Notas iniciais
Boa tarde, pessoal! Desejo um sábado maravilhoso para todos vocês. Passo aqui rapidinho para agradecer de coração a quem está acompanhando este projeto. Os comentários recentes têm sido um combustível incrível e me motivam demais a continuar escrevendo cada reviravolta dessa trama! Além disso, tenho uma novidade: acabei de postar minha primeira one shot! É um projeto que eu já estava planejando há um tempo e mal podia esperar para mostrar a vocês. Quem puder dar uma conferida, vai ser um prazer compartilhar mais uma versão do melhor casal do mundo. Espero que aproveitem o capítulo de hoje. Boa leitura!

O cheiro de graxa e óleo de motor me acolheu no instante em que pus os pés na pequena oficina. Aquele aroma peculiar trazia consigo a sensação imediata de lar. No meio do galpão, a Harley jazia ainda inacabada, cercada por ferramentas que agora pareciam pequenas e frágeis demais para as mãos imensas de Jacob. Durante nossa caminhada até ali, notei que ele não se movia mais de forma desengonçada, como um adolescente comum da nossa idade; ao contrário, ele andava com a firmeza calculada de uma criatura nascida para caçar.

Jake fechou a porta dupla atrás de nós, conferindo uma privacidade necessária ao momento. Antes de se sentar ao meu lado em uma das bancadas, notei seus olhos negros vidrados na moto, como se estivesse se agarrando desesperadamente a alguma lembrança específica da sua antiga vida.

— É a primeira vez que venho aqui desde que eu... bom, desde que eu mudei — ele começou, e sua voz, agora mais grave, pareceu vibrar contra as paredes de madeira. — O cheiro de tudo isso... o cheiro de nós dois trabalhando... eu simplesmente não consegui encarar. Não sozinho. Confrontar quem eu era antes da transformação é uma tarefa difícil.

Deslizei sobre a bancada, diminuindo a distância entre nossos corpos. Pensei em abraçá-lo, mas meus braços mal alcançariam metade de sua nova envergadura; optei, então, por enlaçar nossas mãos. Sob a luz fraca da oficina, sua musculatura era ainda mais acentuada, e as linhas de expressão conferiam a ele o ar de alguém bem mais velho. Jacob agora tinha a aparência sólida de um universitário, alguém que já havia visto o mundo e sobrevivido a ele.

— Por que você me afastou, Jake? — questionei, a mágoa lutando contra o alívio avassalador de estarmos juntos novamente. — No hospital, você partiu sem olhar para trás. E depois, o silêncio. Quatro malditos dias... quatro dias que pareceram séculos. Achei que você tivesse decidido que não precisava mais de mim.

Jacob soltou um suspiro pesado, tão carregado de frustração que o som se assemelhou a um rosnado contido.

— A febre é algo incontrolável, Renesmee — ele disse, voltando os olhos para os meus e tocando meu rosto com uma delicadeza extrema, como se temesse me quebrar. — No hospital, eu só conseguia sentir ódio. Não havia espaço para mais nada além da vontade de acabar com aquele sanguessuga. Fiquei apavorado de descontar essa raiva em alguém, principalmente em você. Então, eu fugi.

Ele fez uma breve pausa, e o vapor de sua respiração quente atingiu minha pele.

— Foram dois dias inteiros queimando e gritando de dor — Jacob mordeu o lábio inferior antes de continuar. — Era como se meus ossos estivessem sendo moídos e refeitos em uma fornalha. E essa nem era a pior parte. Tive que lidar com meus próprios pensamentos durante o processo. Tudo estava mudando: minha vida, minha aparência, meu futuro. Tive medo de que, no fim, você não conseguisse mais enxergar o Jacob por trás da fera.

Segurei sua mão, a forçando contra minha bochecha. Sua palma era ainda maior do que eu recordava; naquela nova proporção, ocupava quase todo o lado do meu rosto. O calor habitual de Jacob estava lá, mas, assim como tudo nele, havia se intensificado. Eu deveria ter sido queimada por aquela temperatura febril, mas, em vez disso, senti-me finalmente aquecida.

— Jake, eu sempre vou reconhecer você. Não importa quais sejam as circunstâncias — admiti, fechando os olhos e me entregando ao seu toque. — Eu poderia ter estado aqui, ao seu lado... eu deveria ter estado. Não é justo que você carregue o peso do mundo sozinho, quando pode dividir comigo.

