Meu Lugar Seguro
6 Capítulo 6
Notas iniciais
POV BELLA
Domingos sempre foram estranhos para mim.
Quando criança, eram os dias em que meu pai insistia em preparar o café da manhã, mesmo queimando metade do que colocava na frigideira. Minha mãe fingia reclamar, mas acabava rindo da bagunça que ele fazia na cozinha.
Depois...
Os domingos passaram a ser dias silenciosos.
Dias em que eu tentava adivinhar qual seria o humor de Nathan.
Se ele acordaria bem.
Ou se qualquer palavra minha seria suficiente para provocar uma discussão.
Balancei a cabeça, afastando a lembrança antes que ela tomasse espaço demais.
Aquilo fazia parte de uma vida que eu não queria mais viver.
Ou, pelo menos, era isso que eu repetia para mim mesma todas as manhãs.
Levantei da cama e caminhei até a janela.
Nova York parecia completamente diferente aos domingos.
As ruas ainda estavam tranquilas, e uma brisa leve fazia as árvores do jardim dos Cullen balançarem devagar.
Era bonito.
Sereno.
Quase impossível acreditar que uma cidade tão grande pudesse parecer tão calma.
Apoiei a testa no vidro por alguns segundos.
Ainda havia dias em que tudo parecia pesado.
Em que sair do quarto exigia coragem.
Em que eu precisava me convencer de que estava segura.
Mas também havia dias como aquele.
Dias em que respirar parecia um pouco mais fácil.
Dias em que eu conseguia imaginar que talvez... só talvez... um recomeço fosse realmente possível.
Sorri de leve.
Não era um sorriso completo.
Mas era sincero.
Eu ainda tinha medo.
Muito.
Só que estava cansada de deixar o medo decidir tudo por mim.
Desde que saí Oklahoma, praticamente não tinha vivido.
Saí da minha antiga casa.
Fui para o apartamento da Alice.
Depois vim para a casa dos Cullen.
E... acabou.
Eu não andei na cidade.
Não tinha caminhado por um parque.
Não tinha entrado em uma livraria.
Não tinha tomado um café em lugar nenhum.
Não tinha feito absolutamente nada.
Era como se eu estivesse apenas sobrevivendo.
E eu queria voltar a viver. Nova York é linda.
Mesmo que fosse devagar.
Mesmo que cada passo parecesse assustador.
Suspirei, afastando-me da janela.
Depois de um banho demorado, escolhi uma calça jeans clara e uma blusa de tricô bege de mangas compridas.
Era confortável.
Ainda me sentia mais segura usando roupas que cobrissem boa parte do corpo.
Talvez isso mudasse um dia. Eu consegui até usar um vestido e foi muito bom.
Desci as escadas atraída pelo cheiro de café fresco.
A cozinha já estava movimentada.
Esme conversava com uma das funcionárias enquanto organizava algumas travessas sobre a bancada.
Carlisle lia o jornal sentado à mesa, usando óculos de leitura.
Edward estava do outro lado da cozinha, preparando café.
Usava uma camiseta preta de mangas curtas e uma calça de moletom cinza.
O cabelo ainda estava um pouco bagunçado.
Parecia ter acabado de acordar.
Mesmo assim...
Era irritantemente bonito.
Franzi o cenho para mim mesma.
Por que eu continuava reparando nisso?
— Bom dia, querida.
Esme sorriu assim que me viu.
Sorri de volta.
— Bom dia.
Carlisle levantou os olhos do jornal.
— Dormiu bem?
— Dormi.
— Fico feliz.
Edward virou discretamente o rosto na minha direção.
Nossos olhares se encontraram por um instante.
Ele ergueu a caneca de café em um cumprimento silencioso.
Retribuí com um pequeno sorriso.
— Bom dia, Isabella.
A voz dele continuava grave daquele jeito irritantemente agradável.
— Bom dia.
Ele me observou por um segundo.
— Parece melhor hoje.
Assenti.
— Estou.
Edward apenas fez um gesto afirmativo com a cabeça antes de voltar a colocar café na própria caneca.
Nenhuma provocação.
Esme aproximou-se de mim.
— Quer panquecas?
— Quero, sim.
Ela colocou duas no meu prato e ainda acrescentou frutas.
