“Triste e com o sabor amargo da vergonha na boca, Asmita se lançou no tapete aos pés do seu pequeno altar e chorou como não chorava há anos e adormeceu embalado pelas lembranças de um dia quente onde o sol provavelmente brilhava no céu.”

Era apenas um garotinho quando ouvira dizer que na ilha Kanon havia um demônio. Ele nunca vira um demônio, nunca vira nada, pois nascera na total escuridão, mas sempre ouviu dizer que os demônios eram seres das trevas, seres da escuridão, mesmo ensinado no caminho que o levaria a iluminação, conhecer algo que desconhecia a luz lhe causava grande empatia.

Foi custoso vencer o terreno acidentado, as pessoas que tentavam lhe convencer a não seguir em frente e o medo que começava a brotar em seu pequeno coração.

Todos os pelos do seu corpo arrepiaram ao ouvir o rugido do demônio, que conseguia dominar o vulcão, não, dominar a ilha como um todo!

— O que faz aqui criança? Está perdido? Ou por acaso foi deixado aqui para ser devorado?

Seus olhinhos estavam abertos, assim como sua boca, mas ele não via nada e som algum sai de sua garganta.

— Hein criança, o que faz aqui? Quer ser devorado?

O cheiro era forte, mas não era o cheiro de morte, era uma mistura de ervas do campo, vinho e suor. O coração acelerava a cada passo que o demônio dava em sua direção, mas ele não conseguia se mover. A respiração ficou suspensa quando percebeu que o demônio havia se agachado e agora estava a centímetros de seu rosto, mas diferente do que acontecia com as outras crianças da região quando acidentalmente iam parar na ilha Kanon, Asmita não gritou e saiu correndo, antes levou as mãozinhas ao rosto da criatura que desejava conhecer.

Defteros estancou com aquela atitude inesperada. O loirinho tocou sua face lentamente explorando cada detalhe, foi aí que ele pode notar algo que passou despercebido, os olhos do garoto tremulavam, mas não tinham foco definido, eram translúcidos e belos, mas as pupilas estavam estáticas, aquele garotinho era cego, e talvez por essa razão, não fugiu.

Sentiu pena.

— Não precisa sentir pena de mim, eu já estou acostumado com a escuridão. — a criança falou incrivelmente firme na percepção do geminiano.

— E quem disse que eu estou com pena de você moleque?

— Seu espírito. Ele se entristeceu.

Defteros o afastou bruscamente fazendo Asmita se desequilibrar e cair.

— Vá embora, aqui não é lugar para você!

Mas ao contrário do ordenado, Asmita se levantou e seguiu Defteros até que ele passou a caminhar sobre a lava. Asmita não pode segui-lo, mas havia gostado daquele ser.

Resignado voltou para o vilarejo. Resignado, mas não insatisfeito. Em seu coraçãozinho determinou que não se daria por vencido, conquistaria aquela criatura indócil ou não se chamava Asmita.

Na manhã seguinte estava lá novamente, mas dessa vez com uma pequena porção de frutas e um doce para oferecer ao demônio.

Defteros estava disposto a ignorar o pequeno, mas Asmita era determinado e paciente. Vendo que não poderia se livrar do pequeno facilmente, Defteros aceitou sua companhia.

Todos os dias Asmita ia visitá-lo, levava frutas, doces, castanhas, tudo para agradar, e a contragosto Defteros passou a retribuir os presentes, embora quisesse negar, o pequeno alegrava os seus dias solitários, e assim foi por dois meses até que um dia ele falhou. Naquela manhã, Defteros esperou por horas, mas Amista, não apareceu, na manhã seguinte também não, e assim, dia após dia, o menino cego não aparecia mais nos arredores do vulcão.

Passaram-se quatro anos até que eles se reencontrassem naquela ilha. O garotinho agora era um belo rapaz, mas ainda conservava a face angelical, os cabelos estavam consideravelmente maiores, mas algo havia mudado drasticamente: o cosmo.

Defteros o reconheceu de pronto e ficou surpreso como aquele garoto havia crescido e se tornado poderoso.

— O que faz aqui criança? Aqui não é seu lugar!

— E nem o seu! E eu já não sou mais uma criança. Sou um Cavaleiro de Ouro, assim como o seu irmão.

— Mas como??? Como sabe?

— Seu cosmo e o dele são parecidos. Ele é o cavaleiro de Gêmeos, não é?

Defteros não respondeu, apenas saiu dando as costas a Asmita e caminhando por sobre a lava, mas diferente da primeira vez, Asmita o seguiu e lhe alcançou. Agora ambos estavam caminhando sobre a lava.

— Sabe, Defteros eu gosto da sua companhia, apesar de você ser tão arredio! E mesmo que você não queira, eu nunca mais vou te deixar sozinho, seremos amigos para sempre.

E ele manteve sua promessa, mesmo depois de morto ainda visitava Defteros e nunca o deixou sozinho, porém o que iniciou como uma amizade pura, empatia, admiração e respeito aos poucos foi se transformando em um sentimento novo, que minava a racionalidade e lhe tirava a paz.

Mesmo consciente de seus sentimentos, Asmita jamais contaria nada ao amigo, pois temia perder o pouco que havia conquistado...

Sem sono e perturbado pelo estranho acontecimento na casa de gêmeos, Defteros estava sentado sozinho na escadaria frontal do terceiro templo quando avistou Shion que vinha alegre e perfumado para lhe pedir passagem.

