Meu Novo Crepúsculo
10 Linhas da fronteira
Notas iniciais
O amanhecer na Reserva não veio acompanhado pelo brilho do sol; entre as cortinas do quarto de Jacob, uma gradação de azul e cinza profundos dançava pelo cômodo, anunciando que já passava das seis. Naquela manhã, me permiti acordar devagar, desfrutando o cheiro amadeirado dele — uma mistura de terra molhada e cedro — que estava impregnado por todo o quarto. O pesado cobertor no qual eu estava envolta era a principal fonte daquele aroma, que agora era meu preferido.
Lembranças da noite anterior me inundaram enquanto eu permanecia em um estado de doce inércia. Desde o toque dos lábios de Jacob até as promessas seguras em sua voz, tudo era tão vívido que, se eu fechasse os olhos, poderia jurar que ainda estava vivendo aquele momento na areia. Pela primeira vez em dezesseis anos, a incerteza sobre quem eu era, ou para onde eu iria, havia desaparecido; eu estava exatamente onde deveria estar.
Me sentei na cama, vestindo o conjunto de moletom que Emily disponibilizou — apesar da nossa diferença de altura, as peças moldaram-se confortavelmente em mim — e caminhei até a janela. Do lado de fora, uma névoa rala bailava sobre a grama alta do quintal dos Black. E lá estava ele.
Jake estava sentado nos degraus da varanda dos fundos. Mesmo com o frio cortante da manhã, vestia apenas uma bermuda e estava em camisa. Como um motor operando em sobrecarga, sua pele irradiava uma ondulação de vapor constante. No instante em que meus pés tocaram o chão de madeira do quarto, soube que ele tinha notado minha presença. A conexão que Billy descreveu era um radar ininterrupto, e naquele momento, eu era o único sinal no mapa de Jacob.
Senti uma necessidade urgente de me juntar a ele. Vesti um de seus casacos pesados e fui em direção a porta traseira, me movendo com cautela para não acordar Billy. Ao sair, o ar gelado atingiu meu rosto, mas antes que eu pudesse estremecer, Jacob já estava de pé, me envolvendo em um abraço. O sorriso que ele me lançou era carregado de uma paz que eu nunca havia visto em suas feições.
— Bom dia, Jake — murmurei, me aninhando contra seu peito quente. — Você acordou cedo.
— Para ser sincero, dormi muito pouco esta noite — sua voz era um trovão baixo e melodioso. — Tive medo de descobrir que tudo fora um sonho. Precisava ter certeza de que você estava mesmo aqui quando o sol, ou o que quer que seja esse cinza no céu, surgisse.
Jacob escondeu o rosto na curva do meu pescoço por um breve instante, inalando meu perfume e me causando arrepios. Seus braços fortes seguiam me amparando com uma força descomunal, mas não havia mais o medo da perda, apenas a segurança de um pertencimento absoluto.
— O café da manhã vai ser na casa da Emilly. — sussurrou contra minha pele. — Seria bom você mandar uma mensagem ao Charlie, avisar que está tudo bem e que eu a levo para casa no final do dia. Pode ser?
Concordei com um murmúrio suave.
— Posso te dar um beijo? — ele perguntou, com uma timidez nova que me fez sorrir.
Minha resposta veio com o roçar de nossos narizes. Fiquei na ponta dos pés para alcançar seus lábios, enquanto ele se inclinava para facilitar o encontro. As mesmas sensações da noite anterior retornaram, talvez ainda mais intensas. Nossos lábios tinham a sintonia de quem se conhece há eras; não havia urgência, apenas delicadeza e reconhecimento.
Fomos interrompidos pelo som da cadeira de rodas de Billy aproximando-se pelo cascalho.
— Bom dia, crianças — ele cumprimentou-nos com um largo sorriso. — Vejo que a fogueira fez bem a vocês.
O pai de Jacob parecia ter rejuvenescido dez anos; seu olhar brilhava com uma satisfação profunda. Senti minhas bochechas arderem.
— Seja bem-vinda à família, Renesmee — Billy disse, genuinamente feliz. — Quanto a você, Jacob, não perca a boa educação que lhe dei. Pelas nossas leis, vocês já receberam a maior bênção possível, mas, para as leis humanas, ainda é necessária a aprovação de Charlie.
Nas últimas doze horas, nenhum dos meus pensamentos rodou em volta da vida que eu tinha do outro lado da linha. Aqui na Reserva, vivíamos um amor místico e predestinado; mas, aos olhos humanos e desinformados, ainda éramos apenas dois adolescentes iniciando um namoro.
