Meu Diário Secreto

6 Capítulo 6: Um esquisito que sabe deixar o coração de uma garota acelerado


Fazer as pazes com minha mãe me fez sentir tão emocionalmente leve que fui fazer o processo seletivo no dia seguinte com toda a confiança do mundo. Em meio aos acontecimentos recentes, havia me esquecido completamente da existência de JC. Não nos falávamos há dois dias e lembrei a mim mesma de lhe enviar um SMS mais tarde, enquanto caminhava até à Caverna Geek. Chegando lá, fui recebida por um dos lindos sorrisos de Jess. Eu poderia tranquilamente me acostumar a receber um desses todos os dias.

—Hey, Claire! — ele cumprimentou. — Preparada?

—Preparadíssima! — respondi de prontidão.

Ele me entregou uma prancheta com os papéis do teste e uma caneta.

—Você já deve ter percebido que as coisas aqui não são dentro dos padrões, então pode se sentar em um dos puffs e responder lá mesmo. Qualquer dúvida, me dá um grito que eu vou.

—Certo. Obrigada! — sorri e me direcionei a um dos puffs.

O teste foi um pouco mais complicado do que imaginei que seria. As perguntas abordavam temas diversos, entre eles a diferença entre alguns consoles de vídeo-games, detalhes de jogos antigos e novos (dei graças à Sarah por ter me passado seus ensinamentos gamers), quais músicas correspondiam a determinadas bandas, entre outras questões do gênero. Levei algum tempo para responder, fazendo questão de ler e reler todas as respostas até ter certeza de que me sairia bem. Entreguei os papéis para Jess e ele disse que entraria em contato comigo até o dia seguinte com a resposta.

JC: Devo me preocupar e distribuir folhetos de “garota desaparecida” com o seu nome?

CS: Ei, olá pra você também! Fique tranquilo, estou sã e salva em minha casa.

CS: E me desculpe por não ter sido uma diária muito presente nos últimos dias. Muitas coisas aconteceram e foi uma correria.

JC: Senti falta das nossas conversas.

CS: Eu também senti! Por que não falou nada antes?

JC: Não queria te incomodar…

CS: Você não incomoda nunca.

JC: Quais foram os acontecimentos dos últimos dias? Algo importante?

CS: Bem, se der tudo certo, logo mais a sua querida diária será uma garota empregada!!!

JC: Uau!!! Que coisa maravilhosa, Claire! Fico muito feliz por você :) conheço o lugar?

CS: Provavelmente. É uma loja que fica no centro, chamada Caverna Geek.

JC: Tá brincando, eu adoro aquele lugar!

CS: Você vai muito lá?

JC: Passei a maior parte das férias jogando naqueles puffs aheuahruahrhahr

CS: Lá vem você com essa risada estranha.

JC: Qual é, eu sei que você adora minha risada!

CS: Tadinho, muito iludido você.

JC: aheuahehaheha

JC: E o que mais aconteceu?

O outro acontecimento era o fato de ter feito as pazes com minha mãe. Minha relação com ela não era um assunto que eu levava muito à tona, nem mesmo com Sarah. Falar sobre esse tipo de problema parecia ser muito íntimo para tratar com qualquer pessoa, e por mais próxima que Sarah fosse, não sentia confiança em me abrir dessa forma pra ela. Incrivelmente, minha relação com JC conseguia me proporcionar mais essa confiança a cada dia que se passava, e eu não sabia bem explicar o porquê. Talvez fosse pelo sigilo e tudo mais, mesmo ele sabendo quem eu sou, não saber quem ele é tornava tudo um pouco mais fácil. Também poderia ser a maneira com que ele se abria comigo. Talvez saber que eu era digna de ler sobre os seus problemas me fizesse querer contar os meus a JC também. Em contrapartida, o meu papel nessa relação era de diário. Não estava em posição de desabafar, e nem ele de ouvir. Ainda assim, algo dentro de mim dizia que seria bom falar sobre isso, e que o escritor misterioso não se importaria em ser diário por um momento.