Pela primeira vez, Jacob e eu compartilhamos um tipo de silêncio diferente do habitual; não era o silêncio de conforto, de quando duas pessoas estão apenas desfrutando da companhia uma da outra, mas um silêncio gritante, onde segredos ainda borbulhavam entre nós. Havia perguntas que eu queimava para fazer e coisas que eu precisava contar.

— Além de todas as mudanças físicas, ainda existem outras coisas com as quais tenho que lidar — ele começou, desviando o olhar para o canto escuro do galpão. — Há algo barulhento aqui dentro agora.

Franzi a testa, sem realmente compreender ao que ele se referia.

— O que você quer dizer com isso?

Jake soltou uma risada seca, sem humor — um som quase melancólico que não combinava com seu novo porte físico.

— Eu não estou mais sozinho dentro da minha própria cabeça, Renesmee — disse ele, dando de ombros. — No exato momento em que me transformei, passei a ficar “plugado” no restante dos rapazes. Quando estou na forma de lobo, consigo ouvir os pensamentos deles, assim como eles conseguem ouvir os meus.

— Como se vocês pudessem ler mentes? — perguntei, sentindo um calafrio.

— É mais como um canal aberto de comunicação telepática entre os lobos da matilha — ele falava as palavras “lobo” e “matilha” com uma mistura de orgulho e o fardo pesado de pertencer. — É impossível guardar segredos. As memórias, os impulsos, os sentimentos… tudo é compartilhado. Costumo dizer que somos o mesmo organismo, apenas dividido em vários corpos.

Uma pontada de tristeza me atingiu. Jacob estava passando pela maior transformação de sua vida e, ainda assim, suas maiores inseguranças estavam escancaradas aos demais. Eu era incapaz de processar a magnitude daquela falta de privacidade.

— Você não tem nenhum lugar que seja somente seu?

— Quando estou na forma humana, eu consigo algum silêncio — explicou. — Mas as lembranças só são exclusivamente minhas até eu me transformar de novo. A ligação com eles está sempre aqui, presente. É difícil explicar, mas, apesar de não ouvir nenhum deles agora, eu os sinto. É como um rádio ligado em volume baixo, sabe? Uma música de fundo constante.

Apertei sua mão, tentando enviar uma mensagem silenciosa de apoio. Por um momento, perdi-me outra vez na imensidão de seus olhos negros. Era estranha a forma como eu me sentia ainda mais atraída por ele; dar nome aos meus sentimentos parecia ter criado uma atmosfera magnética, uma necessidade gritante de me fundir ao seu calor. Imaginei o que aconteceria se eu decidisse contar o que estava sentindo. O melhor dos cenários seria ser correspondida, mas não havia uma certeza firme de que seria esse mundo que eu encontraria. Senti minhas bochechas arderem diante do simples pensamento.

— Alec disse que viu o Sam na cidade hoje de manhã — comentei, tentando desviar o foco da minha própria mente.

Senti o corpo de Jacob se retrair instantaneamente.

— O Sam está monitorando a fronteira e a casa de vocês diariamente. Minha discussão com o Edward mudou todo o cenário.

A voz rouca de Jacob estava carregada de nojo ao mencionar o nome do filho mais novo dos Cullen. Era uma aversão visceral, tão profunda quanto a que Billy sempre demonstrara.

— Eles estão nos cercando novamente?

— Edward parece querer se aproximar de Bella — Jacob disse, e senti minhas pernas vacilarem. — Carlisle veio pedir autorização para tal, inclusive.

— O quê? Como? Sob qual pretexto?

— Edward está, supostamente, apaixonado por sua irmã.

Meus olhos se arregalaram em desespero. Foi como se Jacob tivesse unido em uma sentença palavras que nunca deveriam estar juntas. Um vampiro apaixonado por uma humana. Uma piada bizarramente mórbida, sem sentido e sem graça nenhuma.

— Isso não pode ser sério — um suor estranho e pegajoso acumulou-se em minha nuca. — Vocês não permitiram isso, não é?

— Claro que não. Enquanto depender exclusivamente de nós, isso não vai acontecer.

— O que você quer dizer com “depender exclusivamente de vocês”? — perguntei, confusa.