— Hoje todos vêm almoçar aqui.
Sorri.
— Alice comentou.
— Ela disse que pretende chegar cedo para me ajudar.
Carlisle riu baixinho sem tirar os olhos do jornal.
— Traduzindo: ela vai reorganizar toda a cozinha.
Esme deu uma risada.
— Provavelmente.
Edward tomou um gole de café.
— E reclamar da disposição das travessas.
— Também.
Completou Carlisle.
Sorri observando os dois.
Era curioso como aquela família conseguia transformar qualquer conversa simples em algo leve.
Não havia tensão.
Não havia receio de dizer a coisa errada.
As pessoas simplesmente... conviviam.
Ainda era estranho para mim.
E, ao mesmo tempo, reconfortante.
Terminei meu café enquanto Carlisle comentava alguma notícia sobre futebol.
Esme fazia planos para o almoço.
Edward respondia apenas quando alguém perguntava alguma coisa.
Na maior parte do tempo, permanecia em silêncio.
Era diferente da imagem que eu tinha dele quando era adolescente.
Naquela época, ele parecia sempre ocupado.
Sério.
Quase inacessível.
Hoje...
Continuava sério.
Mas eu começava a perceber pequenos detalhes.
O jeito como sempre puxava uma cadeira para Esme antes de ela se sentar.
Como perguntava se Carlisle havia dormido bem.
Como agradecia cada vez que uma das funcionárias colocava alguma coisa diante dele.
E, principalmente...
Como fazia questão de verificar discretamente se eu estava bem.
Sem perguntar.
Sem insistir.
Apenas observando.
Era um cuidado silencioso.
Quase invisível.
Talvez fosse por isso que me deixava tão confusa.
Meu pensamento foi interrompido pelo som da campainha.
Esme abriu um sorriso.
— Devem ser eles.
Como previsto, Alice entrou na casa praticamente como um furacão.
— Mãe!
Abraçou Esme rapidamente antes de se virar para mim.
— Bom dia!
Ela me abraçou com força.
— Dormiu bem?
— Dormi.
— Ótimo.
Jasper entrou logo atrás, carregando duas tortas.
— Bom dia.
Emmett apareceu em seguida equilibrando uma caixa enorme de sobremesas.
— Trouxe o mais importante.
Rosalie entrou por último, elegante como sempre.
Aproximou-se de mim e sorriu.
— Como você está?
— Bem melhor.
Ela apertou minha mão com delicadeza.
— Fico feliz.
Em poucos minutos, a casa voltou a ficar cheia.
Conversas aconteciam ao mesmo tempo.
Alice já ajudava Esme na cozinha.
Emmett implicava com Jasper.
Carlisle fingia que lia o jornal enquanto escutava tudo.
Edward apenas observava a bagunça com um pequeno sorriso discreto.
Talvez...
Só talvez...
Eu estivesse começando a entender por que Alice fazia tanta questão dos almoços de domingo.
Pela primeira vez em muito tempo...
Eu sentia que fazia parte de algum lugar.
A mesa dos Cullen sempre parecia grande demais.
Não só pelo tamanho.
Mas pela quantidade de pessoas.
Eu não estava acostumada com isso.
Na minha antiga vida, refeições raramente eram momentos de conversa. Muitas vezes eram apenas algo que precisava ser feito rapidamente, sem chamar atenção, sem criar motivos para discussões.
Ali era diferente.
Ali as pessoas falavam.
Riam.
Discordavam.
E ninguém parecia ter medo disso.
Sentei-me entre Alice e Esme, enquanto Edward ficou em frente a mim.
Eu tentei não reparar nisso.
Tentei mesmo.
Mas era difícil ignorar alguém como Edward Cullen.
Principalmente quando ele parecia completamente confortável em permanecer em silêncio enquanto todos ao redor conversavam.
Era uma característica curiosa dele.
Edward não precisava ser o centro da atenção.
Na verdade, parecia fazer questão de não ser.
Mas, de alguma forma, sempre acabava chamando atenção.
— Bella, você já conseguiu sair um pouco? — Alice perguntou enquanto colocava um pouco de salada no próprio prato.
A pergunta me pegou desprevenida.
Pisquei.
— Não muito.
Alice franziu a testa.
— Como assim?
