Notas iniciais
Meninas, passando para avisar que essa história será construída com calma. Quero mostrar a reconstrução da Bella, ela recuperando sua força, sua confiança e aprendendo a viver novamente. Por isso, o romance com Edward vai acontecer aos poucos, no tempo certo. Mas já adianto: o capítulo 10 será intenso, porque Bella vai finalmente se abrir com Edward e contar detalhes do que viveu. Me contem nos comentários: vocês estão gostando da história? Querem que eu continue? E lembrando: capítulo novo toda sexta-feira à noite! Ainda não tenho um horário exato, mas toda sexta tem continuação. Boa leitura.

POV EDWARD

O sol da tarde refletia sobre a água cristalina da piscina, transformando a superfície em pequenos flashes de luz que incomodariam qualquer um.

Qualquer um, menos eu.

Os óculos escuros escondiam exatamente para onde meus olhos insistiam em voltar.

Bella.

Ela estava sentada na borda da piscina, com os pés dentro da água enquanto conversava com Alice e Rosalie. Usava um biquíni preto simples, sem qualquer intenção de chamar atenção.

O problema era que ela chamava.

Naturalmente.

Sem esforço.

Passei a mão pela nuca, desviando o olhar por alguns segundos para fingir que observava Emmett tentando convencer Jasper a entrar na piscina.

— Você está ficando velho.

— Ou inteligente.

— Medroso.

— Inteligente.

Sorri de canto.

Durou pouco.

Porque meus olhos voltaram.

Droga.

Ela ria de alguma coisa que Alice havia dito.

Era uma risada discreta.

Não alta.

Não exagerada.

Mas verdadeira.

Fazia dias que eu percebia pequenas mudanças nela.

O sorriso aparecia com mais facilidade.

Os ombros já não permaneciam tensos o tempo inteiro.

Ela respirava melhor.

Ainda havia tristeza.

Ainda havia medo.

Mas existia algo novo.

Esperança.

E eu não fazia ideia do motivo daquilo mexer tanto comigo.

Peguei a garrafa de água sobre a mesa.

Quando levantei a cabeça...

Ela estava olhando para mim.

Por um segundo.

Só um.

Acabei me sentando em uma espreguiçadeira próxima.

Perto demais.

Foi completamente involuntário.

Ou pelo menos foi isso que tentei convencer meu cérebro.

Bella apoiava o peso do corpo sobre os braços enquanto movimentava lentamente os pés na água.

Uma brisa levantou alguns fios do cabelo dela.

Ela os colocou atrás da orelha sem sequer perceber.

Meu olhar acompanhou o movimento.

Depois desceu.

Lentamente.

O pescoço.

Os ombros.

Os braços.

A curva da cintura.

Fechei os olhos por um segundo.

Controle-se.

Ela já havia passado por coisas demais.

Era justamente por isso que eu precisava controlar qualquer pensamento que surgisse.

Ela merecia paz.

Não mais alguém invadindo seu espaço.

Ainda assim...

Era impossível ignorar o quanto ela era bonita.

Não uma beleza chamativa.

Era...

Real.

Humana.

Daquelas que prendem a atenção sem pedir licença.

— Edward!

A voz de Alice me arrancou dos pensamentos.

— O quê?

Ela estreitou os olhos.

— Eu estou te chamando faz um tempão.

— Não estava ouvindo.

Emmett soltou uma gargalhada.

— Ah, estava não...

Jasper balançou a cabeça.

— Ele nem piscou.

Carlisle, sentado mais afastado com um livro fechado sobre as pernas, ergueu apenas um canto dos lábios.

— Acho que alguém esqueceu completamente da conversa.

— Que conversa? — perguntei.

Os três riram.

Emmett bateu palmas uma vez.

— Eu falei!

Jasper apontou discretamente na direção de Bella.

— Está babando.

— Nem está tentando esconder.

Carlisle completou com a tranquilidade habitual:

— Edward costuma observar bastante as pessoas... mas hoje está particularmente distraído.

Bufei.

— Vocês terminaram?

