Meu Raio de Sol

1 Sentimentos quase ocultos.


Notas iniciais
Fic feita para presentear uma leitora especial.

Aquela manhã estava especialmente bela, o sol iluminava as ruínas do Santuário, e o aroma floral agregava perfume a suave brisa. Depois de superarem os desafios impostos pelos travessos deuses do tempo, da trapaça, do vinho e da sedução, a normalidade parecia reinar outra vez no Santuário. Os cavaleiros e aspirantes enfim podiam retomar as obras de restauração dos templos destruídos parcialmente na Guerra Santa, obra esta, que estava em curso antes que Kairós e Loki decidiram pregar uma peça nos santos de Atena e com a ajuda de Ariadne e Eron, colocassem todo o cronograma a perder. Mas agora tudo parecia ter voltado ao estado anterior à bagunça dos deuses.

Naquela manhã em especial, Asmita decidiu trocar a paz de seu templo pelo contato revigorante com a natureza, optando por meditar a sombra de uma oliveira. A brisa suave sacudia os longos fios dourados, o cheiro dos campos floridos superava qualquer essência aromática de seus incensos, a harmonia e o equilíbrio com a mãe terra devolvia ao coração conturbado e cheio de dúvidas um pouco de paz. Contudo era hora de voltar. Por ele ficaria a meditar até o pôr do sol, mas tinha outros afazeres, precisava retornar, por mais que não quisesse passar por certa casa zodiacal naquele instante.

Por sorte a casa de Touro, assim Áries como estava vazia, por certo seus guardiões deveriam estar na arena coordenando as reformas. Asmita pedia a Buda que os cavaleiros da terceira casa também estivessem ocupados dessa missão, assim ele poderia chegara a sua casa sem ter que encarar o causador de suas atuais dúvidas e incertezas...

Porém Buda parecia ignorar suas orações, pois estavam ambos os cavaleiros de gêmeos em seu templo, e não estavam sozinhos, podia sentir outros dois cosmos poderosos e agressivos no interior da casa de gêmeos.

O correto seria elevar o seu cosmo e pedir permissão para passar, mas inconscientemente ele fez o oposto e suprimiu totalmente o seu cosmo deixando sua presença imperceptível para os outros cavaleiros. Subiu sorrateiramente as escadas parando a poucos metros do portão de acesso da parte residencial da casa de gêmeos, onde pôde enfim reconhecer os outros dois cavaleiros e ouvir plenamente a conversa entre amigos.

— E eu que pensei que beijar a “Rosa do futuro” foi excitante — Manigold comentou após ouvir Kardia relatar como foi seu beijo com Milo de escorpião.

— De fato foi excitante, mas eu ainda não superei a covardia do Dégel em me abandonar naquele lugar para beijar o outro cubo de gelo!

— Pelo pouco que eu vi, deve ter sido delicioso ver os dois cavaleiros de aquário se pegando, se bem que eles são até parecidos, deveria ser como assistir dois irmãos se beijando! — Manigold retrucou de forma desavergonhada e cômica — por falar em irmão, conta aí Aspros como foi o seu beijo no Salão do Altar?

Aspros se endireitou no divã, respirou fundo e disparou sem muitas cerimônias.

— Nós combinamos o que faríamos, mas cada um tentou passar a perna no outro e acabamos caindo em uma arena onde enfrentamos os tais cavaleiros negros — ele rui se lembrando do episódio — e então depois de vencer o desafio de Ariadne, adentramos ao salão do altar, o Kanon me falou que gostou de me conhecer, eu disse que também havia gostado dele, até sugeri que ele aprendesse a usar a distorção espaço-temporal para nos visitar de volta e meia.

— E isso é possível? Eles nos visitar!?! — perguntou Kardia de forma exagerada.

— Que foi escorpião? Tá com medo do outro cubo de gelo voltar e levar o seu gelinho como ele? — alfinetou Manigold aos risos.

— O Milo que ouse deixar o cubo de gelo dele dando sopa e vir para o meu território! Eu fico com os dois sem problemas, mas o meu geladinho não vai sair nunca mais de perto de mim.

— Dá pra deixarem o Aspros terminar a história? — Defteros interrompeu os amigos, também muito curioso para saber como foi o beijo que o irmão deu, mas que não contou ainda nem para ele como havia sido.

