Meu Querido Padrasto
11 Divórcio
Notas iniciais

Lembrei-me dos dias ensolarados em que minha mãe me trazia café quentinho na cama e me acordava com um beijo na testa. Lembrei-me de quando era verão e íamos na praia com meu pai. O dia passava tão rápido que eu ficava sempre com o sentimento de querer mais. Suspiro e olho para o homem dormindo ao meu lado. Ele parece um anjo com seus cabelos loiros bagunçados e sua pele rosada. Eu não consigo evitar a sensação de me sentir culpada por destruir o casamento de minha mãe. Não consigo evitar de me sentir triste por tê-la decepcionado.
Fecho os olhos e a imagem do meu pai vem em minha mente. Ele costumava dizer que eu não deveria evitar e me sentir culpada por algo que me faz feliz. Queria que minha mãe entendesse isso tanto quanto ele entenderia. Sinto um toque suave em minha perna e abro os olhos, me deparando com o homem de olhos abertos, sorrindo para mim.
— Não deveria dormir sentada! — Brinca, arrancando-me um sorriso travesso. — Quero acordar todos os dias ao seu assim. Dessa maneira!
— O que? Comigo sentada?
Ele me puxa para cima dele e me abraça. — Não! Contigo ao meu lado, dentro dos meus braços, sentindo seu cheiro e tendo a visão do seu rosto.
— Não pretendo fugir. — Brinco e ele beija o topo da minha cabeça.
— No que estava pensando? — Pergunta.
— Ainda não me acostumei com a ideia de que minha mãe me odeia e torce para minha infelicidade. — Respondo e ele suspira me soltando e se levantando.
— Acho que a partir de hoje, ela odiará mais ainda nós dois. — Diz se pondo de pé e vestindo uma calça moletom que está jogada no chão.
— Porque?
— Darei entrada no divórcio. Provavelmente ela receberá a intimação. — Respiro fundo e passo a mão pelos cabelos.
— Eu me sinto encurralada. — Resmungo e ele me olha preocupado. — De um lado quero viver feliz ao seu lado e do outro me sinto um monstro em ter feito isso com minha mãe.
Ele se senta na cama e acaricia meu cabelo. — Meu amor! — Diz me puxando para um abraço. — Isso vai passar, te prometo!
— Não acha melhor esperar um pouco? – Digo e ele se afasta me olhando pasmo. — Sei lá, pensar direito pra não se...
— Arrepender? – Corta-me. — Eu não tenho motivo nenhum pra me arrepender, tenho certeza do que quero. Porque? Você quer desistir?
Arregalo os olhos. — Não. Eu... – Bufo. — Eu só não quero perder minha mãe. – Meus olhos marejam. — Ela é a única pessoa que tenho na vida.
— Isso não é verdade. Você tem a mim!
— Eu sei. Mas ela é minha mãe, sabe?! – Ele assente. — Eu já perdi meu pai, não quero perder ela também. – Uma lágrima escorre dos meus olhos. — Queria que ela fosse como ele, que não media esforços para correr atrás da felicidade e que me entendia até do avesso.
— Ela não é, mais você pode ser. – Chris diz atraindo minha atenção. — Seja forte como ele e corra atrás de sua felicidade.
Fungo e sorrio. — Quando ele era vivo, eu costumava chegar em casa, andava até o quarto dele, abria a porta e me deitava ao seu lado na cama... – Choro . — Eu sussurrava um preciso de você! E ele abria os olhos, sorria pra mim e respondia estou aqui, o que houve? – Meu coração aperta. — No dia que ele morreu, eu entrei no quarto, me deitei na cama dele e repeti a mesma coisa, mais nesse dia, ele não abriu os olhos, não sorriu e não me respondeu. – Chris me abraça forte. — Minha mãe entrou no quarto e disse eu estou aqui para você agora! E foi ai que eu percebi que ela sempre esteve ali, mesmo quando eu sussurrava somente pra ele, ela estava por de trás da porta ou de coração.
— Eu lamento muito!
— Eu também. – Choro. — Éramos unidas até o dia que ela decidiu de casar contigo. – Ele me afasta e me olha triste.
