Meu Lugar Seguro
8 Capítulo 8
Notas iniciais
POV BELLA
Fazia exatamente três meses desde que eu havia chegado a Nova York.
Engraçado como o tempo podia assumir formas diferentes.
Às vezes parecia que eu tinha acabado de desembarcar naquela cidade, perdida, assustada e sem saber como seria o dia seguinte. Em outros momentos, tinha a impressão de que aquela casa sempre fizera parte da minha vida.
Talvez porque, pela primeira vez em muito tempo, eu não acordava com medo.
A mansão dos Cullen tinha um silêncio diferente.
Não era aquele silêncio pesado que eu aprendi a temer.
Era um silêncio tranquilo.
Aquele que fazia a gente respirar fundo sem perceber.
Esme tinha o hábito de acordar cedo e preparar o café da manhã, mesmo com funcionários suficientes para cuidar da casa inteira. Carlisle, agora aposentado, passava boa parte das manhãs no escritório, lendo relatórios das empresas da família ou resolvendo algum assunto que os filhos ainda insistiam em consultar com ele.
Mesmo sem estar mais à frente dos negócios, sua presença transmitia a mesma serenidade de sempre.
Edward também continuava morando ali.
A reforma da casa dele estava demorando mais do que o previsto, o que significava que dividíamos o mesmo teto por todo esses meses.
Era curioso como, mesmo convivendo diariamente, ele continuava sendo um homem difícil de decifrar.
Nos encontrávamos quase todas as manhãs.
Às vezes no café.
Outras vezes quando eu descia para pegar água durante a noite e ele acabava de chegar do trabalho.
As conversas raramente passavam de algumas frases.
Mas nunca pareciam vazias.
Edward tinha um jeito estranho de ocupar um ambiente.
Ele não era o tipo de pessoa que precisava falar alto para chamar atenção.
Sua presença bastava.
E, durante aquele mês, eu descobri uma característica dele que ninguém parecia notar.
Edward observava tudo.
Era quase imperceptível.
Eu podia estar lendo um livro na varanda e, quando levantava os olhos por algum motivo, encontrava os dele sobre mim.
Não era um olhar invasivo.
Muito menos vulgar.
Era...
Analítico.
Como se ele estivesse tentando montar um quebra-cabeça.
Como se buscasse entender alguma coisa que nem eu mesma sabia explicar.
E, por mais que aquilo me incomodasse, também despertava uma curiosidade difícil de ignorar.
Porque, sempre que nossos olhares se encontravam, era ele quem desviava primeiro.
— Pronta?
Levantei os olhos.
Edward estava parado próximo à porta de entrada.
Vestia uma calça de moletom preta, camiseta cinza de mangas curtas e um casaco esportivo aberto. As chaves do carro giravam lentamente entre os dedos, num gesto automático.
Peguei minha mochila do sofá.
— Achei que você tivesse esquecido.
— Eu disse que levaria você.
Edward não era um homem de promessas vazias.
Se dizia que faria alguma coisa, fazia.
Sem alarde.
Sem precisar repetir.
Passei por ele em direção à porta.
— Ainda dá tempo de desistir.
Ele abriu a porta para que eu saísse primeiro.
— De você?
Olhei por cima do ombro.
— Da academia.
A resposta veio alguns segundos depois.
— Você vai gostar.
Sorri de lado.
— Como consegue ter tanta certeza?
Edward trancou a porta atrás de nós antes de caminhar até o carro.
— Porque lutar organiza a mente.
A frase me fez olhar para ele por um instante.
— Está falando por experiência própria?
Ele destravou o carro.
— Estou. E você testou aquela vez e gostou.
Entrou.
Ligou o motor.
E não acrescentou mais nada.
Era típico dele.
Edward nunca respondia além do necessário.
Mas, curiosamente, eu nunca tinha a sensação de que ele escondia alguma coisa.
Parecia apenas alguém acostumado a guardar tudo para si.
A academia era muito maior do que eu imaginava.
O som das luvas encontrando os sacos de pancada preenchia o ambiente, misturado ao ritmo constante de cordas batendo no chão, instruções dos treinadores e o impacto seco dos golpes sobre o tatame.
Havia disciplina em cada canto.
Ninguém parecia preocupado em impressionar os outros.
Todos estavam concentrados em superar a si mesmos.
Edward caminhava pelo lugar como quem estava em casa.
Cumprimentava algumas pessoas com um aceno discreto.
