Meu Melhor Amigo
11 Onze — O até logo, os votos e o casamento de mentirinha.
Notas iniciais
Felipe
Pra mim um aperto de mão, um abraço ou um beijo nunca passou de um simples gesto de carinho. Nada que fosse relevante, que significasse algo. Pessoas se beijam diariamente somente para conseguir o que desejam como também satisfazer a si mesmas, não se importam com tal “cumprimento”. Eu costumava pensar assim. E digamos que mudei de ideia noutra tarde quando eu e Matt jogávamos basquete na academia do meu tio e momentaneamente o cumprimentei como nunca.
Quando toquei a bola que parara sobre seus pés, senti-a quente, e quando por cima olhei-o diretamente, dali eu via que não podia mais me segurar. O meu ar fica sempre rarefeito quando ficamos com os rostos colados um no outro, o suor que descia pelo meu corpo por conta dos diversos lances que fiz parecia paralisar-me, acompanhando minha irritação emocional; além de claro nunca sentir meu coração tão próximo da língua mesmo sabendo que estava paradinho ali no meio dos meus pulmões.
Aquilo foi louco. Querendo somente mostrar para Matt o quanto o gostava, a sua tremedeira me impossibilitava e desencorajava, e que talvez se por um segundo ele ficasse fixo no lugar, eu faria aquilo logo de uma vez.
O tempo que demoramos a beijarmos-nos foi mais longo que o beijo em si, porém isso não impedira que o mesmo se prolongasse, para a minha surpresa e espanto. Era pra ser rápido e direto, porém eu perdi a cabeça. Eu gostei. Quando senti os lábios de Matt movendo-se nos meus, eu fiquei completamente assustado e apavorado. Aquilo era ótimo. Não era como beijar uma garota que você viu na festa e achou bonitinha ou sua colega de sala atrás da escola...
Foi diferente!
Por Matt ser um homem? Talvez. O que realmente me pegou naquela situação momentânea era o fato daquele ser o primeiro beijo realmente sincero que dei em toda minha vida. Ao invés de jogá-lo contra a parede com força e sairmos rolando por ela como nos filmes românticos e novelas, ficamos somente ali, naquele cantinho da quadra, agachados, tremendo como duas ovelhinhas prontas para serem devoradas. Matt sentia calafrios, e a única coisa que consegui fazer naqueles poucos demorados segundos foi abraçá-lo para que parasse. Logo ele pôs as mãos em meu pescoço como se fosse afastar-se e ganhar espaço ou enrola-las ali e ficar mais próximo a mim. Ele parecia estar confuso entre as duas opções.
O que digo é que mesmo Matt aparentando não beijar tão bem quanto as garotas do quinto ano e tremendo mais que meu calcanhar tentando me manter equilibrado agachado a sua frente, eu havia adorado aquilo; e talvez se soubesse do quanto gostaria, eu já teria feito antes. Oportunidades nunca nos faltaram, situações embaraçosas idem.
Deitado no sofá usando lápis como baquetas acompanhando a música que gritava pelas imensas caixas de som digitais do meu quarto eu pensava em como diria para Matt aquela terrível notícia que soube pela manhã. Até o momento estava tudo nos conformes entre nós dois, e de forma alguma eu queria que aquilo mudasse. Quem poderia imaginar que um carrinho de sorvetes comum numa praça e uma partida de basquete numa tarde qualquer poderiam fazer me sentir tão feliz a ponto de dizer que 17 de julho foi o melhor dia da minha vida? Eu estava ótimo. Mesmo com ainda dois arranhões nas têmporas e um corte horizontal na boca, eu ainda podia sorrir do mesmo jeito abestalhado que Matt me olhou quando larguei seu rosto. Minha vontade foi de enchê-lo de beijos. Mas evitei. Uma convulsão era tudo que eu não queria que Matt sentisse com toda aquela tremedeira e vergonha. Mais tarde quem sabe ele sentiria isso quando eu enfim criasse coragem para dizer para ele que nunca mais nos veríamos e que definitivamente eu me mudaria, mas não queria que fosse por conta do meu beijo. Pois sei que no fundo Matt gosta mesmo de uva.