— Não.

— Ainda não.

— Estamos só começando.

Ignorei os três.

Era melhor.

Muito melhor.

Porque qualquer resposta serviria apenas para alimentar aquelas provocações.

Bella olhou na nossa direção.

— O que aconteceu?

Emmett abriu um sorriso enorme.

— Nada.

— Meu irmão resolveu apreciar a paisagem.

Bella franziu levemente a testa.

— A paisagem?

— Muito bonita, por sinal.

Ela olhou ao redor, completamente sem entender.

Eu quase agradeci mentalmente pela inocência dela.

Quase.

Ela levantou para pegar uma toalha.

Foi um movimento simples.

Natural.

Mas, quando virou levemente o corpo...

Meu estômago afundou.

Havia uma marca.

Pequena.

Discreta.

Na lateral da costela.

Uma cicatriz.

Branca.

Fina.

Quase invisível.

Quase.

Mas meus olhos encontraram.

O ar ficou preso nos meus pulmões.

Meu cérebro simplesmente parou.

Aquilo...

Aquilo não era uma cicatriz qualquer.

Fiquei olhando durante alguns segundos, completamente imóvel.

Sem perceber que todo o resto ao redor continuava acontecendo.

Minha mandíbula travou.

As mãos fecharam lentamente em punhos sobre os braços da espreguiçadeira.

A cicatriz era pequena.

Mas o significado dela...

Era enorme.

Porque, de repente, tudo aquilo que Bella nunca contava ganhou uma imagem.

Ela nunca descrevia as agressões.

Nunca entrava em detalhes.

Sempre desviava.

Sempre dizia apenas que tinha acabado.

Que estava tentando seguir em frente.

Mas aquela marca...

Era uma lembrança permanente.

Uma lembrança que alguém deixou no corpo dela.

Meu peito queimou.

A vontade que senti naquele instante era irracional.

Violenta.

Se aquele desgraçado estivesse na minha frente...

Não.

Nem cadeia seria suficiente.

Eu faria questão de que ele sentisse, uma por uma, todas as dores físicas que causou nela.

Cada golpe.

Cada hematoma.

Cada cicatriz.

Nada apagaria o que Bella viveu.

Nada.

Mas eu faria questão de mostrar a ele que existem consequências.

Respirei fundo.

Uma vez.

Duas.

Três.

Não adiantou.

A raiva continuava crescendo.

Silenciosa.

Fria.

Controlada.

Exatamente do jeito que eu costumava ser.

Só havia uma diferença.

Pela primeira vez em muitos anos...

Eu queria perder completamente o controle.

A imagem daquela cicatriz não saiu da minha cabeça nem quando deixei a área da piscina.

As risadas de Emmett, as provocações de Alice, a conversa descontraída entre meus pais e meus irmãos... tudo se transformou em um ruído distante.

Eu só conseguia pensar nela.

Na forma como Bella escondia a própria dor.

Na maneira como sempre respondia "estou bem" antes que alguém insistisse em perguntar outra vez.

Eu conhecia aquele tipo de silêncio.

Não porque tivesse vivido algo parecido.

Mas porque já havia visto vítimas suficientes tentando convencer o mundo de que o pior havia ficado para trás.

Nem sempre ficava.

Às vezes, o passado encontrava formas de permanecer.

Uma delas estava gravada na pele de Bella.


Horas depois, já no escritório que meu pai mantinha na mansão, tentei me concentrar em alguns contratos da empresa.

Tentei.

Sem sucesso.

Lia a mesma cláusula pela quinta vez.

Fechei a pasta com um pouco mais de força do que pretendia.

— Está trabalhando ou admirando o papel?

Levantei os olhos.

Emmett entrou primeiro, segurando uma garrafa de água.

Jasper veio logo atrás, carregando uma xícara de café.

— Vocês não têm o que fazer? — perguntei.

— Temos.

— Mas encher a sua paciência sempre aparece na lista de prioridades.

Bufei.

— Que surpresa.

Emmett sentou-se na cadeira à minha frente.