Recebia o mesmo cumprimento respeitoso de volta.
— Cullen.
Um homem de aproximadamente cinquenta anos aproximou-se com um sorriso.
— Pensei que fosse faltar hoje.
— Não costumo faltar.
O treinador voltou a atenção para mim.
— Então esta é a Bella.
Sorri educadamente.
— Prazer.
— Mark.
Ele apertou minha mão.
— O Cullen falou que você começaria a treinar.
Olhei imediatamente para Edward.
— Você falou de mim?
Ele apenas respondeu, naturalmente:
— Precisava avisar que teria uma aluna nova.
Aquilo fazia sentido.
Mas, por alguma razão, gostei de saber que ele havia pensado em organizar tudo antes de me levar até ali.
Era um cuidado silencioso.
Exatamente o tipo de coisa que combinava com Edward.
— Vou trocar de roupa.
Ele olhou para mim.
— Pode esperar naquele banco. Não demoro.
Assenti.
Enquanto ele desaparecia pelo corredor dos vestiários, permaneci observando o movimento da academia.
Poucos minutos depois, Edward retornou.
E, por um instante, esqueci completamente do ambiente ao redor.
A camiseta dera lugar a uma regata preta de treino.
Os ombros largos pareciam ainda maiores.
Os braços, definidos sem exagero, denunciavam anos de disciplina.
Não havia nada artificial em seu físico.
Era o corpo de alguém que treinava porque fazia parte da rotina, não para chamar atenção.
Era...
Impressionante.
Ele é muito gostoso.
Edward começou a enfaixar as mãos enquanto conversava rapidamente com um dos treinadores.
Logo em seguida subiu ao ringue.
O adversário o cumprimentou.
O treino começou.
E bastaram poucos segundos para eu entender por que todos pareciam respeitá-lo tanto.
Edward lutava exatamente como conduzia a própria vida.
Sem desperdício.
Sem movimentos desnecessários.
Observava.
Esperava.
Calculava.
Só então atacava.
Cada golpe era preciso.
Cada esquiva acontecia por centímetros.
Era impossível desviar os olhos.
Não porque fosse uma luta violenta.
Mas porque havia algo quase hipnotizante na maneira como ele mantinha o controle absoluto da situação.
Quando o treinador encerrou o sparring, percebi que eu havia assistido à luta inteira sem piscar direito.
Edward retirou as luvas.
Pegou uma garrafa de água.
Bebeu alguns goles.
Só então caminhou em minha direção.
Parou diante de mim.
Por alguns segundos, não disse absolutamente nada.
Apenas me observou.
Depois perguntou, em um tom tranquilo:
— Descobriu alguma coisa interessante?
Franzi a testa.
— Como assim?
— Sobre mim.
Meu coração tropeçou.
— Não entendi.
Ele girou lentamente a tampa da garrafa.
— Você passou os últimos vinte minutos me estudando.
Fiquei alguns segundos em silêncio.
Era inútil negar.
Ele tinha percebido.
Claro que tinha.
Respirei fundo.
— Eu estava vendo o treino.
— Estava.
A resposta veio calma.
— Mas não era exatamente o treino que prendia sua atenção.
Cruzei os braços.
— Você sempre tira conclusões tão rápido?
Edward sustentou meu olhar.
— Não.
Deu mais um passo.
A distância diminuiu o suficiente para que eu sentisse o leve aroma amadeirado do perfume misturado ao cheiro limpo de sabonete.
— Eu apenas observo antes de concluir.
Sorri discretamente.
— Isso explica por que você luta desse jeito.
Pela primeira vez desde que nos conhecemos, percebi uma pequena mudança em sua expressão.
Curiosidade.
— E de que jeito eu luto?
— Do mesmo jeito que vive.
Ele permaneceu em silêncio.
Continuei:
— Você nunca reage primeiro. Nunca desperdiça energia. Analisa tudo antes de tomar qualquer decisão. Até quando luta parece estar três movimentos à frente de todo mundo.
Edward permaneceu olhando para mim durante alguns segundos.
Longos demais.
Quando finalmente falou, sua voz saiu mais baixa.
— Você presta atenção em detalhes.
— Deformação profissional.
— Economista, Certo?
Assenti.
— Aprendemos que detalhes costumam custar caro quando passam despercebidos.
Um canto discreto de sua boca se ergueu.
Não chegou a ser um sorriso.
Mas foi suficiente para transformar completamente seu rosto.