CS: Meu relacionamento com minha mãe foi meio complicado nos últimos anos. Muita coisa aconteceu e ela acabou se tornando alcoólatra, ficando 100% nem aí pra mim. Sofri com isso de uma forma que você nem imagina, mas felizmente tivemos uma conversa ontem e eu a perdoei por tudo. O alívio que eu sinto não dá nem pra descrever!

JC: Eu consigo imaginar sim, e como! Minha relação com meu pai também não é das mais fáceis…de qualquer forma, fico muito contente que vocês tenham se acertado!

CS: Oh, me desculpe, JC! Esqueci completamente sobre as tretas com o seu pai.

JC: Fica tranquila :)

CS: E como vocês estão ultimamente?

JC: Pior a cada dia. Eu tenho um trabalho, sabe? Acho que nunca mencionei isso pra você, mas ganho algum dinheiro sozinho. Fazer isso é uma afronta pra ele.

CS: Mas por que?

JC: Porque assim ele não consegue me controlar, como controla minha mãe. O sonho dele é que eu estude administração e assuma os negócios da família, continuando nosso “legado” de gerações. Falando sério, por mim os negócios da família podem explodir! Não quero me tornar como ele, e não vou.

CS: Você não vai se tornar como ele. É um garoto muito diferente, sabia?

JC: E por que diz isso?

CS: Qualquer garoto em seu lugar, que tem uma fortuna em dinheiro e bens para herdar, além do controle de um negócio de família, não pensaria duas vezes antes de aceitar tudo isso numa boa. Negar todo o dinheiro e mordomias não deve ser algo muito fácil.

JC: Não é que eu não goste do dinheiro e das mordomias, afinal, quem não gosta? Só percebi que não quero passar o resto da minha vida acomodado em algo que não é o meu sonho. Quero poder estudar o que quiser e ser livre pra trabalhar nisso, mas tudo é tão fodido que minha cabeça não consegue nem se decidir sobre o que eu realmente quero fazer. Por enquanto só sei o que NÃO quero.

CS: Entendo…

JC: Sobre o que você disse antes, também acho que é uma garota diferente, Claire.

CS: Mesmo?

JC: Mesmo. Não imaginei que fosse ser tão difícil não poder te chamar pra sair.

Engasguei com minha própria saliva por um momento. Ele tinha acabado de dizer que gostaria de me chamar pra sair?

CS: Você quer fazer isso?

JC: Não faz ideia do quanto.

Sorri como uma boba encarando o telefone. Nos conhecíamos há menos de duas semanas e ele já era capaz de me arrancar reações nos momentos mais inesperados.

Sabia que não era certo alimentar um crush por JC, afinal, nossa relação deveria ser sigilosa, mesmo que ele já soubesse minha identidade. Além disso, eu só conhecia a parte que ele gostaria que eu conhecesse. Relacionar-se pelos meios digitais vem enganando pessoas iludidas desde o começo da internet, e não poderia me dar ao luxo de pensar que justo comigo seria diferente. A vida real não acontece como os filmes clichês, nos quais situações impossíveis resultam em grandes romances. Minha parte sensata estava ciente disso, mas nem só de sensatez vive uma garota.

CS: Hipoteticamente falando, como seria esse encontro?

JC: Primeiro iríamos ao cinema, onde assistiríamos uma comédia romântica, e eu te compraria doces de caramelo e refrigerante.

CS: Você se lembra! Não acredito que você se lembra!