— A partir do momento em que a Isabella quiser estar perto dele, desde que ele não a machuque fisicamente, não há nada que possamos fazer pelo tratado.

A obsessão de Bella pelos Cullen me veio à mente com força total. Todas as cenas que presenciei naquela semana me causaram arrepios. Pensei em mim e nos meus próprios sentimentos por Jacob, traçando um paralelo inevitável. Assim como eu, minha irmã nunca tivera um relacionamento real. E quando nada ocorreu antes, é complicado denominar o que se sente. Diferente de mim, que tive a chance de estar perto de Jacob e desenvolver uma amizade sólida, ela fora privada de qualquer convivência normal, o que me fez temer que o sentimento dela pudesse facilmente ter se tornado algo doentio. Um nó apertou-se em minha garganta.

Antes que eu pudesse retomar o assunto, Billy bateu à porta da oficina e Jacob apressou-se em abrir. Ele já não parecia tão tenso, nem tão exausto quanto no momento em que cheguei à Reserva; suas feições estavam mais suaves, quase aliviadas. Ele sorriu ao me ver, o mesmo sorriso paternal de sempre.

— Vim saber se estão bem e se estão com fome — disse Billy, sua cadeira de rodas deslizando suavemente pelo galpão. — E também para me desculpar pelo modo como a tratei mais cedo, Renesmee. A transformação de Jacob mexeu com todos nós.

Eu não guardava ressentimentos; não após compreender a magnitude do fardo que eles carregavam. Embora soubesse que poderia ter sido útil se me deixassem dividir aquele peso, afastei os pensamentos sobre nossa discussão anterior e busquei soar o mais sincera possível.

— Billy, eu compreendo perfeitamente. Fique tranquilo — sorri para ele. — É bom estar aqui com vocês.

Jacob retornou ao meu lado, mas, desta vez, puxou-me para um meio abraço. Sua mão direita ancorou-se em minha cintura enquanto seus lábios buscavam o topo da minha cabeça. Havia uma gentileza nova em seu toque, um cuidado quase reverencial. Por um instante, a ameaça dos vampiros e a mutação de Jacob pareceram minúsculas diante da sensação de ser acolhida por seus braços. Soltei um suspiro de alívio.

— Renesmee, tomei a liberdade de ligar para o Charlie e pedir que passasse a noite aqui — anunciou Billy, pegando-me de surpresa. — Sei que não veio preparada, mas a Emily pode lhe emprestar algumas roupas. Você e Jacob têm muito o que conversar.

Jacob e Billy trocaram um olhar sugestivo, um diálogo mudo que me deu a nítida impressão de que ainda havia um segredo guardado dentro do segredo original. Senti uma leve ansiedade, mas nem a curiosidade sobre novas descobertas ofuscou a satisfação de saber que não precisaria me despedir de Jake tão cedo.

— Bom, sendo assim, acho que aceito um lanche.

A noite na Reserva não trouxe apenas abrigo contra a chuva, mas também o convite para mais uma fogueira. Este era um ritual ao qual eu vinha me habituando: sentar-se em volta das chamas, ouvir os anciãos e jantar à beira-mar sob a agitação da matilha. De certa forma, eu me sentia parte daquilo, ainda que o sangue Quileute não corresse em minhas veias.

Ficou definido que eu seria hóspede na casa dos Black e que Jacob me cederia seu quarto. Emily, prontamente, disponibilizou roupas para que eu pudesse participar do evento e dormir depois. Ela mantinha o mesmo trato caloroso, deixando a rispidez do telefone no passado; chegou a dizer o quanto estava feliz em me ver novamente.

Na praia, as chamas subiam alto, lambendo a escuridão de La Push. O estalar da madeira seca era o único som capaz de competir com o rugido do oceano. Eu estava sentada ao lado de Jacob, envolta em um cobertor grosso, apesar de ter certeza de que o calor dele seria o suficiente para me manter aquecida. Diferente das outras vezes, Jake parecia especialmente nervoso; mantinha os olhos fixos nas chamas e a mão agarrada à minha, traçando pequenos círculos com o polegar, como se o gesto ajudasse a regular seu estado de espírito.