Uma risadinha de leve e maliciosa se formou nos meus lábios, mas logo foi substituída ao me deparar com os poucos hematomas que sobraram da forte surra que meu pai me dera. Lembranças de seus socos e chutes vieram em minha mente me trazendo á memória do real motivo da minha mudança. Tenho sempre o Matt do meu lado quando preciso e ele sempre é o responsável por fazer me sentir melhor e da amenização das minhas dores. Mas como vejo idosos falando: uma hora a corda aperta! É bem verdade. Matt nunca se cansou, nunca pareceu abatido quando me ajudava e exceto quando dei as costas para ele no dia que fui expulso de uma das aulas, também nunca reclamava.
Entretanto não posso exigir que sempre ficasse comigo quando essas constantes desgraças acontecem. Aliás, nem sequer é culpa dele. E não posso toda vez correr para seus braços quando esses ferimentos forem sobrepostos por novos. Matt era como um anjo. Incansável, sensível, misericordioso e também um rapaz muito bonito. Separar-me dele de vez vai me causar uma dor quase que incurável.
Pronto para recebê-lo na noite, eu contava os minutos que faltava para que chegasse da mesma forma que vasculhava em minha mente um “eu vou embora” que não o assuste e deixe abalado. Matt sempre foi um completo bebê sensível que chorava e fazia drama por qualquer coisa que saísse de forma cruel pela minha boca. Realmente eu era cruel. Mas Matt era homem, devia controlar um pouco mais as lágrimas. E claro, doeria mais falar aquela terrível notícia do que Matt ter que ouvi-la.
Estava frio e eu enchia duas xícaras com chá para nós dois. Levei-as até meu quarto parando a bandeja sobre minha escrivaninha. Um formigamento corroeu por dentro das minhas narinas e um batimento forte no coração quase a deixou cair, e que se não fosse pelo toque da campainha alertando sua chegada, talvez não houvesse chá para hoje.
As posicionei bem em cada um dos pires brancos e em seguida após certificar-me que tudo estava em perfeita ordem, tanto meu quarto quanto minha roupa sobre meu corpo, sentei-me sobre a cama aguardando o girar da maçaneta e a entrada de Matt logo depois.
— Por que me chamou? — Fechando a porta lentamente, Matt parecia bem curioso. — Boa noite, Felipe.
— B-boa noite, Matheus. — Eu não sabia por onde começar. Como eu iria fazer aquilo? — Senta aqui um pouquinho comigo.
Com a mão, bati na cama mostrando onde ele deveria sentar, e educado sentou. Matt olhou para os lados como se ali estivesse alguém nos vigiando, e após colocar seu casaco na madeira da minha cama, se confortou bem e redirecionou a atenção para mim.
— E então, você tá bem? — pergunta, sorrindo. — Arg! Que bagunça aqui, Felipe.
— S-sério? Eu passei o dia tentando deixar esse quarto limpo, mas vejo que sou um fracasso.
— Estou sendo irônico. — Ele balança a cabeça, ri e me da um leve tapinha no ombro. — Mas e aí? O que vamos fazer hoje? Trouxe alguns filmes para assistirmos e esse jogo que, embora você não goste, nós iremos jogá-lo hoje, ouviu?!
Retirando-os da mochila, Matt exibe-os para mim bem contente. Ele sempre pensa em tudo.
— Certo — concordo. Ver Matt tão gentil me deixava bem triste, ainda mais saber que este seria o último dia que passaríamos juntos. E com uma expressão tristonha, eu começava a pensar em algum método para dizer a real razão de chamá-lo tão tarde aqui.
— Ei, por que está assim? Tudo bem, não iremos jogar. É um lixo de game mesmo.
— Me desculpa, Matheus.
— Por que está se desculpando? — Matt ainda não compreendia nada. Tão bobinho. Eu juro que eu já tinha contado para ele ontem na quadra, mas parece que só de uma coisa ele se lembrava. — Fez alguma coisa de errado?
— Não. — Dou de ombros, mas ao perceber que ele odiava quando não o olhava nos olhos, fiquei frente a frente com ele novamente. — Eu lhe contei ontem.
— Você não me contou nada ontem. — Ele se envergonha. — A gente só...
— Você realmente não se lembra do que lhe contei?
— Eu não faço ideia.
Vendo que não tinha mais para onde correr e que definitivamente a memória de Matt era tão terrível quanto a do meu falecido avô, eu devia soltar aquilo de uma vez. Não havia mais nada que pudesse fazer.