— Você sumiu depois da piscina.

— Trabalho.

Jasper ergueu uma sobrancelha.

— Domingo.

— É verdade.

— Edward... — Emmett cruzou os braços. — Você pode mentir para qualquer pessoa.

Fez uma pausa.

— Para nós, não.

Sustentei seu olhar.

— Não sei do que está falando.

— Sabe, sim.

Jasper apoiou o cotovelo sobre a mesa.

— Você viu alguma coisa.

Meu maxilar enrijeceu.

Silêncio.

Foi suficiente.

Os dois trocaram um olhar rápido.

— Foi a cicatriz... não foi? — Jasper perguntou em voz baixa.

Respirei lentamente.

Demorei alguns segundos antes de responder.

— Foi.

Nenhum dos dois brincou.

Nenhum deles sorriu.

A atmosfera mudou completamente.

— Eu também vi quando ela levantou da espreguiçadeira — Jasper comentou. — Não tinha percebido antes.

Passei a mão pelo rosto.

— Aquilo não sai da minha cabeça.

Emmett respirou fundo.

— Dá vontade de encontrar aquele filho da...

— Dá.

Interrompi antes que ele terminasse.

Minha voz saiu mais fria do que eu imaginava.

— Antes de ele colocar os pés numa prisão...

Os dois voltaram a me encarar.

— Quero que ele sinta cada dor física que fez ela sentir.

O silêncio tomou conta da sala.

— Não vai apagar o que aconteceu.

Continuei olhando para a janela.

— Mas, se depender de mim...

Fechei a mão lentamente.

— Ele nunca mais encosta em mulher nenhuma.

Ninguém respondeu.

Porque não havia nada para responder.

O celular de Emmett começou a vibrar sobre a mesa.

Ele olhou para a tela.

— Falando no diabo...

Jasper inclinou o corpo.

— James?

— Em vídeo.

Emmett aceitou a ligação.

Poucos segundos depois, o rosto conhecido do nosso primo apareceu na tela.

— Finalmente resolveram atender.

— Estamos trabalhando — Emmett respondeu.

— Vocês? Trabalhando? O Edward só se for.

James sorriu.

— Essa eu precisava ouvir.

Apesar da provocação, era impossível negar que ele parecia cansado.

A barba estava um pouco maior do que o normal.

A gravata havia desaparecido.

A camisa social estava com os primeiros botões abertos.

— Onde você está? — perguntei.

— Hotel.

Ele passou a mão pelos cabelos.

— Peguei um caso enorme. Daqueles que vão render meses de audiência. Então resolvi desaparecer por alguns dias antes de mergulhar de cabeça.

— Férias?

— Entre aspas. Ainda vou responder e-mails, mas precisava descansar.

Emmett sorriu.

— Milagre.

James deu de ombros.

— Nem advogado vive só de tribunal.

A conversa seguiu por alguns minutos.

Ele perguntou pelos meus pais.

Por Alice e por Rosalie.

Fez piada dizendo que provavelmente Emmett já havia destruído alguma coisa na mansão.

Emmett respondeu com outra provocação.

Era uma conversa comum.

Leve.

Como tantas outras.

Até que Jasper comentou casualmente:

— Quando voltar, talvez a gente precise conversar sobre um assunto.

James arqueou uma sobrancelha.

— Que assunto?

— Familiar. Nada urgente, mas talvez você possa orientar uma pessoa.

James apoiou o braço na mesa do hotel.

— Quem?

Emmett respondeu antes que Jasper continuasse.

— A Bella.

James franziu levemente a testa.

— Bella...

Pensou por um instante.

— Ah...A amiga da Alice, não é?

Emmet assentiu.

— Isso.

— Na verdade, mal lembro dela, mas se ela precisar de ajuda jurídica...

Sorriu de maneira profissional e da mesma maneira que me incomodava.

Aquele riso que não chegava aos olhos.

— Será um prazer ajudar. O que aconteceu?

Meu corpo inteiro ficou rígido.

James aguardava uma resposta.

