Meu Novo Crepúsculo

11 Sentinelas e sombras


Notas iniciais
Boa tarde, pessoal! Como estão? Final de semana chegando e, junto com ele, mais um capítulo fresquinho. Vamos dar mais uma espiadinha nos pensamentos de Jacob Black. Estou amando a interação de todos vocês! Boa leitura.

A adaptação à forma lupina era um processo de transição tão estranho quanto visceral. Sob quatro patas, meus sentidos não eram apenas apurados; eles eram submetidos a um nível de estímulo que beirava o insuportável para uma mente humana comum. A floresta de Forks deixava de ser um emaranhado de sombras para se tornar um mapa interativo de vibrações, odores e frequências. O aroma da terra úmida, o som quase imperceptível de um roedor esgravatando o solo a quilômetros de distância, o rastro residual de um cervo — cada fragmento de informação era processado instantaneamente enquanto eu saltava por troncos caídos. Eu me movia com uma agilidade que minha anatomia humana jamais poderia emular; eu não apenas percorria a mata, eu era o ápice dela.

Todavia, a parte mais excruciante dessa nova existência era o barulho ensurdecedor da coletividade. As vozes dos meus companheiros de matilha reverberavam em meu crânio, assim como cada batida do meu coração ecoava nos deles. A fera roubava do homem até a última fronteira da privacidade, e essa invasão constante era minha maior fonte de frustração. Desde que sucumbi à febre, aprendi a blindar minha mente, mantendo-a em uma zona de neutralidade. A técnica consistia em inundar o canal compartilhado com imagens monótonas de engrenagens e rotinas mecânicas; eu lutava para cultivar memórias que fossem exclusivamente minhas.

“Jacob, conforme o planejado, você assume a ala norte, nas proximidades da residência dos Swan”, as coordenadas de Sam cortavam o nevoeiro mental da matilha. “Os demais, patrulhem o perímetro sul antes de retornarem à base.”

Sam descendia de uma linhagem nobre entre os Quileutes. Os Uley sempre foram figuras de destaque; desde os tempos dos primeiros ancestrais, ocupavam assentos vitais em nosso conselho e moldavam o destino da tribo. Contudo, naquele momento, ele carregava um fardo que, por direito de primogenitura, pertencia a mim. Sendo eu o único herdeiro direto de uma linhagem de chefes, o sangue Alfa pulsava em minhas veias com uma força que me sufocava. Era esperado que eu reivindicasse aquele posto, mas a ideia de liderar a matilha — de me tornar o guardião de todas aquelas vozes intrusivas — me parecia uma prisão mais severa que a própria mutação. Naquela realidade imposta, eu ainda preferia o isolamento da orla e o silêncio das rondas solitárias.

Estacionei meu peso sob a sombra de um carvalho secular, me camuflando na escuridão. A casa dos Swan repousava em um silêncio absoluto, com as luzes totalmente extintas. Meus ouvidos captavam os micro-ruídos que a audição humana jamais alcançaria naquela distância: o zumbido elétrico da geladeira, o ressonar pesado e rítmico de Charlie no andar inferior e, acima de tudo, a respiração suave e compassada de Renesmee, que escapava pela fresta da janela do seu quarto.

Aquele fluxo de ar entrando e saindo de seus pulmões era a única sinfonia capaz de silenciar o estrépito da matilha. Era a música que justificava a existência do meu mundo. Enquanto eu focava nela, o cenário ao redor não passava de um borrão insignificante. Soltei um suspiro de alívio ao confirmar que ela estava em segurança; no corpo do lobo, o gesto se transformou em um uivo abafado, um murmúrio gutural que o vento carregou. Pude perceber, pelo leve sobressalto em seu ritmo respiratório, que ela, de algum modo, compreendera minha sentinela.

