Meu Diário Secreto

7 Capítulo 7: Questões amorosas


Jess cumpriu a promessa de ligar no dia seguinte ao teste com a notícia de que eu havia conseguido o emprego. Já se passara uma semana desde o meu primeiro dia como funcionária da Caverna Geek, e ele estava certo quando disse que o trabalho não era dos mais complicados, por isso eu estava me saindo muito bem até o momento. Para minha felicidade, Jess me fazia companhia no turno da tarde, pois também tinha escola pela manhã. Neste horário quem tomava conta da loja era Ray, o proprietário do lugar. Só tinha visto ele no dia em que comecei, mas pelo pouco que conversamos deu pra notar que era um cara legal. Ray aparentava estar próximo aos quarenta anos, mas seu charme, proporcionado pela barba cheia e longos cabelos castanhos, era inquestionável.

—Mandou bem na escolha, Jess. — o chefe comentou. — Já estava na hora de ter alguém te ajudando por aqui.

—Eu também acho. — ele concordou, sorrindo, fazendo minha respiração parar por um momento.

As reações provocadas por Jess em meu corpo, sem que ele ao menos soubesse disso, já estavam me levando a loucura. Passar cinco horas por dia ao seu lado me faziam acordar com uma tremenda ansiedade, que só aumentava quando eu o via me dar um “boa tarde” quando chegava à loja. Passamos todos os dias daquela semana engatados em longas conversas sobre os jogos, séries e filmes com os quais trabalhávamos. A partir disso eu já conseguia perceber traços de sua personalidade e manias que ele tinha, como o jeito que mordia os lábios quando estava concentrado, ou como passava a mão pelo cabelo quando estava nervoso. Jess também era o rei do sarcasmo, coisa que estava presente em praticamente todas as suas frases. Não cheguei a fazer muitas perguntas pessoais, mas dava pra saber que ele era um baita nerd, que conseguia enfiar referências geek em todos os diálogos, e também era muito inteligente. Em uma tarde mais calma na loja pedi sua ajuda com uma atividade de Física — que para mim parecia um monstro de sete cabeças — e o desgraçado respondeu tudo em menos de dez minutos.

—E eu achando que você ia me dar um desafio de verdade, Claire. — Jess ria da minha cara, enquanto entregava o papel com as resoluções.

—Pra mim era um desafio impossível, seu otário. Também não peço mais. — respondi, fazendo drama.

—Não vai dizer que ficou chateada! — o garoto se aproximou, colocando as mãos em meu rosto e puxando minha boca para forçar um sorriso. — Olha aí, muito mais bonita sorrindo. Pra ficar melhor só falta dizer “muito obrigada, meu querido gênio Jess”.

—Você pode ir tomar naquele lugar! — cruzei os braços, tentando manter a pose dramática, que não durou muito tempo, até que o sino da porta indicou a entrada de um cliente.

—Muito obrigada, meu querido gênio Jess. — sussurrei em seu ouvido antes de atender o garoto que se aproximava do balcão. Quase não consegui perguntar em que poderia ajudar ao perceber de relance o sorriso que vinha fazendo meu coração bater mais forte.

JC: A madame depois que começou a trabalhar esqueceu que tem amigos. Tô anotando seus vacilos, Claire.

CS: AI OLHA O DRAMÁTICO

JC: aheuahehaheha adoro te irritar

CS: Parece ser um consenso gostar de me ver irritada

JC: Mas você fica tão fofinha quando tá brava!!! Aliás, quem mais faz isso? Duvido que a pessoa te irrite tão bem quanto eu

CS: Competir com você é bem difícil mesmo, parece até que fez um workshop de como irritar garotas pela internet

JC: Você sabe que eu gostaria de te irritar fora do mundo virtual também :(

CS: E por que não faz isso?

JC: Você sabe o porquê...aliás, não respondeu minha pergunta. Quem mais gosta de te irritar?