— Matt... — Suspiro — Eu vou embora.
As cordas vocais de Matt pareciam vibrar-se. Sua cara de espanto se formava lentamente, e vendo devagar sua boca se abrindo, abaixei minha cabeça para não ver de perto sua reação que viria logo em seguida. Uma cratera se formara no meu coração, e com a mão esquerda apertei meu peito contra a camisa. Aquilo não veio em uma boa hora. Eu poderia ir mês que vem, ano que vem, ou até mesmo semana que vem. Mas por qual motivo eu tinha que ir logo amanhã? Por que logo agora? Eu sou uma pessoa extremamente azarada.
— Olha... — Matt pega a embalagem do filme e coloca-o ao lado do seu rosto, e com um sorriso triste diz: — Vamos assistir.
Minutos mais tarde após sorrisos e almofadas atiradas um no outro, a televisão fixada na parede foi desligada. O filme foi interessante. Claro, ao lado de Matt qualquer coisa fica interessante. No meio daqueles goles e doces sendo digeridos, eu observava seu rosto enquanto pela minha garganta descia tão gostoso suco que minha mãe nos preparara. Seus olhos pareciam estar com mais olheiras que o habitual. E se não fosse por uma pequena camada vermelha no canto destes, eu jamais imaginaria que Matt poderia ter chorado antes de vir ao meu encontro.
No escuro do quarto a única luz que iluminava-nos era a fraca e amarelada do corredor que entrava pela porta entreaberta. O vento leve que batia nos meus ombros me fazia querer deitar-me no meio daquelas cobertas que dividia com Matt por horas, mas antes disso tínhamos que levar aqueles copos e restos de lanches até a cozinha no andar de baixo.
— Acha que está todo mundo dormindo? — Olhando pela brecha da porta, Matt pergunta.
— Sim — respondo, reunindo todas as coisas em meu colo. Matt se oferece para ajudar e lentamente retira alguns potes e copos do meu braço. Logo abrimos a porta, e descalços, sentindo o tão frio que o piso amadeirado da escada, descemos até a cozinha na ponta deles como dois prisioneiros fugitivos.
A água corrente escorregava pelas mãos de Matt enquanto o mesmo deixava limpos alguns talheres e pratos. Enquanto sentado na velha mesa circular, o observava entristecido pensando se tudo estaria melhor bem, já que Matt aparentava estar completamente depressivo lavando aquela louça. Óbvio, não por cuidar daquela chata tarefa, e sim por eu sublinarmente sentir o que o fez ficar assim, que algo estava estranho.
Chacoalho a cabeça tentando voltar á realidade que meus pensamentos a distanciava e exclamo:
— Ei, ei, não precisa fazer isto! Você é o convidado. — O toco pelo cotovelo. Por um instante Matt para. O vento insistia em dar um clima tenso e sublime naquele cômodo mal iluminado. De longe ouvíamos somente grilos, moscas ou a passagem de veículos. A mudez do local era quase insuportável, aquilo me incomodava, e como se não bastasse, Matt aparentava também, assim como eu, está completamente conturbado.
A face cansada, os olhos inchados e a percepção do corpo dolorido que eu tinha de Matt pareciam gritar que ele não estava bem. Estava fraco, sonolento, perturbado. Matt era um rapaz alegre, ou melhor, Matt é um rapaz alegre. Vê-lo daquela forma era uma loucura.
Ligando os pontos e após um clarão mental que tive assim que toquei nas costas do seu braço, percebi enfim o que estava acontecendo. Talvez amanhã eu partisse de vez, e quando contei para Matt a má notícia, ele parecia não se importar. Como se não ligasse, como se...
— Eu já sabia — sussurrou. Quando ouvi meu coração parecia que iria explodir. As orbitas dos meus olhos abrindo deixando claro minha expressão assustada era quase impossível de segurar. O gosto da minha boca sumiu, meu olhar se tornou vago, o que eu conseguia sentir era somente meu shampoo preferido que Matt usava estando atrás dele. Meu estômago cruzou. Eu enfim havia entendido tudo. A expressão tristonha, o querer de aproveitar o resto da noite que tinha comigo, as olheiras que entregavam as lágrimas. Era isso! Matt já sabia que eu iria embora. Mas como? Minha mãe?