Ouvi o som seco da janela sendo trancada e o farfalhar dos lençóis enquanto ela se acomodava. Sua quietude me trouxe uma paz momentânea, permitindo que eu relaxasse sobre as patas dianteiras. Entretanto, com Renesmee imersa no sono, a agitação vinda do quarto ao lado era impossível de ignorar.

Isabella estava acordada em meio a escuridão. Seus movimentos eram repetitivos, obsessivos; ela andava de um lado para o outro em um ritmo maníaco, lembrando um animal enjaulado ou alguém em abstinência profunda. Tentei filtrar o olfato em busca de qualquer anomalia que justificasse aquela inquietude — um vestígio fresco de Edward Cullen, talvez — mas o único rastro era um odor gélido e estagnado, indicando que ele estivera ali horas antes.

A percepção de que ele havia assombrado o local, mesmo que em outro momento, despertou o instinto predador. Meus músculos se retrairam e as garras rasgaram o solo úmido em um reflexo involuntário de ataque.

"Ele não rompeu o perímetro hoje, Jacob", a voz de Sam interveio, soando ponderada. "Nem hoje, nem nos últimos dias. Ele tateia o limite, mas não cruza a linha. O Tratado permanece intacto."

"Dane-se o Tratado", rebati mentalmente, permitindo que meu rosnado ecoasse na consciência de todos. "Ele está rondando a casa. Está perto demais dela."

"Ele busca a outra irmã, Jacob. Você sabe disso", pontuou Paul, com um desdém que cortou o ar. "É uma causa perdida. Mais cedo ou mais tarde, a Swan mais velha oferecerá a brecha que ele procura, e não haverá nada que possamos fazer para impedir o inevitável."

Senti a tensão nos meus tendões aumentar; Isabella aceitar o sanguessuga implicaria em uma convivência dele com Renesmee que me tirava do eixo. O conflito entre esses dois lados era uma batalha constante. Eu queria entrar por aquela janela, voltar para a forma humana e segurá-la até o amanhecer, mas a fera em mim queria permanecer nas sombras, com os dentes à mostra, esperando o primeiro erro do Cullen.

O resto da noite passou em uma lentidão de dar agonia. Por mais que os instintos do lobo estivessem no comando, eu ainda estava me acostumando com a realidade de ficar jogado no mato, deitado sobre a lama e folhagem seca. Meus companheiros de matilha voltaram para a forma humana muitas horas antes, o que me deu uma falsa — mas ótima — sensação de privacidade mental. Para mim, a vigília era estática. Eu ficava ali, alternando entre o som da respiração calma da Renesmee e a marcha maníaca da Isabella no quarto ao lado. A Bella parecia um fantasma vivo; o som dos passos dela era o metrônomo de uma obsessão que eu não conseguia silenciar.

Quando o céu de Forks iniciou sua transição do breu absoluto para o cinza habitual, a exaustão humana começou a tatear as fronteiras da minha consciência. Aos primeiros sinais de claridade, me preparei para partir. A orientação era rígida: eu deveria buscar o refúgio da Reserva antes que qualquer olhar curioso pudesse me identificar sob aquela anatomia impossível.

Eu estava prestes a recuar para a densidade dos carvalhos quando o ar mudou. O cheiro de terra molhada foi subitamente asfixiado por uma fragrância doce e gélida, um odor que lembrava o granito exposto ao sereno.

Emergindo das sombras, a figura de Edward andava com uma fluidez que desafiava todas as leis da física. Ele não usava a trilha; simplesmente surgiu em meio a mata fechada, local onde nenhuma pessoa costumava andar. O Cullen parou há poucos metros de mim de forma abrupta e, ainda sim, os pés mal tocavam o solo. Em seus olhos cor de âmbar, vi brilhar uma faísca de surpresa; de alguma forma, ele acreditava que naquela hora, o sentinela já havia partido.

Um rosnado selvagem subiu pelo meu peito, fazendo o corpo do lobo vibrar.

