Notas iniciais
Boa noite! Espero que gostem.

POV EDWARD

O som das luvas acertando o saco de pancadas preenchia a academia numa cadência quase hipnótica.

Era um daqueles poucos lugares onde minha cabeça finalmente desacelerava. Não importava quantos problemas aparecessem durante o dia; bastavam alguns rounds para tudo parecer menos caótico.

Pelo menos, normalmente era assim.

— Então... — Emmett tirou uma das luvas com os dentes antes de jogá-la sobre o banco. — Vocês já conversaram com ela sobre o James?

Revirei os olhos antes mesmo de responder.

Jasper bebeu um gole de água.

— Eu pensei nisso também. Se ela realmente foi agredida, talvez fosse bom ter um advogado acompanhando tudo.

Meu maxilar travou.

— Isso não é uma decisão nossa.

Os dois me olharam.

— Não estou dizendo que vamos obrigá-la — Jasper respondeu com calma. — Só acho que ela deveria saber que tem alguém da família que pode orientar.

— Ela sabe que pode pedir ajuda.

— Sabe?

Cruzei os braços.

— Alice deixou isso bem claro quando Isabella chegou.

Emmett apoiou os cotovelos nos joelhos.

— Mesmo assim... James é bom no que faz.

Respirei fundo.

Toda vez que aquele nome surgia, eu sentia a mesma irritação.

Não porque James fosse incompetente.

Muito pelo contrário.

Era exatamente o tipo de advogado que ganhava casos.

O problema era a maneira como fazia isso.

Sempre confiante demais.

Sempre convencido demais.

Sempre parecendo acreditar que entendia melhor a vida dos outros do que eles próprios.

— Edward...

Levantei os olhos para Jasper.

— Você nunca gostou dele.

— Não misture as coisas.

— Estou misturando?

Emmett soltou uma risada.

— Desde adolescentes vocês parecem disputar quem respira melhor.

— Não disputamos nada.

— Claro que não.

Ele sorriu daquele jeito provocador que só ele conseguia sustentar sem apanhar.

— Você só implica com tudo que o James faz.

— Eu implico quando ele passa dos limites.

— E quando ele passou dos limites da última vez?

Pensei por alguns segundos.

Não encontrei resposta.

Emmett sorriu mais ainda.

— Viu?

Ignorei.

— O ponto não é esse.

Passei a toalha na nuca.

— Isabella já perdeu o controle da própria vida uma vez.

Os dois ficaram em silêncio.

— Se ela decidir procurar um advogado, ótimo.

— Se quiser denunciar alguém, ótimo.

— Se quiser esquecer tudo, também é um direito dela.

Olhei primeiro para Jasper.

Depois para Emmett.

— Mas essa escolha precisa ser dela .Não nossa.

O silêncio que veio depois foi suficiente para encerrar o assunto.

Ou quase.

— Você está diferente.

Olhei para Emmett.

— Diferente como?

— Defendendo muito a Bella.

Dei uma risada curta.

— Defender o direito de alguém decidir sobre a própria vida agora virou crime?

— Não.

Ele deu de ombros.

— Só achei curioso.

Peguei minha mochila.

— Curioso é você prestar atenção nisso.


Quando estacionei na casa dos meus pais, o sol já começava a desaparecer atrás das árvores.

Ainda era estranho voltar para aquela garagem todos os dias.

Minha casa estava um caos por causa da reforma, e Esme praticamente me obrigou a ficar ali.

"Vai economizar tempo."

"Vai comer direito."

"Vai deixar de viver cercado de poeira."

Ela tinha razão.

O que ela provavelmente não imaginava era que dividir a casa com Bella tornaria aquele período... diferente.

Entrei tentando fazer o mínimo de barulho possível.

O aroma de café recém passado vinha da cozinha.

Sorri sem perceber.

Esme.

Só podia ser ela.

Mas, quando entrei, encontrei outra pessoa.

Bella.

Ela estava encostada na bancada, usando uma caneca entre as mãos enquanto observava distraidamente a chuva fina do lado de fora.

O cabelo ainda estava preso de qualquer jeito.

Algumas mechas escapavam perto do rosto.

Ela parecia tão concentrada nos próprios pensamentos que nem percebeu minha presença.

Por algum motivo, não tive vontade de interromper aquele momento.

Fiquei apenas observando.

Havia algo curioso nela.