— Interessante...
— O quê?
— Achei que eu fosse o único observando.
Sustentei seu olhar sem responder.
Porque, naquele instante, tive a estranha sensação de que nós dois havíamos acabado de admitir exatamente a mesma coisa, sem que nenhum dos dois tivesse coragem de dizer em voz alta.
Assim que o treinador encerrou o treino, Edward retirou as luvas sem demonstrar qualquer sinal de cansaço.
Algumas pessoas começaram a subir no ringue seguinte, enquanto outras caminhavam em direção aos aparelhos.
Ele olhou ao redor da academia por alguns segundos antes de chamar um dos instrutores.
— Mark.
O homem se aproximou.
— Preciso do ringue livre por uns vinte minutos.
Mark sorriu imediatamente.
— Vai começar a treinar a Bella?
Edward apenas assentiu.
— Sem interrupções.
— Deixa comigo.
Em poucos minutos, o espaço ficou vazio.
Os alunos seguiram para os outros tatames sem questionar.
Olhei para Edward.
— Achei que você estivesse brincando quando disse que me ensinaria.
Ele apoiou uma das mãos sobre a corda do ringue.
— Eu raramente brinco.
— Já percebi.
Subi os pequenos degraus.
Assim que entrei no ringue, tive uma estranha sensação de vulnerabilidade.
Era um espaço muito maior do que parecia visto de fora.
Edward entrou logo atrás.
Fechou a passagem.
Depois caminhou até o centro.
— Primeira regra.
Cruzei os braços.
— Já começa com regras?
— Sempre.
Respirei fundo.
— Tudo bem. Qual é?
— Nunca cruze os braços.
Olhei para mim mesma.
— Por quê?
— Porque você acabou de deixar duas costelas e o rosto completamente expostos.
Descruzei os braços imediatamente.
Ele quase sorriu.
Quase.
— Melhor.
Edward caminhou lentamente até parar diante de mim.
— Lutar não tem relação com força. Tem relação com equilíbrio.
Fez um gesto para meus pés.
— Afaste um pouco mais.
Obedeci.
— Assim?
Ele balançou a cabeça negativamente.
— Não.
Antes que eu pudesse reagir, ele se aproximou.
Muito.
Seu tênis encostou levemente no meu.
Depois, usando apenas a ponta do pé, empurrou delicadamente meu tornozelo alguns centímetros para o lado.
— Aqui.
Meu corpo inteiro enrijeceu.
Não pelo toque.
Mas pela proximidade.
Levantei os olhos.
Ele continuava completamente concentrado na minha postura.
Como se não percebesse o efeito que causava.
— Distribua o peso igualmente.
Obedeci outra vez.
— Melhor.
— Sou uma boa aluna?
Edward ergueu o olhar.
— Ainda não decidi.
Revirei os olhos.
— Você elogia de um jeito muito peculiar.
— Quando houver motivo, eu elogio.
— Convencido.
— Exigente.
Corrigi-lo seria perda de tempo.
— Agora os punhos.
Levantei as mãos da maneira que imaginei ser correta.
Edward observou por dois segundos.
Depois soltou um discreto suspiro.
— Não.
— O quê?
— Está errado.
— Você gosta dessa palavra, não gosta?
— Gosto quando ela evita que alguém apanhe.
Ri baixo, as engoli em seco. Apanhe
— Justo.
Ele aproximou-se novamente.
Dessa vez segurou minha mão.
Com firmeza.
Sem delicadeza exagerada.
Mas também sem qualquer brutalidade.
Seus dedos envolveram meu punho enquanto ajustava lentamente a posição.
— Polegar por fora.
Explicava olhando para minha mão.
Não para mim.
— Se fechar errado...
Moveu levemente meus dedos.
— ...você quebra o próprio polegar antes de acertar alguém.
Engoli em seco.
Não pela explicação.
Mas porque sua mão continuava segurando a minha.
Quente.
Segura.
Meu coração resolveu acelerar sem pedir autorização.
— Entendeu?
Demorei um segundo para responder.
— Acho que sim.
Ele levantou os olhos.
Percebeu.
Claro que percebeu.
— Você não estava prestando atenção.
Meu rosto aqueceu.
— Estava.
Uma sobrancelha arqueou discretamente.
— Repita o que eu disse.
Droga.
Sorri sem graça.
— Talvez eu tenha perdido uma parte.
O canto de sua boca quase se moveu.