Dei de ombros.
— Eu ainda não saí praticamente para nada.
O silêncio não foi completo, mas foi o suficiente para eu perceber que todos tinham prestado atenção.
— Nada? — Emmett perguntou.
Neguei.
— Nada mesmo.
Alice me encarou.
— Bella...
Sorri sem graça.
— Eu sei.
Ela apoiou os cotovelos na mesa.
— Você está em Nova York de novo. Quase dois meses.
— Eu sei.
— E não saiu para nada?
— Tecnicamente, só de um cômodo para outro.
Emmett soltou uma risada.
— Isso não conta como sair.
Sorri.
— Eu sei.
Mexi no garfo, olhando para o prato.
— Acho que ainda estou tentando me acostumar com tudo.
A expressão de Alice suavizou.
— Faz sentido.
Respirei fundo.
— É estranho perceber isso, mas... desde que saí de Oklahoma, minha vida se resumiu a ir de um lugar para outro.
Todos ficaram em silêncio.
Não um silêncio desconfortável.
Um silêncio de atenção.
— Primeiro fui para a casa da Alice.
Olhei para minha amiga.
Ela sorriu de leve.
— Depois vim para cá.
Passei o dedo pela borda do copo.
— E foi basicamente isso.
Edward me observava atentamente, mas não interrompeu.
— Eu não saí para rever lugares . Não fui a restaurantes. Não fui a parques. Não fiz coisas normais.
Dei uma pequena risada sem humor.
— Parece até estranho dizer isso em voz alta.
Esme estendeu a mão sobre a mesa e tocou a minha.
— Não é estranho, querida.
Sorri para ela.
— Eu só acho que... talvez eu precise começar a fazer isso.
Alice abriu um sorriso imediatamente.
— Sim.
Ri.
— Você nem sabe o que eu ia falar.
— Não importa.
Ela respondeu.
— A resposta é sim.
Emmett riu.
— Alice tem esse problema.
— Não é um problema.
Ela respondeu.
— É uma qualidade.
Rosalie tomou um gole de água antes de falar.
— Ela tem razão.
Olhei para ela surpresa.
Rosalie raramente dizia algo sem pensar.
— Você precisa recuperar sua vida.
A frase simples me atingiu de uma maneira inesperada.
Porque era exatamente isso.
Minha vida.
Não apenas minha segurança.
Não apenas sobreviver.
Minha vida.
Assenti lentamente.
— Eu estava pensando nisso.
Carlisle sorriu.
— Pensando em fazer o quê?
Hesitei por alguns segundos.
Então falei:
— Eu queria aprender a lutar.
Todos olharam para mim.
Não de forma negativa.
Apenas surpresos.
— Lutar? — Jasper perguntou.
Assenti.
— Sim.
Passei a explicar antes que alguém entendesse errado.
— Não porque eu queira sair brigando com pessoas.
Emmett levantou as mãos.
— Uma pena. Eu já estava imaginando você dando uma surra em alguém.
Alice deu um tapa no braço dele.
— Emmett.
— O quê? Eu apoio.
Revirei os olhos, sorrindo.
— Eu só pensei que talvez aprender alguma coisa assim me ajudasse.
Minha voz ficou um pouco mais baixa.
— A me sentir mais confiante.
O sorriso de todos diminuiu um pouco.
Eles entenderam.
Não precisavam de muitos detalhes.
Esme apertou minha mão novamente.
— Acho uma ótima ideia.
Rosalie assentiu.
— Eu também.
Olhei para ela.
— Você acha?
Ela arqueou uma sobrancelha.
— Bella, saber se defender não significa que você espera que algo ruim aconteça.
Fez uma pausa.
— Significa que você sabe que consegue cuidar de si mesma.
Aquilo ficou comigo.
Porque era exatamente o que eu queria.
Não queria viver esperando alguém aparecer para me salvar.
Queria sentir que eu também era capaz.
— Eu conheço uma academia boa — Jasper comentou.
Olhei para ele.
— Conhece?
Ele assentiu.
— Um lugar mais focado em defesa pessoal. Nada daqueles ambientes onde as pessoas só querem aparecer.
— Parece interessante.
Edward, que até então estava quieto, finalmente falou:
— Faz sentido.
Olhei para ele.