Matt desligou a torneira, e eu detrás dele senti que queria se virar para trás e falar alguma coisa. Mas ele não fez. Mesmo de costas para mim eu vi o quanto estava mal. E como se um choque me empurrasse para fazer aquilo, eu fiz. Matt subiu as mangas compridas um pouco para cima, eu engoli o vazio, e levando minhas mãos até suas costas, desesperadamente o abracei.
Minha boca parou em seu ombro enquanto com meus braços o circulava pela barriga. Dei um beijo em seu pescoço. Dei outro. Mais um, e quando fui perceber, naquela pequena região ficou todo o meu carinho, a minha gentileza. Matt levantou a cabeça para cima suspirando como se quisesse conter o choro, que por incrível que pareça, não saiu. Aparentemente de tanto chorar, Matt parecia não ter mais lágrimas para liberar e fazê-las pingarem em minhas mãos que o rodeava. Ele com as suas, tocou-as, puxando-me mais próximo a si. Meu rosto tremeu e o fiz parar colando contra o seu. Ao lembrar que amanhã eu nunca mais iria senti-lo desta forma, que eu nunca mais iria vê-lo, a lágrima até agora equilibrada nos meus olhos, caiu em seu ombro, e como se a mesma o assustasse, em um giro perfeito, Matt vira-se para mim, ficando frente a frente comigo.
Minhas mãos até então geladas aquecia em sua cintura forte, suas mãos repousaram em meus músculos. Observando de perto seu rosto tão próximo ao meu a minha vontade era de morrer. Eu nunca mais iria ver aquele rosto tão perfeito e bonito. Eu nunca mais poderia vê-lo fazer tão distintas expressões. Raiva. Alegria. Tristeza. Matt era inconfundível e único quando estava irritado, feliz ou triste. Matt era... como posso falar? Matt era Matt!
A lágrima fixada em seu ombro derretia-se, e com toda aquela emoção me prendendo, outra logo sairia. Matt se aproximou um pouco mais, enrolou seu braço esquerdo no meu pescoço e me deu um último abraço seguido do passar da sua mão sobre minha bochecha indo ao encontro dos meus olhos, e como computadorizado e calculado, seu polegar retirou a angústia antes que a mesma escorregasse.
— Dessa vez você não vai chorar. — Ele beija minha bochecha e depois um leve tapinha seu se prende nela. — Vamos para seu quarto. Eu tenho uma surpresa pra você.
Estávamos ele e eu, no meu tão escuro quarto á luz do pequeno abajurzinho da cabeceira, deitados juntos na cama, recordando histórias e mais histórias vividas por ali mesmo.
Sorrisos, risadas, bobeiras, nossas coisas. No meio de tantas recordações alegres, a amarga dor de saber que jamais poderíamos vivê-las novamente ou passar por situações iguais enchia meus olhos e apertava meu coração; a amarga dor de saber que minha família e meus problemas nos proibiam de viver juntos e feliz o afrouxava novamente, continuando o ciclo. Mas foi então que no meio daqueles travesseiros, daquele olfato de terra molhada e o escutar da música triste que emitia pelos fones de Matheus, eu tive uma surpresa.
Os olhos de Matt percorriam para os lados procurando algo que eu não fazia ideia do que fosse. O silêncio pausou nosso momento e Matt me olhou nitidamente nos olhos, parecia extremamente envergonhado. O que até agora eu não fazia ideia do que tanto Matheus procurava, agora eu já sabia, e que quando notei, senti um completo choque subir pela minha espinha e meu sangue ferver pelas veias. Dentro do mesmo local que Matt tirara os filmes que assistimos naquela fria noite de verão, ele tirara uma pequena caixinha azul.
— O que é isto? — Deitado espaçosamente sobre a cama enquanto agarrava um travesseiro verde, perguntei.
— Estou com medo de lhe mostrar — diz, ficando ainda mais tímido. — Eu lhe comprei este presente, mas... Acho algo simples demais.