— Imaginei.
Respirei fundo.
— A culpa é sua.
Ele pareceu genuinamente intrigado.
— Minha?
— Você explica tudo muito perto. Pela primeira vez desde que o conheci...
Edward ficou em silêncio.
Como se realmente não esperasse aquela resposta. Nunca fomos próximos. Ele sempre me evitou.
Seus olhos permaneceram presos aos meus durante alguns segundos.
Depois soltou minha mão lentamente.
— Em uma luta...
Sua voz saiu baixa.
Controlada.
— O adversário ficará muito mais perto do que eu estou agora.
Meu estômago virou.
Porque ele tinha razão.
E porque, enquanto dizia aquilo...
Deu mais um passo.
A distância entre nós praticamente desapareceu.
Eu conseguia sentir sua respiração.
O perfume amadeirado.
O calor que seu corpo irradiava depois do treino.
Edward permaneceu completamente tranquilo.
Como se aquilo fosse apenas parte da aula.
— Acostume-se com isso.
Minha garganta secou.
— Está tentando me ensinar ou me testar?
— As duas coisas.
Depois de alguns minutos treinando postura e movimentação, Edward passou para os primeiros golpes.
— Direto.
Levantei o punho.
Golpeei o ar.
Ele segurou meu braço antes mesmo de terminar o movimento.
— Pare.
Olhei para ele.
— Agora o quê?
— Você avisou exatamente o que faria.
— Como assim?
Edward segurou delicadamente meu cotovelo.
A outra mão pousou em minha cintura.
Meu corpo inteiro congelou.
— Antes de atacar...
Ele girou meu quadril apenas alguns centímetros.
Seu toque era firme.
Respeitoso.
Mas suficiente para fazer um arrepio subir lentamente pela minha coluna.
— ...a força vem daqui.
A mão permaneceu em minha cintura apenas o tempo necessário para corrigir minha postura.
Mesmo assim...
Meu corpo parecia não ter recebido o aviso de que ele já havia se afastado.
— Tente outra vez.
Respirei fundo.
Ignorei o coração.
Golpeei novamente.
Dessa vez senti o movimento completamente diferente.
Mais natural.
Edward assentiu.
— Melhor.
Sorri.
— Isso foi um elogio?
— Foi.
Cruzei os braços por impulso.
Ele olhou para eles.
Depois para mim.
— Primeira regra.
Suspirei.
Descruzei imediatamente.
— Você vai usar isso contra mim para sempre?
Edward inclinou levemente a cabeça.
— Enquanto funcionar.
Não consegui evitar a risada.
E, pela primeira vez desde que o conheci...
Vi Edward rir de verdade.
Não alto.
Nem por muito tempo.
Mas o suficiente para transformar completamente seu rosto.
Meu problema era que...
Eu começava a gostar demais de ser uma das poucas pessoas capazes de provocar aquele sorriso.
Na volta para casa, o silêncio dentro do carro parecia diferente.
Não era desconfortável.
Muito menos aquele silêncio constrangedor de duas pessoas que não têm assunto.
Era apenas...
Natural.
Edward dirigia com uma das mãos apoiada no volante, enquanto a outra descansava sobre o câmbio. A cidade passava depressa do lado de fora, iluminada pelas luzes que pareciam nunca dormir.
Eu ainda pensava na academia.
Na forma que ele me ensinou.
Na maneira como ele havia lutado.
Na forma como tinha percebido que eu o observava.
E, principalmente, na conversa que tivemos depois.
Edward não fazia perguntas por curiosidade.
Ele perguntava porque realmente queria entender a resposta.
Era um homem que escutava.
Talvez fosse por isso que cada conversa com ele parecesse durar mais do que realmente durava.
— Você ficou em silêncio.
Sua voz interrompeu meus pensamentos.
Olhei para ele.
— Estou cansada.
Ele desviou os olhos da avenida apenas por um segundo.
O suficiente para me encarar.
— Não.
Franzi a testa.
— Não?
— Você está pensando.
Sorri de canto.
— Você sempre acha que sabe o que estou fazendo.
— Eu observo padrões.
Revirei os olhos.
— Isso parece assustador.
— Geralmente é útil.
— Para você.
— Principalmente para mim.
Acabei rindo.
Baixinho.
Quase sem perceber.
Edward lançou um rápido olhar em minha direção.
O canto de sua boca se moveu discretamente.
Eu nunca imaginaria dizer aquilo, mas...
