Meu Novo Crepúsculo
7 Gelo negro, sangue quente
Notas iniciais
Estávamos na segunda semana de março, exatamente no meio do semestre escolar. Os Cullen haviam retornado à escola na segunda-feira seguinte ao "incidente" com Edward. Para o nosso pequeno corpo estudantil, a história propagada foi a de uma viagem de última hora para resolver problemas familiares; todos pareceram aceitar bem a justificativa para o sumiço repentino. Para os demais alunos, era como se nada tivesse acontecido, mas eu pude observar com clareza a mudança drástica no padrão de comportamento deles em relação a mim e à Bella.
Carlisle havia se desculpado formalmente com Sam e todo o conselho Quileute, alegando que o deslize do filho mais novo se deu em razão de uma curiosidade obsessiva com minha irmã. Segundo o patriarca da família, o "dom" de Edward parecia não funcionar em Isabella, o que gerou uma necessidade de entendimento que culminou na invasão noturna. Essa versão dos fatos não foi bem aceita pelos moradores da Reserva, e muito menos por mim. O recado fora dado com clareza: qualquer novo vacilo e os Cullen seriam banidos permanentemente de Forks. Conforme prometido, nos trinta dias seguintes à invasão, Sam e os outros se revezaram no entorno de nossa casa, garantindo que nenhum outro visitante indesejado arriscasse uma aproximação.
Nesse último mês, apesar da adição de criaturas bizarras à minha visão de mundo, passei a criar raízes em Forks. Comecei a me sentir, finalmente, em casa. Aprendi a identificar as variações do clima apenas pelo som que projetavam no telhado: o tamborilar suave da garoa matinal ou o estrondo violento das tempestades que pareciam querer varrer a cidade do mapa. A umidade constante e o cheiro de terra molhada agora me traziam uma inesperada sensação de conforto.
Minha relação com Jacob, por sua vez, tornou-se algo ainda mais sólido. Compartilhar um segredo tão íntimo e obscuro nos uniu de uma forma profunda, como se houvesse um mundo paralelo à vida real onde apenas nós dois habitássemos. O seu esforço em garantir nossa segurança fez minha admiração por ele transbordar. Todas as sextas-feiras e em grande parte dos fins de semana, eu cruzo a linha da Reserva com a picape. Estava passando tanto tempo com os Black que já me sentia parte da família, e Charlie parecia satisfeito com essa proximidade. Jacob ainda era apenas o Jacob, sem transformações, apesar das mudanças visíveis em seu porte físico; não tocávamos no assunto com frequência, mas, em um pacto silencioso, estávamos nos preparando para o inevitável. Eu até ganhara permissão para acompanhá-lo em todas as fogueiras do conselho.
Naquele sábado, decidi fazer uma visita a Emily. Ela havia se tornado uma grande confidente em meio a todo o caos. Eu me sentia bem em sua presença, encontrando paz na rotina daquela cozinha sempre cheia e na companhia dos rapazes da matilha, que pareciam ter me adotado como uma irmã caçula.
Inalei o aroma reconfortante de canela que preenchia o ambiente, observando Emily organizar, com sua calma habitual, a louça usada no preparo dos pães doces recém-saídos do forno. Minha atenção só foi desviada quando passos pesados e risadas ruidosas ecoaram no corredor; Jacob e Quil Ateara se juntavam a nós. Lancei um pequeno sorriso em direção aos dois conforme entravam na cozinha.
— Ei, Renesmee — Quil cumprimentou-me assim que me avistou à mesa. — Que bom que você veio. O Jacob passou a semana inteira falando sobre como você faz falta por aqui.
Mesmo com minha visão humana e limitada, pude observar o sangue subir com velocidade pelo pescoço de Jake, tingindo suas bochechas em um tom intenso de cobre escuro. Ele desviou o olhar para o chão, subitamente interessado em seus sapatos surrados, enquanto a mão esquerda alcançava os cabelos em um gesto tipicamente nervoso.
— Fica quieto, Quil — resmungou Jacob. A voz, carregada de um constrangimento profundo, lembrava a de uma criança flagrada em alguma travessura. Jake, com sua estrutura óssea imponente e seus ombros largos, parecia ter encolhido alguns centímetros sob o peso da revelação, assumindo uma postura tensa e defensiva. — Apenas ignore ele, Renesmee. Ele está sendo implicante.
