Os dias que sucederam o acidente foram especialmente arrastados; a sensação era de que o tempo em Forks havia congelado junto com o asfalto. Consultar o celular tornara-se um hábito irritante e obsessivo que eu cultivava até mesmo entre as aulas, alimentando uma esperança falida de, finalmente, encontrar alguma mensagem respondida. Jacob não retornava meus contatos, e Billy não aparecera sequer para o jogo de quarta-feira com meu pai. O silêncio vindo da Reserva era ensurdecedor, uma lacuna que eu não sabia como preencher.

Na escola, Isabella tornara-se, contra a própria vontade, o centro gravitacional de todas as atenções; ela era agora a garota que escapara milagrosamente da morte. No entanto, mesmo com a atmosfera eletrificada pela curiosidade do corpo estudantil, ela parecia perdida em seu próprio mundo desde o ocorrido no estacionamento. Bella não comia, mal bebia e seus olhos buscavam constantemente a mesa da família Cullen. Em diversos momentos, notei suas tentativas frustradas de iniciar uma interação com Edward, que as rechaçava com uma frieza cortante. Dois dias após o acidente, ela finalmente me confrontou.

— Ele está fugindo de mim, Renesmee — disse ela, sentada na beira da minha cama na noite de quarta-feira. — Ele se recusa a me dar uma explicação lógica para o que aconteceu. O Edward sequer fala comigo durante as experiências em dupla; isso é tão frustrante.

Tentei manter uma fachada de indiferença, embora o tremor persistente em minhas mãos me denunciasse.

— Talvez a família tenha optado por se manter afastada depois de tanta confusão, Bella. Eles sempre foram discretos ao extremo.

— Você não acredita nisso — acusou-me ela, com uma sobriedade cortante. — Sei que está mentindo; sei que viu o mesmo que eu. Além disso, você olha para eles com a mesma raiva que o Jacob. E não vamos ignorar o fato de que, até agora, você não deu uma explicação coerente para aquela discussão entre os dois no hospital.

Senti o peso da mentira sufocar minha garganta até que a paciência se esgotasse.

— Mas que merda, Bella! — rugi, a voz saindo mais alta do que eu pretendia. — Por que você não pode simplesmente aceitar que está viva e, para sua própria segurança, parar com essa obsessão pelos Cullen? Não percebe que tanto eu quanto o Jacob estamos apenas tentando proteger você?

Isabella não insistiu. Ela apenas se levantou e saiu, fechando a porta atrás de si com um olhar carregado de mágoa. Naquele momento, o segredo que eu guardava parecia ter se transformado em uma muralha intransponível entre nós duas.

Na manhã seguinte à discussão com minha irmã, o desespero finalmente me venceu. Após novas tentativas mal-sucedidas de falar com Jake ou Billy, recorri a Emily como uma fonte alternativa de informações. Diferente do tom afetuoso de costume, a voz dela soou tensa e distante ao proferir sua sentença: "Ele precisa de tempo, Renesmee. Billy está cuidando dele. Não venha para cá ainda, por favor."

Receber aquele retorno foi como um soco no estômago. “Não venha”. A sensação de ser banida do meu único lugar de conforto por pessoas que eu amava era devastadora. Eu me sentia incompleta, como se uma parte essencial de mim estivesse quebrada e eu fosse proibida de buscar os estilhaços.

O restante daquela quinta-feira não passou de um exercício de sobrevivência. Evitei Bella tanto quanto era possível nos corredores da escola e, em casa, deixei que o único som ambiente fosse o barulho da tempestade se chocando contra o telhado. Era como estar em estado total de interdição.

Quando Charlie chegou da delegacia, por volta das seis da tarde, notou rapidamente minha apatia. Eu estava sentada na varanda com um livro aberto, sem realmente prestar atenção à narrativa.

— Ainda sem notícias, não é? — Não havia julgamento em sua fala; seu tom era baixo, quase um sussurro.

Neguei com a cabeça. Meus olhos queimavam pelas lágrimas que eu reprimia, enquanto o nó em minha garganta se tornava insuportável. Apesar do notável cansaço pelo dia de trabalho, papai sentou-se à minha frente — a arma e o rádio deixados de lado — e olhou no fundo dos meus olhos.

