Meu Melhor Amigo
10 Dez — Gosto esquisito! De uva, que nojo!
Notas iniciais
Matt
E não é que eu tinha razão? Luiza tinha ficado magnífica. Aquele vestido sempre lhe caiu bem, e a forma como seu cabelo balançava ao andar era a melhor parte. O garoto com quem ela saiu gostou dela, Luiza me disse que ela não parava de olhar para seu corpo, e que até ela tinha ficado mais vermelha que uma berinjela. Eu poderia imaginar o rosto de Luiza corado perfeitamente.
— Será que você poderia soltar esse celular ao menos por um instante? — Felipe me chama a atenção. As rodinhas do seu Skate contra o asfalto fazia um barulho terrível. Tirava toda minha atenção quando digitava algo para Luiza. Ela parecia superexaltada e feliz falando do novo namorado.
Felipe e eu passeávamos no sábado. No parque ele conversava com a maior alegria. Parece que sua tristeza havia ido embora. Fiquei feliz por ele ao menos agora ter esquecido um pouco de ontem. Ontem... foi terrível. Felipe não parava de chorar. Tive que dormir com ele, e como sempre, egoísta, achava que a coberta não poderia ser dividida entre nós dois.
Paramos em frente um carro de sorvetes que ficava ao lado do calçadão, e debaixo da sombra do guarda sol, Felipe chacoalhou o bolso.
— Me dá dois. Um de uva... — Ele olha pra mim e pergunta: — De que sabor você quer?
— Ah não. Não precisa. Eu... estou gripado. — Com educação, neguei sua gentileza. Felipe estava uma gracinha hoje.
— Hm... — Ele me olha de cima a baixo, e como se no seu olhar e em meu corpo visse que não estava falando a verdade, ele vira novamente o rosto contra o velho sorveteiro de bigode marrom. — Me da um de chocolate também. Matt adora chocolate. — Em seguida olhou para mim, exibindo seus tão lindos dentes. Era um sorriso perfeito.
Eu realmente estou feliz por Felipe estar bem de volta. Ele aparentava estar tão bem. Felipe estava com um sorriso no rosto tão lindo. Isso me dava certo orgulho. Não querendo ser mesquinho, mas eu sei que ele estava tão feliz por minha causa, se eu não estivesse com ele todo esse tempo ele jamais exibiria o que tem de melhor.
Paramos em um banco, avistando de longe a praia, ele, que carregava até agora os sorvetes com as mãos, entregou lentamente aquela casquinha para dentro dos meus dedos, sentou do meu lado e ainda com seu tão belo risinho me olhou profundamente nos olhos. Cocei com a unha minha bochecha olhando para os lados, e após perceber que eu estava parecendo uma garotinha tímida fazendo aquilo, desviei o olhar.
Olhei para baixo fixando a vista nos meus joelhos e então Felipe, que aparentemente percebeu que eu estava totalmente embaraçado, abaixa a cabeça para baixo da minha e para onde eu virava o rosto ele seguia com sua expressão mais brincalhona possível no momento. Voltando para seu lugar deixou no ar sua mais alta e barulhenta gargalhada, e devido ao ambiente, ri junto. Eu estava tão feliz por Felipe estar bem que ele poderia me dar um soco agora que ainda sim eu não ficaria com raiva.
— Olha, eu já te agradeci por tudo que você já fez por mim, Matt? — Os lábios de Felipe ficaram sujos do sorvete que comprara. Ele olha para mim, exibindo sua infantilidade. Uma perfeita criança desastrada. — Obrigado mesmo. Eu não teria ideia do que seria de mim sem você comigo, Matheus. — Felipe continuava a lamber sua casquinha disfarçando seu nervosismo e usando do tempo para procurar palavras em sua mente para tentar explicar o que queria dizer. Eu havia entendido.
— Não precisa agradecer... — Enquanto retribuía o sorriso, eu remexia no meu bolso da minha bermuda. — Eu faria tudo de novo. — Retirei de dentro dele um lenço branco e o parei sobre a cocha de Felipe. — Agora limpa esse rosto. Está me incomodando, seu molequinho.