Edward Cullen tinha um senso de humor extremamente seco.
E estranhamente bom.
Quando chegamos à mansão, as luzes do térreo estavam apagadas.
Esme e Carlisle já haviam recolhido para os aposentos.
A casa inteira parecia mergulhada naquele silêncio confortável que eu aprendera a gostar.
— Boa noite.
Edward fez menção de subir a escada.
— Boa noite.
Eu também comecei a subir.
Mas parei no meio do caminho.
Ainda não estava com sono.
Talvez fosse a adrenalina da academia.
Talvez fosse a conversa que continuava ocupando minha cabeça.
Mudei de direção.
Segui para a sala principal.
As enormes janelas revelavam Manhattan iluminada.
A vista era tão bonita que, às vezes, eu simplesmente esquecia de ligar a televisão.
Sentei-me no sofá.
Cruzei as pernas.
Fiquei olhando a cidade sem realmente enxergá-la.
O silêncio era interrompido apenas pelo discreto tic-tac do relógio antigo sobre a lareira.
Não sei quanto tempo passou.
Cinco minutos.
Talvez quinze.
Só percebi que não estava mais sozinha quando ouvi passos atrás de mim.
— Eu imaginei que encontraria você aqui.
Virei o rosto.
Edward havia tomado banho.
Estava com uma camiseta branca que destacava bem seus braços.
O cabelo parecia um pouco bagunçado, como se ele tivesse passado a mão por ele algumas vezes.
Era uma versão menos formal dele.
E, curiosamente...
Ainda mais bonita.
— Achei que tivesse ido dormir.
Ele caminhou até um pequeno aparador ao lado da sala.
— Também achei.
Abriu um armário embutido.
Retirou uma garrafa de vinho.
Depois olhou para mim.
— Vinho?
Pensei por alguns segundos.
— Aceito.
Edward pegou duas taças.
Fez um discreto gesto com a cabeça.
— Venha.
Franzi a testa.
— Onde?
— Escritório.
Levantei.
Segui atrás dele pelos corredores silenciosos da casa.
O escritório de Carlisle era amplo, revestido por estantes de madeira escura repletas de livros.
Uma das paredes era formada quase inteiramente por vidro, revelando a cidade iluminada.
Edward entrou como quem conhecia cada detalhe daquele lugar.
Serviu as duas taças.
Entregou uma para mim.
Depois sentou-se em uma das poltronas.
Esperei alguns segundos antes de ocupar a outra.
O silêncio voltou.
Mas, curiosamente, nunca parecia estranho quando estávamos juntos.
Edward girava lentamente a taça entre os dedos.
— Você gostou da academia.
Não era uma pergunta.
Era uma constatação.
Assenti.
— Muito mais do que imaginei.
— Vai continuar?
— Acho que sim.
Ele fez um pequeno gesto afirmativo.
Como se aquela resposta fosse exatamente a que esperava.
Fiquei observando o vinho por alguns instantes.
Sem perceber, comecei a girar a taça da mesma maneira que ele.
Edward notou.
Claro que notou.
Mas não comentou.
Respirei fundo.
— Posso confessar uma coisa?
Os olhos verdes encontraram os meus.
— Pode.
Sorri sem humor.
— Hoje foi a primeira vez, em muito tempo, que passei quase duas horas sem pensar na minha vida antiga.
Ele permaneceu em silêncio.
Esperando.
Era impressionante como Edward nunca tinha pressa para preencher os espaços entre uma frase e outra.
— Acho que... — continuei — ...eu tinha esquecido como era bom simplesmente viver um dia comum.
Minha voz saiu mais baixa.
— Trabalhar. Reclamar do trânsito. Chegar em casa cansada. Ter uma rotina. Essas coisas que parecem tão pequenas...
Engoli em seco.
— Mas fazem falta quando deixam de existir.
Edward apoiou os cotovelos nos joelhos.
Continuava ouvindo.
Sem interromper.
Sem tentar completar minhas frases.
Isso me deu coragem para continuar.
— Eu gostava muito do meu trabalho.
Ele arqueou discretamente uma sobrancelha.
— Muito?
Sorri.
— Eu amava.
A palavra escapou antes que eu percebesse.
Olhei para a taça.
— Eu sei que economia não parece exatamente uma profissão apaixonante para a maioria das pessoas...
— Para você era.
Levantei os olhos.
Edward não havia dito aquilo como uma pergunta.