Jogo o travesseiro de lado, levanto e sento, ficando mais próximo de Matt. Dava para ver a completa felicidade que o mesmo sentia segurando aquela doce caixinha aveludada. Ignorando seu gaguejar, sua vergonha e timidez, perguntei o que tinha ali dentro, e repetindo que talvez eu não gostasse de receber aquilo por ser algo simplório, olhei fixamente em seus olhos, segurei suas mãos envolvendo o presente e disse:
— O amor é simples, vem das coisas simples, a gente que inventa e fantasia ele.
Com um sorriso, o olhar de Matt se suavizou, e como se houvesse ainda resíduos do sanduíche de atum na minha bochecha, ele acaricia lentamente com sua mão esquerda meu rosto. Ele mais tranquilo, pousou a caixinha sobre minhas mãos, e tímido, tampou o nariz com a palma da mão.
Quando abri uma corrente de emoções vibraram em meu corpo. Dentro havia dois anéis, duas alianças, feitas com algum tipo de barbante especial. Eram douradas, e pareciam ser feitas em tamanhos perfeitos para nossos dedos. Sorri como nunca, e apertando a caixinha forte mais ainda com maior cuidado, olhei para Matt.
— Estou surpreso — disse, sem me importar mais se lágrimas poderiam surgir com toda aquela emoção. Lágrimas de felicidade nunca fazem mal, certo?
— Eu fiz isso para quando você olhasse suas mãos, seja para comer, ou roer as unhas como você sempre faz — Ele da uma pausa —, você possa se lembrar de mim. — Matt ri, entristecido e esperançoso.
— Você é uma pessoa incrível. Acho que qualquer coisa que eu olhe eu me lembrarei de você. Uma rua, um programa de TV, uma música estranha. Não é um anel que irá fazer-me lembrar de você já que sempre, sempre você estará aqui na minha cabeça, Matt — digo rindo, contendo o choro que minhas risadas impossibilitavam que saísse. Vendo que mesmo um tanto fofo, aparentei ter desmerecido seu tão doce e gentil presente dourado, e após dar dois tapinhas no joelho de Matt, corrijo: — Mas isso é uma ideia muito bacana. Parece que houve um pouquinho de trabalho aqui, hein?
— Houve sim... — Abaixando a cabeça, Matt ri. Lentamente levo minha mão ao encontro do seu queixo, e devagar levanto seu rosto.
— Obrigado. — Sorrio fechando os olhos.
Silêncio.
— Ah! Agora estamos casados. — Evitando a mudez de Matt, começo a brincar. — Isso é ótimo. Olha só. Coloque seu anel. Pronto. Agora o meu. Isso. — Levanto minha mão para cima, exibindo a palidez desta e destacadamente, o brilho daquele objeto tão simples e significativo. — Casados!
Matt ri tampando os lábios, e vendo que consegui o destrair, continuo a brincar. Hoje era o último dia que nos veríamos, e tudo que eu queria era que o mesmo fosse composto por risadas e bobagens, não por lamentos e tristeza.
Cantarolando com os lábios a famosa valsa de casamento, faço Matt se contorcer de tanto sorrir.
— Senhor, Matheus, aceita Felipe como seu futuro marido?
— E eu tenho escolha?
— Xiu! — Volto a por as mãos juntas no colo como se fosse um padre segurando uma bíblia antiga continuando a encenação. — E você, Felipe? O aceita como seu futuro marido também? — Respondendo a mim mesmo, digo: — Mas claro.
Rimos.
— Agora o noivo já pode... — Olho para os lados com um pouco de vergonha. — dar um tapinha nas costas um do outro. Como homens fazem.
Abraço Matt, e após o leve toque nas suas costas, o aspirar do seu forte e confortante perfume da sua pele, sussurro o que tanto quis dizer nesses poucos dias:
— Eu te amo.
O que parecia estar preso, finalmente liberou. Há dias eu queria falar aquilo. Algo que estava quase que me sufocando, finalmente havia saído, fazendo voltar meu oxigênio e me tranquilizar. Senti pesos sendo tirados de mim. Fiquei feliz. Com um beijo na quadra de basquete, dei uma pista para Matt. Mas com três curtas palavras ele entenderia. Só assim ele entenderia.
— Me ama? — pergunta. — Sou eu que sempre te amei, Felipe.