JC: Você é a única pessoa no mundo que combina doces de caramelo com refrigerante, Claire. Depois eu que sou o esquisito aheuaheha

JC: Continuando: após o cinema iríamos comer hamburger naquela hamburgeria retrô que abriu recentemente, porque não sou corajoso o suficiente pra te oferecer algo que não seja sua comida favorita no primeiro encontro. Depois disso poderíamos ir à praia e observar as estrelas, deitados na areia mesmo, ouvindo apenas o barulho das ondas. Eu veria seu rosto e passaria os dedos por seus cabelos, que provavelmente são tão macios quanto aparentam ser. Olharia em seus olhos pelo tempo que pudesse, porque eles são mais atraentes que qualquer céu estrelado. Te levaria de volta pra casa, e torceria para que você aceitasse o convite para um segundo encontro.

CS: Você é sim esquisito (respondendo ao primeiro SMS). Mas é um esquisito que sabe como deixar o coração de uma garota acelerado.

JC: Bom saber disso, senhorita Sanders. ;)

—Eu preciso descobrir quem ele é. — falei para Sarah, enquanto nos sentávamos em uma das mesas no canto do refeitório lotado.

A Watertown precisava urgentemente ampliar suas instalações, ou entender que não podia aceitar tantos alunos matriculados. Malditas escolas particulares e sua sede de ganhar mais e mais mensalidades absurdas por adolescente.

—Se ele quisesse que você descobrisse, provavelmente já teria te contado, não? — ela respondeu, com uma expressão de piedade. — Não é como se ele não tivesse tido a chance de fazer isso na noite da festa. Ele saiu correndo, lembra? Não queria nem que eu o visse.

—Por que você tem que ser sempre tão sincera? — perguntei, frustrada.

—Porque minha função é te mostrar a realidade, Claire. Odeio ter que dizer isso, mas alimentar sentimentos por esse garoto não vai levar a nada, acredite em mim. Ele pode ser legal com você, mas continua sendo um dos burgueses babacas que tanto criticamos aqui todos os dias. — ela respondeu, como se tivesse raiva de JC.

Sarah não estava agindo normalmente. Não era do feitio dela ser tão dura com as palavras, e muito menos com paixões platônicas por burgueses babacas da escola (Peter Davidson que o diga).

—O que é que está havendo com você? — perguntei, séria.

—Não é nada, só estou sendo sincera com você. — ela respondeu relutante.

—Sarah, vamos lá, você sabe que não consegue me enganar fácil assim. O que houve?

Ela olhou para os lados conferindo se ninguém ouvia a conversa. Respirou fundo.

—É a A. — respondeu, por fim.

—A sua diária? — perguntei, me lembrando das histórias empolgantes que Sarah contava sobre as conversas com a tal A, o apelido da garota do projeto diário.

—É. Eu acho que você estava certa sobre eu sentir coisas por ela. E por garotas no geral. — admitiu, parecendo envergonhada pelo que disse.

—Mas isso não é ruim, Sarah! É ótimo, na verdade. Já dizia Beyoncé, as garotas que dominam o mundo*.

—Mas a menina está cagando pra mim, Claire! — minha amiga desabafou, evidentemente frustrada. — Ela só me escuta tão bem e me dá conselhos porque é sua “obrigação” como diária. Nada me garante que isso signifique reciprocidade. Além disso, posso estar só me iludindo pelo fato de ter uma pessoa para compartilhar os problemas e desabafar.

—Se for pra pensar assim, você já teria se apaixonado por mim há tempos. — expliquei.

Ela ficou pensativa, então prossegui:

—Você é inteligente, Sarah. Sabe diferenciar uma pessoa que faz as coisas por obrigação de uma pessoa que realmente se importa. Acredita de verdade que ela não sinta nada por você? Nem mesmo uma quedinha?

Suas bochechas coraram enquanto ela tentava se lembrar de algum sinal que A pudesse ter lhe dado, então abriu um sorriso tímido.

—Bem, eu acho que existe uma pequena possibilidade. — respondeu, apreensiva. — Mas o que eu devo fazer sobre isso?

—Eu bem que gostaria de saber. — comentei, descrente, percebendo que eu provavelmente estava passando pela mesma situação que minha amiga.

Notas finais
*Referência à música Who Run The World, da cantora Beyoncé.