Meu Melhor Amigo
9 Nove — Fôlego - Parte 3
Notas iniciais
Matt
— Alô. Quem tá falando?
— Matt, sou eu. Preciso da sua ajuda. — Aquela voz era irreconhecível. Mesmo com os pequenos cortes que o telefone dava, eu poderia saber quem era. A gagueira, a feminilidade na voz... Era Luiza.
— Oi. Pode falar. Estou aqui.
— Hoje vou sair com um garoto e... hã... não sei o que irei vestir. — Sua voz soava confusa pelo alto-falante. — Acha melhor eu ir com aquele vestido verde? Eu estou realmente preocupada quanto minha aparência. Não quero ir feia.
— Luiza... Você nunca aprende mesmo. — Eu dava giros pelo quarto enquanto ouvia a desabafar pelo celular. Quando Luiza iria aprender que se ela não sabe o que usar, porque eu, um homem, iria saber? — Eu não posso te ajudar nisso. Há. Há.
— Mas Matt... — Parou de falar. Um barulho ecoou pelos meus ouvidos. Com certeza o quarto de Luiza estava cheios de caixas de sapatos e roupas no chão. No que ela tropeçara? Garotas são tão desastradas. Sempre fazem o maior alvoroço quando têm que escolher o que irão usar. Se não tiverem um sapato, um vestido, um prendedor de cabelo novo são capazes de desistirem de irem para tal programa. Mesmo quando este é uma festa superimportante. — É a festa mais importante do ano e se eu não tiver alguma roupa ou calçado decente eu não irei de jeito nenhum; e eu preciso ir. — Eu sempre tenho razão.
Respirei fundo antes de tentar novamente explicar para Luiza que ela não iria obter resultado algum me pedindo socorro. Mas eu precisava me livrar dela para voltar para enorme pilha de livros e cadernos jogados que me aguardavam em cima da minha cama. Eu iria madrugar novamente. A escola voltara com seus assuntos complicados e rigidez inacreditáveis. Precisava colocar tudo em dia antes que não pudesse mais ter tempo, e depois, ver como Felipe estava lidando com isso.
— Luiza — Suspirei. —, sabe aquele seu vestido rosa? Ele fica ótimo se você usá-lo com seu sapato roxo e o cabelo solto. E sua bolsinha branca... ficaria uma graça no seu ombro. — Que realidade paralela. Eu dando conselhos sobre roupas. Quem diria...
— Ah! Espera... Meu deus! Você tem razão. — Novamente os barulhos aconteciam. Será que havia um zoológico no quarto de Luiza? — Irei com esse mesmo. Muitíssimo obrigada.
— Há. Há. Não precisa agradecer...
— Precisa sim. — Escutei sua poltrona fazer um barulho. Ela sentou. — Estou muito nervosa.
— Por qual motivo? Você vai estar linda, eu sei. — Tentei confortá-la, me sentando também na minha cama sabendo que aquela conversa se prolongaria por mais alguns longos minutos.
— Não sei se ele gostará de mim... Acho que meu nervosismo deve ser por esse ser o meu primeiro encontro. — Ela parou por um momento. — Você deve estar pensando: “Seu primeiro encontro?” É Matt, essa garota que cuida de flores não costuma atrair muito as pessoas. — Luiza rira, envergonhada. — Também nunca me interessei por alguém de verdade. Este está sendo o primeiro garoto. Ou melhor, o segundo. Mas...
— Mas...? — Incentivei-a continuar, que suspirou logo em seguida.
— Ele parecia que gostava de homens também. — Eu me senti aliviado. Quando eu e Luiza nos conhecemos eu fiquei com bastante medo de que ela, tão sozinha, começasse a gostar de mim. Ela me olhava de uma forma estranha, ela ficava com vergonha com frequência, e principalmente: gaguejava. Não que eu não entendesse que pessoas tinham sim problema de dicção, mas ver Luiza conversando de forma calma com seu pai, mãe e qualquer outra pessoa, eu via que aquilo era só quando estava comigo. E não, não gosto de homens. Aliás, nunca gostei de ninguém de ambos os sexos. Nem de garotas. Eu tenho apenas 16 anos e há coisas mais importantes para preocupar-me. Talvez meus deveres de Biologia e uma redação gigante.
Só me restara dar um sorrisinho abafado pelo fone, que, fez com que Luiza bufasse da outra linha. Ficou chateada, e em seguida desligou o telefone depois de agradecer pela ajuda. Garotas realmente são complicadas.