— Continuando, eu disse ao Kanon que preferia uma bela dama a um marmanjo, e ele me perguntou se eu “não gostava da fruta”, eu disse que nunca havia beijado outro homem, aí ele me falou que havia coisas que só um igual poderia me oferecer. E então me aconselhou a ficar com o Defteros.

Kardia e Manigold caíram na gargalhada, enquanto Defteros constrangido enrubesceu levemente já que sua pele amorenada impedia que a vergonha ficasse tão patente no rosto.

Encostado na parede, Asmita franziu o cenho não gostando nada da hipótese dos dois cavaleiros de gêmeos estarem vivendo um incesto fraternal.

— Eaê Aspros, gostou da ideia?

— Claro que não, né Kardia!? Onde já se viu? Ele é meu irmão! Já basta o Kanon para tomar por amante o Saga.

— Pera aê, os gêmeos são amantes?

— Sim, Mani eles são, não é bizarro?

— Nem tanto — disse Kardia divertido.

— Mais é um pervertido mesmo! — Defteros retomando a calma alfinetou o cavaleiro de escorpião.

— Um pouco de perversão nunca fez mal a ninguém! Continua Aspros, tá ficando interessante...

— O Kanon disse que deveríamos dar uma oferta digna do deus do prazer e dos bacanais então ele me abraçou e me fez sentar sobre o altar, se posicionou entre as minhas pernas, segurou firme os meus cabelos e começou a beijar e sugar o meu pescoço. Eu confesso que nunca havia sentido desejo por outro homem, mas quando ele me beijou, quando a sua língua dançou com a minha e corpo dele se insinuava sobre o meu eu quase fui à loucura de tanta vontade de me render ao prazer naquele altar. — Mordeu os lábios e apertou discretamente o membro por cima da túnica que vestia. A memória dos momentos com o cavaleiro de gêmeos do século XX ainda lhe trazia “boas recordações”.

— E isso porque não “gosta da fruta” — debochou Manigold.

— E não gosto, mas abriria uma exceção para aquele louco do Kanon.

— Sua vez, Defteros. — Kardia olhou com um olhar felino para o outro cavaleiro de gêmeos que estava um pouco mais retraído que os demais. — Diga, como foi o beijo com o irmão do Kanon?

Asmita sentiu o estômago revirar ante a eminência de ouvir o relato de sua secreta paixão. Desejou sair correndo dali, mas suas pernas não lhe obedeceram e assim ele ficou ali mesmo, paralisado a ouvir a conversa alheia.

— Bem, foi um beijo normal. — disse antes de levar uma taça de vinho à boca tentando se esquivar de ter que relatar tudo que lhe acontecera no salão do altar.

— Ora, não tente fugir, Defteros! — Kardia estreitou os olhos perigosamente para o gêmeo caçula — Queremos detalhes, todos nós contamos com detalhes e agora é a sua vez.

Vencido e achando por bem evitar dar margem aos pensamentos das mentes maldosas de Kardia e Manigold, Defteros começou seu relato para o desespero de Asmita que havia gostado, e muito, da resposta anterior do geminiano.

— Foi estranho, mas confesso que foi melhor do que imaginei que seria. Primeiro tivemos que superar a provação do salão e para falar a verdade eu quase caí no truque de Ariadne, mas optei por manter a minha palavra e saímos do salão sem precisar lutar.

— Mas e o beijo? — insistiu Manigold.

— Bem eu perguntei se tinha mesmo que beijar o Saga, e que era estranho beijar alguém que me lembrava tanto do Aspros. Foi aí que ele me disse que não via mal algum nisso, e me contou que eles eram um casal, que ele amava o irmão de todas as formas possíveis e imagináveis.

— Que péssimo gosto. — Aspros comentou divertido, imaginando que não teria coragem de ficar Defteros.

— Foi o que eu disse para o Saga, mas depois disse que não o julgava, pois o amor em si é estranho...

— Você ama alguém Defteros? — Kardia perguntou para a surpresa dos demais e desespero do geminiano.

— Talvez, eu gosto de uma pessoa. Mas não se preocupe, Kardia, não é você. — falou forçadamente divertido para desviar a atenção dos demais.

— Nem vem, a mim já me basta o Dégel! Além do mais, só abriria exceção para aquarianos.

— Cala a boca Kardia, deixa ele continuar.