Felipe balançou a cabeça rindo e em seguida limpou-se. Estava tão gracioso e também bem bonito. Geralmente odeio bonés, ainda mais aqueles de cores feias e brilhantes ou com desenhos esquisitos na frente. Mas o azul escuro que Felipe usava ficava perfeitamente bem nele. Ele o colocava pra trás, contrariando a real função de um boné comum, porém o seu cabelo loiro caindo sobre os olhos, e estes tão azuis quando a bermuda que usava, dava certo charme. Quando Felipe e eu ficamos olhando um para o outro por determinado tempo costumo prestar muita atenção nele.
— Você não vai comer isso? Já vai derreter. — Dando seus primeiros pingos contra o chão, eu notei assim que Felipe chamou minha atenção que eu nem sequer tinha provado o sorvete de chocolate que comprara pra mim. Mas a culpa é dele. Por que fica me hipnotizando com esses seus olhos?
— Oh, sim. — Olhei para a casquinha toda derretida e então meu estômago se embrulhou. Fiquei com bastante nojo. E Felipe não deixou de perceber isso, tanto que logo depois do meu olhar estranho para aquela coisa, empurrou o sorvete contra meu rosto, sujando minha boca por inteiro.
— Ah! Por que fez isso, seu otário?
— Há. Há. Me desculpa. Fica quietinho que limpo pra você.
— Certo... — Aguardei por um instante, mas logo depois tive uma surpresa. — Felipe, solta essa meia. — Uma perfeita criança desastrada. Idiota.
Acho que se tem algo que Felipe mais gosta além de sorvete, bala, doces ou qualquer outra coisa de sabor uva é esporte. Após convencer-me de que seria uma boa ideia irmos dar uma volta na superacademia do seu tio, ele marcava sozinho algumas cestas na quadra de basquete. Não que eu não gostasse de esportes, mas hoje eu estava totalmente indisposto para jogos. Felipe fez-me levantar ás sete da manhã, vê se pode?
— Vem jogar comigo!
— Não, to ocupado.
— Ah! Qual é, Matt? — Felipe gira o pescoço, gritando. — Você ficou nessa droga desse celular o dia todo e nem prestou atenção em mim. — Felipe sempre fez manha. Parecia um bebezinho reclamando. Mas ele tinha razão. Eu não tenho culpa se a Luiza não para de falar por sequer um minuto! Porém ele estava errado também, porque se tem uma coisa que fiz hoje foi reparar nele.
— Mas hoje não, tá?! — Levanto a cabeça, o observando de longe sentado em um banco. — Irei ficar somente assistindo. — Encerro o assunto, voltando o olhar para minhas mãos.
— Ah, é? Pois assiste essa então. — Felipe corre pelo salão, e em uma flexão na perna e um salto perfeito a bola desce pela cesta. Muito bem. — Gostou? Essa foi pro Matheus. Whaaa, Whaaa. — Felipe sai pulando pelo pátio como se estivesse realmente em um jogo com a boca imitando a plateia e de longe até piscou e me mandou um beijinho com o indicador e o dedo do meio juntos como se estivesse segurando um cigarro. Não pude deixar de rir daquilo. Felipe era tão engraçado.
Decidi guardar o celular no bolso e prestar mais atenção nele, Felipe estava parecendo um professor exigindo que o aluno olhasse para ele, e ao menos dessa vez eu devia dar pra ele o que tanto queria. Tão sozinho e isolado Felipe era tão carente de atenção. Coitado. Eu não estava achando nada justo com ele. Tudo que ele tava passando e incrivelmente ainda ter força pra dar para mim esse seu teu lindo sorriso me emocionava. Vê-lo tão bem pulando no piso amadeirado enchia meus olhos, era tão bom ver Felipe assim. Ontem eu quase não tinha forças mais para abraça-lo mais ainda sim fiquei ali com ele. Intacto. De jeito algum eu poderia largar tão coisinha frágil que estava nos meus braços. Ele se deitou e segurando meu casaco envolveu seu rosto para próximo de mim. Ficou ali, paradinho, dando seus últimos suspiros no meu colo, e quando suas lágrimas estavam quase secando, não pude controlar as minhas que veio logo depois sobre seu cabelo. “Não chore como uma garota, Matt!” O cara de olhos escorridos brincou.