Ele tinha certeza.
Assenti devagar.
— Era.
Meu peito apertou.
— Eu gostava dos desafios. Gostava das reuniões, dos estudos, das projeções financeiras... adorava quando conseguia encontrar uma solução que ninguém tinha percebido.
Sorri sozinha.
— Eu chegava em casa cansada... mas satisfeita.
Minha voz falhou por um instante.
— Às vezes penso que aquela Bella ficou em Oklahoma.
Edward permaneceu imóvel.
Os olhos presos aos meus.
Quando falou, sua voz veio calma.
Firme.
— Não.
Franzi a testa.
— Não?
— A economista continua aqui.
Balancei a cabeça.
— Faz três meses que não entro em um escritório.
— Isso não muda quem você é.
Suspirei.
— Acho que muda um pouco.
— Discordo.
Ele respondeu sem elevar o tom.
Como quem dizia algo absolutamente lógico.
— Você foi afastada da profissão por culpa de outra pessoa . Não perdeu a capacidade. A diferença entre as duas coisas é enorme.
Fiquei olhando para ele.
Edward sustentou meu olhar.
— Você fala do seu trabalho de um jeito que eu ainda não tinha visto.
Sorri de leve.
— Como assim?
— Seus olhos mudam.
Meu coração desacelerou por um instante.
— Mudam?
Ele assentiu.
— Você fala com entusiasmo.Com orgulho.Com propriedade.
Fez uma pequena pausa.
— Pessoas apaixonadas pelo que fazem são raras.
Baixei os olhos.
Ninguém...
Ninguém nunca tinha reparado nisso.
Nem mesmo antes de tudo acontecer.
Edward apoiou a taça sobre a mesa lateral.
— Por que não procura trabalho em Nova York?
Soltei uma risada curta.
— Assim... simples?
— Não.
Ele respondeu imediatamente.
— Não será simples. Mas é possível.
Fiquei em silêncio.
Edward continuou.
— Você tem formação. Tem Experiência. É inteligente. Tem capacidade. Então por que parte do princípio de que não conseguirá?
Passei os dedos pela borda da taça.
Nunca tinha pensado daquela forma.
Na verdade...
Eu nem havia permitido que essa possibilidade existisse.
Porque, desde que tudo aconteceu, sobreviver parecia um objetivo grande o suficiente.
Edward percebeu minha hesitação.
— Isabella.
Levantei os olhos.
— Não permita que uma pessoa decida o restante da sua vida. O que aquele desgraçado fez não pode te impedir de viver a sua vida. Acabou. Ele não vai mais tocar em você.
As palavras ecoaram dentro de mim.
Ele não fazia ideia do quanto elas atingiam exatamente o lugar certo.
Não sabia.
Não podia saber.
Mas...
Acertou.
Respirei profundamente.
Pela primeira vez desde que cheguei a Nova York...
Imaginei meu nome novamente em uma porta de escritório.
Imaginei reuniões.
Planilhas.
Projetos.
Clientes.
Uma vida.
Minha vida.
Sorri.
Dessa vez, um sorriso verdadeiro.
— Acho que vou atualizar meu currículo amanhã.
Edward devolveu um sorriso discreto.
Quase imperceptível.
Mas havia satisfação nele.
Como se aquela fosse exatamente a resposta que esperava ouvir.
— Achei que diria isso.
Olhei para ele por alguns segundos.
— Obrigada.
Ele inclinou levemente a cabeça.
— Pelo quê?
— Por acreditar em mim...
A resposta demorou alguns instantes.
Quando veio, foi baixa.
Sincera.
— Você ainda não percebeu, Isabella... mas é muito fácil acreditar em alguém que claramente sabe do que é capaz. Só precisa voltar a enxergar isso.
Meu coração acelerou.
E, naquele instante, tive a estranha sensação de que Edward não estava apenas tentando me convencer.
Ele realmente acreditava em cada palavra que havia dito.
O domingo amanheceu surpreendentemente quente para o início do verão em Nova York.
Eu ainda estava terminando meu café quando Alice entrou na cozinha como um pequeno furacão.
— Bom dia!
Esme riu.
— Você bateu o recorde hoje.
Alice beijou o rosto da mãe antes de se servir de café.
— Onde está a Bella?
— Bem aqui.
Ela virou imediatamente para mim.
Os olhos brilhando daquele jeito que eu já conhecia.
Aquilo nunca significava boa coisa.