— Confesso sem nenhum pudor, que foi o Saga quem tomou a iniciativa. Foi muito bom quando ele me abraçou e tomou minha boca em um beijo tão quente e cheio de malícia, que me deixou excitado na hora e... Ahhhh!

Antes que Defteros pudesse continuar o relato, os quatro cavaleiros foram atingidos por uma onda estrondosa de energia similar ao abrir de olhos de Shaka.

Era Asmita que não conseguiu se conter após ouvir a introdução do relato de Defteros.

— Mas que diabos foi isso!? — Manigold perguntou já se erguendo do chão.

— Mas esse cosmo poderoso só pode ser... — Aspros tentou articular as ideias quando avistou o jovem virginiano parado na porta.

— ASMITA!!! — Todos os cavaleiros falaram uníssonos devido a surpresa de ver o protetor do sexto templo de olhos abertos mirando o nada no interior do templo de gêmeos.

— Acaso está tentando nos matar?!? — perguntou Kardia enfurecido já com sua agulha escarlate pronta para uso.

— Me perdoem por isso, não foi a minha intenção, mesmo cego eu não devo abrir os olhos assim de forma brusca, mas acabei abrindo involuntariamente quando iria pedir permissão para passar. A propósito, posso passar?

— Eu deveria deixá-lo aqui até que arrumasse toda essa bagunça, mas seria perda de tempo, pode passar. — Aspros respondeu irritado.

— Obrigado.

Mesmo cego, os olhos azuis da Asmita eram límpidos e encantadores, inconscientemente a beleza daqueles olhos chamou a atenção dos quatro cavaleiros que se levantavam do chão e poucas vezes tinham o privilégio de ver os orbes azulados de Virgem expostos fora de um combate. No entanto, apenas Defteros notou a sombra de tristeza no olhar de Asmita. Será que ele estava assim por causa do que ele acabara de dizer? O geminiano caçula pensou temeroso, bobagem! Porque ele se irritaria com um relato de uma experiência que TODOS os cavaleiros tiveram no altar de Baco? Todos menos ele...

Asmita passou pelos companheiros e direcionou o olhar perdido para Defteros com o quem respondia a pergunta que o geminiano fazia apenas para si mesmo.

— É, depois dessa eu vou para casa — Manigold passava a mão nos cabelos bagunçados rindo do estranho ocorrido.

— Eu também — Kardia menos divertido que o canceriano aproveitou a deixa para também voltar para casa.

Os dois cavaleiros deixaram a casa de gêmeos deixando para trás os dois irmãos que tentavam arrumar a sala parcialmente destruída.

— Aspros, você já amou alguém?

— Fora você não, por quê?

— Nada...

O geminiano mais velho, mesmo percebendo que havia muito mais naquela pergunta simples, decidiu dar espaço para o caçula organizar seus próprios pensamentos.

No interior do sexto templo, Asmita andava impaciente de um lado para o outro na sala de meditação. Não entendia o porquê do seu descontrole, não entendia porque simplesmente não pediu para passar em vez de bisbilhotar a conversa dos gêmeos, não entendia porque sentia tanta raiva de Defteros... Ora, era sabido por todos que para saírem do salão deveriam dar um beijo no cavaleiro que estava consigo no labirinto. Ele, porém optou por não entrar, não por cego, mas porque simplesmente estava guardando toda a sua pureza para quando pudesse amar e ser amado verdadeiramente, mas era consciente que tal atitude, principalmente de um varão, era rara, mas ele preferiu se guardar, e saber que aquele a quem sempre amou sentiu prazer ao beijar outro alguém o magoou de verdade.

Grossas lágrimas formaram um filete translúcido que corria livre pela face angelical do cavaleiro de virgem, Chorar não fazia o feitio de Asmita, desde pequeno ele nunca chorava, sempre preferiu esvaziar a mente e o espírito com meditação e jejum, pois acredita que para ser forte deveria superar a dor, deveria superar a dúvida, deveria abrir mão das coisas mundanas e renunciar a si mesmo para alcançar a iluminação.

Mas como abrir mão daquele sentimento?

Triste e com o sabor amargo da vergonha na boca, ele se lançou no tapete aos pés do seu pequeno altar e chorou como não chorava há anos e adormeceu embalado pelas lembranças de um dia quente onde o sol provavelmente brilhava no céu.