fato de nascer cego, pois sabia que quando se cresce excluído de tudo e por todos, por nascer na escuridão, se aprende a ver o que os olhos não são capazes de enxergar. Asmita via que na sua aparente escuridão Defteros tinha a luz de um sol inteiro, e que seria a luz de Defteros que iluminaria os dias sombrios em seu interior.

No fundo do lago, Defteros sentiu o coração acelerado. Ainda que o sentisse suave, conhecia aquele cosmo, aquele só poderia ser...

... Asmita!

Emergiu inseguro e curioso para saber o que o cavaleiro de virgem fazia àquela hora da manhã em sua caverna, e ao alcançar a superfície se deparou com os cristalinos olhos azuis abertos lhe fitando como quem o via. Asmita sorriu ladinho, e então retomando a serenidade falou com voz firme e segura.

— Olá Defteros, estava a sua procura.

***

Não pude evitar rir. Não o enxergava, e nem precisava, conhecia Defteros muito bem para saber como ele estava. Com meu cosmo, visualizei cada detalhe daquela visão magnífica, sei que é difícil explicar para um vidente como a imagem se forma em minha mente, mas era como se cada partícula do cosmo de Defteros se convertesse em um pontinho luminoso, e assim eu via o torso forte, desnudo e molhado. Os cabelos longos colados na face e nas costas largas, os olhos arregalados com a surpresa e os lábios grossos entreabertos em busca de ar.

A palavra para aquela imagem de pura luz em minha mente era: Pecado! Meu pecado, meu demônio.

Enfim ouvi sua imponente voz ressoar no interior da caverna.

— Pois bem, estou aqui, o que deseja de mim, criança? — ele perguntou no mesmo tom que usou na primeira vez que nos vimos.

— Já não sou criança há muito tempo, Defteros, e o que eu quero é apenas sanar minhas dúvidas e desejos, assim como extinguir os medos que me impedem de alcançar a iluminação. — Reparei que ele ainda não era capaz de me compreender. Então me fiz ainda mais claro: — Eu quero você Defteros!