— Eu sinto muito que esteja passando por isso, mas, como acha que me sinto vendo todos sofrerem com isso? – Diz me pegando de surpresa. Eu nunca parei pra pensar nisso. — Lauren, eu não escolhi te conhecer e me apaixonar. Porém, também não me arrependo e nem me culpo disso. Porque se Deus te colocou na minha vida é por que é o certo e estou disposto a tudo pra ficar contigo. – Sorrio. — Sei que passaremos por tempestades, sofrimentos e muitas desavenças da vida, mais quero lutar por ti. Só não posso fazer isso sozinho!
Eu observo suas feições enquanto fala e eu sinto como se o peso do meu corpo esvaziasse. Sinto que posso tudo quando estou com ele. Ele me olha desesperado e eu apenas pego sua nuca, puxando-o para um beijo urgente.
***
Sem coragem de encarar o mundo, eu permaneço em casa enquanto Chris sai para resolver suas coisas e trabalhar. Ando pelo apartamento enorme, procurando conhecer melhor meu mais novo lar. Abro uma porta e adentro um espaço que considero como seu escritório, Há fotografias de motos pelas paredes, uma mesa grande no centro e várias estantes de livros. Analiso as capas de alguns e procuro por algo que atraia minha atenção. Um livro em si, chama minha atenção. Ligados pelo amor!
O som da campainha soa alto na casa, impedindo-me de lê-lo. Caminho vagarosamente pelo chão gelado até a porta de entrada e abro a mesma. — Olá!
— Dom? — Ofego. Eu não o vejo desde que o deixei e fui atrás do seu irmão. — O que faz aqui? — Resmungo e olho para baixo. — E com uma mala?
— Posso entrar?
Pisco. — Claro. — Lhe dou passagem. Ele adentra o apartamento, arrastando sua mala pela sala e se aproxima do sofá, sentando-se logo em seguida. Fecho a porta e me junto a ele. — Está tudo bem?
— Sim. — Respondo me olhando fixamente. — Eu vim me despedir, Lauren! — Arregalo os olhos. — Chris não te falou, não é? — Dou de ombros. — Eu aceitei ficar em seu lugar em Paris!
— O que? Mais porquê?
— Eu preciso disso! — Respondi se levantando. — Eu passei muito tempo na sombra do meu irmão, Lauren. E foi por isso que eu me senti tão mal quando descobri que amava ele. — Ele suspira colocando as mãos nos bolsos. — Ele sempre tinha tudo, até mesmo o que eu desejava. E ele fazia isso sem querer e sem perceber. — Sorri. — Por isso nunca o odiei!
— Eu sinto muito por tudo que passou por minha causa e...
— Não foi sua culpa! — Corta-me. — Essa é minha chance de crescer. — Me olha. — De ser alguém, de fazer algo importante na minha vida. — Se aproxima de mim e me estende a mão. Eu agarro-a e ele me convida a levantar. Ele solta minha mão e então acaricia meu rosto. — Chance de recomeçar e te esquecer!
— Dom, eu....
— Deus, como eu te amei!
Fecho os olhos sentindo seu toque acariciar minha bochecha. Sinto sua respiração em meu rosto e abro os olhos, surpresa. Me deparo com seus olhos azuis e sua boca próxima a minha. — E ainda amo! — Diz e eu prendo a respiração. De repente desvia da minha boca, depositando um beijo em minha testa. — Se cuida! — Meu coração para vendo-o se afastar e pegar sua mala. — E seja feliz.
— Dom! — Grito e ele para por um segundo. — Obrigada por tudo. — Uma lágrima rola dos meus olhos, observando-o caminhar até a porta, abrir a mesma e sumir do meu campo de vista. Caio no sofá e fecho os olhos. Você continua perdendo as pessoas, Lauren!
Chris Evans
— Eu não me importo em ter que dividir parte das minhas ações com ela. — Resmungo para o advogado em minha frente. Que reunião! — Eu só preciso que isso seja o mais breve possível.
— Sr. Evans, tentaremos um divórcio amigável. Ou seja, com o consenso dela. — Responde. — Mais temo que se ela não aceitar, teremos que correr para justiça e isso leva tempo.
Passo as mãos pelos cabelos e bufo. — Quando a intimação estará pronta? — Pergunto pegando uma caneta de cima da mesa e batendo-a freneticamente na mesma.