A cada minuto eu poderia sentir que meus tímpanos explodiriam a qualquer momento. Nunca escutei música tão alto como naquela noite. E passando páginas e mais páginas verificando se faltava mais alguma coisa para que eu respondesse, balançava a cabeça acompanhando o toque vibratório que músicas dos aos 70 faziam. Meu celular novamente havia iniciado uma chamada, e sem olhar pra quem seria ou quem estivesse me ligando tão tarde naquela noite, levei-o até a orelha.
— Luiza, eu já te falei. O vestido rosa.
— M-matt... — No início eu jurava que seria ela novamente com mais perguntas, porém no mesmo instante, ao ouvir certa voz rouca e tristonha transmitida pelo meu velho celular branco. Fiquei extremamente assustado. Era 01h23min da madrugada e Felipe estava ligando para mim. — Me ajuda.
Suas palavras tinham sido bem claras. Sua voz completou o recado. Mal podendo raciocinar direito meus olhos arregalaram-se, e imediatamente pulei da minha cama e correndo saí pela porta como um raio para saber o que havia acontecido, onde sequer Felipe estivesse.
Avistando de longe, notei que todas as luzes dos cômodos da casa de Felipe estavam apagadas, menos claro, a do seu quarto. Após passar pelo seu jardim, fui seguindo até os fundos de sua casa, esperando que assim, ele aparecesse na janela e visse que eu estava ali. Sussurrei seu nome com as duas mãos na boca evitando acordar alguém daquele quarteirão como também não atrapalhar o sono da doce mãe de Felipe, que, assim como ele, sofrera bastante nesse pequeno período de tempo.
— Eu estou aqui... — Me virei pra esquerda rapidamente. A voz de Felipe vinha de cima. De cima da árvore. Em um tronco ele estava sentado, encostado em um maior que este. E de lá, com a mão, chamou-me.
Subi o jeans para que não enroscasse em um dos gravetos, e pondo a mão em uma escada com cordas, comecei a subir. A corda continuava ainda bem resistente. Fiquei feliz. Eu a fiz aos 9 anos de idade para Felipe sempre descer por ela quando algo não estiver dando certo. Ele a usava sempre para fugir de casa quando mais novo, o que fazia arrepender-me de ter cedido-a para ele. Mas no momento, ela me caira bem como uma luva.
Ao chegar à cima, sentei-me e com as mãos retirei dos pés da minha calça o pouco de pó que havia ficado. Endireitei-me e o mirei. Ele não me olhou. Sentei frente a frente a ele, mas ainda sim ele não me olhava no rosto. Montei no grosso tronco como se estivesse montado em um cavalo para erguer-me bem, não queria cair. Porém olhá-lo triste me deixara tonto, ainda mais sem poder fazer nada, sem saber o que se passara.
Sentado ali eu pude perceber o quanto a vista era bonita. As luzes das casas vizinhas estavam todas apagadas, e se não fosse pelas leves e fracas luzes dos postes altos longes dali, não seria possível ver nada. O frio começara a aparecer, e o vento leve balançando nossos cabelos completava o clima tenso e triste que só existia por de pertinho, eu ouvir os pequenos soluços de Felipe, que tentava omiti-los com as mãos.
— Você... vai me contar o que aconteceu? — falei. Minha voz soou mais calma que as folhas das árvores caindo sobre o chão. Felipe estava extremamente fraco. Covarde. Felipe era sempre o velho e típico cara durão. Desta vez não estava sendo. Eu tinha que falar com ele da forma mais cautelosa possível. Tão indefeso, tão bobinho, tão infantil tampando os olhos. Eu sentia que se minha voz saísse mais alta assustá-lo-ia. Felipe estava tão frágil.
— Você... — Ele começou com as palavras. Sua voz se encontrara a mesma de minutos antes quando me ligara. A mesma voz rouca, a rouquidão tristonha, a tristeza que aparentava que tinha ficado por horas chorando até fazê-lo ficar naquele estado. Ele se vira para o lado e em seguida engole a própria saliva dirigindo o olhar para mim exibindo seus olhos cansados e vermelhos que afirmavam ainda mais minha hipótese. Pobre garoto. — Você sabe, Matt... Eu... não suporto...