— Boa noite Defteros, posso passar?

— Claro.

Shion passou por ele, mas percebendo a oscilação do cosmo retrocedeu o passo e olhou bem para a face do geminiano.

— Está tudo bem com você?

— E porque não estaria?

— Não sei, seu cosmo está estranho, perturbado, triste até. Ah, algo que eu possa fazer por você meu amigo?

— Na verdade, há. Shion, como você descobriu que gostava do Dohko? Como vocês começaram a se relacionar?

Shion estranhou aquelas perguntas, mas se limitou a responder sem questionar as motivações de Defteros para fazê-las.

— Bem desde que eu cheguei ao santuário para me tornar um cavaleiro eu tinha um futuro traçado e ele incluía retornar a Jamiel, encontrar uma boa moça lemuriana e me casar para garantir a sobrevivência de nossa raça, mas aí eu conheci o Dohko e me encantei com sua determinação, seu jeito extrovertido de ser, sua sabedoria e senso de justiça. Eu não sei te explicar quando eu comecei a olhar para ele de forma diferente, mas quando eu percebi era tarde, eu pensava dia e noite no meu melhor amigo e isso me tirava à paz. — suspirou lembrando como fora difícil aceitar tal sentimento.

— Eu tentei ser só amigo, eu juro que tentei, mas cada dia tão perto e tão distante eu sofria, eu lutava contra meus desejos, eu me perdia, entende?

Defteros assentiu com a cabeça e continuou a ouvir o relato sem interferir.

— Certo dia na volta de uma missão, estávamos muito sujos e feridos quando o Dohko teve a brilhante ideia de nos lavarmos no rio antes de nos apresentarmos no santuário. Eu quase perdi o fôlego quando ele ficou nu na minha frente e entrou na água e ficou me chamando para entrar também, eu estava envergonhado, eu jamais havia me despido diante de alguém e ter que fazer isso logo na frente dele me constrangia em dobro, mas quando eu decidir entrar na água de tão nervoso acabei escorregando e caindo nos braços do Dohko.

Defteros não aguentou e começou a rir deixando Shion levemente envergonhado.

— Eu sei que é ridículo. Ele me amparou e ficamos ali, nus sentindo o calor do corpo um do outro e eu sabia que ele apenas tentou me ajudar, mas eu não resistir e me apossei dos lábios dele e os tomei em um beijo... — um sorriso bobo e apaixonado brotou nos lábios do cavaleiro de Áries.

— Você pode imaginar como terminou nossa tarde, não pode?

— Posso sim, mas eu sempre acreditei que o encontro de vocês fosse mais romântico... Não me leve a mal, só que a história de vocês teve um início cômico. — ele riu e fez sinal de rendição com as mãos.

— Não importa como uma história de amor começa, o que importa é que ela nunca termine. E a propósito, o Asmita também nutre sentimentos por você.

Defteros arregalou os olhos de surpresa. — Como sabe que Asmita nutre sentimentos por mim? — ousou perguntar entre surpreso e tímido.

— Porque mesmo sem enxergar o cosmo dele brilha quando olha em sua direção, assim como o seu quando o ver ou ouve alguém falar nele.

Defteros não sabia se se sentia feliz ou irritado. Saga percebera, Shion também, quantos mais teriam notado seus sentimentos pelo cavaleiro de virgem?

— Bem eu vou indo agora, espero que tenha lhe ajudado de algum modo meu amigo.

— Ajudou, eu acho, obrigado.

Defteros ainda ficou por algumas horas ruminando seus pensamentos, e agora com uma informaçãos extra que deixava ainda mais perturbado. Seria mesmo que Asmita nutria sentimentos para consigo? E se fosse quais sentimentos seriam esses? Amizade? Companheirismo? Ou... Amor... Mas a semente estava plantada, saber que Shion passou pela negação, dúvidas e confusão até aceitar seus sentimentos por Dohko o ajudou a entender que o que se passava com ele não era algo tão incomum assim, todavia, ele ainda estava inquieto e confuso e por isso resolveu se recolher no interior de seu templo e de lá não saiu mais nos dias que se seguiram.

Outro que se recusava a sair de seu templo era Asmita, envergonhado por não conseguir conter seu cosmo e suas emoções diante dos companheiros de armas, irritado por não conseguir para de pensar no relato de Defteros, propriamente no beijo que ele dera em Saga, e mais ainda irritado por não conseguir tirar Defteros da cabeça, pela comprovação que sentia ciúmes... Sim ciúmes, esse era o sentimento que assolava o pobre virginiano, mas já havia se passado dias e era hora de retomar sua vida, afinal nunca fora covarde não haveria de ser logo agora.

Dúvidas... Negação... Meditação... Reflexão... E mais dúvidas.

Era hora de pôr um fim naquele ciclo que lhe impedia de ter paz. E para isso deveria aceitar seus sentimentos e acabar com os segredos.

Nos jardins no fundo da casa de virgem Asmita sentia o vento gélido da madrugada abraça-lo, resoluto sentou-se em lotos para meditar e acalmar seu coração até o amanhecer e assim que sentisse o sol surgindo no horizonte iria pôr um fim nas suas dúvidas.

Poderia até perder a amizade de Defteros, mas estaria outra vez em paz consigo mesmo.