— Posso agilizá-la para hoje.
— Ótimo! — Molho os lábios. — Tem duas horas para ela está em minha mesa. Quero entregar e conversar com ela pessoalmente.
— Sim senhor! — Ele se levanta e caminha até a porta, assim que a abre, a figura ruiva surge na porta. — Com licença...
Ele sai e dá espaço para mesma adentrar. — O que quer? — Resmungo assim que Scarlett entra na sala. Ela fecha a porta e se aproxima.
— Conversar.
— Scarlett, não concordo com o que fez ontem...
— Fala do beijo, da declaração ou de sua vadia achando que pode brincar comigo? — Devolve e eu sorrio debochado.
— Vá para o RH e pegue sua carta de demissão. — Digo fazendo-a arregalar os olhos. — Você morreu para mim a partir do momento que mexeu com a minha futura esposa.
— O que? — Grita. — Vai mesmo abandonar sua família por uma garota que conheceu há uns dois meses, ou sei lá?
— Você não é minha família! — Levanto-me.
— Não acredito que está mesmo querendo se casar com aquela menina mijona. — Grita e franzo a testa com ironia.
— Aquela menina mijona... — Me aproximo dela. — Me faz gozar como homem! — Cuspo as palavras e vejo a raiva em seus olhos. — Não deixarei o Tristan desamparado, mais meus laços contigo estão cortados a partir de hoje!
— Seu irmão estaria decepcionado com você. — Rebate tentando me abalar. — Ele jamais concordaria com isso tudo.
— É mesmo? — Pisco. — E o que acha que ele sentiria se soubesse que você tinha desejos pelo irmão dele? — Ela engole em seco e vejo algumas lágrimas em seus olhos. — Ou melhor, que você se tornou essa mulher amargurada e com coração cheio de maldade.
— Você...
— Saia daqui... — Peço educadamente. — E nunca mais volte! — Lhe dou as costas e volto a me sentar na poltrona, pegando os papéis e ignorando sua presença.
***
Ouço o som de alguém bater na porta e depois a mesma sendo aberta. — Sr. Evans, aqui estão os papéis do divórcio.
— Maravilha! – Me levanto e pego os mesmos, saindo da sala. — Molly! – Chamo a garota que vem correndo em minha direção.
— Senhor?
— Por favor, cancele toda minha agenda desta tarde. – Ela assente. — E por favor, selecione umas garotas para o cargo de minha secretária. – Finalizo.
— Mais e a Scarlett? – Pergunta.
— Não faz mais parte da equipe. – Respondo e o telefone toca. A garota corre para atendê-lo enquanto caminho para o elevador.
— Senhor! – Me chama e eu paro, olhando-a. — É a sua mãe.
— Transfira pra meu escritório. – Digo voltando para minha sala, fechando a porta e pagando o telefone do gancho.
— Chris? – Ela diz do outro lado da linha.
— Sim, mãe.
— Liguei para avisar que seu irmão já viajou. – Arregalo os olhos.
— Ele estava com tanta pressa que nem se despediu. – Brinco . — Mais vai dar tudo certo, mãe. – Ela suspira. — Vamos, fale. Sei que não ligou para isso.
— Você demitiu a Scarlett?
— Nossa, ela foi rápida. – Sorrio.
— Porque fez isso?
— Ela não te contou?
— Não. – Responde e eu sorrio com ar de deboche. É claro que ela não iria contar, ela cavou a própria cova.
— Simplesmente ela teve a audácia de aparecer ontem no meu apartamento, enquanto eu estava com a Lauren e se declarar para mim. – Resmungo e ouço minha mãe suspirar. — Além de que ofendeu a Lauren, ou seja, sem condições de trabalhar no meu espaço que ela.
— Eu não acredito que ela fez isso. – A mulher bufa. — Você é irmão do falecido esposo dela, você é cunhado dela.
— Por isso, não a quero mais na minha empresa.
— Querido, lembre-se de que a empresa não é somente sua. — Reviro os olhos. — Mais confio em seu julgamento e sei o quanto é justo. Porém, você sabe em quem temos que pensar com essa sua decisão.
