POV BELLA

Meu nome é Isabella Swan.

Mas quase ninguém me chama assim.

Sempre fui Bella.

Tenho vinte e três anos, sou formada em Economia e, há exatamente doze horas, deixei para trás tudo o que conhecia.

Ou, pelo menos, tudo o que conhecia nos últimos oito anos.

Porque, antes de Oklahoma, existiu Nova York.

Foi aqui que passei toda a minha infância.

Até os quinze anos, essa cidade foi meu lar. Foi aqui que conheci Alice, minha melhor amiga desde os sete anos. Foi aqui que passei tardes correndo pelos parques, descobrindo cafeterias escondidas com ela e sonhando com o futuro como qualquer adolescente.

Depois da separação dos meus pais, minha mãe decidiu voltar para Oklahoma, onde nossa família morava. Eu fui com ela.

Na época, achei que aquela mudança era o maior desafio que enfrentaria.

Hoje percebo o quanto eu estava errada.

Agora estou voltando.

Não porque senti saudade dos arranha-céus ou do ritmo acelerado da cidade.

Voltei porque precisava de um lugar onde pudesse reconstruir minha vida.

Porque Alice insistiu que eu não precisava enfrentar tudo sozinha.

Porque, depois de tudo o que aconteceu, Oklahoma deixou de ser um lar.

Encosto a testa na janela do táxi enquanto observo a cidade passar diante dos meus olhos.

Algumas ruas continuam exatamente como eu lembrava.

Outras mudaram completamente.

Lojas desapareceram.

Prédios novos surgiram.

É estranho perceber que uma cidade pode continuar a mesma e, ao mesmo tempo, parecer completamente diferente.

Talvez seja porque quem mudou fui eu.

A garota que deixou Nova York aos quinze anos acreditava que o mundo era um lugar seguro.

A mulher que retorna aos vinte e três já sabe que as pessoas podem esconder monstros atrás dos sorrisos mais gentis.

Respiro fundo.

Não vou pensar nisso.

Não hoje.

Hoje quero apenas lembrar da Nova York das minhas melhores memórias.

Da cidade onde Alice sempre me fazia rir.

Da cidade onde deixei uma parte de mim.

Talvez seja justamente aqui que eu consiga encontrá-la outra vez.

Puxo o celular da bolsa e releio a última mensagem de Alice pela décima vez.

"Já estou te esperando... Bem-vinda de volta”

Um sorriso pequeno escapa.

Alice sempre foi assim.

Desde crianças.

Enquanto eu era tímida, ela fazia amizade com metade da escola antes do intervalo acabar.

Mesmo depois da faculdade e da distância entre Oklahoma e Nova York, nunca deixamos de nos falar.

Ela insistiu para que eu viesse.

Disse que eu precisava recomeçar.

Talvez ela estivesse certa.

Talvez eu só estivesse cansada de sentir medo.

O motorista anuncia que chegamos.

Meu coração dispara.

Ali está o prédio onde Alice mora.

Alto.

Elegante.

Muito mais sofisticado do que qualquer lugar onde já vivi.

Pago a corrida, desço com minha única mala e observo a fachada por alguns segundos.

É estranho pensar que minha vida inteira agora cabe dentro dessa mala.

Algumas roupas.

Meu notebook.

Meu diploma.

Alguns livros.

Antes que eu consiga tocar o interfone, a porta do prédio se abre.

— Bella!

Alice praticamente corre até mim.

No segundo seguinte estou envolvida em um abraço apertado.

Tão apertado que quase esqueço como é ser abraçada sem medo.

— Meu Deus... você está aqui mesmo!

Rio baixinho segurando as lágrimas.

— Estou.

Ela segura meu rosto entre as mãos.

— Você continua mais linda do que nas fotos e vídeos chamadas.

Meu sorriso vacila por um segundo.

— Olha quem fala.- Eu digo.

— Vamos subir. Você deve estar exausta.

Assinto.

Enquanto seguimos para o elevador, sinto meu celular vibrar dentro da bolsa.

Meu corpo inteiro trava.

Meu coração acelera tão rápido que chega a doer.

Por um instante, minha mente me leva de volta.

Uma tela iluminada.

Chamadas insistentes.

Mensagens que nunca terminavam.

Perguntas.

Acusações.

A sensação constante de estar sendo observada.

Fecho os olhos.

Não.

Isso acabou.

Tiro o aparelho da bolsa.

É apenas uma notificação do banco.

Nada mais.

Mesmo assim, demoro alguns segundos para conseguir respirar normalmente outra vez.