Felipe bate no próprio joelho, fingindo estar com raiva. Abaixa a cabeça e volta a chorar novamente. Um nó se formou na minha garganta. Ver aquilo me causou certa dor no pescoço. Eu não podia vê-lo chorando que de repente eu choraria junto á ele. O choro de Felipe logo traria o meu logo em seguida. Eu precisava controlá-lo e fazer o que eu sempre fazia. Ajudá-lo. Ouvi-lo. Não abrir espaço para que continuasse. Aquilo seria bastante difícil. Mas você consegue, Matt.
Seus soluços aumentavam frequentemente. Eu não sabia o que fazer. Olhava de um lado para o outro esperando por uma solução e nem por um passo de mágica ela surgira. Eu sentia que Felipe não queria conversar. Ele só queria que eu estivesse ali. Bem, ali eu estava. Mas ainda sim eu me sentia um completo inútil.
— Ele me bateu ontem pela manhã. — diz, já um pouco mais calmo. Eu notava o quanto era difícil para Felipe erguer a cabeça e começar a falar. Ele parecia estar machucado. Parecia estar com uma dor imensa. Eu queria saber de onde ela vinha. Eu queria saber o que se passava dentro daquela cabeça. Mas decidi controlar minhas perguntas e apenas observá-lo atentamente. — Me machucou nas costas, na cabeça... Foi horrível.
— Quem te bateu, Felipe? — De fato eu conseguiria me comunicar a noite interia com uma voz meiga e doce como no inicio da conversa. Mas... bateram no Felipe! Quem... Quem ousaria?
— Meu pai... — Após contar-me ele segurou meu pulso, que se mexeu logo em seguida. Eu iria levantar-me pronto para saber de fato o que acontecera nesses dois dias que não tive notícias de Felipe. Estar na sala de aula e ver a cadeira que ele costumava sentar vazia me dava um péssimo pressentimento de que algo de ruim estivera acontecendo. E agora eu sabia. Realmente aconteceu. — Não Matt... — Ele balançou a cabeça, e em seguida retirou sua mão do peito da minha e voltou a colocá-la dentro de seu casaco.
— Eu... não acredito, Felipe. — Olhei para o lado, com raiva. — Como ele pôde?
Felipe mexeu os lábios. Levantou a cabeça para cima suspirando, olhando para os troncos e folhas mais altos da árvore, e com a iluminação da rua, pude ver seus olhos azuis tão úmidos... Ele queria chorar.
— Você está bem? — Uma pergunta terrível. Uma pergunta que não devemos fazer a ninguém que aparentemente esteja emocionalmente ruim. Eu não sabia o que dizer. Eu tinha que falar alguma coisa. “Talvez com alguma conversa Felipe poderia esquecer do que ocorrera” pensei. Mas ainda assim eu não sabia qual seria esta conversa. Eu só queria falar alguma coisa.
Felipe levantou as sobrancelhas, e depois, abaixou a cabeça... Droga! O que eu poderia fazer? O que deveria ser feito naquele momento? Idiota, é horrível ter que vê-lo assim.
— Você disse...
— Huh?!
— Que poderia ficar comigo... — Felipe se encolhia cada vez mais. O frio estava enorme, e cada vez que falava sua grave doce voz saía acompanhada de um sopro gelado, que se eu me esforçasse um pouco mais, poderia senti-lo se secando em meus lábios. Felipe estava com frio. Felipe estava tremendo. Felipe se corroia no meio daquele clima de vergonha e de constrangimento. — Eu preciso de você aqui, Matheus.
Matheus.
Matheus.
Aquele nome vibrou em meus ouvidos e se fixara em minha mente. Ecoando no crepúsculo da noite eu sabia que a situação estava sim propícia. Raramente Felipe me chama assim, e quando chama... Digamos que não é por esquecer-se do meu apelido que me dera na infância.
“Quando tiver passando por aperto, fique na minha casa. Dormiremos juntos.”
Prometi isso á ele. E em hipótese alguma, eu faria o contrário. Eram quase duas da madrugada e estávamos ali. Sentados em um robusto tronco verde de uma gigante árvore, forte, que nem sequer um trator a derrubaria. Minhas mãos gelavam espontaneamente. Minha cabeça palpitava de desconforto. Meus pés suavam mesmo fazendo um frio terrível lá fora, fazendo também meu maxilar tremer. Vendo somente a silhueta bem desenhada de Felipe na minha frente, a minha vontade de tocá-lo aumentava de acordo com os meus batimentos cardíacos. Apenas com um toque eu sentia que resolveria aquilo. Felipe precisava sentir-me. Precisava ver que eu estava ali para ele. Felipe precisava saber que eu não o deixaria sozinho, que eu jamais o deixaria tão frágil, mimado ali a esmo. Eu iria ficar ali. Eu iria ficar ali. Acalme-se, meu amigo, eu vou ficar contigo.