— Você age como se eu fosse mentiroso, e isso magoa! — Havia um tom nítido de divertimento na voz de Quil. — Você passou os últimos dias falando dela, Jacob. Vive contando os minutos para a sexta-feira chegar.
Mantive meu olhar pousado em Jacob. Naquele momento, não havia rastros do rapaz confiante com quem eu vinha dividindo meus dias; o jovem que enfrentava o sobrenatural sem qualquer vestígio de medo dera lugar a alguém vulnerável. Ver Jacob perder o prumo por minha causa provocou um sobressalto inesperado em meu estômago — uma sensação quente e vibrante. Pela primeira vez, a ficha caía com clareza: ele pensava em mim com a mesma frequência com que eu pensava nele quando estávamos separados.
— Fica tranquilo, Jake — direcionei a ele um sorriso largo, tentando aplacar seu desconforto. — Eu também fico ansiosa para vir à Reserva. E também sinto sua falta.
Uma descarga de eletricidade atravessou o olhar que trocamos. O ar, subitamente mais denso, parecia vibrar em uma frequência diferente, carregada de significados que as palavras ainda não alcançavam. Nas últimas semanas, esses momentos haviam se tornado cada vez mais rotineiros. Minha conexão com Jacob era distinta de qualquer amizade que eu deixara em Phoenix, e muito mais profunda do que a que eu mantinha com os gêmeos ou com os outros rapazes da matilha. Era algo único, que me fazia refletir a cada dia sobre o rumo que estávamos tomando.
— Viu só, Jake? — O tom de Quil era puramente provocativo. — É recíproco.
Emily soltou uma risada discreta enquanto finalizava seu trabalho, e Jacob soltou um suspiro frustrado, embora o canto de seus lábios ameaçasse ceder. Quando ele voltou a me olhar, o constrangimento já era apenas uma chama moribunda, dando lugar à doçura habitual que ele sempre me reservava.
Quil deixou a cozinha meio minuto depois, carregando dois pães extras e murmurando mais algumas provocações que Jacob, desta vez, fez questão de ignorar, mantendo seu foco inteiramente em mim.
O silêncio se instaurou pelo cômodo; ele não era desconfortável mas, estava carregado pelo sentimento da timidez. Jacob parecia subitamente energizado, como quem um animal enjaulado ansioso por um movimento, as paredes do chalé pareciam apertadas demais para ele.
— Quer dar uma volta? — Ele perguntou num tom ameno, uma vã tentativa de não ser ouvido por Emilly. Sua cabeça indicando a porta. — O tempo está mais firme, acho que não vai chover pelas próximas duas horas e, tem um lugar que eu gostaria muito de te mostrar.
Emily me olhou com cumplicidade, como se nossa recente amizade já perdurasse há anos. Ela fez um sinal positivo, encorajando-me a aceitar o convite; sorri, sentindo uma leveza que há muito não experimentava, antes de me virar.
O ar estava gelado, apesar do sol discreto que brilhava no horizonte de La Push. Jacob guiou-me por uma trilha oposta à que costumávamos percorrer e, se minha percepção geográfica estivesse correta, estávamos indo em direção aos penhascos localizados ao norte da First Beach. Durante toda a subida, caminhamos lado a lado; nos pontos mais íngremes, ele me estendia a mão em um gesto delicado de cuidado. Mesmo sendo um tanto descoordenada, em sua companhia eu me sentia invulnerável, como se ele jamais permitisse que eu sofresse um único arranhão. Jacob estava mais calado, mas era um silêncio produtivo, carregado de uma expectativa que eu não sabia nomear.
Após cerca de vinte minutos de caminhada, a vegetação se abriu diante de nós e meu mundo pareceu se expandir. Estávamos no topo de um imenso penhasco. Abaixo, o Pacífico rugia contra as rochas negras, e a espuma branca das ondas parecia neve derretida sob a força das marés. O horizonte era uma linha infinita de azul e cinza, imponente e absoluta.
— Jacob, essa é a vista mais linda do mundo inteiro — exclamei. O vento atingiu meus cabelos como um chicote frio. Respirei fundo, permitindo que o ar puro ocupasse cada centímetro dos meus pulmões. — Eu queria poder parar o tempo e viver esse momento para sempre.
Naquele ponto mais alto, a sensação térmica caía drasticamente, fazendo os pelos dos meus braços se arrepiarem sob a jaqueta. Instintivamente, abracei o próprio corpo, tentando reter algum calor. Jacob percebeu meu movimento e se postou logo atrás de mim. Ele era como um escudo contra a lufada gelada; a quentura que emanava dele criava uma bolha de conforto e segurança absoluta.