Eu estava tão feliz. Felipe correndo, Felipe pulando, Felipe balançando o cabelo e rindo. Eu tinha conseguido. Eu trouxe meu amigo de volta. Deus, como Felipe estava bem hoje. Como ele sorria. Era o sorriso mais bonito que eu já tinha visto na vida, literalmente. Porque veio de mim. De mim. Desse pobre menino que deixou de fazer os deveres de Biologia pra ficar com esse rapaz que só sabe jogar basquete. Eu estava me sentindo realizado.
— Pelo visto você já tá bem melhor. — comentei, tentando puxar um papo. — Fico feliz.
— Tudo graças a você. — Ele faz mais uma cesta.
— Como vai ser daqui pra frente?
— Daqui... — Felipe para a bola sobre a cintura. — Eu não, sei. Eu acho que irei me mudar. — Felipe abaixa a cabeça com agora uma feição triste.
— E quanto a mim? Você não ousaria...
— Ei, ei, ei. Quem disse que eu quero isso também? Só me veio em mente essa ideia porque parece ser a única disponível para eu livrar-me dos desocupados da minha família, fora isso — Felipe coloca o punho sobre a boca e tosse de leve. —... Eu jamais te deixaria sozinho, Matt.
Entendi. — Foi o que eu disse, mas eu queria no momento dar diversos pulinhos de felicidade. Eu faria isso quando chegasse em casa, quem sabe. — Me promete que, caso você realmente se mude você não irá esquecer-se de mim.
— Como eu poderia me esquecer de você, Matheus?! — Felipe disse me olhando de canto no meio da quadra ajeitando o cabelo sobre os olhos dando um risinho fechado. Por que diabos você faz tudo ficar parecendo um filme da Disney?
— Acho bom. — brinquei. Felipe gargalhou e sua risada ecoou pela quadra, e logo depois de rir junto a mim voltou a concentrar-se no jogo.
Ele pulava e marcava novamente mais um ponto. Mesmo estando somente nós dois ali, sozinhos, sem fazer um barulho sequer, Felipe parecia ainda dar tudo de si para acertar a bola. Ele estava se exibindo para mim, mostrando seu potencial, mostrando tudo o que sabe. Aquele seu show era somente para mim, era exclusivo. Como não gostar dele? Os beijos que ele soprava de longe para mim me deixava tão vermelho quanto a cereja que estava no sorvete que comemos horas antes. E eu continuava ali, com as duas mãos apoiadas no rosto, olhando para ele todo abobalhado, admirando-o, enquanto tentava convencer pra mim mesmo que meu rosto estava corado por conta da gripe que falei.
Espera, eu não estou gripado!
Deixa pra lá.
Enquanto tentava jogar a bola pela cesta, Felipe olhou para mim, sorriu, e correndo não reparou que o pátio acabaria ali na sua frente e que nesta havia uma parede.
— Oh, meu Deus. Você está bem? — Inclino-me, levantando do banco, mas sem correr até ele, já que o vi já se posicionando de pé novamente.
— Estou, não se preocupa. Ai!
— Ótimo, agora faça mais uma cesta pra mim. — Esta Felipe errou, e sua bola alaranjada, que rolou três vezes sobre a haste azul da cesta veio deslizando sobre o piso escorregadio e parou sobre meus pés. — Nossa...
Felipe veio até a mim me encarando com os olhos. Ele estava com um olhar tão vago. Ele estava bem perto de mim. Pegou a bola encostada nos meus pés e debaixo pra cima levantou a cabeça, voltando a mirar para meu rosto.
— O que foi? — perguntei.