Emmett abriu a boca.

Fechei a pasta sobre minha mesa antes que qualquer detalhe fosse dito.

— Ainda não sabemos se ela quer envolver advogado.

Os três olharam para mim.

Continuei:

— Isso diz respeito apenas a ela. Se decidir procurar ajuda, será porque ela quis. Não porque resolvemos falar por ela.

James assentiu imediatamente.

— Justo.

— Então vamos respeitar o tempo dela.

Ele sorriu.

Aquele riso de novo que me incomodava.

— Quando ela quiser, estou à disposição.

— Eu aviso.

Mudei de assunto antes que qualquer outra pergunta surgisse.

— Como está o andamento do caso novo?

Funcionou.

James voltou a falar sobre trabalho.

Alguns minutos depois, aleguei que precisava terminar alguns documentos.

— Depois conversamos com mais calma.

— Tudo bem.

Até mais.

A ligação foi encerrada.

O escritório ficou em silêncio.

Emmett soltou o ar devagar.

— Achei que você fosse deixar eu responder.

Olhei para ele.

— Não.

— Por quê?

A resposta veio sem que eu precisasse pensar.

— Porque a Isabella perdeu o controle da própria vida.

Levantei da cadeira.

— A partir de agora, quem decide cada passo é ela. Inclusive se quer ajuda. Inclusive de quem quer ajuda. Ninguém tinha o direito de tirar isso dela. Nem mesmo nós.

Jasper sorriu discretamente.

— Ela vai gostar de ouvir isso.

Balancei a cabeça.

— Não fiz por reconhecimento.

Olhei novamente pela janela do escritório.

— Fiz porque era o certo.

Mas, no fundo, eu sabia que existia outro motivo.

Desde que Bella havia voltado para nossas vidas...

Tudo o que eu mais queria era que ninguém mais decidisse nada por ela.

Nunca mais.


A mansão estava silenciosa.

Já passava das dez.

Depois do jantar, cada um havia seguido para sua casa ou para o quarto.

Eu fiz o mesmo.

Ou pelo menos tentei.

Estava sentado na poltrona próxima à janela do quarto, uma pasta aberta sobre o colo e um livro esquecido na mesa de centro. Havia lido a mesma página três vezes.

Não fazia ideia do que estava escrito.

A imagem daquela cicatriz insistia em voltar.

Assim como o sorriso dela na piscina.

Assim como a maneira despreocupada com que Bella ria quando Alice dizia alguma bobagem.

Era curioso.

Ela carregava marcas que poucos conheciam.

Mesmo assim...

Ainda encontrava forças para sorrir.

Três batidas leves interromperam meus pensamentos.

Olhei para a porta.

— Entre.

A maçaneta girou devagar.

E, por um segundo, meu cérebro simplesmente esqueceu de funcionar.

Bella.

Ela vestia um short de tecido cinza e uma camiseta branca larga, com uma das mangas caindo levemente sobre o ombro. Os cabelos ainda estavam úmidos do banho e caíam em ondas suaves pelas costas.

Não havia maquiagem.

Nem qualquer intenção de impressionar alguém.

Mesmo assim...

Ela conseguia ser deliciosa.

Engoli em seco antes que ela percebesse eu olhando suas pernas.

Ou talvez ela tivesse percebido.

Porque um pequeno sorriso surgiu no canto da boca dela.

— Está ocupado?

Minha resposta demorou um pouco mais do que deveria.

— ...Não.

Ela levantou uma pasta.

— Vim pedir um favor.

Inclinei a cabeça, esperando que continuasse.

— Terminei de atualizar meu currículo.

Aproximou-se alguns passos.

— Você comentou outro dia que eu deveria tentar ...

Assenti.

Lembrava perfeitamente.

Na verdade, lembrava de cada palavra daquela conversa.

— Então...

Ela deu de ombros.

— Resolvi ouvir seu conselho.

Não consegui esconder a satisfação que senti.

Foi discreta.

Mas estava ali.

— Fez bem.

Ela ergueu uma sobrancelha.