Quando estava cercada de pessoas, parecia sempre pronta para recuar.

Mas, sozinha...

Era diferente.

Os ombros relaxavam.

A expressão ficava mais leve.

Como se, por alguns minutos, ela pudesse esquecer que precisava estar em alerta.

— Vai continuar aí ou pretende entrar?

A voz dela me fez prender um sorriso.

Ela nem sequer havia olhado para trás.

— Como soube que era eu?

Bella virou devagar.

— Você anda silencioso demais.

Ergui uma sobrancelha.

— Isso foi um elogio?

— Ainda estou decidindo.

Aproximei-me da cafeteira.

— E qual é o veredito?

Ela fingiu pensar.

— Depende do dia.

Servi café.

— Justo.

O silêncio que se instalou não era desconfortável.

Pelo contrário.

Percebi que, nos últimos dias, aquilo tinha se tornado comum entre nós.

Conversávamos.

Provocávamo-nos.

Depois ficávamos alguns minutos em silêncio.

Sem pressa de preencher o espaço.

— Você acabou de chegar?

Assenti.

— Academia.

Ela olhou automaticamente para a mochila no chão.

Então me lembrei.

Dias antes, durante o almoço , ela havia comentado quase sem querer:

"Queria aprender alguma luta."

"Não para bater em ninguém."

"Só... para confiar mais em mim."

Na hora, ninguém insistiu.

Mas eu não esqueci.

Olhei para ela.

— Ainda quer conhecer uma academia de luta?

Bella ergueu os olhos.

— O quê?

— Você comentou outro dia.

Apoiei uma mão na bancada.

— Sobre fazer alguma luta.

Ela pareceu surpresa por eu lembrar.

— Eu...

Hesitou.

— Quero.

Sorri de lado.

— Então vou te levar em uma que o Jasper recomendou aquele dia.

Ela me estudou por alguns segundos.

Como se tentasse descobrir se havia alguma outra intenção.

Não havia.

Ou, pelo menos, era isso que eu dizia para mim mesmo.

— Hoje?

— Se estiver disposta.

Bella olhou pela janela.

Depois para a caneca.

Por fim, para mim.

— Você não se importa?

Quase ri.

— Fui eu quem convidou.

Ela respirou fundo.

Um sorriso pequeno surgiu no canto da boca.

Não era um sorriso largo.

Era daqueles que pareciam nascer sem que a pessoa percebesse.

— Então... eu aceito.

E, por alguma razão que eu preferia não analisar naquele momento, a simples resposta dela fez o restante do meu dia parecer consideravelmente melhor.

Bella apareceu na sala poucos minutos depois.

Levantei os olhos automaticamente.

E permaneci olhando por mais tempo do que deveria.

Ela havia trocado de roupa. Jeans escuro, uma camiseta preta de mangas compridas e um tênis branco. Simples.

Muito simples.

Ainda assim...

Ela conseguia chamar atenção sem fazer absolutamente nenhum esforço.

O cabelo, preso em um rabo de cavalo alto, deixava o pescoço à mostra.

Era curioso como eu vinha reparando em detalhes que jamais notei em qualquer outra mulher.

A forma como algumas mechas insistiam em escapar perto das orelhas.

A pequena pinta próxima ao maxilar.

As mãos delicadas segurando o elástico do cabelo por um segundo a mais antes de soltá-lo.

— Eu demorei?

A voz dela me trouxe de volta.

— Não.

Peguei a chave do carro sobre o aparador.

— Vamos?

Ela apenas assentiu.

Durante o caminho, Bella permaneceu olhando pela janela.

A cidade começava a ganhar as luzes da noite.

Eu dirigia.

Ela observava.

O silêncio entre nós não era desconfortável.

Na verdade...

Começava a ser familiar.

Quando ela entrou no carro, o perfume dela ocupou o espaço quase imediatamente.

Era discreto.

Nada doce demais.

Nada marcante ao ponto de incomodar.

Tinha alguma coisa de baunilha misturada ao cheiro limpo do shampoo.

Eu não fazia ideia de qual perfume era.

Só sabia que já estava começando a associar aquele aroma exclusivamente a ela.

Desde que Bella passou a morar na casa dos meus pais, eu percebia sua presença antes mesmo de vê-la.

Na cozinha.

Na biblioteca.

No corredor do andar de cima.

Aquele perfume sempre parecia permanecer alguns segundos depois que ela ia embora.