— Pretendo conversar com o Chefe Swan hoje à tarde, pai — revelou Jacob, pegando-me de surpresa.
Embora as chances de meu pai desaprovar o envolvimento eram mínimas, senti um frio na barriga ao imaginar uma conversa formal de "pedido de namoro".
— Isso é ótimo — aprovou Billy. — Vim chamá-los para o café. Todos já estão reunidos na Emilly. Vamos?
Para mim, foi necessário um momento humano antes de aceitar o convite. Corri para dentro para lavar o rosto e organizar o cabelo, enquanto Jacob esperava pacientemente.
Chegamos à casa de Emily quando já passava das sete e meia. Como Billy relatara, quase toda a matilha estava lá: Sam, Embry, Quil, Paul e Jared rodeavam a mesa. O café da manhã transcorreu em uma domesticidade estranha e reconfortante. Todos sabiam que Jacob e eu agora éramos um par oficial, e a forma como me tratavam — com uma mistura de respeito e acolhimento — eu com que eu me sentisse, pela primeira vez, como parte integrante daquele todo.
Quando finalizamos a refeição, fui guiada por Jacob para longe da casa de Emily. Ele não precisou dizer para onde íamos; meus pés ainda recordavam o caminho. Estávamos alcançando o topo do penhasco onde, pouco antes de nossas vidas virarem do avesso, havíamos prometido lealdade um ao outro.
Como era esperado naquela altitude, o vento soprava feroz, carregando o salitre do Pacífico e agitando meus cabelos. Jake, em seu instinto de proteção, se posicionou como um escudo, impedindo que a ventania ricocheteasse em mim com tanta intensidade.
Ficamos em silêncio por um longo período, sentados no chão, apenas observando as ondas explodirem contra as rochas negras abaixo de nós.
— Renesmee — ele chamou, por fim, a voz quase sumindo sob o rugido do mar.
Voltei meus olhos e minha atenção para ele. Jacob parecia inquieto. Houve um movimento suave e discreto quando sua mão alcançou o bolso lateral da bermuda, retirando de lá um objeto que manteve escondido no punho cerrado.
— Renesmee, antes de lidar com as leis humanas, existe algo que eu gostaria que você soubesse — ele começou, o olhar preso ao meu. — Quero que saiba que o que temos vai além de qualquer explicação sobre o imprinting.
Ele abriu a mão. No centro de sua palma imensa, repousava um anel entalhado em uma madeira escura e polida, quase negra. Era uma peça delicada, com veios que pareciam desenhar ondas ou chamas, trabalhada com a perfeição de quem conhece cada milímetro de uma ferramenta.
— Eu fiz isso para você — sussurrou, tomando minha mão direita, mas sem deslizar o anel ainda. — Comecei a trabalhar nisso duas semanas atrás. Foi antes da discussão com o Cullen, antes da febre.
Minha atenção saltava do anel para ele, enquanto meu estômago se revirava em uma ansiedade doce.
— Antes?
— Antes — ele confirmou, e a vulnerabilidade presente na imensidão de seus olhos negros quase me desarmou. — Imaginei um milhão de maneiras de lhe entregar isso. No seu aniversário ou, quem sabe, em um dia qualquer na oficina… O que quero dizer é que eu já sabia. Você prendeu o homem antes de prender a fera. Eu já estava apaixonado por você.
Ele fez uma pausa, respirando o ar gelado antes de continuar, a voz ganhando uma firmeza solene.
— O imprinting é lindo, as lendas são invejáveis. Mas não quero que pense, nem por um segundo, que o que sinto por você é apenas um reflexo da biologia do lobo. O destino pode ter sido selado pela magia, mas meu coração escolheu você por conta própria.
Senti as lágrimas alcançarem meus olhos. Havia tanto amor e delicadeza naquele gesto que valor nenhum no mundo poderia ser equiparar a ele.
— Renesmee, esse anel é a prova de tudo isso. É um pedaço da Reserva, do meu trabalho, de mim. O maior símbolo do nosso compromisso.
— É lindo — consegui dizer em um fio de voz, completamente embargada pela emoção.
— Renesmee Carlie Swan — ele usou meu nome completo com a devoção de quem se refere a um título sagrado. — Você aceita ser minha? Aceita ser a parceira do homem e da fera?
— Eu aceito, Jacob Ephraim Black — respondi, enquanto ele, finalmente, deslizava o anel pelo meu dedo. Coube perfeitamente. — Saiba que eu sempre fui sua, antes mesmo de entender o que isso significava.