— Isso foi um elogio?

— Não exagere.

Bella sorriu.

— Sabia.

Levantei da poltrona.

— Posso ver?

Ela estendeu a pasta.

Quando nossos dedos se tocaram...

Foi rápido.

Ridiculamente rápido.

Ainda assim, senti.

Ela também.

Porque retirou a mão um pouco mais depressa do que o necessário.

Abri o currículo.

Enquanto lia, Bella permaneceu em silêncio.

Percebi que ela brincava distraidamente com a barra da camiseta.

Um gesto pequeno.

Mas denunciava certo nervosismo.

Li cada linha com atenção.

Ela havia organizado muito melhor as experiências profissionais.

Também adicionara cursos que fez.

Sorri de canto.

— Ficou ótimo.

Ela respirou aliviada.

— Sério?

— Sim.

Levantei os olhos.

— Você ouviu quase tudo o que eu falei.

— Quase?

— Ainda pode melhorar algumas descrições.

Ela cruzou os braços.

— Sabia que sempre existe um "mas" quando se trata de você?

— Existe porque perfeição exige trabalho.

Ela riu baixinho.

— Você é impossível.

— Costumo ouvir isso.

Bella caminhou lentamente pelo quarto enquanto eu continuava analisando o currículo.

Seu perfume passou por mim.

Discreto.

Leve.

O suficiente para me distrair por alguns segundos.

Concentre-se.

Voltei a olhar para o documento.

— As experiências estão boas.

— Obrigada.

— Mas precisamos enviar para empresas que realmente façam sentido.

Ela assentiu.

— Era justamente isso que eu queria pedir.

Levantou o notebook.

— Você pode me ajudar?

Olhei para o aparelho.

A bateria piscava em vermelho.

Sorri de canto.

— Está descarregado.

Bella fez uma careta.

— Esqueci de colocar para carregar.

— Imaginei.

Ela suspirou dramaticamente.

— Então estraguei meu plano.

Fechei a pasta.

— Não.

Ela me olhou sem entender.

— Vamos para o escritório do meu pai.

— Agora?

— Sim.

— Por quê?

Peguei a chave da gaveta onde Carlisle guardava alguns documentos importantes.

— O computador de lá é melhor.

Ela riu.

— Você tem um computador excelente aqui.

— Tenho.

— Então?

Olhei para o notebook desligado sobre minha mesa.

— Gosto mais do computador do escritório.

Bella estreitou os olhos.

— Essa desculpa foi horrível.

Não respondi.

Porque ela tinha razão.

Meu notebook estava funcionando perfeitamente.

Mas eu não tinha a menor intenção de passar as próximas horas sozinho com Bella dentro do meu quarto.

Mesmo que não houvesse absolutamente nada de errado nisso.

Mesmo que a casa estivesse cheia.

Eu preferia evitar qualquer situação que pudesse deixá-la desconfortável.

Ou que me fizesse esquecer completamente do autocontrole.

Bella continuava me olhando.

Como se esperasse que eu admitisse a verdade.

— Você não gosta de ficar sozinho comigo no seu quarto? Eu não estou pensando mal de você.

A pergunta saiu em tom leve.

Quase brincando.

Mas acertou em cheio.

Meu medo era outro. Perder o controle.

Cruzei os braços.

— Não coloque palavras na minha boca.

— Então é isso?

— Não.

Ela sorriu, claramente divertida.

— Tem certeza?

Aproximei-me apenas o suficiente para pegar a pasta das mãos dela outra vez.

— Tenho certeza de que o escritório possui uma cadeira muito mais confortável.

Bella soltou uma risada.

— Nossa...

— O quê?

— Você consegue inventar justificativas cada vez piores.

Ignorei o comentário.

Abri a porta do quarto.

— Vamos?

Ela permaneceu parada por um instante.

Depois caminhou até mim.

Quando passou ao meu lado...

Seu braço roçou levemente no meu.

Sem querer.

Ou talvez não.

Meu corpo inteiro enrijeceu.

Ela também pareceu notar.