Nunca tinha prestado atenção nisso antes.

Com ninguém.

— Você está muito quieto.

Olhei rapidamente para ela.

— Achei que estivesse gostando do silêncio.

Ela sorriu sem desviar os olhos da janela.

— Estou.

— Então por que comentou?

Ela finalmente virou o rosto.

— Porque achei que você costumava falar um pouco mais quando está dirigindo. Já que quase não fala.

— Eu não falo?

— Menos do que imagina.

Sorri de lado.

— Você anda me observando demais.

Ela arqueou uma sobrancelha.

— Engraçado...

Esperou alguns segundos antes de completar.

— Eu ia dizer exatamente a mesma coisa.

Acabei rindo.

Baixo.

Ela percebeu.

— Você riu.

— Achei interessante.

— O quê?

— Você está começando a responder às minhas provocações.

Bella cruzou os braços.

— Talvez eu esteja aprendendo.

— Comigo?

Ela inclinou levemente a cabeça.

— Não acho que você seja um bom exemplo.

— Isso foi uma ofensa.

— Foi um comentário.

— Cruel.

Ela deu de ombros.

— Você sobrevive.

Olhei para ela por um instante.

Bella sustentou meu olhar.

Nenhum dos dois desviou imediatamente.

Era estranho.

Ela tinha olhos que pareciam sempre esconder alguma coisa.

Tristeza.

Cansaço.

Ou talvez apenas lembranças que ainda não encontravam espaço para existir em voz alta.

Desviei a atenção para a estrada.

Porque, se continuasse olhando, provavelmente perderia a entrada da academia.


Assim que estacionamos, desci primeiro.

Esperei Bella dar a volta no carro.

Ela observava o prédio com curiosidade.

— É maior do que eu imaginava.

— Jasper e Emmet adora esse lugar.

Ela sorriu.

— E você?

— Eu tenho o preferencia em outra academia. Geralmente eu uso pouco, já que na minha casa tem uma academia e lá tem equipamentos que preciso para um treino de luta. Por enquanto vou em outra.

Ela riu.

Gostei daquele som.

Mais do que deveria.

Entramos.

A recepção estava movimentada.

Algumas pessoas treinavam.

Outras conversavam perto do tatame.

Bella olhava tudo atentamente.

Não parecia assustada.

Parecia...

Interessada.

— Edward , certo?

Virei ao ouvir meu nome.

Rafael caminhava em nossa direção.

Alto.

Boa postura.

Talvez um ano mais novo que eu.

Professor de luta que Jasper comentou.

Competente.

Os alunos gostavam dele. As alunas principalmente.

— Achei que não veria você aqui. Jasper e Emmet falaram que um dia traria você aqui.

Apertamos as mãos.

— Resolvi aparecer.

Seus olhos passaram para Bella.

Ele sorriu com educação.

— Então essa deve ser a Bella? Jasper comentou algo.

Ela estendeu a mão.

— Prazer.

— Rafael.

O aperto de mãos demorou exatamente o tempo que um aperto de mãos deveria durar.

Nada além disso.

Mesmo assim...

Não gostei.

Ridículo.

Eu sabia.

— Jasper comentou que você pensa em começar a treinar.

Olhei imediatamente para Rafael.

Bella assentiu.

— Quero aprender defesa pessoal.

A expressão dele mudou.

Ficou mais séria.

— Excelente motivo.

Ela sorriu.

— Espero não ser uma aluna muito ruim.

— Isso depende mais da sua disciplina do que da sua força.

— Então tenho alguma chance.

Rafael riu.

Observei Bella rir também.

Meu maxilar enrijeceu.

Por quê?

Nem eu sabia responder.

Era uma conversa absolutamente normal.

Rafael era educado.

Respeitoso.

Profissional.

Ainda assim...

Havia alguma coisa que me incomodava.

Talvez fosse a facilidade com que ele falava com ela.

Ou talvez fosse simplesmente o fato de ela sorrir para ele.

A conclusão era igualmente absurda.

Bella não era minha.

Nunca deu qualquer motivo para que eu pensasse diferente. Na adolescência não conta quando ela me pediu um beijo. Ela só era uma menina que eu jamais faria algo.

Então por que aquilo parecia... errado?

— Quer conhecer o tatame?

A voz de Rafael interrompeu meus pensamentos.

Bella olhou para mim antes de responder.

Como se, inconscientemente, esperasse minha reação.