Atirei-me em seus braços e ele me apertou contra si, tirando-me o fôlego. O anel em meu dedo parecia quente, ou talvez fosse apenas o calor de Jacob atravessando a madeira. Era o nosso pacto. Jake depositou um beijo demorado no topo da minha cabeça antes de nos afastar minimamente, um brilho travesso surgindo em seus olhos.
— Agora eu realmente preciso encarar o Xerife Swan. Espero que ele tenha esquecido a arma na delegacia.
Soltei uma gargalhada genuína, a primeira em muitos dias, antes de voltar a me apertar contra ele.
Passamos o restante do sábado tão juntos quanto era possível. Jacob me roubou um beijo ou dois enquanto ainda explorávamos a nova e vibrante dinâmica do nosso relacionamento. Naquela tarde, logo após um agradável almoço na companhia de Billy, passamos horas na oficina trabalhando na Harley; não havia mais silêncio ou segredos em nossa atividade. Agora, o galpão era preenchido por risadas, confissões e uma declaração ou outra que escapava entre o barulho das ferramentas. Por um longo período, eu apenas o observei trabalhar. Era quase poético ver Jacob deixar de lado o fardo da mudança e resgatar hábitos cem por cento humanos, como se a graxa nas mãos fosse o elo que o mantinha preso à terra.
Foi apenas quando as sombras das árvores começaram a se alongar sobre a estrada de terra que a realidade bateu à porta. Em breve, eu teria que enfrentar a parte da minha vida que não carregava tanta magia. Pensar nisso me trouxe de volta à conversa que tive com Jake naquele mesmo galpão, vinte e quatro horas antes; eu precisava alertar Isabella para se manter ainda mais afastada da família Cullen.
— Acho que está na hora — ele murmurou, limpando as mãos em um pano escurecido pela graxa. — Vou entrar, tomar um banho rápido e te levo para casa, tudo bem?
Apenas concordei com um aceno de cabeça. Como eu viera de carona com os gêmeos no dia anterior, agora ocuparia o banco do passageiro do Rabbit do meu namorado.
Levou pouco mais de meia hora até estarmos a caminho de Forks. Me despedi de Billy prometendo voltar mais vezes durante os dias úteis e ser sua hóspede aos finais de semana; ele finalizou com um agradecimento genuíno por meu manter minha teimosia e não desistir de ir atrás de seu filho. Jacob dirigia com a mão esquerda firme ao volante, enquanto a direita estava entrelaçada na minha, o polegar desenhando círculos carinhosos entre meus dedos. A cada quilômetro percorrido, eu me sentia mais longe da proteção mística da Reserva.
— Você está tensa — observou ele, sem desviar os olhos da estrada que se tornava mais escura e úmida à medida que nos aproximávamos da cidade.
— Gostaria de não precisar enfrentar a realidade, sabe? — Dei de ombros. — Queria viver nessa bolha particular onde sou apenas a sortuda namorada de um lobo gato.
Ele gargalhou timidamente, e suas bochechas ganharam um tom de cobre pelo aumento do fluxo sanguíneo.
— Você sabe que não vou mais sair de perto, não sabe? — questionou, desviando a atenção da estrada para me encarar por uma fração de segundo. — Vou assumir as rondas noturnas na casa de vocês. Quero ter certeza de que ficarão bem.
Mordi o lábio, ansiosa. A ideia de ter Jacob como um escudo era reconfortante, mas, ao mesmo tempo, preocupante. Pensar nele em combate e, pior, machucado para me proteger, me deixava em desespero.
— Jacob, e se eles se aproximarem novamente? — Meus pés batiam contra o carpete do carro em um tique nervoso. — Sabe... o Cullen ou a família dele.
— Isso não vai acontecer — havia uma segurança inabalável em seu tom. — Mas, se acontecer, eles não passarão por mim.
Imagens do acidente de Bella invadiram minha mente; a força sobre-humana de Edward, capaz de parar um carro em alta velocidade com os ombros. Tremi involuntariamente.
— Jake, eles são muito fortes…
— Meu amor, você ainda não me viu em forma de lobo e não conhece a fundo o poder da matilha — ele não parecia nem um pouco intimidado. — Confia em mim, okay?
Não tocamos mais no assunto durante o restante do percurso.
Quando finalmente entramos na rua da nossa casa, o Rabbit parecia deslocado entre as residências suburbanas e silenciosas de Forks; o ronco do motor ecoava os batimentos do dono, como uma extensão mecânica do próprio Jacob. Estacionei meus olhos na varanda e senti um frio na espinha. A viatura de Charlie estava lá, o que era um alívio, mas as luzes do andar de cima — no quarto de Bella — estavam acesas, projetando sombras longas e inquietas contra a neblina. Jacob desligou o motor, e o silêncio que se seguiu foi quase ensurdecedor.