Alice percebe.

— Está tudo bem?

Forço um sorriso.

— Só estou cansada.

Ela parece não acreditar completamente, mas respeita meu silêncio.

O elevador sobe em absoluto silêncio.

Quando a porta se abre, encontro um apartamento enorme, iluminado e aconchegante.

Pela primeira vez em muito tempo, sinto uma estranha sensação de paz.

Talvez porque aqui ninguém saiba da minha história.

Ninguém saiba dos gritos.

Das portas batendo.

Das desculpas que eu inventava.

Dos hematomas escondidos por mangas compridas.

Ninguém sabe que eu passei apenas dois meses ao lado de alguém que conseguiu destruir a mulher que eu era.

Eu contei para a Alice o suficiente, mas não tudo que aconteceu.

Alice me mostra o quarto onde vou ficar.

Há flores sobre a cômoda.

Lençóis novos.

Uma janela enorme com vista para a cidade.

Tudo preparado para mim.

Meus olhos ardem.

— Você fez tudo isso?

Ela dá de ombros.

— Você merece um lugar para chamar de lar.

Lar.

Fazia tanto tempo que essa palavra não fazia sentido.

Talvez Nova York ainda não seja minha casa.

Talvez eu ainda demore para acreditar que estou segura.

Mas, pela primeira vez em muito tempo...

Tenho vontade de tentar.

Conheci Nathan Oliver numa cafeteria. Um homem gentil, lindo, educado e elegante. Ele era um empresário que vivia viajando e passou os dois últimos meses em Oklahoma a trabalho. Foi nesse período que nos conhecemos.

A princípio, eu não queria nada. Estava focada no meu trabalho e em construir minha carreira na área de Economia. Mas a gente acabou se encontrando quase todos os dias naquela cafeteria. Primeiro foram conversas rápidas, depois cafés compartilhados, almoços de última hora e, quando percebi, ele já fazia parte da minha rotina.

Nathan parecia tudo o que qualquer mulher desejaria encontrar. Era atencioso, fazia questão de me buscar no trabalho, lembrava das pequenas coisas que eu dizia e me fazia acreditar que eu era especial. Pela primeira vez em muito tempo, achei que alguém realmente me enxergava.

Demoramos algumas semanas para começar a namorar, e eu tinha certeza de que havia feito a escolha certa.

Mas eu estava completamente enganada.

As mudanças começaram de forma tão sutil que eu sequer percebi.

Primeiro vieram comentários sobre as minhas roupas. Depois, perguntas constantes sobre onde eu estava e com quem. Em seguida, as ligações a qualquer hora do dia, as mensagens exigindo respostas imediatas e o incômodo toda vez que eu passava algum tempo com outras pessoas.

Sempre havia uma justificativa.

"É porque eu me preocupo com você."

"É porque eu te amo."

"É porque tenho medo de te perder."

Eu confundia controle com cuidado.

Quando dei por mim, já evitava sair com minhas amigas para não criar discussões. Passei a pensar duas vezes antes de vestir determinadas roupas e sentia culpa por qualquer coisa que o desagradasse.

Em apenas dois meses, o homem educado e carinhoso desapareceu.

No lugar dele surgiu alguém que fazia questão de controlar cada detalhe da minha vida.

As palavras gentis deram espaço para ofensas.

Os pedidos se transformaram em ordens.

As demonstrações de carinho deram lugar a explosões de raiva seguidas de pedidos de desculpas que eu insistia em acreditar.

Até que, um dia, a violência deixou de ser apenas verbal.

Depois da primeira vez, vieram promessas, lágrimas e a garantia de que aquilo nunca mais aconteceria.

Eu quis acreditar.

Mas foi ali que minha vida se transformou em um pesadelo.

Cada dia era uma nova tentativa de evitar uma discussão. Eu vivia com medo de dizer a palavra errada, de olhar para a pessoa errada ou simplesmente de existir de uma forma que o desagradasse.

Eu já não me reconhecia.

A garota confiante que sonhava em construir uma carreira na área de Economia desapareceu aos poucos, dando lugar a uma mulher que sobrevivia contando os minutos para o dia terminar sem mais uma explosão.

Quando finalmente encontrei coragem para ir embora, percebi que o maior estrago não estava nas marcas que ele havia deixado no meu corpo, mas nas que carreguei dentro de mim.

Foi por isso que aceitei o convite de Alice.

Porque eu precisava acreditar que, em algum lugar, ainda existia uma vida em que eu pudesse voltar a ser a Bella de antes.

Notas finais
Espero que gostem.