Aquelas palavras ecoaram na minha mente. Um tanto incrédulo por ouvir isso e um tanto apavorado após dizer que o amo meus batimentos cardíacos aceleravam e ia acompanhando os seus, que, de leve, eu sentia enquanto grudado eu estava em seu corpo. O queixo de Matt repousou em meu ombro, e com uma mão o acariciei na nuca, rodeando nos dedos seus tão lisos e cheirosos cabelos negros.
Vendo por cima do ombro de Matt seu celular alertando o horário, uma expressão triste começara a se formar em meu rosto. Era tarde e Matt precisava ir embora. Olhei seu rosto e assenti afim que ele entendesse que precisava ir. Levei o para fora, e notando que após eu fechar a porta eu não iria mais vê-lo, resolvi trancá-la logo de uma vez e ao seu lado, caminhar até o topo da ladeira, para que lá, um lugar mais seguro e calmo, pudéssemos ter nossa tão merecida e triste despedida.
Matt caminhava ao meu lado como se não quisesse falar nada. Não havia literalmente algo que ele pudesse dizer que acalmasse a situação e a deixasse menos tensa. Imaginando tudo aquilo, a vontade de querer ficar mais e mais junto a Matt aumentava de acordo com a dor de saber que isso não seria possível.
Aquela situação apertava meu coração sem dó alguma.
Matt pôs o dedo horizontalmente no nariz, como se quisesse conter o choro. Aproximei-me dele como se fosse o abraçar, mas decidi que não seria uma boa ideia. Ao invés disto, quando lado a lado andávamos sobre o asfalto frio, acidentalmente a costa da minha mão toca na sua. Percebendo isso, tendo tocar novamente, e como se na primeira tentativa eu pedisse sublinarmente permissão para Matt para que pudesse apertá-la mais intensamente, segurei sua mão, e então, entrelaçando vagarosamente os dedos um do outro, de mãos dadas continuamos o percurso.
Delicada, porém áspera; fria, porém quente. Era assim a mão de Matt. Um toque milagroso, capaz de me fazer sentir bem de uma hora pra outra em um momento de aflição. Tão acolhedor e gostoso como uma caneca de chocolate quente em um dia frio. Tão gostoso de tocar. Eu me sentia seguro, feliz. Eu já havia sentido uma mão qualquer. Mas a de Matt... era a única possível de me causar todas essas emoções florindo dentro do meu quente coração.
— Chegamos. — Os olhos de Matt se estreitaram quando começou a falar.
— Chegamos — repeti.
A rua estava vazia. Um gato preto caminhava lentamente entre os arbustos, e uma árvore acima da gente proibia que a luz emitida pelo fraco poste atingisse nosso corpos, deixando somente que a luz do luar fizesse seu trabalho.
Olhamo-nos por um momento. Não por um momento, por quase cinco minutos completos. Por quase todos esse tempo fiquei olhando para Matt, nitidamente, fortemente eu o mirava, como se sua face fosse deformar logo em seguida, eu aproveitava cada momento o olhando. Na ponta da língua nenhum de nós tínhamos nada para dizer. Mas aquele olhar sincero, feliz, triste e amoroso de Matt me dava a saber tudo que ele queria que eu ouvisse, e olhando no fundo destes, eu rezava para que os meus também transmitisse certa mensagem.
Na minha garganta se formara uma bola de ar quando Matt se aproximara de mim para me dar desta vez seu último abraço da noite como também o de dias, semanas ou até mesmo meses. Puxando-me contra si, ele me abraça forte, e quando percebo, meus pés se deslocam do chão. Matt me levanta, e no seu colo, ficamos abraçados por um bom tempo.
Como viverei sem Matt a partir de agora? Como ele irá ficar? O que será de mim sem sua companhia? Em meio a todas essas perguntas aparente impossíveis de serem respondidas — ao menos agora —, senti algo quente escorrer sobre meu pescoço. Ele estava chorando! Quando notei aquilo, meu coração machucado, preso a correntes, se partiu de vez. As minhas lágrimas, que só se escorriam, vazias, saíram dessa vez como carros em alta velocidade, inseguráveis. E aquele ar, fechado, que ficava preso entre minhas narinas e a garganta, que pressionava em agitar meus olhos e nariz, se soltou, e desta vez, com um grito quase que incalável. Um grito de dor, de tristeza.