Virei-me para encará-lo. Sua expressão era solene, com o olhar fixo na linha do horizonte. A luz pálida do sol destacava sua mandíbula robusta e o contorno profundo dos olhos. Ele possuía uma beleza bruta, carregada por uma atração que, desde o primeiro dia, eu não conseguia explicar, mas que agora parecia inevitável. Jacob era notável sob qualquer ângulo.
— Você também sente que está mudando, não sente? — perguntei em um sussurro.
Em meus dezesseis anos de vida, nunca vira alguém se transformar tão rápido. Nas cinco semanas em que estivemos juntos, captei exatamente o que as pessoas diziam: ele passara de um rapaz franzino para alguém que comandava a atenção de qualquer ambiente. Agora, eu sabia que aquela mudança estava atrelada aos genes do lobo.
Jacob baixou a voz e cerrou os punhos, desviando o olhar para o chão.
— É como se eu estivesse comprimido, Renesmee. Como se algo grande demais precisasse se libertar. É maior do que eu. A raiva se tornou mais fácil e constante, sinto esse calor crescendo dentro de mim a cada minuto. Ficar perto de você é a única forma de me sentir normal... de não me perder, entende?
Meu coração deu um solavanco desconhecido. Suas palavras eram o mais próximo que eu já estivera de uma declaração; porém, o amor se apresenta de várias formas e eu ainda tentava decifrar qual delas habitava entre nós. Num gesto espontâneo, diminuí a distância entre nossos corpos e apoiei as mãos sobre o peito dele, sentindo-me ainda menor diante de sua estatura. A temperatura que emanava de sua pele era tão alta que chegava a ser quase insuportável, mas não me afastei. Eu precisava daquele fogo.
— Eu também sinto isso, Jake — confessei, vidrada em seus olhos negros. — Mesmo em estado constante de alerta, mesmo descobrindo que lendas são reais, quando estamos juntos, sinto que nada mudou. Eu sinto sua falta durante a semana e só me sinto completa quando estou aqui com vocês… com você.
Jacob inclinou a cabeça, aproximando o rosto do meu. Senti sua respiração quente contra minha bochecha. Por um momento eterno, o tempo parou. Não existiam vampiros, nem lobos, nem tratados quebrados. Éramos apenas nós dois, no limite do mundo, descobrindo que a nossa própria gravidade havia mudado.
Ficamos com as testas coladas por um longo período, em uma promessa silenciosa — uma em meio a tantas outras que havíamos tecido desde a minha chegada.
— Eu vou estar aqui quando acontecer — prometi, sem precisar verbalizar a qual evento me referia. — Vou estar ao seu lado, ok? Assim como você esteve ao meu.
— Não importa o que eu me torne, ainda serei eu quando estivermos juntos — ele respondeu, com uma firmeza que me acalmou.
O restante do final de semana passou em paz. Meu domingo foi dedicado a Bella e Charlie, tentando aprofundar nossa dinâmica familiar. Charlie nos levou até Port Angeles para conhecer a cidade e fazer algumas compras. A apatia de Isabella sobre a mudança parecia diminuir dia após dia, mesmo sob o véu de seu silêncio habitual. Apesar das atividades, Jacob não saiu do meu pensamento. Entre nossa despedida no sábado e o cair da noite de domingo, trocamos uma infinidade de mensagens, como se tentássemos preencher a distância física com palavras constantes.
O amanhecer de segunda nos apresentou um fenômeno que os moradores locais chamavam de “gelo negro”; isso ocorria quando a proporção de neve caindo era tão grande que o gelo se prendia ao asfalto o tornando em uma armadilha vítrea. O ar era tão gelado que parecia ferir meu sistema respiratório.
Antes de sairmos para a escola, munidas com camadas extras de roupa, papai nos passou instruções claras sobre dirigir naquelas condições climáticas. Bella, após ouvir atentamente a lista de cuidados a serem tomados, decidiu que não era a mais qualificada para conduzir a picape até a Forks High School, ficando definido que a missão seria minha.
Mantive os olhos fixos na estrada durante todo o trajeto, minhas mãos tão apertadas ao volante que meus nós dos dedos estavam brancos. Foram oito minutos de um silêncio cortante, ambas imersas na expectativa de chegar a salvo ao destino final.