Assenti.

— Vai.

Ela caminhou ao lado dele.

Fiquei alguns passos atrás.

Observando.

Rafael explicava como funcionavam as aulas.

Bella fazia perguntas.

Prestava atenção em tudo.

Ela parecia genuinamente interessada.

Sorriu outra vez.

Meu olhar permaneceu nela.

Sempre nela.

Ela era bonita.

Isso já era evidente desde muito antes de voltar para Nova York.

Mas havia algo diferente agora.

Talvez porque eu passasse tempo suficiente perto dela para perceber coisas que ninguém mais notava.

A maneira como ela escutava com atenção quando alguém falava.

Como franzia discretamente a testa quando tentava entender alguma coisa.

Como mexia na barra da própria camiseta sempre que ficava um pouco nervosa.

Era impossível não olhar.

E, pela primeira vez em muito tempo, eu simplesmente parei de lutar contra isso.

Porque a verdade era simples.

Eu gostava de olhar para Bella.

Gostava mais do que deveria.

E isso começava a se tornar um problema.

Bella era melhor do que imaginava.

Essa foi a primeira coisa que pensei depois de alguns minutos observando Rafael explicar os movimentos básicos.

Ela não tinha experiência.

Isso era óbvio.

Seus movimentos ainda eram inseguros, ela pensava demais antes de agir e hesitava quando precisava confiar no próprio corpo.

Mas havia determinação.

E isso chamava minha atenção.

Ela errava um movimento, franzia a testa, tentava novamente.

Sem reclamar.

Sem desistir.

— Você aprende rápido.

Rafael comentou.

Bella soltou uma pequena risada.

— Acho que você está sendo gentil.

— Não estou.

Ele respondeu.

— A maioria das pessoas tenta compensar a insegurança usando força. Você está tentando entender o movimento.

Observei a expressão dela mudar.

Era sutil.

Mas eu percebi.

Bella gostava de ouvir aquilo.

Não o elogio em si.

A ideia de que alguém enxergava esforço nela.

— Talvez eu só esteja tentando não passar vergonha.

Ela brincou.

Rafael sorriu.

— Isso também ajuda.

Revirei os olhos discretamente.

Ela percebeu.

Claro que percebeu.

Bella tinha desenvolvido uma habilidade irritante de notar minhas reações.

— Algum problema?

Olhei para ela.

— Nenhum.

— Você fez aquela cara.

— Que cara?

Ela apontou para mim.

— Essa.

— Não sabia que eu tinha uma cara específica para quando algo me incomoda.

— Tem.

Ela se aproximou um pouco.

— Você faz quando acha que alguém está falando demais.

— Talvez porque algumas pessoas realmente falem demais.

Ela cruzou os braços.

— Você acabou de provar meu ponto.

Segurei um sorriso.

Era esse tipo de coisa que estava acontecendo entre nós.

Pequenas disputas.

Pequenas provocações.

Nada infantil.

Nada forçado.

Apenas duas pessoas tentando entender até onde podiam ir uma com a outra.

E eu gostava disso.

Gostava do fato de Bella não aceitar tudo que eu dizia.

Ela me desafiava.

De uma forma que poucas pessoas faziam.

Depois de mais alguns minutos, Rafael pediu que Bella descansasse um pouco enquanto ele organizava alguns equipamentos.

Ela sentou no banco próximo ao tatame.

Eu fui até ela.

— E então?

Ela olhou para mim.

— E então o quê?

— Ainda acha que quer fazer isso?

Bella olhou ao redor.

Depois para as próprias mãos.

— Acho.

Havia uma pequena hesitação.

— Na verdade... acho que preciso.

Aquela palavra chamou minha atenção.

Preciso.

Não apenas quero.

— Por quê?

Ela ficou em silêncio.

Por alguns segundos, pensei que não responderia.

Mas então ela deu de ombros.

— Quero me sentir mais segura.

A resposta era simples.

Mas eu sabia que não era.

Não completamente.

Porque eu conhecia o suficiente da história dela para saber que aquilo não era apenas sobre aprender uma técnica.

Era sobre recuperar alguma coisa.

Alguma coisa que alguém tinha tirado dela.

Senti a raiva surgir.

Não contra Bella.

Nunca contra ela.

Contra um homem cujo rosto eu sequer conhecia.

Era estranho sentir tanto ódio por alguém que eu nunca tinha visto.