Meus pensamentos me intimidavam, empurravam-me para fazer algo. Talvez eu devesse segui-los. Claro, tudo pelo bem desse pobre garoto. Felipe... vê-lo assim é como uma pontada no coração.
— Tudo vai ficar bem. — Minhas mãos repousaram nas suas. Ele tremia. Como tremia! Esfreguei suas mãos nas minhas aquecendo-o. A dor no meu coração só aumentava e aumentava. Felipe estava péssimo. Eu estava péssimo. Ah! Como doía. Mesmo com aquela forte dor apertando meu peito, eu ainda tive força de levar suas frias mãos até minha boca. — Agora, por favor... — Soprei-as, em seguida apertei os olhos, evitando que as lágrimas frias até agora presas nos meus olhos transbordassem para fora. — Pare de chorar...
Elas vazaram.
Minutos mais tarde eu entrara pela janela do quarto de Felipe, ele pedira pra eu mesmo conferir se todos estavam dormindo para podermos entrar. Da janela o chamei para dentro, disse que sim, todos estavam dormindo. Menti. Quando desdenhava pela cozinha para tomar um pouco de água e limpar o meu próprio rosto, grudento das tantas lágrimas salgadas que liberei lá fora, me deparei com a mãe de Felipe. Assim como eu, com o rosto extremamente vermelho e as orbitas oculares visivelmente cansadas, ela me pedira pra cuidar dele. “Eu com certeza irei” disse antes de dirigir-me de volta para o quarto de Felipe. Ela agradeceu com um sorriso tristonho.
No quarto eu pensava no quanto àquela madrugada estava sendo conturbada, no quanto Felipe chorara e no quanto o acompanhei. Após apagar a luz do seu quarto e de debaixo da sua cama puxar um enorme colchão para que eu passasse a noite, eu ouvia dar seus últimos suspiros ao pé da sua cama. Ele continuava péssimo. No escuro me dirigi para perto dele, e frente a frente novamente eu via que não tinha palavra mais que o confortasse, que não tinha nada mais que resolveria aquela crise terrível, que eu só podia fazer uma única coisa...
Com as mãos sobre o rosto, tentando não exibir os olhos para mim, Felipe derrama-se em um choro abafado. Sentei ao seu lado, nossos corpos estavam inclinados em posições iguais, e após abaixar seus braços e levantar seu rosto para minha direção, o abracei.
Foi um abraço demorado. Foi um abraço apertado. Foi um abraço de estalar as vértebras. Não era como um abraço comum como aqueles que damos todos os dias em nossa mãe e amigos... Era único! Felipe me apertara forte. Eu sentia o corpo de Felipe tão quente, tão fraco, eu jamais poderia largá-lo. O aqueci. O acalmei. O tranquilizei. Ele apertara intensamente segurando minha vestimenta, e eu o envolvendo nos meus braços, sentia que tudo que ele sofria, ali se dissolvia.
Felipe encostou seu rosto no meu pescoço, e ali ficou seu último suspiro da noite, e em seguida, sua última lágrima. Aquilo fora satisfatório. Aquilo o satisfez. Eu não conseguia pensar em mais nada. Minha cabeça girava á procura de algum pensamento que descrevesse aquela sensação.
Não existia.
Era indescritível.
“Não chore mais por causa disso, Felipe”, foi a última coisa que ele ouvira de mim, dessa vez pertinho do seu ouvido, á meia-voz para não assusta-lo. Ele deixou o ar de suas narinas escaparem, e sentindo de leve a mesma balançar meus cabelos do pescoço e arrepiar minha espinha, ficamos assim por bastante tempo. No frio. No escuro. Juntos. Eu não tinha a base de por quantos minutos mais aquele abraço se prolongaria, claro que eu queria ficar com ele, eu poderia ficar daquele jeito a noite toda, até adormecermos e deitarmos na cama lado a lado. Mas ter que aguentar minhas pernas tremerem, meu rosto suar e aquele sentimento estranho prendendo minha garganta e crescendo no meu coração por senti-lo tão próximo a mim seria um desafio.
Bem, eu só precisava de um pouquinho mais de fôlego.
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