— Eu não esperava encontrar um Black aqui. — Sua voz melodiosa era como um insulto. Ele inclinou a cabeça, e o choque em seu rosto rapidamente deu lugar a um sorriso oblíquo e carregado de um sarcasmo que eu não esperava.

Ele foi mais rápido do que eu; seu dom permitia que ele captasse coisas das quais eu não tinha interesse em compartilhar. Deixar minha mente protegida de seu radar era um exercício mais complicado do que bloquear meus irmãos. Sorrateiramente, ele deu alguns passos na minha direção, com os olhos apertados. Estava vasculhando a minha cabeça, e o que ele encontrou o fez travar no lugar.

— Seus pensamentos estão bem focados esta manhã, Jacob — ele murmurou, com um prazer sombrio. — Você teve um imprinting pela Swan mais nova.

O ódio que correu pelas minhas veias só de estar perto dele foi visceral, biológico. Minha temperatura subiu tanto que eu podia derreter a geada ao redor apenas com o vapor que saía pelos meus poros. Projetei uma imagem de puro massacre, meus dentes cravados em seu pescoço de mármore, mas ele só soltou uma risada curta, seca como galho quebrando.

— Sabe, acho que agora não somos tão diferentes assim, Jacob. — Ele ignorava completamente a minha promessa de violência. — Você está preso à sua própria natureza. O que eu sinto pela Isabella não é diferente do que você sente pela Renesmee.

“Espero que saiba que o tratado não vai me impedir de te fazer em pedaços se você falar o nome dela de novo”, gritei nos meus pensamentos. “Cai fora daqui!”

Edward suspirou; um gesto humano que soou como uma paródia de quinta categoria.

— Meus interesses estão na janela ao lado, Jacob. Talvez devêssemos ser civilizados, daqui em diante, afinal, corremos o risco de pertencer à mesma família.

Aquele comentário me deu náuseas. Avancei na direção dele, minhas garras rasgando as raízes das árvores. Eu teria o teria destroçado ali mesmo se as luzes do andar de baixo da casa dos Swan não tivessem começado a acender. Eu não podia correr o risco de ser descoberto; o tempo de andar entre as sombras tinha acabado.

— Até logo, Jacob — disse ele, sumindo como um borrão pelo mesmo caminho que veio.

Fui em direção a trilha, tentando me esconder. Foi necessário alguns segundos de recuperação, antes de fazer o caminho de volta para a Reserva. A raiva me deixou ofegante a ponto de meu peito subir e descer em descontrole. Edward agora tinha conhecimento do meu segredo mais sagrado e havia feito piada sobre o assunto; ele escolheu comprar aquela briga e não era algo que eu deixaria passar.

Já passava das sete da manhã, quando atingi a fronteira da Reserva Quileute. Era domingo, e meu único plano era dormir por algumas horas e depois voltar para a casa dos Swan, assumindo o papel de namorado humano da Renesmee. Enquanto eu me afastava de Forks, o gosto amargo do encontro com o sanguessuga ainda queimava na minha boca.

Meu corpo não interpretou o sono como um momento de descanso; a sensação era de que meus sentidos haviam sido desligados no tranco. Apaguei na cama no instante em que me deitei. O fato de eu ter pulado a etapa do banho fez com que o cheiro de terra úmida continuasse impregnado em minha pele. Dormi por cerca de cinco horas e, quando despertei, não havia qualquer rastro de paz ou a sensação de estar revigorado. Acordei com os nervos em frangalhos, a mandíbula travada e uma fome que parecia um buraco negro no meu estômago.

A transformação consome uma energia absurda. Cada célula do meu corpo gritava por combustível para reparar o desgaste da vigília. Sentei na cama e o mundo girou por um segundo; a gravidade parecia dobrar de peso sobre meus ombros humanos. O cheiro de bacon frito e café forte subia da cozinha, mas, por trás dessa camada familiar, minha memória olfativa ainda retinha o rastro adocicado e gélido do Cullen.