Esperava uma provocação.
Mas não veio.
— Você acha?
Ele deu de ombros.
— Sim.
Pegou o copo.
— Você precisa recuperar confiança.
A resposta dele foi simples.
Mas, vindo de Edward, parecia mais significativa.
Sorri discretamente.
— Obrigada.
Ele sustentou meu olhar por alguns segundos antes de desviar.
— Não agradeça ainda.
Franzi a testa.
— Por quê?
O canto da boca dele levantou.
— Porque provavelmente vou acabar criticando sua técnica.
Revirei os olhos.
— Claro.
— Estou apenas sendo realista.
— Você chama implicância de realismo.
— Às vezes é a mesma coisa.
Não consegui evitar um sorriso.
— Você é impossível.
— E você continua dizendo isso como se fosse uma novidade.
Algumas risadas surgiram ao redor da mesa.
Alice balançou a cabeça.
— Vocês dois são muito estranhos.
— Não somos.
Falamos ao mesmo tempo.
O silêncio durou um segundo.
Então Emmett começou a rir.
— Isso foi assustadoramente sincronizado.
Senti meu rosto esquentar.
Edward apenas tomou um gole de água, tentando esconder um sorriso.
Tentando.
Mas eu percebi.
E, por algum motivo, aquilo me deixou feliz.
A conversa continuou por alguns minutos até que Jasper mencionou novamente a academia.
— Posso passar o contato do professor para você.
— Eu gostaria.
Respondi.
— Ele é muito bom.
Alice assentiu.
— Eu já ouvi falar dele.
— O nome dele é Rafael.
Edward, que estava cortando a comida tranquilamente, parou por um segundo.
Foi quase imperceptível.
Quase.
Mas eu percebi.
— Rafael? — ele perguntou.
Jasper olhou para ele.
— Sim.
Edward continuou com a mesma expressão neutra.
— Quantos anos ele tem?
O silêncio foi imediato.
Não porque a pergunta fosse estranha.
Mas porque era uma pergunta muito específica.
Emmett olhou para Rosalie.
Rosalie abaixou o olhar para o prato.
Alice mordeu o lábio para não sorrir.
Eu franzi a testa.
— Por que isso importa?
Edward pareceu perceber que todos estavam olhando para ele.
— Não importa.
Respondeu rápido demais.
— Apenas perguntei.
Emmett sorriu.
— Claro.
Edward lançou um olhar para ele.
— O quê?
— Nada.
A resposta veio acompanhada de um sorriso que dizia exatamente o contrário.
Jasper tentou ajudar.
— Ele deve ter uns trinta e poucos.
Edward assentiu.
— Certo.
E voltou a comer.
Mas agora eu estava curiosa.
Porque aquele "certo" parecia esconder alguma coisa.
E eu não fazia ideia do quê.
Depois daquele momento, a conversa seguiu por outros assuntos.
Ou melhor, todos seguiram.
Eu não.
Minha atenção ainda estava presa ao comportamento de Edward.
Não porque eu achasse que havia algo errado.
Mas porque era... estranho.
Edward Cullen era muitas coisas.
Arrogante.
Reservado.
Controlador.
Extremamente observador.
Mas ele nunca parecia fazer perguntas sem motivo.
Principalmente perguntas tão específicas.
Quantos anos ele tem?
A pergunta continuava ecoando na minha cabeça.
Talvez fosse apenas preocupação.
Afinal, ele tinha razão em uma coisa: se eu fosse começar algo novo, era importante saber quem seria a pessoa responsável por me ensinar.
Era uma explicação lógica.
Completamente lógica.
Então por que parecia que ele estava incomodado?
Balancei a cabeça, afastando o pensamento.
Eu provavelmente estava imaginando coisas.
Eu ainda estava aprendendo a entender as pessoas ao meu redor.
Principalmente Edward.
Depois do almoço, todos foram para a sala.
Alice e Esme começaram uma conversa sobre decoração, o que fez Emmett reclamar que mulheres podiam passar horas falando sobre almofadas.
Rosalie respondeu que homens podiam passar horas falando sobre carros.
E, pela primeira vez em muito tempo, eu apenas fiquei ali.
Sem pensar demais.
Sem analisar cada palavra.
Apenas existindo.