Chorando no alto do colo de Matt, eu sentia minhas lágrimas encharcando seu cabelo como o tecido da minha camisa acompanhadamente molhando-se com as dele. Meu choro alto poderia acordar quase que todos da cidade, e o de Matt, fraquinho, cansado e quase que inaudível, sofria ainda mais por ter que ouvir o meu.
Meus soluços foram se calando, e com minha cabeça palpitado de dor por tanto chorar, Matt me descia novamente para o chão. Ele limpou algumas lágrimas dele no ombro, e fungando com força, pois suas duas mãos em meu rosto. Tentando acalmar-me, falou:
— Olha — Era quase impossível para Matt se comunicar —, fique bem. Tome um café bem reforçado amanhã quando acordar para ir embora. Faça os deveres da escola, ouviu? Irei lhe cobrar sempre. E quando precisar... A rua número 12 sempre vai está no mesmo lugar.
Por fim ele sorrira mais uma vez. Eu queria agradecê-lo por tudo que ele fizera por mim nesses 13 anos de amizade. Assenti com a cabeça, e como se a vontade de chorar quisesse voltar, balancei o rosto. Mordi o lábio inferior, e ainda nervoso, perguntei:
— Eu posso te beijar? — Sinto minhas bochechas se esquentarem — Por favor...
— O que me garante que você não está mais uma vez com goma de mascar amarga na língua? — Matt ri acariciando meu rosto. Olhamo-nos pela última vez e ele então se aproxima beijando-me no canto da boca. Por um segundo minha respiração se tornara dificultosa. Matt após ter certeza que poderia seguir em frente, selou seus lábios nos meus me beijando devagar.
Eu mais uma vez pude sentir aquela coisa estranha. Matt me abraçando, me beijando, tão intimo a mim, tão romântico. Ao mesmo tempo em que fazíamos tal ato eu rezava mentalmente para que nenhuma senhora ou senhor aparecesse ali e nos víssemos. “Matheus e Felipe se pegando de madrugada no escurinho”, eu já poderia imaginar os comentários na escola no dia seguinte. Mas, quer saber? Quem se importa? Eu não.
Matt finalmente solta-me. O beijando é tão difícil de respirar que quando o mesmo me largara, após alguns segundos uma crise de tosse veio até meu peito. Agachei-me, tossi, tossi, e tossi. Pus minhas mãos no joelho, e novamente tossi, tossi e tossi. Matt pergunta o que houve e para que parasse, dá leves tapinhas em minhas costas.
Um pouco mais aliviado, levanto-me.
— Eu vou indo agora, Felipe — diz Matt, colocando as mãos que quando senti estavam geladas nos bolsos. — Se cuida.
Matt vira-se contra mim, e caminhando pela calçada, vai indo embora. O que eu mais temia na noite estava prestes a acontecer.
Matt caminhava, e como se o som dos seus passos acompanhasse uma ópera triste, meu coração começa a doer. Eu estava-o vendo embora. O meu melhor amigo estava indo embora. Como eu lidaria com isso? Ouvindo o barulho de seus sapatos contra o atrito da calçada eu só conseguia sentir a dor no meu coração aumentar. Eu só conseguia sentir uma perda imensa. Eu não desejaria a ninguém sentir o que eu estava sentindo naquele momento.
Eu notava que mesmo Matt caminhando para longe, ele dava passos lentos, como se não quisesse ir. E eu, também não queria que fosse. Mas ele precisava. Acho que se demorássemos mais um pouco, o sol apareceria logo em seguida. Mas não, a lua fria, brilhante e a única que me acompanharia até em casa continuava ali junto com o frio insuportável, o céu nublado e as nuvens cinzas.
Ele continuava andando. Estava mais longe, mais longe, mais longe... De repente, meus lábios se contraem e meu queixo começa a tremer. Eu iria chorar mais uma vez naquela incansável noite se ao invés de lágrimas, não viesse uma tosse alta.
Matt, de longe, levanta a cabeça pra cima, assustando-se com meu barulho. Ele para de andar, e sem virar-se para trás, diz:
— Minha mãe tem um xarope que pode curar essa sua tosse em dois segundos. Vou mandá-la amanhã levar até sua casa antes de ir embora. Tente não respirar muita poeira e beba muita água, Felipe. Quando você voltar eu quero lhe ver bem.