— Pronta para apresentar seu namorado ao xerife? — perguntou ele, se voltando para mim com um largo sorriso, seus dentes claros brilhando na penumbra do carro.
— A pergunta deveria ser: você está pronto para enfrentá-lo? — encurtei a distância entre nós, deixando nossos rostos a centímetros um do outro. — Sou a primeira filha a namorar, Jake.
Ele deu-me um selinho rápido antes de alcançar a maçaneta.
— É uma honra ser o seu primeiro.
Saímos do carro e o ar de Forks me atingiu como uma bofetada gelada. O cheiro de pinho e chuva era o mesmo, mas tudo parecia mais pesado agora. Enquanto caminhávamos para a porta, olhei uma última vez para a floresta escura que cercava a casa. Eu sabia que, embora estivesse entrando em território Cullen por associação, o lobo ao meu lado não recuaria um centímetro.
Respirei fundo antes de abrir a porta e anunciar nossa chegada. Charlie, como de costume, estava sentado no sofá assistindo TV. Ele imediatamente voltou sua atenção para nós, e seus olhos demoraram-se, pesados e analíticos, sobre nossas mãos entrelaçadas.
O silêncio na sala de estar foi quebrado apenas pelo som baixo do telejornal. Charlie nos encarou por alguns segundos que pareceram horas, mas o choque esperado não veio. Em vez disso, um meio sorriso surgiu em seu rosto cansado; ele relaxou os ombros, sem encostando no estofado.
— Então… — Papai começou, o queixo apontando para nossas mãos dadas. — Essa ida até a Reserva consertou as coisas entre vocês, hã?!
Senti meu rosto esquentar, mas Jacob não recuou. Ele deu um passo à frente, ainda segurando minha mão com firmeza, e encarou meu pai com uma postura que misturava respeito e uma confiança inabalável.
— Eu vim até aqui trazer a Renesmee e ter uma conversa formal com você, Charlie — Jacob estava tão seguro de seu discurso, como se o tivesse ensaiado mentalmente durante todo o trajeto de volta. — Não gostaria que você soubesse disso de outra forma, se não por mim. Mas o fato é que estou completamente apaixonado por sua filha e sei que é recíproco. Gostaria de saber se temos sua bênção para seguir com esse relacionamento.
Papai soltou uma risada curta e balançou a cabeça, o olhar carregado de satisfação.
— Jacob, eu conheço seu pai desde que éramos crianças. E conheço você desde que usava fraldas. Se existe alguém nesta cidade que eu aceitaria ver segurando a mão da minha filha, esse alguém é um Black — o tom de Charlie era genuíno. — Vocês têm minha bênção. E deixo as portas da minha casa abertas para que você a frequente sempre que quiser.
Fui tomada por uma onda de alívio avassaladora. Jake sorriu em agradecimento e ambos trocaram um aperto de mão firme. Posteriormente, Charlie o convidou para jantar, mas o convite foi recusado educadamente, sob a alegação de que Billy o esperava para resolver algumas pendências em casa; uma meia-verdade. Jacob ainda precisava se reunir com a matilha antes de sua verdadeira missão naquela noite começar.
Após se despedir do meu pai, eu o acompanhei até a varanda. O frio de Forks parecia menos agressivo quando ele estava por perto. Antes de ir, Jake me puxou para um abraço longo e apertado, me deixando ser envolvida em seu calor inebriante e sussurrando ao pé do meu ouvido:
— Vou apenas deixar o Rabbit em casa e volto para cá. Não vou dormir na Reserva hoje. Vou ficar na parte de trás da casa, na orla da floresta. Se qualquer coisa parecer errada, ou se você apenas quiser que eu entre... você sabe o que fazer.
— Você não precisa passar a noite no relento, Jake — protestei baixinho, embora a ideia de tê-lo ali me desse uma paz absoluta.
— Eu não sinto frio, Ness. E nada me daria mais paz do que saber que estou entre você e qualquer coisa que queira te assustar.
Ele me deu um último beijo — um selinho que demorou o tempo suficiente para me deixar zonza — e desceu os degraus da varanda em um salto ágil. Fiquei observando as lanternas traseiras do Rabbit sumir na neblina antes de entrar.