CS: Me explica esse porquê então :(

JC: Não quero te enfiar nas bagunças da minha vida por enquanto. Você já tem várias coisas pra lidar e ter um desgraçado da cabeça do seu lado não iria ajudar muito.

CS: Eu não me importaria, JC. Você sabe disso.

JC: Você é boa demais, senhorita Sanders. Um dia eu vou conseguir sair das minhas frustrações e ter a coragem de me apresentar pra você.

CS: Pessoalmente?

JC: Pessoalmente!!! Eu prometo, Claire.

CS: Tudo bem…

JC: Ainda não respondeu minha pergunta…

CS: É um garoto com quem trabalho. Ele consegue ser irritante a sua altura.

JC: E isso é bom, não é? Eu sei que você adora aheuaheh

CS: Pra falar a verdade, eu gosto sim ;)





Os efeitos de uma semana de provas já começavam a ficar evidentes pelos corredores da Watertown. Adolescentes mal humorados e cheios de olheiras corriam em direção às salas de aula, apressados para seus exames. A pressão psicológica feita pelos professores — que eram obrigados pela escola a fazer tais discursos — só piorava a situação. Sarah e eu saíamos da classe de matemática e, enquanto eu me lamentava pela prova, minha amiga parecia mais sorridente do que nunca.

—Achou tão fácil assim? — perguntei, perplexa com a expressão da garota.

—O que? — ela disse, parecendo não sentir a atmosfera tensa do corredor.

—A prova. — respondi, como se fosse óbvio (e realmente era).

—Ah, até que foi. Não achei tão difícil.

—E esse é o motivo pra essa alegria toda?

—Em partes. — respondeu, corando.

—Eu conheço essa cara! É de quem teve o crush correspondido!

Ela assentiu, e suas bochechas ficavam cada vez mais coradas.

—Rá! Eu sabia! Pode me contar tudo IMEDIATAMENTE!

Nos sentamos em um banco debaixo de uma das árvores do pátio, em um canto mais afastado, para que ninguém ouvisse a conversa.

—Vamos lá, pode começar. — ordenei, ansiosa para ouvir a história.

—É o seguinte: — Sarah iniciou, não conseguindo conter sua felicidade. — Percebi que não chegaria a lugar algum se não perguntasse a A sobre os seus sentimentos. Se continuasse no escuro, eu poderia me iludir por uma garota que talvez nem gostasse de outras garotas. Enfim, fui direta e perguntei, pra minha sorte ela disse que se sentia da mesma forma, que me achava especial e que os momentos em que conversávamos eram as melhores partes do seu dia. O nome dela é Anna e nós vamos nos encontrar na cafeteria hoje a noite. Eu não tô conseguindo aguentar a ansiedade!

—Oh, Sarah, eu tô tão feliz por você! — abracei minha amiga. — Finalmente, hein?!

—Finalmente! — ela exclamou, parecendo aliviada. — É tão bom poder admitir isso pra mim mesma depois de tanto tempo em conflito. Sei que não vai ser muito fácil a partir de agora, obviamente meus pais não vão lidar muito bem com a ideia da sua garotinha querendo beijar outras garotinhas, mas isso é algo que a Sarah do futuro pode resolver em outro momento. Agora eu só quero conhecer a Anna e viver essa experiência, sabe?

—Sei sim, você merece isso. — respondi, abraçando-a novamente.

De repente, interrompendo o abraço, uma notificação de SMS apitou em meu celular.

JC: Você está radiante hoje. Nem parece uma sofredora em semana de provas (com radiante quero dizer sorridente e linda).

Olhei ao redor procurando por algum garoto que pudesse estar nos observando. O pátio não estava muito cheio, mas ainda assim não conseguia identificar a presença de JC por ali. Saber que ele podia estar tão perto me dava borboletas no estômago.

—O que tá olhando? — Sarah perguntou, intrigada, olhando para os lados também.