— Cuidado na curva, Renesmee. — Ela murmurou, enquanto nossa picape deslizava levemente ao atingir o estacionamento da escola.
Consegui estacionar em nossa vaga habitual. Isabella, ao contrário de mim, parecia ansiosa em atravessar o pátio em busca do calor e da segurança que o velho prédio de história ostentava; logo que paramos, ela se apressou em juntar seus pertences e saltar para fora da cabine. Eu retocava o protetor labial no lado de dentro, utilizando o espelho retrovisor interno, quando meus olhos foram atraídos para o volvo prateado, do outro lado do pátio.
Edward Cullen estava lá, parado ao lado do seu carro. Os olhos de um dourado claro, quase como ouro líquido. Ele estava estático, não conversava com os irmãos. Seus olhos estavam fixos em Isabella, patinando desajeitadamente ao lado da picape. Sua postura era quase predatória. Ele e a família vibraram em uma frequência que me causava calafrios. Mesmo com o alerta da matilha, Edward ainda parecia querer devorá-la, enquanto ela, se atraia cada vez mais a peculiaridade dele, como uma mosca que fica presa numa teia de aranhas.
— Renesmee, você vem? — Questionou Bella há alguns passos de distância, provavelmente, esperando que eu pudesse servir de apoio para atravessar o campus.
Não houve um intervalo de tempo suficiente para a resposta, antes que um som agudo atingisse meus ouvidos; era metálico e estridente.
Tudo aconteceu muito rápido, menos de uma fração de segundos. A van caramelo de Tyler
Crowler, colega de classe de Isabella, derrapou na entrada do estacionamento e ele perdeu totalmente o controle. Ela estava em uma rota de colisão fatal com a traseira da nossa picape e, por uma ironia bizarra do destino, Isabella estava no meio do caminho. O carro vinha rodando desgovernado, sem precedentes.
— BELLA!!! — Eu gritei, minha voz sendo abafada pelo guinchar do Suburban.
Minha irmã, só então se deu conta da tragédia que estava prestes a acontecer. Seus olhos se arregalaram em um pedido mudo de ajuda.
Num surto de adrenalina, minha mão alcançou a maçaneta da porta; com os pensamentos turvo e o coração acelerado, eu planejava me lançar em sua direção e tira-la do caminho: ou eu salvaria sua vida, ou morreria tentando. Mas, ele foi mais rápido; ele obviamente, seria mais rápido.
Em uma atitude inesperada, o vulto de Edward Cullen atravessou meu campo de visão. Tão rápido que meus olhos mal podiam processar as imagens quadro a quadro. Antes que o Suburban de Tyler a esmagasse contra nosso carro, ele se postou, chocando seus ombros contra a caminhonete, enquanto amparava Isabella com seu braço livre. Ela bateu a cabeça de forma dura contra o chão mas, parecia um machucado menos grave do que o que poderia ter acontecido ali. O metal do carro se retorceu como papel, marcando com precisão o contorno do corpo de Edward. Só então eu me dei conta da força sobre humana de sua raça.
Todos os espectadores estavam parados, congelados ao redor da cena e, eu me questionava qual deles havia se dado conta de que o ato heroico do membro mais novo da família Cullen, estava longe de ser possível a um humano qualquer.
Minhas pernas tremiam quando saltei para fora da picape em direção a eles. Não havia espaço para alcançar Bella e me senti eufórica por isso. Mesmo que ele tivesse salvado sua vida, ainda era um vampiro preso a ela num espaço físico minúsculo. Me debrucei sobre o capô do carro de Tyler e meu olhar se chocou com o dele. Edward ostentava uma expressão de pânico, muito provavelmente, percebendo o quanto havia acabado de se expor. Ele sabia que eu não estava apenas assustada e sentia o cheiro dos Quileutes em mim. Houve algum diálogo entre eles mas, infelizmente, suas vozes eram tão baixas que não alcançaram meus ouvidos humanos.
A ajuda chegou rápido, logo liberando espaço e me permitindo chegar até Isabella. Ela parecia bem mas, ainda sim, o Cullen insistiu para que ela usasse um colar cervical e fosse na parte de trás da ambulância. Eu a acompanhei durante todo o trajeto e cuidei de comunicar a Charlie o ocorrido, pedindo expressamente que ele não acionasse Renée até termos certeza de que estava tudo bem.