Porque ergueu os olhos para mim.

Havia algo diferente naquele olhar.

Não era provocação.

Também não era timidez.

Era curiosidade.

Como se estivesse tentando entender por que eu permanecia sempre tão distante...

Ao mesmo tempo em que nunca parecia realmente querer me afastar.

— Edward...

Sua voz saiu baixa.

— Hum?

Ela sorriu daquele jeito discreto que vinha se tornando cada vez mais frequente.

— Obrigada.

Franzi a testa.

— Pelo currículo?

Ela balançou a cabeça negativamente.

— Por acreditar que eu consigo recomeçar.

Por alguns segundos...

Não encontrei resposta.

Porque aquela frase carregava um peso muito maior do que ela provavelmente imaginava.

Fechei a porta do quarto atrás de nós.

E comecei a caminhar pelo corredor.

Bella seguiu ao meu lado.

Em silêncio.

Um silêncio confortável.

Mas, pela primeira vez desde que ela havia voltado para nossas vidas...

Não era a raiva do homem que a machucou que ocupava meus pensamentos.

Era a mulher que caminhava ao meu lado.

E isso, definitivamente, era muito mais perigoso do que eu gostaria de admitir.

Seguimos para o escritório do meu pai em silêncio.

Não aquele silêncio incômodo que obrigava alguém a dizer qualquer coisa apenas para preencher o vazio.

Era diferente.

Bella caminhava ao meu lado com uma tranquilidade que eu não via nela desde que chegara a Nova York. Às vezes, desviava os olhos para os quadros espalhados pelo corredor; outras, brincava distraidamente com a barra da própria camiseta.

Quando chegamos a porta do escritório ela disse:

— Acho que todos já dormiram.

Assenti.

— Meu pai costuma ficar até mais tarde no escritório, mas hoje saiu cedo.

— Melhor para nós.

Ergui uma sobrancelha.

— "Para nós"?

Ela sorriu, percebendo o que tinha dito.

— Para mim.

Fez uma pausa proposital.

— Você já estava incluído no pacote.

— Que honra.

— Não se acostume.

Abri a porta do escritório de Carlisle.

O ambiente era exatamente como eu esperava.

Organizado.

A estante ocupava praticamente uma parede inteira, repleta de livros de medicina, direito, administração e história. Sobre a mesa de madeira escura, apenas um porta-retratos da família, um abajur e o computador.

Bella entrou devagar.

Passou os olhos pelo cômodo.

— Seu pai realmente gosta de ordem.

— Muito.

— Agora entendi de onde você puxou.

Olhei para ela.

— Está dizendo que sou organizado?

Ela soltou uma risada.

— Não. Estou dizendo que você deve alinhar até os pensamentos. E é metódico.

Cruzei os braços.

— E você chegou a essa conclusão...

— Observando.

A palavra saiu tão naturalmente que me fez sorrir por dentro.

Ela estava observando.

Assim como eu.

Liguei o computador.

Enquanto o sistema iniciava, Bella puxou uma cadeira para o meu lado.

Muito perto.

Perto o suficiente para que eu percebesse o perfume suave que ela usava depois do banho.

Ela também pareceu notar a proximidade.

Mas, ao contrário do que imaginei, não se afastou.

— Posso?

Perguntou, apontando para o teclado.

Afastei a cadeira alguns centímetros.

— Claro.

Ela abriu o e-mail e fez login.

— Nunca imaginei que atualizar um currículo fosse dar tanto trabalho.

— Dar trabalho não é o problema.

— Qual é?

— Encontrar um lugar que mereça você.

Bella virou o rosto lentamente na minha direção.

Fiquei imediatamente arrependido da frase.

Era direta demais.

Ela me encarava em silêncio.

— Você acabou de me elogiar outra vez.

Desviei o olhar para a tela.

— Fiz uma observação.

— Ah...

Ela sorriu.

— Então você observa bastante.

Respirei fundo.

— Esse assunto de novo?

— É divertido.

— Para você.

— Muito.

Balancei a cabeça negativamente.