Mas toda vez que eu lembrava que alguém tinha colocado as mãos nela...

Minha primeira reação era imaginar minhas próprias mãos fechadas ao redor da garganta daquele sujeito.

Eu odiava esse pensamento.

Porque não combinava comigo.

Eu não era impulsivo.

Não era violento.

Mas quando se tratava dela...

Parecia que todas as minhas certezas ficavam menos sólidas.

— Edward?

A voz dela me trouxe de volta.

— Desculpa.

Ela me observava.

— Você ficou longe por alguns segundos.

Forcei uma expressão neutra.

— Acontece.

Ela me analisou.

Como sempre fazia.

Mas não insistiu.

E eu agradeci por isso.

Aconteceu alguns minutos depois.

Rafael estava explicando uma posição para Bella quando quatro homens entraram na academia.

Eu conhecia alguns deles de vista.

Alunos.

Conversavam entre si.

Riam.

Nada fora do normal.

Eles não estavam olhando para Bella.

Não estavam tentando chamar atenção.

Não fizeram nada errado.

Mas eu percebi a mudança nela antes mesmo de entender o motivo.

Bella ficou imóvel.

Foi uma mudança quase imperceptível.

Mas eu estava observando.

Sempre observava.

Seus ombros ficaram rígidos.

A respiração diminuiu.

Os dedos apertaram o tecido da camiseta.

O rosto perdeu um pouco da cor.

— Isabella?

Ela não respondeu.

Seus olhos estavam presos nos homens.

Mas parecia que ela não estava realmente vendo eles.

Como se estivesse olhando para alguma coisa muito distante.

Meu corpo reagiu antes da minha mente.

Fui até ela.

— Ei... fale comigo.

Dessa vez, mais firme.

Ela piscou.

Como se voltasse ao presente.

Olhou para mim.

E naquele segundo eu vi.

Medo.

Não um medo comum.

Não desconforto.

Medo de verdade.

Aquele tipo que não nasce do momento.

Nasce de uma lembrança.

Posicionei-me discretamente um pouco à frente dela.

Não para protegê-la deles.

Eles não eram uma ameaça.

Mas porque eu precisava que ela lembrasse onde estava.

Que estava segura.

— Quer sair um pouco?

Minha voz saiu mais baixa do que pretendia.

Ela demorou alguns segundos para responder.

Então assentiu.

— Sim.

Não perguntei nada.

Não ali.

Não na frente de ninguém.

Levei Bella para a área externa da academia.

O ar frio da noite parecia ajudar.

Ela respirou fundo algumas vezes.

Fiquei ao lado dela.

Sem tocar.

Eu queria.

Mais do que deveria.

Mas não faria isso sem saber se ela queria.

Depois de alguns minutos, ela falou:

— Desculpa.

Franzi a testa.

— Pelo quê?

Ela olhou para o chão.

— Por isso.

— Isabella.

Ela levantou os olhos.

— Você não precisa pedir desculpas por uma reação sua.

Ela ficou em silêncio.

E eu pensei em quantas vezes alguém deve ter feito ela acreditar que suas próprias reações eram um problema.

A ideia me deixou furioso.

Mas mantive a calma.

— Posso perguntar uma coisa?

Ela hesitou.

— Pode.

Olhei para ela.

— Você quer falar sobre o que aconteceu?

O silêncio entre nós foi longo.

Eu não pressionei.

Não desviaria o olhar.

Mas também não faria ela sentir que precisava me dar uma resposta.

Finalmente, ela respirou fundo.

— Ainda não.

Assenti imediatamente.

— Tudo bem.

Ela pareceu surpresa.

— Você não vai perguntar por quê?

— Não.

— Por que não?

Olhei para ela.

— Porque você acabou de me responder.

Ela ficou quieta.

Então sorriu de leve.

Um sorriso triste.

— Eu confio em você.

A frase me atingiu de uma maneira que eu não esperava.

Ela continuou:

— Só não estou pronta para contar tudo.

Engoli em seco.

— Eu entendo.

— Um dia...

Ela parou.

Respirou.

— Um dia talvez eu consiga contar detalhes.

Eu não sabia exatamente por que aquelas palavras significaram tanto.

Talvez porque eu soubesse o peso daquilo.

Bella não estava me prometendo contar.

Ela estava me dizendo que acreditava que um dia se sentiria segura o suficiente para fazer isso.