— Você trouxe biquíni?
Franzi a testa.
— Trouxe...
— Ótimo.
Voltei a mastigar o pão.
— Por quê?
— Jasper, Emmett, Rosalie... todo mundo vem para cá.
Sorri.
Já fazia alguns domingos que eles apareciam para almoçar com os pais.
Era praticamente uma tradição da família.
— E?
Alice sorriu ainda mais.
— E vamos passar o dia na piscina.
Neguei com a cabeça.
— Eu posso ficar só olhando.
Ela gargalhou.
— Não pode, não.
Pouco depois do almoço, a mansão já estava completamente diferente.
O silêncio habitual havia desaparecido.
As risadas de Emmett ecoavam do jardim.
Jasper conversava com Carlisle perto da churrasqueira.
Rosalie ajudava Esme a organizar algumas travessas.
Alice parecia estar em cinco lugares ao mesmo tempo.
Era impossível não sorrir observando aquela família.
Eles brigavam.
Provocavam uns aos outros.
Falavam todos ao mesmo tempo.
Mas existia um carinho tão evidente entre eles que eu me pegava admirando aquilo.
Porque era exatamente o tipo de ambiente que eu nunca tinha conhecido.
— Bella!
Alice apareceu na porta da sala.
— Você ainda está vestida?
Olhei para ela.
— Essa pergunta ficou estranha.
Ela revirou os olhos.
— Você entendeu.
Suspirei.
— Alice...
— Nem adianta discutir.
Cinco minutos depois...
Eu estava dentro do quarto, encarando meu reflexo no espelho.
O biquíni preto era bonito.
Discreto.
Muito mais discreto do que Alice gostaria.
Mesmo assim...
Fazia tanto tempo que eu não usava uma roupa daquelas que me senti estranha.
Passei a mão pelo próprio braço.
Ainda havia pequenas marcas quase imperceptíveis perto da costela.
Ninguém perceberia.
Mas eu sabia que estavam ali.
Respirei fundo.
— Bella?
A voz de Alice surgiu atrás da porta.
— Posso entrar?
— Pode.
Ela entrou acompanhada de Rosalie.
As duas me olharam por alguns segundos.
Rosalie foi a primeira a falar.
— Você é tao linda.
Sorri sem graça.
— Não exagera.
— Não estou exagerando.
Alice aproximou-se.
— Está perfeita.
Balancei a cabeça.
— Acho que faz tempo que não me sinto confortável usando isso.
As duas trocaram um olhar rápido.
Rosalie segurou delicadamente meu braço.
— Você não precisa esconder seu corpo de ninguém.
Engoli em seco.
Ela não fazia ideia do peso que aquela frase carregava.
Mas sorri.
— Obrigada.
Assim que atravessamos a porta de vidro que dava acesso ao jardim...
O primeiro que levantou os olhos foi Emmett.
— Finalmente!
Alice fez uma careta.
— Fecha a boca.
— Eu só estava dizendo que demoraram.
Rosalie lhe lançou um olhar que fez o marido erguer as mãos em rendição.
Carlisle e Esme continuavam conversando próximos à piscina.
Jasper organizava algumas espreguiçadeiras.
E...
Edward.
Estava sentado um pouco mais afastado.
Óculos escuros.
Uma bermuda preta.
Uma camisa branca de linho aberta sobre uma camiseta.
Conversava com Carlisle.
Ou pelo menos...
Era isso que parecia.
Porque, no instante em que coloquei os pés no jardim...
Ele levantou discretamente a cabeça.
Os óculos escondiam seus olhos.
Mesmo assim...
Eu soube.
Ele estava olhando para mim.
Continuei caminhando.
Tentando agir naturalmente.
Alice começou a falar sobre alguma viagem que queria fazer.
Rosalie respondia.
Eu fingia prestar atenção.
Mas, por algum motivo, tinha a estranha sensação de que Edward continuava me observando.
Sentamos perto da piscina.
Alice pegou um copo de limonada.
Rosalie fez o mesmo.
Eu ainda olhava a água quando ouvi Alice dizer:
— Ele não disfarça muito bem.
Olhei para ela.
— Quem?
Ela tomou um gole.
— Meu irmão.
Franzi a testa.
— O Edward?
Rosalie soltou uma risada baixa.
— Você realmente não percebeu?
Meu coração resolveu acelerar.
— Perceber o quê?
Alice inclinou a cabeça discretamente.