Lhe mostrei o SMS.

—Oh, céus! Ele tá por aqui! — exclamou, animada.

—Custava alguma coisa aparecer e dar um “oi”? — perguntei, chateada.

—Talvez ele ainda não esteja preparado, Claire. Tente entender, ele se abriu muito com você nas últimas semanas. Não foi fácil pra mim tomar a decisão de me revelar para Anna depois de todos os desabafos que fiz.

—Eu entendo, de verdade! Só me sinto frustrada porque…sei lá...queria conhecê-lo.

—Esse momento pode estar mais próximo do que imagina. Só dê tempo ao tempo, e logo você não vai ter que se referir a ele como JC mais.

—Espero.

Realmente esperava. E muito. Não conseguia imaginar a aparência de JC, em minha mente ele era um grande ponto de interrogação. Por mais que tentasse o associar ao rosto de um garoto qualquer, nada se aproximava de alguma possibilidade.

Compreendia bem o que Sarah dizia, e por isso sabia que não podia fazer pressão pra que ele se revelasse. JC o faria quando se sentisse à vontade, e eu respeitaria isso. Sendo assim, reformulei a resposta que pretendia enviar e acabei dizendo:

CS: A prova não foi motivo para sorrir, mas a minha amiga se acertando com a crush dela sim!

JC: Uau! Diga a ela que fico feliz por isso! ;)

CS: Pode deixar!

CS: Aliás, guarde bem o sorriso que viu, porque você vem arrancando vários desses de mim nos últimos dias.

Mostrei a mensagem para Sarah após enviar, querendo saber a opinião dela sobre minha horrível tentativa de flerte.

—Ora ora, então a senhorita está com segundas intenções? — perguntou, com uma expressão maliciosa no rosto.

—Não dá pra ficar só na vontade, né?! — respondi, dando de ombros.

JC: É mesmo? Muito bom saber disso. Continuarei me esforçando pra que ele nunca deixe o seu rosto.

CS: Ah, fique tranquilo, você nem precisa se esforçar pra fazer isso acontecer.

Sarah leu as mensagens e gargalhou.

—Você é péssima nisso, amiga! — comentou, zombando.

—Não precisa esfregar isso na minha cara. — respondi, rindo de nervosa.

—Fique tranquila, você vai conseguir conhecer esse garoto misterioso eventualmente. — ela disse, solidária. — E caso isso não aconteça, existem muitos caras no mundo, e meninas também. Só aqui na escola já tem tanta gente!

Me lembrei de Jess. Não havia contado a Sarah sobre o crush que vinha nutrindo por ele também.

—Então, meio que tem outra pessoa… — confessei, sem graça.

—Tem??? — ela parecia chocada. — Não vai me dizer que…oh meu Deus, Claire, é o carinha do seu trabalho?

Devo ter corado as bochechas, porque nem precisei dizer uma palavra para que ela ganhasse a confirmação da pergunta.

—Eu não fazia ideia! Por que não me contou antes?

—Porque só faz uma semana que trabalho lá, queria ter certeza do meu interesse antes de te contar, além de com essa loucura das provas eu mal tenho tempo pra pensar.

—Mas aposto que teve tempo de sobra pra pensar nele. — seu semblante malicioso entregava que ela me perturbaria com comentários do tipo por muitos dias.

O sinal tocou, indicando que as provas do próximo horário estavam para começar, salvando-me da complicada explicação sobre os sentimentos que ambos os garotos vinham despertando em mim. Se eu não conseguia nem entender essa confusão de meninos incríveis que me causavam borboletas no estômago, imagine tentar explicá-la para Sarah.

Deixei esses pensamentos de lado ao passo em que entrávamos no corredor movimentado, reservando todo o espaço útil em minha mente para os problemas de física que estava prestes a responder na prova. Problemas amorosos podiam ficar para mais tarde.

Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.