E, naquele momento, aquilo era mais importante.

— Quando esse dia chegar...

Minha voz saiu baixa.

— Eu vou ouvir.

Ela sustentou meu olhar.

E pela primeira vez desde que a conheci, eu tive a sensação de que Bella não estava apenas me tolerando.

Ela estava deixando que eu ficasse.

E eu sabia que isso era algo que eu não deveria tratar como pouco.

Porque alguém tinha quebrado a confiança dela.

E, por alguma razão que eu ainda não entendia completamente...

Eu queria ser a pessoa que mostraria que ela poderia confiar novamente.

Ficamos mais alguns minutos do lado de fora antes de voltar para dentro.

Bella parecia melhor.

Ainda havia uma tensão discreta em sua postura, mas ela já não parecia presa naquele momento que a tinha assustado.

E eu estava aliviado por isso.

Quando entramos novamente, Rafael nos encontrou perto da saída.

— Então, Bella? O que achou?

Ela olhou uma última vez para o tatame.

— Eu gostei.

Um sorriso pequeno apareceu em seu rosto.

— Mais do que eu esperava.

— Isso é bom.

Rafael assentiu.

— Você seria bem-vinda nas aulas.

Claro. Ele parecia dentista. Só ficava sorrindo para ela.

Bella agradeceu, mas não respondeu de imediato.

Eu percebi.

Ela ainda estava pensando.

Já no carro eu a observei mais do que deveria.

— Vai querer fazer as aulas?

Perguntei.

— Não sei. Eu tenho que ver minhas economias.

— Sabe que dinheiro não é problema.

— Edward...

— Não estou dizendo isso porque acho que você não consegue pagar.

Interrompi antes que ela interpretasse errado.

— Estou dizendo que, se o motivo para você não fazer algo que quer é esse, então existe outra solução.

Ela ficou em silêncio.

— Eu posso te ensinar.

Bella me encarou.

— Você faria isso?

Assenti.

— Sim.

Ela pareceu surpresa.

— De graça?

Quase sorri.

— Sim, Isabella. De graça.

Ela desviou o olhar, como se ainda estivesse tentando entender.

— Eu não quero abusar da sua boa vontade.

— Você não está.

Minha resposta saiu mais rápida do que eu pretendia.

Ela voltou a olhar para mim.

Eu mantive a expressão calma.

— Você não está me pedindo nada absurdo.

Ela ficou alguns segundos em silêncio.

Então perguntou:

— Na sua casa?

A pergunta deveria ser simples.

Mas não foi.

Porque, de repente, imaginei Bella naquele espaço.

Na minha academia.

No meu lugar.

Treinando comigo.

E a imagem veio fácil demais.

Fácil o suficiente para eu precisar me lembrar de manter meus pensamentos no lugar.

Ela era a amiga da minha irmã. A melhor amiga.

Uma pessoa que estava tentando reconstruir a própria vida.

Alguém que confiava em mim.

Era só isso.

Nada além disso.

— Sim.

Respondi.

— Lá.

Ela sorriu de leve.

— Alice comentou que depois da reforma vai ficar ainda maior a sua academia.

— Vai. A reforma da minha casa não deve demorar mais. Mas se quiser por enquanto levo você na academia que eu frequento. Lá eu tenho uma sala individual e já posso ir te treinando.

Eu percebi que o problema dela é muita gente.

Talvez homens demais num lugar fechado.

Não tinha certeza, mas é o que pareceu.

— Então acho que seria melhor. Eu prefiro lugar com menos pessoas.

Ela fez uma pausa.

— Mas quando eu me senti melhor posso ir para a academia do Rafael.

Assenti.

— Quando você quiser e quando minha casa estiver pronta, podemos treinar lá.

E eu quis acreditar que estava falando apenas sobre treino.

Mas a verdade era que, pela primeira vez em muito tempo, a ideia de dividir um espaço que sempre foi meu com outra pessoa não parecia uma invasão.

Parecia algo que eu queria.

O que era, por si só, um problema.

Porque eu nunca levei uma mulher para lá.

Nunca quis.

E agora eu estava imaginando Bella naquele lugar como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Tentei ignorar.

Ela era apenas Bella.

A amiga da minha irmã. E mais nova dez anos que eu. Apesar de hoje ser uma mulher de vinte e três anos.

Nada mais.

Pelo menos era isso que eu ainda tentava convencer a mim mesmo.