O jeito protetor, cuidadoso, carinhoso, atencioso e gentil. Matt era um garoto raro. Sempre me tratando de forma cuidadosa e com uma bondade no olhar capaz de me fazer rir nos momentos quando só o que sinto é raiva ou tristeza. Ele era um rapaz perfeito. Nessa noite antes de dormir, vou olhar pela janela as nuvens cinzentas pela última vez, e sem se importar se mais acima delas realmente existe um Deus ou não, irei agradecê-lo por tê-lo posto aqui comigo, e também, por razões e motivos que ainda não sei quais, por separarmo-nos. Olhei Matt de costas mais uma vez, e antes de virar-me para ir para casa, um leve “obrigado” meu ficou no ar ecoando até os seus ouvidos.
Um sorriso se formou em meu rosto. Eu devia está feliz também. Agora seria Felipe ali, Matt ali. Mas se está assim hoje, significa que ao menos em um dia não foi, e os dois nomes estiveram juntos. Eu e Matt tivemos uma história bem louca. Houve brigas, desentendimentos, reatos, abraços e até mesmo beijos. Passamos por diversos obstáculos. Crescemos, amadurecemos, jogamos futebol, tomamos banhos de chuva, assistíamos TV enquanto ele implorava para que saíssemos para andar no parque. Vendo assim foi realmente divertido. Foi bom. Mas claro, só por uma única razão: por estarmos sempre juntos.
Começo a dar os primeiros passos, de longe Matt grita meu nome. Em segundos, olho para trás com um enorme sorriso no rosto. Ele com seu olhar de lamento, levanta seu punho exibindo o anel dourado que usava. E com um olhar sincero e contente, o observo lentamente sussurrar algo. Em seguida, dobra a esquina, sumindo de vista.
“Casados” foi o que ele disse.
Virei-me novamente, e assim fui para minha casa. Matt conseguia ser perfeitamente romântico quando queria. Sua atitude não irei esquecer jamais. Sei que quando eu andar por um bosque como este, meus pensamentos não irão hesitar em pensar em Matt. Sei que quando eu olhar para a mão da minha mão, como faço agora, meu peito se inchará de alegria, por ver que tenho uma pessoa tão importante para mim do meu lado. E quando tiver tudo difícil, aquele objeto dourado no meu dedo irá me acalmar, me tranquilizar, e acima de tudo, mostrar que existe uma pessoa que realmente se importa comigo, que me ama.
O meu nome é Felipe, Felipe Brennan. Tenho 15 anos, uma mãe maravilhosa e um pai completamente maluco. Aos cinco anos conheci um rapaz que meu mundo roxo coloriu mais um pouco. Que meu ponto de vista feio para este, endireitou meu olhar. Me fez sorrir, chorar, gritar, se espernear. Me fez viver. Acordar sempre foi trabalhoso. Um “me deixe dormir mais um pouco” ecoava pelo meu quarto em cada manhã. Ele me fazia querer acordar cedo, e inacreditavelmente, sorrir, mesmo com os olhos grudados e o cabelo bagunçado.
O nome dele é Matheus, Matheus-alguma-coisa. O sobrenome dele eu não sei. É algo difícil e estranho, e depois se você reparar bem nele, um sobrenome qualquer é o de menos. Por alguma ação do destino, nos separamos, e tudo o que tive foi a lembrança do seu toque. Suas mãos acariciando meu rosto, seu abraço acolhedor, seu... Matt era incrível, e hoje, infelizmente, tive que deixá-lo partir. Com um tapinha nas costas, ele caminhou de volta para casa. Eu não me importo em está abraçando ele no meio da rua, muito menos se alguém viu aquilo, só me importo em saber se Matt estará bem quando amanhã chegar. Bem, ao menos espero.
De uns tempos pra cá, em meio toda essa confusão de emoções, as coisas entre eu e Matt ficaram diferentes. Começamos a compartilhar mutuamente algo novo, algo bom. Eu poderia dizer que fosse amor, mas eu só tenho 15 anos. Um garoto de 15 anos já pode amar, não pode? Se sim, admito, eu estava amando Matt. Eu estava. Espero também que um dia nos reencontremos de novo. Quero vê-lo novamente, dois anos depois, três, quatro... Não interessa. A única certeza que tenho, é que até lá, não importa quando tempo demore, Matt e eu sempre seremos melhores amigos. Sempre.
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