— Tenho certeza de que existe uma boa explicação para isso, filha — tentou me consolar. — Aconteceram muitas coisas em um curto intervalo de tempo e, bom, você sabe como o Jacob é intenso. Talvez ele precise de um momento, ou algo assim.

Essa era a parte que eu mais amava em Charlie: sua doçura silenciosa e sua compreensão. Ele não me confrontou sobre o embate entre Jacob e Edward, nem sobre o que estava florescendo entre Jacob e eu. Meu pai aceitava as informações que eu escolhia passar e, em todo esse tempo, sua única preocupação era me amparar, exatamente como fazia agora. Havia um teor de amizade e confiança em nossa relação que eu nunca tivera com Renée.

— É como se algo estivesse faltando, pai — confessei em um fio de voz.

Ele não respondeu de imediato; apenas estendeu a mão em direção à minha. Sua palma, embora áspera e fria, trouxe um conforto imediato.

— Pai, posso te fazer uma pergunta?

— Claro, querida — respondeu ele, acompanhando as palavras com um afago do polegar.

— Você já se importou dessa forma com alguém? — Olhei para ele, buscando no fundo das suas memórias as respostas para o que eu mesma sentia. — Alguém que não fosse a Isabella ou eu?

Charlie suspirou e um pequeno sorriso melancólico surgiu em seus lábios. Ele desviou o olhar para a janela, revisitando uma Forks de décadas atrás.

— Sim — admitiu. — Sua mãe. Desde o dia em que a conheci, senti que não poderíamos ficar mais nenhum minuto distantes.

— E quando você descobriu que estava apaixonado? Cresceu devagar ou foi um choque?

— Sua mãe era luz e cor nesta cidade, filha. Foi como um furacão — ele riu baixinho, perdido na lembrança. — Mas a percepção real disso veio em um dia comum. Eu estava trabalhando quando percebi que ela vinha sendo meu primeiro e meu último pensamento do dia.

Ele fez uma pausa e sua mão apertou suavemente a minha.

— O silêncio dela passou a me machucar mais do que qualquer briga, e a ausência dela deixava um vazio que ninguém era capaz de preencher. — Seus olhos voltaram a me encarar com uma sabedoria triste. — A paixão é o sentimento de que o mundo só faz sentido quando a pessoa está ao seu lado para testemunhá-lo com você.

Senti-me atingida como por um raio; Charlie escolhera as palavras exatas para descrever a agonia que eu sentia desde a partida de Jacob. No cenário atual, dar nome ao que eu vinha sentindo parecia uma ideia perigosa, mas inevitável.

— E quando isso passa, pai? — Uma lágrima escapou, sem permissão.

— A saudade? — Meu pai a limpou com o polegar. — A saudade é o preço que pagamos por nos importarmos, filha. O Jacob é um bom rapaz e sei que adora você. Ele deve estar sofrendo também, meu amor.

Charlie depositou um beijo suave no topo da minha cabeça antes de entrar. Continuei sentada na mesma posição, processando cada palavra.

O silêncio de Jacob me machucava mais do que as histórias de terror ou o medo de um vampiro rondando minha família. Naqueles dias, ninguém era capaz de preencher o vácuo que ele deixara. Eu estava apaixonada pelo meu melhor amigo, e a clareza desse fato me assustava tanto quanto o futuro incerto que nos aguardava.

O jantar foi um evento silencioso; houve apenas algumas interações esparsas entre Charlie e Bella, enquanto eu preferi não arriscar nenhum assunto. Ao final do ritual, optei por um banho quente, um pijama velho e o conforto da minha cama. Levou tempo até que eu conseguisse, de fato, pegar no sono, mas, ao menos, foi uma noite sem sonhos.

A manhã de sexta-feira trouxe uma névoa densa o suficiente para criar a ilusão de que os contornos da floresta estavam borrados. Eu ainda sentia o peso dos últimos acontecimentos e da conversa com Charlie comprimindo meu estômago, gerando uma sensação de mal-estar físico. Àquela altura, meu estado emocional começava a transbordar para o corpo. Optei por uma vestimenta de inverno reforçada e a complementei com o casaco que Jacob me emprestara na primeira fogueira de que participamos juntos; embora ficasse excessivamente grande em mim, o cheiro dele — uma mistura de cedro e terra molhada — ainda estava impregnado no tecido, servindo como meu único refúgio.