Bella tinha uma capacidade impressionante de provocar sem parecer ofensiva.

Ela fazia isso sorrindo.

E, pior...

Eu nunca conseguia pensar numa resposta boa o suficiente.

Passamos quase meia hora revisando o currículo.

Corrigi pequenos detalhes.

Troquei algumas palavras.

Expliquei quais empresas poderiam oferecer melhores oportunidades.

Ela escutava tudo com atenção.

Fazia perguntas.

Anotava sugestões.

E, quanto mais falávamos sobre trabalho, mais eu percebia uma mudança nela.

Os olhos brilhavam.

Havia entusiasmo.

Algo que não existia dias atrás.

— Você gosta disso, não gosta?

Perguntei.

Ela ergueu a cabeça.

— Do quê?

— Planejar o futuro.

Bella ficou alguns segundos em silêncio.

Depois sorriu.

— Acho que... estou aprendendo a gostar de novo.

Baixou os olhos para as próprias mãos.

— Faz muito tempo que eu não planejava nada.

A frase foi dita tão baixo que quase passou despercebida.

Meu peito apertou.

Ela continuou:

— Antes...Eu só pensava em passar pelo dia. Nada além disso.

Levantei a mão instintivamente.

Quase toquei a dela.

Quase.

Parei no meio do caminho.

Ela percebeu.

Nossos olhos se encontraram.

Por um segundo, nenhum dos dois falou.

Havia alguma coisa ali.

Uma vontade silenciosa de diminuir a distância.

Mas eu conhecia os limites.

Bella precisava sentir que estava no controle.

Sempre.

Então apenas puxei a pasta do currículo para mais perto.

— Vamos escolher as empresas.

Ela piscou algumas vezes, como se também estivesse voltando à realidade.

— Certo.

Uma hora depois, o currículo já havia sido enviado para cinco empresas.

Bella soltou o ar com força e recostou na cadeira.

— Acabou.

— Por enquanto.

Ela fez uma careta.

— Você sempre estraga o momento.

— Sou realista.

— Chato.

— Organizado.

— Mandão.

— Objetivo.

Ela riu.

— Convencido.

— E você fala demais.

Bella fingiu indignação.

— Isso foi ofensivo.

— Foi verdadeiro.

Ela estreitou os olhos.

— Você provoca muito melhor do que deixa transparecer.

Sorri de canto.

— Talvez você apenas tenha começado a prestar mais atenção.

Assim que terminei a frase, percebi o que tinha dito.

Ela também.

O sorriso divertido desapareceu lentamente.

Não por desconforto.

Mas porque alguma coisa mudou entre nós.

O silêncio voltou.

Dessa vez, diferente.

Mais intenso.

Bella me olhava como se tentasse decifrar um quebra-cabeça.

— Posso te fazer uma pergunta?

Assenti.

— Você sempre foi assim?

— Assim como?

— Difícil de ler.

Soltei uma breve risada pelo nariz.

— Sempre.

— Não acredito.

— Pergunte para Alice.

Ela riu.

— Ela já respondeu.

— E o que disse?

Bella inclinou levemente a cabeça.

— Que você fala pouco...

Fez uma pausa.

— Mas quando se importa com alguém, demonstra de um jeito que quase ninguém percebe.

Senti o maxilar enrijecer.

Alice.

Aquilo tinha a assinatura dela.

— Ela fala demais.

— Concordo.

Bella sorriu.

— Mas acho que, dessa vez...Ela estava certa.

Sustentei o olhar dela por alguns segundos.

Mais do que deveria.

A luz amarelada do abajur deixava alguns fios do cabelo castanho iluminados, enquanto os olhos dela permaneciam presos aos meus, sem qualquer intenção de fugir.

Caralho. Ela é perfeita.

Meu coração bateu uma vez mais forte.

Depois outra.

E outra.

Pela primeira vez em muito tempo...

Eu não fazia ideia do que dizer.

Nem precisava.

Porque o silêncio entre nós dizia muito mais do que qualquer palavra seria capaz.