Como era de praxe, Billy — figura de maior autoridade da tribo — iniciou a história. Sua voz, rouca e carregada pela idade, narrava as lendas que eu já ouvira fragmentadas, mas que agora ganhavam uma clareza aterrorizante. Ele falou sobre os Primeiros Antepassados e o espírito do lobo, preparando o terreno para o ponto central da noite. Imaginei se o tema seria Jacob, já que era sua primeira fogueira após a transformação.

— O lobo não segue sua jornada sozinho — disse Billy, fixando os olhos no filho. — Para que o homem não seja consumido pela fera, os espíritos nos deram um presente. O imprinting, como nosso povo o denominou, é muito mais do que uma ligação de amor; é um encontro de almas. É um reconhecimento. Quando o homem encontra a sua parceira, o lobo dentro de si se manifesta. O lobo não pertence mais a si mesmo; ele pertence àquela que o completa. Ele se torna o que ela precisar: um protetor, um amigo, um amante. Ela é a âncora que impede o espírito de se perder na escuridão.

Fui atingida pelas imagens de Sam e Emily juntos; a sintonia absoluta que partilhavam, movendo-se como em um balé ensaiado. Me lembrei de como eu me questionara se um dia viveria algo assim. Mas eles compartilhavam algo muito além de um amor humano e trivial; suas vidas estavam entrelaçadas por magia. Senti uma pontada de inveja.

Foi somente ao olhar para Jacob que a ficha caiu, e o impacto foi devastador. Ele estava estático, a mandíbula travada, os olhos fixos no fogo com uma intensidade que beirava a agonia. Ele não me olhou de volta. Assim como Sam, Jake agora era um lobo e, como tal, estava condicionado a ter seu próprio amor místico.

A constatação surgiu em meu peito como uma pressão capaz de esmagar meu coração. De todos os cenários possíveis para lidar com a paixão que eu nutria pelo meu melhor amigo, aquele era o pior de todos. Não haveria espaço para mim. Eu estava condenada a engolir meus sentimentos e lidar com eles sozinha, esperando o dia em que ele encontraria sua "parceira de alma" e me deixaria para trás. Reprimi as lágrimas que queimavam para cair.

O restante da noite foi um borrão. Tentei agir com naturalidade, participando de conversas vazias com Embry e Quil, mas nada prendia minha atenção. A comida de Emily, embora saborosa, descia pela garganta como uma obrigação amarga.

Ao final da solenidade, os anciãos recolheram-se, seguidos pelos demais. Jacob, no entanto, ficou um passo atrás. Ele me manteve ao seu lado, sentados à beira da praia, enquanto as brasas da fogueira morriam lentamente diante de nós. Não proferimos uma única palavra, até que todos estivessem fora de vista.

O som das ondas quebrando nas pedras, por um curto período, foi a única melodia a preencher o vácuo entre nós. Jacob permanecia em silêncio, mas o calor que emanava dele parecia lutar contra a brisa gelada que soprava do oceano. Eu, por outro lado, sentia um frio que vinha de dentro. A história do imprinting ainda ecoava em minha mente como uma sentença de morte; morte ao sentimento que crescia desenfreado dentro de mim.

​— Renesmee, está tudo bem? — Sua voz rouca não passava de um murmúrio. — Você parece em estado de transe. Está calada, pensativa… O que está acontecendo?

​O questionamento de Jacob avançou sobre mim como um rolo compressor; por uma fração de segundo, sua fala rompeu a fortaleza de proteção que eu criara ao redor dos meus sentimentos. Eu não aguentaria fingir por muito mais tempo. Levantei-me, dando alguns passos em direção à água, sentindo a areia úmida ceder sob meus pés.

​— São muitas coisas para processar ao mesmo tempo, Jacob — respondi, sem me virar. — Quando você disse que a transformação havia mudado sua vida, eu não imaginava que isso atingiria todos os âmbitos dela. Quer dizer, seu futuro já está escrito em algum lugar.

​Mesmo com o barulho do mar, pude ouvir seus passos pesados atrás de mim. Ele parou a centímetros de distância; eu podia sentir seu calor me abraçando novamente e seu peito subindo e descendo, ritmado pela respiração.

​— Do que exatamente estamos falando?

​— Estou falando sobre você me deixar! — Explodi, permitindo que as lágrimas rolassem livremente. Jacob agarrou-me pelos braços e forçou-me a virar em sua direção. — Estou falando de você encontrar essa sua parceira mística e perceber que eu sou apenas a amiga humana que você costumava carregar nas costas. Eu vi o Sam e a Emily, Jacob. Eu vi como eles se olham. E eu sei que, quando o seu imprinting acontecer, não vai sobrar espaço para mim. Eu serei apenas uma lembrança de quando você ainda era normal.