Isabella, papai e eu tomamos café juntos, como de costume. Naquela manhã, Bella levantou a primeira bandeira de trégua em nossa guerra fria e conversamos algumas amenidades. Charlie parecia satisfeito ao ver um vislumbre de normalidade retornando ao nosso ambiente familiar.

Nossa chegada à escola, pela primeira vez naquela semana, foi um evento discreto. Acreditei que, pela falta de novos detalhes, o acidente começava a perder relevância para os curiosos. Edward estava saindo de seu Volvo quando passamos por ele. Vi as pernas de Isabella vacilarem diante de sua presença, é claro; eu não conseguia compreender o magnetismo que ele exercia sobre ela, enquanto meu corpo o repelia com tanta facilidade. Foi necessário agarrá-la pelo braço para que continuasse andando. A expressão dele era ilegível, petrificada como o mármore em que sua pele estava forjada. Nossos olhares se cruzaram por meio segundo antes de sairmos de seu campo de visão, mas foi o suficiente para perceber o brilho da análise que ele lançava sobre mim. Ele sabia que eu era a variável que não se encaixava na equação.

As aulas até o horário do almoço passaram como um borrão; eu não estava presente o suficiente para viver os detalhes. No refeitório, me sentei com nosso grupo habitual. Jane se postou ao meu lado direito, enquanto Alec ocupava o esquerdo; os irmãos eram discretos e respeitosos quanto ao meu estado de espírito, mas a preocupação em seus olhares era nítida.

— Renesmee, você está bem? — Jane perguntou a certa altura. Talvez o movimento repetitivo que eu fazia com o garfo, sem realmente ingerir nada, tivesse soado como um alerta.

Forcei um sorriso em sua direção.

— Estou bem, sim — resmunguei, sem conseguir transmitir a verdade que gostaria. — Na Reserva, vocês têm tido notícias do Jacob?

Ligar para Emily e a envolver no meu desespero já parecia absurdo o suficiente, mas questionar Jane foi meu "tiro de misericórdia". Não refleti muito antes de falar, mas se isso me trouxesse qualquer migalha de informação, já teria valeria a pena.

— Jacob? — Ela foi pega de surpresa. Jane sabia que costumávamos ser próximos o bastante para eu não precisar de informações de terceiros. — Não o vejo recentemente. A última vez foi na segunda-feira, no hospital, após aquele embate com o Edward.

Suspirei pesadamente, sentindo meu desconforto aumentar de forma gradativa

— O único dos rapazes da Reserva que vi nos últimos dias foi o Sam — Alec acrescentou. — Hoje cedo, vi o carro dele a caminho da cidade.

Aquela era uma informação valiosa: Sam na cidade significava que a vigília sobre nossa família continuava, mas também confirmava que Jacob não estava com ele. Questionei-me se, àquela altura, o gene já havia reagido e Jacob agora era parte da matilha, ou se ele ainda estava em casa, lutando contra a febre.

Uma pontada atingiu meu peito ao pensar nisso. No penhasco, havíamos prometido que enfrentaríamos a transformação juntos e que nada mudaria nossa amizade. No entanto, agora que o momento parecia ter chegado, ele optara por me afastar.

O restante do dia arrastou-se com uma lentidão cruel. Meus pensamentos me traíam a cada segundo, me arrastando de volta às memórias com Jacob. Meu coração parecia se comprimir ao reviver cada fragmento e, logo em seguida, retornar à realidade sufocante da falta de notícias. Não havia um padrão definido, nem uma perspectiva de melhora; eu me sentia afogando em um limbo estranho e cinzento. Quando o sinal finalmente tocou, anunciando o fim das aulas, o recebi como um chamado às armas. Enquanto meus colegas corriam pelos corredores, bradando seus planos para o fim de semana, decidi que era hora de retomar as rédeas da minha própria vida.

— Vou para a Reserva, Bella — anunciei, assim que nos encontramos na picape. — Avise o papai e não me espere para o jantar.

— O Jacob deu notícias? — perguntou ela, surpresa.

— Eu vou atrás das minhas próprias respostas.

Não esperei por tréplicas. Atravessei o estacionamento até o carro dos gêmeos, solicitando uma carona até a casa de Jake. Alec e Jane concordaram de imediato, sem perguntas adicionais, como se percebessem a urgência silenciosa que emanava de mim. Durante o trajeto, a estrada para La Push pareceu muito mais longa do que eu recordava. À medida que cruzamos a linha invisível da fronteira, a névoa se dissipou,, revelando um céu de um cinza profundo, carregado de nuvens prontas para desabar. O cheiro de cedro e sal atingiu-nos com uma força arrebatadora, trazendo-me um conforto que eu só encontrava ali.