O interior do hospital de Forks estava saturado pelo odor estéril de antisséptico e água sanitária. Bella fora levada para a triagem quase imediatamente após nossa chegada, protestando a cada passo sobre como tudo aquilo era um exagero desnecessário, já que se sentia perfeitamente capaz de caminhar sozinha. Meu corpo, porém, permanecia em estado de alerta máximo; eu sentia a presença dele nas sombras do prédio, uma pressão invisível que me dizia que, fosse qual fosse o objetivo de Edward com aquele espetáculo, ele ainda não havia terminado.
Charlie já estava lá quando a ambulância estacionou. Ele gesticulava ao telefone, passando instruções ríspidas a um colega de farda, mas desligou assim que nos avistou. Seus olhos estavam carregados de uma preocupação genuína enquanto ele nos examinava, tentando se certificar de que estávamos inteiras. Quando ele solicitou detalhes do ocorrido, apenas prometi que falaríamos sobre o assunto assim que fôssemos liberados. Eu ainda não tinha uma versão segura para contar.
Enquanto Bella era conduzida à sala de raio-X acompanhada por meu pai, saquei o celular. Meus dedos tremiam levemente enquanto eu digitava uma mensagem rápida para Jacob. De certa forma, eu sentia que apenas a figura dele seria capaz de barrar uma aproximação maior de Edward.
“Jake, me desculpe por isso, mas estou no hospital de Forks com a Bella. Ela quase sofreu um acidente grave esta manhã. Edward a salvou, por alguma razão, mas a presença dele aqui está me deixando sufocada. Você pode vir me encontrar?”
A resposta vibrou no aparelho em menos de cinco segundos:
“Fiquem juntas. Estou a caminho.”
Aos poucos, a sala de espera começou a ser inundada por alunos da Forks High School, todos afoitos por notícias e sedentos por detalhes em primeira mão. Limitei-me a repetir a mesma versão protocolar para cada um deles: eu não havia observado o início do acidente, apenas o seu desfecho. Alec e Jane foram os únicos realmente solícitos, oferecendo apoio silencioso sem especulações invasivas, mas, ainda assim, eu não suportava a ideia de ficar ali parada, mentindo para cada rosto conhecido. Delicadamente, anunciei que iria ao encontro de Isabella e Charlie em busca de novidades e me retirei em direção ao bloco de exames.
Os corredores do hospital eram longos e curiosamente vazios. Segui as indicações no piso até alcançar a ala de imagem, onde encontrei Bella já sentada fora da maca, com Charlie ao seu lado.
— Ei, Bells. Como você se sente? — perguntei, aproximando-me.
— Melhor do que todos imaginam, eu juro — respondeu ela, rápida e impaciente. — O Tyler parecia estar em um estado muito pior do que o meu.
E, de fato, ele estava. O impacto dos ombros de Edward contra a van de Tyler parecia ter sido muito mais nocivo para o rapaz do que um choque direto contra a nossa picape teria sido. Na última vez em que o vi, Tyler exibia cortes profundos no supercílio e uma confusão mental evidente.
Fomos autorizados a acompanhar Bella até o quarto de observação sob a promessa de que o médico plantonista verificaria a filha do xerife em breve. No breve momento em que Charlie se afastou para preencher alguns formulários, Isabella voltou seus grandes olhos cor de chocolate em minha direção; a forma como ela mordia o lábio denunciava o nervosismo e o cálculo mental que realizava para medir as próprias palavras. Inconscientemente, eu já sabia qual seria a pauta.
— Renesmee, como ele chegou lá? — perguntou ela em um sussurro.
Senti meu estômago se retorcer. Era quase impossível que ela não tivesse percebido o deslocamento inumano de Edward. Por mais que eu rezasse para que o choque tivesse ofuscado sua visão, eu sabia que minha irmã era analítica demais para ignorar o feito, ainda que sua percepção de perigo em relação àquela família não fosse tão aguçada quanto a minha.
— Acho que a van derrapou na curva de entrada; a pista já estava perigosa quando passamos por lá minutos antes — respondi, tentando parecer desentendida.
— Não estou falando do Tyler. — A mordida no lábio intensificou-se. — Falo do Edward. Ele estava do outro lado do estacionamento, Ness. Eu o vi lá. E, no segundo seguinte, ele estava me segurando. Como ele atravessou o pátio tão rápido? E o que aconteceu com a van? Parecia que ela tinha batido em uma parede de concreto, não em uma pessoa.