Minhas mãos se fecharam em punho; havia tanta força aplicada no gesto que os nós dos dedos perderam a cor. Soltei um rosnado baixo e involuntário.

Saí do quarto em direção à cozinha. Meu corpo parecia pesar o dobro da noite anterior e a febre de quarenta e dois graus — que havia se tornado meu novo “normal” — queimava minha pele. Billy estava em sua cadeira de rodas, posicionado na cabeceira da mesa. Mesmo sem fazer uma análise minuciosa da minha aparência, sua expressão denunciava que ele sabia exatamente como eu estava me sentindo. O olhar dele era uma mistura de orgulho e uma preocupação ancestral que eu ainda não sabia como carregar.

Inicialmente, nenhum de nós disse nada. Apenas me posicionei ao seu lado, concentrando minhas atenções em devorar um prato com oito ovos, uma pilha de bacon e uma jarra de suco de laranja. Havia um tremor insistente em meu sistema nervoso que só estancou quando a refeição já estava quase finalizada.

— Eu encontrei com ele, pai — soltei após voltar a me sentir um humano funcional. Minha voz soou arranhada, mais rouca que o normal. — Ele não esperava me ver lá.

Billy parou o que estava fazendo e fixou os olhos em mim.

— O leitor de mentes?

— Sim. Ele mesmo. Edward queria rondar a casa como tem feito; achou que nenhum de nós estaria mais lá.

Apertei o garfo com tanta força que o metal começou a ceder, curvando-se sob a pressão do meu polegar. Mesmo notando a depredação do utensílio, meu pai se calou, incentivando-me a continuar o relato apenas com o olhar.

— Eu tentei esconder sobre a Renesmee e o imprinting, mas agora ele sabe. Parece que todos os meus pensamentos agora giram em torno dela e não consigo evitar; ele leu isso quase de imediato. O desgraçado até fez piada, tentou nos igualar. Disse que seremos da mesma família, pai. O Edward acha que o desejo dele pelo sangue da Isabella se equivale ao imprinting.

Billy suspirou profundamente. Eu sabia que ele estava tão irritado quanto eu, mas, ocupando o posto de pai e Alfa da sua geração, ele precisava soar o mais contido possível.

— Ele está tentando te irritar e humanizar a própria sede, Jacob. Talvez seja a maneira que encontrou para suportar o que é e o que sente. Não deixe que a provocação de um vampiro turve seu pensamento. Lembre-se sempre de quem você é. Você é filho desta terra e um chefe legítimo; ele teme o que você representa. Ele o inveja, Jake. Inveja a vida que jamais terá.

— Eu não tenho medo dele, pai — retruquei, levantando-me e jogando o talher torto na pia. — Não vou deixar que ele chegue perto da Renesmee. Se ele acha que o vínculo me torna previsível, vai descobrir da pior forma que um lobo que tem algo a proteger é mil vezes mais perigoso do que um que só caça por dever.

— Não esqueça o tratado, Jacob — alertou ele. — Não seremos nós os primeiros a quebrar o que Ephraim estabeleceu. Você sabe que só poderemos mantê-lo longe do convívio da família enquanto Isabella não declarar o desejo real dela.

— A Bella está obcecada por essa família, pai. Agora ela confronta a irmã e passa as noites acordada, andando de um lado para o outro no escuro. Não podemos contar com o discernimento dela.

— Se ela escolher andar com o "frio", não há nada que possamos fazer — Billy foi categórico. As leis e acordos eram parte intrínseca dele. — Você precisa se concentrar em proteger a Renesmee, e isso é tudo.

Senti meus músculos se retraindo.

— Como vou protegê-la se ele tiver livre acesso?

— Quando acontecer, e se acontecer, damos um jeito de trazer a menina para a Reserva. Jamais deixaríamos a companheira de um Alfa desprotegida.