— Sim, eu já pensei e deixei muito claro para ela que estou disposto a arcar com uma pensão todo mês para o Tristan.
— Outra coisa, filho! - Ela suspira. — Eu não posso colocá-la para fora da nossa casa, afinal ela faz parte da nossa família e seu irmão confiava em nós.
— Não te pediria isso, mãe. — Resmungo. — Não precisa fazer isso. Apenas quero pôde chegar ai com Lauren sem ela ter que espirrar seu veneno.
— Conversarei com ela sobre isso ou eu mesma a colocarei para fora daqui!
— Obrigado!
Encerro a ligação e coloco o telefone de volta no gancho. Pego novamente os papéis de cima da mesa e caminho para o elevador. Respiro fundo. Preciso está psicologicamente preparado. Pego meu celular e disco o número da garota.
Após alguns toques, ela atende. — Oi.
— Meu amor! Está tudo bem? — Pergunto assim que percebo sua voz chorosa. — Esteve chorando, Lauren? — Ela suspira.
— Dom esteve aqui.
— É, ele foi embora. — Suspiro. — Mais por que está chorando?
— Porque não queria ter bagunçado tanto a vida dele, de ninguém. — Chora. — Não queria fazer ninguém sofrer.
— Engraçado, eu tenho a impressão de que a única que está sofrendo é você. — Bufo e ela fica muda. — Todos estão seguindo sua vida e você continua se martirizando. — Digo irritado. — Essa é uma oportunidade de o Dominic crescer, ele precisava disso.
Um silêncio paira na ligação e depois escuto um suspiro. — Tem razão! — Ela diz. — Me desculpe por isso.
— Não precisa!
— Aonde está? — Pergunta. — Cansei de ficar sozinha.
— Estou indo na sua casa e já estou indo pra ai.
— O que fará lá?
— Os papéis do divórcio saíram!
***
Toco a campainha umas três vezes até que finalmente uma silhueta abatida surge na porta. — O que faz aqui? — Curta e grossa.
— Não tem comido? — Pergunto observando sua feição.
— O que faz aqui? — Repete entrando e me dando passagem. — Cansou de sua aventura e voltou pra sua mulherzinha medíocre? — Debocha e eu rio, adentrando a casa bagunçada e abafada.
— Não. Até porque Lauren não é uma aventura!
— Ah, desculpe! — Tossi. — Eu sou, não é?! — Senta-se no sofá. — Não me faça perguntar de novo, por favor...
Assinto e lhe estendo os papéis. — Aqui!
— O que é isso? — Pergunta pegando os papéis. — Divórcio? — Pisca enquanto lê. — Realmente está com pressa para se livrar de mim, hein? Como conseguiu isso tão rápido?
— Advogado!
— Claro. O que um sobrenome não faz. — Joga os papéis ao lado e me olha. — O que quer que eu faça com isso mesmo? — Ri.
— Não dificulte as coisas, Jennifer! — Digo me sentando ao seu lado. — Assine logo isso e nos livre de um tribunal.
— Foi tudo uma mentira? — Olha-me nos olhos.
— O que?
— Tudo isso. — Responde circulando-nos. — Nós!
Suspiro. — Não! — Resmungo e ela sorri. — Eu realmente gostei de você. — Ela se aproxima de mim e segura meu rosto. Pego suas mãos e afasto. — Mais nunca foi amor! — Seu rosto entristece. — Você é uma mulher incrível, mas meu coração escolheu sua filha. — Ela abaixa a cabeça. — Me perdoe! — E de repente, ela cai com a cabeça em meu colo. — Jennifer? — Chamo-a. — Ei? — Cutuco-a e sem resposta. Pego sua cabeça com cuidado e vejo seus olhos fechados. — Merda! — Me contorço e pego-a no colo rapidamente levando-a para o carro.
Lauren Foster
Leio algumas páginas do livro e então paro para pensar no que Chris me disse. Eu sou a única que está sofrendo e se martirizando? Porque me sentir culpada de estar feliz? Sinto meus sentimentos relaxarem um pouco, como se eu estivesse a ponto de entender que não preciso me sentir assim. Meu celular vibra encima da mesma e vejo uma mensagem do Chris.
—Venha ao hospital, sua mãe passou mal e precisa de você! — Chris.
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