Isabella preparou o jantar enquanto Charlie e eu conversávamos na sala. Quando ela anunciou que a refeição estava pronta, iniciamos um exercício de tensão silenciosa dentro da cozinha. Meu pai estava de bom humor e parecia não captar a inquietude que nós duas partilhávamos; comentava sobre as notícias do jornal e sobre como estava feliz por Jacob e eu estarmos juntos. Minha irmã, por outro lado, apenas mexia na comida com o garfo. Seus olhos saltavam de Charlie para mim com uma precisão cirúrgica. Ela não sorriu. Não deu os parabéns. Ela apenas observava, como um cientista analisando uma mutação.
O olhar de Isabella estagnou em meu dedo anelar. O anel de madeira escura parecia brilhar sob a luz amarela da cozinha, e eu via a engrenagem girando na cabeça dela. Bella estava avaliando o material, tentando entender por que eu escolheria algo tão rústico.
— Bonito anel, Renesmee — disse ela finalmente, soando tão fria quanto sua expressão. — Foi o Jacob quem fez para você?
— Foi — respondi, tentando manter a voz estável. — Ele mesmo entalhou.
— Interessante — murmurou, voltando a encarar o prato. — Meio prematuro, não acha? Não me entenda mal, mas até ontem vocês nem estavam se falando. Em uma conversa resolveram tudo e já estão até usando aliança? Não me parece certo.
O tom acusatório me irritou profundamente. Suspirei, cerrando as mãos em punho. Desde o acidente, Isabella buscava respostas que sabia que eu tinha, mas eu não pretendia ceder. O início do meu namoro parecia a oportunidade perfeita para ela: atacar o que eu amava para me levar ao limite. Charlie, imerso em seu próprio alívio, não percebeu as farpas.
Ao final do jantar, por sugestão de Bella, papai foi para a sala, nos deixando a sós com a louça. Eu sabia que ela partiria para o confronto. Assim que Charlie cruzou a soleira da porta, o clima mudou. Bella parou diante da pia, mas não ligou a torneira. Ela se virou para mim, os olhos semicerrados.
— Quando pretende me contar o que está acontecendo de verdade, Renesmee? — Sua voz era um sinal de perigo. — Eu respeitei seu silêncio, mas eu preciso de respostas. O que os Quileutes lhe contaram sobre o Edward?
Senti meu pulso acelerar. Ela não ia desistir.
— Bella, você está entrando em uma teoria da conspiração perigosa — retruquei, com um tom propositalmente ferino. — Você acha que o Jacob tem informações, que eu tenho informações, que o Edward esconde algo… Sabe, os Cullen têm falado na escola sobre como sua pancada na cabeça distorceu sua realidade. Talvez eles estejam certos.
As bochechas dela ficaram vermelhas de fúria. Seguir sendo hostil colocaria nossa relação em risco, mas era um preço pequeno para mantê-la longe daquela realidade sombria.
— Quando eu digo que o mais prudente é ficar longe do Edward, não é por informações privilegiadas, mas porque é o que toda criatura pensante desta cidade faz — continuei, minha voz subindo o tom. — Eles vivem entre si, não têm amigos fora do círculo familiar e você, que sempre se excluiu, acha boa ideia se aproximar?
— Você está sendo rude, Renesmee — ela segurava lágrimas de frustração. — Você sabe que o que me intrigou foi o acidente.
— Você está obcecada, Isabella. Está em mania com essa família desde que chegou — aproximei-me dela, tentando intimidá-la para que recuasse. — Quer mesmo que eu acredite que foi só um caso isolado? Você está viva, ele a salvou. Ninguém viu as fantasias que você narra. Agradeça por estar viva e siga sua vida. Ninguém tem obrigação com você.
O muro entre nós se tornou intransponível. Deixei o pano de prato no balcão e subi as escadas sem olhar para trás. No meu quarto, me senti sufocada. A umidade e o espaço reduzido pareciam me apertar. Abri a janela em desespero, buscando o ar gelado. Após um banho demorado para lavar a tensão, apaguei as luzes e voltei à janela.
A floresta era uma massa impenetrável de sombras, mas eu sabia que ele estava lá, em algum ponto da escuridão, protegendo-me. Eu podia sentir sua presença vibrando no ar.
— Jake? — sussurrei para a noite.
Alguns segundos de silêncio absoluto. Então, vindo das sombras sob o grande carvalho, ouvi: um uivo suave, baixo, quase um lamento melodioso que vibrou em meus ossos. Era uma promessa. Uma canção de ninar.
Sorri, sentindo o calor do anel de madeira contra o peito enquanto me deitava. Fechei os olhos e, embalada pela presença invisível de Jacob, finalmente dormi.
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