— Eu gosto tanto de você, Matt. — Desnorteado e envergonhado eu sentia Felipe se aproximando cada vez mais. Eu poderia sentir o ventinho de leve da sua respiração secando nos meus lábios, e tremendo de medo notei seus olhos se fechando devagar. Percebendo o que faria logo em seguida, não hesitei em fechar os meus também, e ali, tão próximos um do outro, ofegando das emoções, procurando no ar do outro algum resíduo de oxigênio, percebi que ele não iria somente tocar no meu rosto e falar coisas gentis e agradáveis como da última vez que estávamos sozinhos em silêncio. A quadra ficava cada vez mais escura, completando o clima tenso que ali se misturava. Minhas pernas tremeram, minhas mãos suaram. Felipe cruzou novamente o olhar com o meu, e percebendo que estava seguro do que queria fazer sem tocar em nada fora sua bola de basquete, inclinou-se até meu rosto e me beijou. Senti suas mãos calorosamente acariciando minhas costas, me envolvendo num abraço doce enquanto com a boca me dava a sentir tão bom e inovador gosto.
Então é assim que é um beijo?
Eu não conseguia pensar em mais nada além de sentir com minhas mãos seus ombros tremendo tanto quanto o resto do meu corpo. Convidativo, acolhedor, úmido, gentil e... perfeito? Era assim o beijo do Felipe? Eu estava gostando daquilo? Bom, deixei as perguntas de lado e resolvi aproveitar do momento, e mesmo com o estômago embrulhado, com o corpo suando lentamente e cabeça conturbada, eu ainda pude vibrar meu lábio inferior contra o dele, e quando menos notei estávamos completamente agarrados um no outro. Ele agachado, eu sentado.
Eu estava com tanto medo que meus olhos emudeceram e se não fosse por todo aquele movimento de ambos, uma lágrima nova surgiria e cairia logo depois. Eu estava emocionado. Felipe dificilmente mostra suas emoções e agora ele aqui me beijando da forma mais cautelosa, minha vontade era de gritar de emoção, de felicidade, de...
Felipe, meu mundo sem você não é nada. Eu tenho todas as coisas do mundo, todas aquelas coisas que você não tem. Você tem um pai problemático, eu tenho um pai perfeito. Você tem as piores notas, eu as melhores da turma. Você tem a mim, e eu tenho você. E é só isso que me importa.
Em seguida Felipe larga meu rosto, e abaixa a cabeça. Depois me encara e eu estava novamente todo abobalhado, olhando para ele, olhando para o Felipe. Como na noite que dormimos juntos, na noite que estudamos juntos ou quando inocentemente devoramos uma casquinha de sorvete de chocolate agora a tarde eu estava agora novamente com meu olhar de garotinha.
Eu poderia balançar a cabeça e fingir que aquele beijo, que aquela ação, que aquele ato quase inacreditável não existiu, mas ao invés disto resolvi dar uma trégua. Admito: eu estava sendo uma menininha. Felipe riu, e nos seus olhos eu via um tão clone meu, eu sentia que tudo que eu estava sentindo Felipe compreendia e também percorria pela sua costela mesmo que não mostrando isso. Mesmo como um cachorrinho na noite anterior, sempre foi o mais durão, e após aquele selinho, Felipe veio até a meu ouvido esquerdo, parou por um momento. Meu coração começara a pular e quase tendo a certeza que ele iria me contar algo, dizer algo que estava preso na sua garganta, eis que parecia que ele desistira e ao invés disto beijou minha bochecha, pegou a bola e saiu da sala. O que eu fiquei tão confuso na noite anterior do que eu sentira quando o abraçava, parecia que agora eu já havia encontrado a resposta.
Na porta antes de fechá-la, ele olhou pra mim, e depois de quase vinte minutos em total silêncio e sigilo, perguntou:
— E aí? Agora você sabe o porquê de eu gostar tanto de chiclete de uva?
— Tá brincando? Eu sempre irei odiar chiclete de uva. — Nós rimos.
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