Os gêmeos pararam em frente à pequena casa de madeira dos Black. Saltei do carro, agradecendo a ambos; Jane lançou-me um olhar caloroso, um recado mudo de que tudo ficaria bem, e me limitei a forçar um sorriso antes de caminhar em direção à varanda.

Billy estava lá, em sua cadeira de rodas. Sua expressão era de exaustão, marcada por olheiras profundas, mas não havia surpresa em seu olhar. Tive a impressão de que ele esperava por mim, com ou sem autorização.

— A Emily avisou que não era um bom momento, Renesmee — disse ele, com a voz firme.

Senti minhas pernas vacilarem por um segundo, mas procurei manter a postura. Eu não percorrera todo aquele caminho para desistir diante do primeiro obstáculo.

— Eu não me importo com avisos mais do que me importo com ele, Billy — respondi, sustentando o olhar. — Prometi que estaria aqui quando acontecesse e é exatamente o que estou fazendo. Se o Jacob não me quiser por perto, ele terá que me olhar nos olhos e me mandar embora.

Billy soltou um longo suspiro, avaliando-me de cima a baixo.

— Você não tem ideia da dimensão do que está ocorrendo lá dentro, criança — ele apontou para a porta. — O Jacob que você conhecia não existe mais; ele está lutando para se encontrar.

— Não importa quem ele seja agora, eu ficarei ao seu lado. Vou cumprir minha promessa — insisti, dando um passo à frente. — Por favor, Billy, deixe-me falar com Jake.

Antes que o velho Billy pudesse responder, a porta se abriu. O ranger da madeira ecoou como um trovão. Minha primeira percepção foi o calor — uma onda térmica tão intensa que intimidava o frio daquele fim de tarde. Logo depois, ele entrou no meu campo de visão. Precisei dar um passo atrás para conseguir encontrar seus olhos.

Jacob não parecia em nada um garoto de dezesseis anos. Estava ainda mais alto, com os ombros e braços exibindo o dobro da largura anterior. O cabelo, outrora longo, agora ostentava um corte militar rente. Apesar do frio, vestia apenas uma bermuda jeans surrada e uma camisa de flanela de mangas curtas.

Contudo, foi o seu olhar que me paralisou.

Quando nossos olhos se cruzaram, tive a estranha sensação de que o mundo, de alguma forma, deixara de existir. Não percebia mais os sons da floresta, a presença de Billy ou o ruído das ondas; eu mal sentia o chão sob meus pés. Senti um solavanco violento no peito, como uma colisão gravitacional. De repente, não era mais a Terra que me mantinha de pé; eu estava presa a ele, sendo atraída por uma força nova e absoluta. Era um pertencimento avassalador.

Assumi que a intensidade daquele encontro era fruto da saudade, mas a sensação era muito mais profunda. Ter Jacob ali era um bálsamo para minha alma ferida. Não hesitei; corri e me atirei em seus braços, sendo amparada de imediato por uma força que parecia capaz de sustentar o mundo. Toquei sua pele, precisando saber que ele era real, que estava bem. Seu calor me envolveu por completo, confirmando a metáfora que agora era minha realidade: eu era o satélite e ele, o sol que eu orbitaria para sempre.

— Você está aqui... você está aqui — repeti, mais para mim do que para ele. Seus braços apertaram-se em volta da minha cintura, tirando-me o fôlego. — Jake, eu estava tão preocupada... Que droga! Você prometeu que ficaríamos juntos. Você não tem o direito de simplesmente sumir. Eu queria estar ao seu lado.

— Shiu... está tudo bem — ele sussurrou, afagando meu cabelo com uma doçura que contrastava com sua nova aparência brutal. — Estamos juntos, okay?

Afastei-me levemente, buscando a segurança de seus olhos. Vi em suas íris a mesma devastação que eu sentia: o choque, a adoração e uma necessidade absoluta de proteção.

— Promete que não vai mais me deixar sem notícias? Que não vai me afastar?

— Eu não vou a lugar nenhum sem você, Renesmee — ele prometeu, e pela primeira vez em dias, o mundo voltou a fazer sentido.