Era uma sensação estranha.
Boa.
Carlisle sentou-se ao meu lado no sofá.
— Está gostando de ficar aqui?
Olhei para ele.
— Muito.
Ele sorriu.
— Fico feliz.
Passei alguns segundos em silêncio antes de completar:
— No começo eu achei que seria estranho.
— Por quê?
Olhei ao redor.
— Porque eu não queria sentir que estava ocupando espaço.
Carlisle ficou sério.
— Bella.
Sua voz era gentil, mas firme.
— Você nunca foi um peso para ninguém nesta casa. Nem quando você era uma garotinha.
Engoli em seco.
Era difícil ouvir aquilo. E muito bom.
— Obrigada.
Ele assentiu.
— Você sabe que pode ficar aqui o tempo que precisar.
Meu peito apertou.
— Eu sei.
E eu sabia mesmo.
Essa era a parte mais assustadora.
Porque eles eram bons comigo.
E, de alguma forma, isso parecia mais difícil de aceitar do que qualquer coisa ruim.
Quando Alice chamou meu nome para me mostrar algumas opções de lugares que poderíamos sair, eu percebi que talvez aquele fosse o começo.
Pequenas coisas.
Um almoço.
Uma caminhada.
Uma aula de luta.
Voltar a sair.
Voltar a trabalhar.
Voltar a ser eu.
No fim da tarde, a casa começou a ficar silenciosa novamente.
Alice e Jasper foram os primeiros a ir embora.
Emmett e Rosalie saíram logo depois.
Antes de sair, Alice me abraçou.
— Semana que vem vamos sair.
Sorri.
— Alice...
— Não é uma pergunta. E outra coisa talvez o James volte e saímos todos em grupo. Você vai adorar ele.
Edward que estava perto revirou os olhos e todos viram.
— Bom, pelo que você viu agora. O Edward talvez não saia em grupo, principalmente se o James estiver. Ele sempre implicou com James.
Ela concluiu rindo. Eu Sorrir de volta.
— Eu só não bajulo ninguém.
Edward disse quando se aproximou junto com Emmet.
— Bem-vinda oficialmente ao grupo de pessoas que não conseguem dizer não para Alice.
Emmet disse e Alice lhe deu um tapa.
— Ei!
Ele riu enquanto saía.
Pouco tempo depois, Carlisle e Esme também se prepararam para sair.
— Vamos jantar fora — Esme explicou.
— Vocês merecem um tempo sozinhos — acrescentou Carlisle, olhando para mim e Edward.
Meu rosto aqueceu imediatamente.
— Nós?
Esme sorriu.
— Vocês dois estão na casa.
Ela parecia completamente inocente.
Mas eu tinha certeza de que havia um pequeno brilho divertido em seus olhos.
Depois que eles saíram, percebi algo.
A casa estava silenciosa.
De verdade.
Não silenciosa como antes.
Não uma daquelas quietudes que pareciam ameaçadoras.
Era apenas calma.
Fiquei alguns minutos na sala lendo um livro.
Edward estava em algum lugar da casa.
Eu sabia disso porque, de vez em quando, ouvia seus passos.
Era estranho.
Mesmo sem conversar com ele, eu percebia a presença dele.
Quando o relógio marcou quase oito horas, meu estômago reclamou.
Levantei-me.
Eu não queria incomodar ninguém, então decidi preparar alguma coisa simples.
Quando entrei na cozinha, encontrei Edward ali.
Ele estava encostado na bancada, com uma xícara de café na mão.
Mesmo à noite.
Claro.
— Você sabe que café depois desse horário provavelmente não é uma boa ideia, não sabe?
Ele olhou para mim.
— Você está preocupada com meu sono agora?
— Estou preocupada com sua irritação amanhã.
O canto da boca dele levantou.
— Então você admite que eu fico insuportável quando durmo pouco?
— Eu admito que você fica insuportável em qualquer situação.
Ele pareceu considerar a resposta.
— Justo.
Sorri.
Foi automático.
Edward percebeu.
Ele sempre percebia.
Mas, dessa vez, não comentou.
Apenas apontou para a bancada.
— Esme deixou comida pronta.
Olhei para a mesa.
— Ela pensou em tudo.
— Minha mãe costuma fazer isso.