Não acrescentei mais nada à conversa. Peguei as chaves do Rabbit, buscando qualquer coisa capaz de me tirar daquela atmosfera. O caminho de volta para Forks foi um borrão de asfalto cinza e árvores passando rápido demais. Eu dirigia com uma mão só; a outra tamborilando no volante em um ritmo impaciente que acompanhava a pulsação acelerada no meu pescoço.

Cada quilômetro rodado aliviava a pressão que eu sentia no peito. Estar mais perto de Renesmee fazia com que o “puxão” fosse ainda mais intenso. Eu sentia a necessidade gritante de tocar sua pele e sentir que tudo estava em seu devido lugar.

Estacionei em frente à casa dos Swan; a viatura de Charlie não estava lá. A atmosfera em Forks e no entorno da propriedade parecia ainda mais densa do que nas primeiras horas da manhã, quase claustrofóbica. A névoa estava tão baixa que engolia a base das casas, dando a impressão de que tudo flutuava em meio ao mar.

Desci do carro, sentindo o ar frio tentar penetrar o meu calor anormal. Eu queria uma tarde comum. Queria levar a Renesmee para algum lugar onde pudéssemos ser apenas dois jovens, longe de linhagens Alfas e vampiros leitores de mentes.

O interior do imóvel cheirava a macarrão com molho bolonhesa. Conforme eu constatara pela ausência do veículo, Charlie não estava em casa. Renesmee me recepcionou com um enorme sorriso, atirando-se em meus braços; era como o primeiro raio de sol após dias chuvosos.

— Jake! — disse ela, enquanto eu a envolvia com força em um abraço. Renesmee cheirava a baunilha e flores frescas. — Eu senti sua falta.

— Estava ansioso para te ver — murmurei, beijando o topo de sua cabeça de forma demorada, sentindo o aroma dos seus cabelos.

Minha namorada era vida, acolhimento e meu lar. Agarrados como estávamos, eu sentia a pulsação do seu coração, e isso me fez sorrir. Apertei Renesmee contra meu peito mais uma vez antes de afastar nossos corpos minimamente e a encarar.

— Onde está seu pai? — perguntei, sentindo o instinto de alerta despertar. — Achei que ele estaria de folga hoje.

Renesmee suspirou e apontou para a cozinha, onde a mesa ainda guardava os vestígios de um almoço interrompido às pressas.

— Há cerca de vinte minutos, ele recebeu uma ligação da delegacia. Houve um ataque perto do rio, na trilha que contorna a encosta. O Charlie foi convocado para ajudar no isolamento da área e na investigação.

No mesmo instante, meu alerta de perigo soou. O arrepio que percorreu minha espinha, da base ao topo, não era causado pelo frio. Se havia ocorrido um ataque naquela região, Sam e os outros lobos já deveriam estar cientes.

— De que tipo de ataque estamos falando? — minha voz saiu mais carregada de preocupação do que eu pretendia.

— Ele não deu muitos detalhes, estava com muita pressa. A vítima foi Waylon Forge, um antigo colega de classe dele. O Charlie ficou muito abalado. Foi algo violento, um trilheiro achou o corpo. Acreditam que seja o ataque de um a...

A fala de Renesmee estancou no meio da frase, como se ela estivesse organizando mentalmente o peso dos fatos. Seus olhos castanho-chocolate se abriram em um sinal claro de alerta e seus lábios formaram um pequeno “O”. Sem dizer mais nada, ela me pegou pela mão e fez um sinal mudo para que eu a seguisse. Subimos a escada rapidamente, parando apenas diante da primeira porta do segundo andar.

Renesmee me levou para o seu quarto para garantir a confidencialidade da conversa; muito provavelmente, Isabella estava na cozinha ou em algum ponto do andar de baixo que eu ainda não havia notado.