​Respirei fundo antes de continuar; o choro começava a me roubar a voz.

​— Estamos fazendo promessas vazias de novo, Jacob — atirei meus braços para o alto, em um gesto de rendição. — Só estaremos juntos até que aconteça com você. Pode ser hoje, amanhã ou daqui a um mês. É temporário.

​Jacob estacou. Uma expressão de choque cruzou seu rosto antes de transformar-se em algo muito mais profundo — uma mistura de dor e uma compreensão devastadora. Ele puxou-me para o peito, mantendo-me presa delicadamente em seu abraço. Foi impossível dizer mais nada; minha boca estava comprimida contra o tecido de sua camisa.

​— Renesmee, o que você sente por mim? Me fala a verdade.

​Mesmo diante do tom ameno que ele usou, minhas pernas vacilaram. Meu coração errou a batida e meu estômago se contraiu. Parecia idiotice confessar meus sentimentos quando eu acreditava que seria em vão, mas seria pior nunca admiti-los em voz alta. Engoli em seco antes de me afastar e olhar em seus olhos.

​— Eu não sabia direito até conversar com o Charlie — meus pés batiam contra a areia em um ritmo nervoso, as lágrimas ainda rolavam e minha voz ameaçava falhar outra vez. — Jacob, eu juro que não escolhi isso, só foi acontecendo e…

​Ele cortou-me antes que eu terminasse a explicação.

​— Me diga: o que você sente?

​Fechei os olhos e cerrei as mãos em punho, tentando me regular.

​— Eu estou apaixonada por você.

​Jake não esperou que eu continuasse. De forma lenta e um tanto hesitante, ele inclinou a cabeça em minha direção e uniu nossos lábios, em um gesto que me pegou totalmente de surpresa.

​Nosso primeiro beijo foi uma explosão de sentidos. Os lábios de Jacob eram quentes, macios e traziam um leve toque de hortelã; eles cobriram os meus com uma gentileza avassaladora, enquanto sua língua dançava de forma delicada contra a minha. Jake rodeou minha cintura com os braços e suspendeu-me do chão com uma facilidade absurda, como se eu não pesasse mais do que uma criança.

​Mesmo contra a minha vontade, precisamos nos afastar minimamente em busca de ar. Internamente, desejei congelar aquele momento, aquele beijo e todas as sensações: o calor aconchegante que me preenchia, as borboletas no estômago, a ânsia por mais. Ele manteve nossas testas unidas enquanto abria os olhos e voltava a me encarar com uma profundidade que parecia alcançar minha alma.

​— Renesmee, me escuta, okay? — pediu ele, ainda me sustentando em seus braços. — Pela primeira vez desde que a conheci, você não foi capaz de ligar os sinais. Me ofende que você pense que estou esperando outra pessoa. Hoje, naquela varanda, quando eu a vi, minha vida inteira mudou. Renesmee, meu imprinting já aconteceu.

​Minha boca formou um “O” involuntário. Meu coração ficou ainda mais descompassado do que durante o beijo. O silêncio que se seguiu não era mais de mágoa, mas de uma revelação sagrada. Eu não era a excluída; eu era o centro. Senti uma leveza súbita, como se o peso do mundo tivesse sido retirado dos meus ombros. Minha mão subiu trêmula para o peito dele, repousando sobre as batidas frenéticas.

​— Eu sou…?

​— Você é a minha âncora, Renesmee.

​O choque deu lugar a uma euforia silenciosa. Naquela nova realidade, eu não era apenas uma testemunha da vida de Jacob; eu era o motivo dela.

​— Agora você entende? — Ele perguntou, afagando meu rosto e abrindo um sorriso imenso, o primeiro sorriso de paz real que eu via nele desde a transformação. — Não há mais nada a temer, Renesmee. Onde quer que você vá, eu estarei lá.

​Eu sorri de volta, sentindo a eletricidade da ligação vibrar em cada célula do meu corpo. O amanhã traria Forks, Bella e o perigo dos Cullen, mas naquela noite, na areia de La Push, eu descobri que minha própria gravidade havia mudado para sempre.