A forma como ele falou dela fez meu coração aquecer.
Era fácil perceber o quanto ele amava a família.
Mesmo quando tentava parecer distante.
— Ela é incrível.
Edward assentiu.
— É.
Ficamos alguns segundos em silêncio.
Não era desconfortável.
Só diferente.
Eu estava acostumada com Edward e suas provocações.
Com suas respostas rápidas.
Com a necessidade dele de sempre ter a última palavra.
Mas ali...
Ele parecia apenas Edward.
Sem armadura.
Servi um pouco de comida e sentei-me à mesa.
Depois de alguns segundos, ele sentou em frente a mim.
A situação era estranha.
Eu e Edward Cullen jantando sozinhos.
Se alguém me dissesse isso alguns meses atrás, eu provavelmente teria rido.
— Você realmente quer aprender luta?
A pergunta veio de repente.
Olhei para ele.
— Quero.
Ele assentiu lentamente.
— Por quê?
Pensei antes de responder.
— Porque eu quero parar de sentir medo.
A expressão dele mudou.
Pouco.
Mas mudou.
—Isabella...
Ele parou.
Como se estivesse escolhendo as palavras.
— Aprender a lutar não vai apagar o que aconteceu.
Baixei os olhos.
— Eu sei.
— Mas talvez ajude você a lembrar que ainda tem controle sobre a própria vida.
Olhei para ele.
Aquela frase me surpreendeu.
Porque era exatamente isso que eu sentia.
— Você sempre sabe o que dizer?
Ele soltou uma pequena risada.
— Não.
— Parece que sabe.
— Essa é a minha melhor habilidade.
Sorri.
— Convencido.
— Realista.
— Você e essa palavra.
Ele inclinou a cabeça.
— Você está implicando comigo?
— Talvez.
— Estou orgulhoso.
Revirei os olhos.
Mas estava sorrindo.
Por alguns minutos, apenas conversamos.
Coisas simples.
Sobre a cidade.
Sobre lugares que eu queria sair.
Sobre como Alice provavelmente tentaria planejar minha vida inteira se eu deixasse.
E foi estranho perceber...
Eu estava confortável.
Com Edward.
A pessoa que, no começo, parecia ser a última com quem eu conseguiria conviver.
— Posso perguntar uma coisa?
Ele levantou os olhos.
— Depende.
— Por que você não gosta do James?
O silêncio veio imediatamente.
Não pesado.
Mas mais sério.
Edward colocou o garfo no prato.
— O que fez você pensar que eu não gosto dele?
Dei de ombros.
— Todo mundo parece gostar dele.
Pensei um pouco.
— Mas você sempre parece diferente quando ele é mencionado.
Edward ficou alguns segundos em silêncio.
Então respondeu:
— Porque eu nunca confiei nele.
Franzi a testa.
— Por quê?
Ele olhou para o próprio prato.
— Algumas pessoas são muito boas em parecer exatamente aquilo que querem que os outros acreditem que elas são.
Meu corpo ficou levemente tenso.
Porque aquela frase me lembrava de muitas coisas.
Mas Edward continuou:
— James sempre foi muito preocupado com a própria imagem.
— Ele é advogado.
— Eu sei.
Ele respondeu.
— E talvez por isso saiba escolher muito bem as palavras.
Fiquei quieta.
Edward respirou fundo.
— Mas isso não significa que eu tenha razão.
Olhei para ele.
— Você acha que pode estar errado?
Um pequeno sorriso apareceu.
— Às vezes acontece.
Sorri.
— Uau.
Ele arqueou uma sobrancelha.
— O quê?
— Você admitiu que pode estar errado.
— Não espalhe.
Ri.
E Edward também sorriu.
Foi pequeno.
Quase imperceptível.
Mas estava ali.
E, naquele momento, percebi algo.
Talvez Edward Cullen não fosse tão difícil quanto eu imaginava.
Talvez ele apenas fosse alguém que demorava para deixar as pessoas chegarem perto.
E, por algum motivo...
Eu sentia que ele estava deixando eu chegar um pouco.
Pouco.
Mas estava.
E aquilo me assustava.
Não porque fosse ruim.
Mas porque, pela primeira vez em muito tempo...
Eu não sentia medo de algo bom.
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