Sua fala me colocou em uma encruzilhada perigosa: eu detestava mentir para Isabella, mas detestava ainda mais a ideia de fazê-la carregar o fardo daquele segredo, o mesmo peso que Jacob e eu agora compartilhávamos. Desviei o olhar, focando em um cartaz sobre doação de sangue na parede oposta; a ironia daquela imagem era dolorosa.
— Olha, Bella, foi tudo muito rápido — soltei um longo suspiro. — A adrenalina altera nossa percepção do tempo. Eu não posso opinar, pois não vi onde o Edward estava e, para ser sincera, nem você.
Expressar ignorância parecia o caminho mais sábio. Se eu não admitisse ter sido uma testemunha ativa, ela não poderia me usar como confirmação. Optei por aguardar qual seria a versão oficial dele, pois precisaria existir uma justificativa.
— Renesmee, eu não sei o que aconteceu, mas ele não estava perto de mim. De alguma forma, ele parou a van com os ombros. Isso é impossível — sua voz não passava de um sopro. — Você viu o amassado no carro do Tyler quando o tiraram de cima da picape, não viu?
Engoli em seco antes de responder, cortando-a de forma ríspida para encerrar o assunto:
— Eu vi você viva, Bella, e é nisso que vou me focar agora. Deixe esses detalhes para o relatório do seguro; eles farão uma apuração melhor do que a minha.
Antes que ela pudesse retrucar, a porta se abriu. Charlie entrou acompanhado por uma figura que identifiquei imediatamente como Carlisle Cullen. Embora nunca o tivesse visto pessoalmente, a dedução foi simples: a mesma pele excessivamente pálida, os mesmos olhos cor de âmbar e a mesma rigidez cadavérica. Mesmo àquela distância, eu podia sentir nele o mesmo odor metálico de ozônio que o filho deixara para trás ao invadir nossa casa.
Levantei-me num sobressalto, postando-me de forma defensiva ao lado da maca. Carlisle parecia me avaliar mais do que à paciente. Muito provavelmente, ele se questionava se eu havia guardado o segredo de sua família ou se, àquela altura, eu já teria revelado a verdade à minha irmã.
— As filhas do chefe — disse ele com uma cortesia polida, porém gélida. — Bem, vejo que tomaram um belo susto, não?
— Poderia ter sido muito pior — Bella deu de ombros. — Acho que foi uma comoção desnecessária.
— Seus exames não apresentaram alterações e os sinais vitais estão ótimos — Carlisle proferiu o diagnóstico com uma calma imperturbável. — Você pode sentir, nas próximas horas, estresse pós-traumático ou alguma confusão mental. Se o segundo ocorrer, peço que retorne imediatamente. Tylenol para possíveis dores de cabeça.
Estreitei os olhos em sua direção. "Confusão mental" me parecia o diagnóstico perfeito para desacreditar qualquer coisa que Isabella decidisse relatar sobre o que vira no estacionamento.
Após a liberação, tomei a frente, liderando o caminho e criando uma distância estratégica entre Charlie e Bella. Eu conhecia o trajeto até a recepção, mas minha marcha foi interrompida por uma voz rouca e vibrante que eu reconheceria em qualquer lugar.
Jacob estava próximo à porta de saída. Seu dedo estava apontado para o rosto de Edward, que rosnava baixo, como um cão acuado. Jake não parecia minimamente intimidado; seu corpo tremia de uma raiva contida, emanando um calor que parecia distorcer o ar ao seu redor. Enfermeiras e médicos observavam a cena estáticos; ninguém ousava interferir.
— Você foi avisado, Cullen. Sua família inteira foi avisada — a voz de Jacob era cortante, desprovida de qualquer gentileza. — Fique longe delas, ou terão que começar a procurar outro lugar para morar.
— Eu salvei a vida de Isabella. Você deveria me agradecer — Edward retrucou, a voz aveludada mascarando a ameaça.
— Pare de agir como se fosse o herói, quando sabemos que você é o vilão dessa história.
Charlie, que nos alcançara, correu em direção aos dois de forma inútil. No instante em que meu pai se aproximou, Jacob se lançou para fora, atravessando as portas automáticas sem dirigir a palavra a nenhum de nós. Tentei segui-lo, mas foi em vão. Ouvi o ronco do motor de seu Rabbit ganhando a estrada principal.
Eu não o vi, nem tive notícias suas, pelos quatro dias seguintes.
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