— Desde que você apareceu aqui fora...Ele já olhou para você umas cinco vezes.
Sorri sem graça.
— Impressão de vocês.
Rosalie cruzou as pernas.
— Não é.
— Vocês estão imaginando coisas.
Alice arqueou uma sobrancelha.
— Bella...Eu conheço o Edward há muitos anos. Quando ele olha para uma pessoa mais do que o necessário... Tem alguma coisa acontecendo.
Olhei discretamente na direção dele.
Edward ainda conversava com Carlisle.
No mesmo instante...
Como se sentisse meu olhar...
Virou levemente o rosto.
Na minha direção.
Meu estômago deu um pequeno salto.
Desviei imediatamente.
Alice começou a rir.
— Viu?
Balancei a cabeça.
— Vocês são impossíveis.
Rosalie sorriu.
— Então explica.
— Explicar o quê?
— Por que vocês vivem juntos ultimamente?
Respirei fundo.
— Porque ele prometeu que me ensinaria a lutar.
— E cumpriu.
Assenti.
— Sim.
Alice sorriu de lado.
— Só isso?
— Claro.
Rosalie me observava atentamente.
— Bella...Você passa mais tempo com meu cunhado do que qualquer pessoa dessa família.
— Porque estamos na mesma casa.
Respondi rápido demais.
— E porque a academia fica perto do escritório dele.
Alice deu um sorriso divertido.
— Uhum.
Revirei os olhos.
— Não façam essa cara. Edward continua exatamente igual. Arrogante, controlador e acha que sabe analisar tudo.
Rosalie riu.
— Isso é verdade.
— Extremamente reservado.
Alice concordou.
— Também.
— E irritantemente observador.
As duas riram juntas.
Cruzei os braços.
— Não estou entendendo a graça.
Rosalie respondeu primeiro.
— Você acabou de passar dois minutos descrevendo a personalidade dele inteira.
— Porque convivo com ele. Mas já o conhecia antes, vocês sabem, Só nãos nos falávamos naquele época.
Alice segurou a risada.
— E prestou atenção em cada detalhe.
Abri a boca para responder...
Mas nenhuma palavra saiu.
Droga.
Elas tinham percebido.
Alice sorriu como quem acabava de vencer uma discussão.
— Relaxa. Nós não vamos contar para ele.
— Contar o quê?
Uma voz masculina surgiu atrás de nós.
Meu coração quase parou.
Virei imediatamente.
Edward.
Parado a poucos passos.
As mãos nos bolsos da bermuda.
A expressão tranquila de sempre.
Mas havia algo divertido no canto da boca.
Alice sorriu inocentemente.
— Nada.
— Hum.
Edward olhou diretamente para mim.
Mesmo usando óculos escuros...
Eu senti.
Ele estava esperando.
Como se soubesse que o assunto era ele.
— Espero que minha irmã e cunhada não estejam falando mal de mim.
Rosalie respondeu antes que eu pudesse abrir a boca.
— Na verdade... a Bella estava.
Meu rosto queimou na mesma hora.
— Rosalie!
Ela deu de ombros.
— Não menti.
Edward continuou olhando apenas para mim.
— É mesmo?
Engoli em seco.
— Elas exageraram.
— Não responderam à minha pergunta.
Ele deu mais um passo.
Parando ao lado da espreguiçadeira onde eu estava sentada.
A sombra do corpo dele caiu sobre mim.
— O que exatamente você disse a meu respeito?
Levantei os olhos.
O perfume amadeirado chegou primeiro.
Depois a presença dele.
Respirei discretamente.
— Que você...
Hesitei.
Alice claramente segurava o riso.
Rosalie também.
Edward aguardava.
Paciente.
Como fazia sempre.
Suspirei.
— É... um pouco controlador.
O canto da boca dele finalmente se moveu.
— Só um pouco?
Senti vontade de rir.
Mas me controlei.
— Um pouco mais do que isso.
Ele inclinou a cabeça.
— Justo.
Houve um breve silêncio.
Então acrescentou, numa voz baixa o suficiente para que apenas eu ouvisse:
— Ainda assim...Você continua aceitando minhas aulas.
Meu coração acelerou novamente.
Porque aquilo soava muito mais como um desafio do que uma simples observação.
E, pela primeira vez desde que cheguei naquela casa...
Tive a impressão de que Edward Cullen começava, lentamente, a baixar uma guarda que ninguém além de mim parecia perceber existir.
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