Aquela era a primeira vez que eu entrava no cômodo. O quarto dela era o reflexo exato de sua personalidade: uma mistura de acolhimento e uma delicadeza que eu sentia que poderia quebrar se não fosse cuidadoso. O cheiro dela estava em toda parte, impregnado nas cortinas, no tapete e na colcha de retalhos que Charlie provavelmente havia comprado. Passei os olhos pelas prateleiras de livros, pelas fotos de infância e pelos pequenos detalhes que revelavam quem ela era. Era um contraste absurdo com o meu mundo de graxa, lama e pelo.

— Jake, eles disseram que foi um ataque de animal — sussurrou ela, tentando proteger nossa conversa. — Qual a chance de essa ter sido a causa real?

Meu desejo era não criar um pânico desnecessário, mas, àquela altura e com o conhecimento que ela já possuía, eu não podia mentir.

— Quase zero — admiti, sentando-me na ponta da cama. — É provável que tenha sido um vampiro.

— Os Cullen?

— A esta altura, não coloco minha mão no fogo por eles — respondi, mordiscando o lábio para conter o calor que subia pelo meu corpo. — Mas a probabilidade é baixa. O Sam comentou que, de tempos em tempos, outros aparecem pela região.

— Outros?

— Sim! São nômades. A raça deles não costuma ter moradia fixa como os Cullen, já que as mortes acabam chamando atenção. Se for realmente esse o caso, nós vamos pegá-los, ok?

Renesmee caminhou até a janela, parecendo desorientada com a descoberta. No entanto, sua reação ao olhar para a floresta através dos vidros me fez correr até ela imediatamente.

No quintal dos fundos, Isabella segurava uma faca de cozinha, com a lâmina pressionada firmemente contra a pele pálida do pulso esquerdo. Ela se mantinha estática, focada nas árvores, como se aguardasse um sinal. Renesmee e eu nos entreolhamos em puro desespero e corremos o mais rápido possível para evitar o pior. Ao atingirmos a soleira da porta traseira, diminuímos o passo, temendo que qualquer movimento brusco a assustasse.

— Bella, o que você está fazendo? — a voz de Renesmee estava embargada pelo horror.

Isabella virou o rosto devagar, com uma calma muito mais assustadora do que se estivesse chorando. Seus olhos estavam opacos, perdidos em um lugar onde a razão não chegava mais.

— Ele vem — murmurou, a voz desconexa, quase um suspiro. — Se o perigo for real o suficiente... ele não vai ter escolha. Vai ter que me salvar de novo.

O estágio da obsessão de Bella era alarmante. Ela estava usando o próprio perigo como um chamariz para atrair Edward, tentando replicar a adrenalina do acidente.

— Solta essa faca! Agora! — Renesmee ordenou, desesperada.

Bella olhou para o metal por meio segundo antes de largá-lo em meio ao mato alto daquela área.

— Vocês não entendem — continuou ela, olhando para Renesmee com uma inveja mal disfarçada. — Eu o vi na floresta hoje cedo. Ele estava lá, vigiando.

Minha namorada deu alguns passos em direção à irmã, a envolvendo em um abraço. Renesmee estava visivelmente mais abalada do que a própria Bella. Eu via o medo em sua expressão; ela passara a temer pela vida da irmã mais do que nunca. Naquele momento, Isabella representava para si mesma um perigo tão grande quanto a própria existência do Cullen.

Pela hora seguinte, tratamos de auxiliá-la como podíamos. Voltamos para dentro de casa e, enquanto as duas seguiam para o banheiro, organizei o quarto de Isabella para que ela pudesse descansar. Renesmee a ajudou com o banho e finalmente a colocamos na cama. Devido à exaustão mental e à noite mal dormida, Bella pegou no sono com facilidade.

Ficamos de vigília no corredor do andar de cima, temendo que ela pudesse tentar algo contra si mesma novamente. Meu coração se apertou ao ver Renesmee desabar ao meu lado; ela amava a irmã e sabia que ela estava trilhando um caminho sem volta. O silêncio que se seguiu foi cortante. Isabella Swan era agora uma bomba-relógio, e o detonador era sua própria obsessão por um vampiro.