Meu Diário Secreto
5 Capítulo 5: A Caverna Geek
Todos os dias eu agradecia pela Watertown High School ser tão grande e ter tantos alunos. Eu não havia visto sequer a sombra de Garrie Wilson ao longo da semana, o que me proporcionava um grande alívio. Como tinha aulas apenas na parte da manhã, passava a maior parte da tarde trancada em meu quarto maratonando seriados, mas ultimamente isso não estava sendo muito bom pra mim. Decidi que, se quisesse ocupar minha cabeça e continuar a minha vida normalmente, eu deveria procurar alguma coisa útil para fazer durante a tarde. Sendo assim, recrutei Sarah para ir ao centro da cidade comigo em busca de um emprego de meio período.
—Tem algum lugar específico em mente? — ela perguntou, enquanto andávamos pela rua principal.
O dia estava ensolarado e uma brisa movimentava nossos cabelos. Apesar de estar com uma temperatura elevada, as árvores altas que preenchiam o meio fio faziam sombras refrescantes que tornavam a caminhada bem agradável. Não tinha muitas pessoas andando por ali, o que era de se esperar, pois todo comprador que se preze havia gastado todas as suas economias nas compras de Natal, poucos meses antes. Não era uma boa época para procurar emprego, mas eu permanecia otimista em minha busca.
—Não é como se eu pudesse ser muito exigente. — comentei, considerando o meu total de zero experiência com qualquer tipo de trabalho. — Mas seria muito legal trabalhar em alguma loja que eu goste.
—Então nada relacionado a maquiagem?
—Absolutamente nada! — respondi. Sarah sabia da minha aversão por cosméticos e qualquer coisa do ramo de estética e beleza. — Na primeira pergunta do tipo "esse batom combina com o meu tom de pele?" eu sairia correndo do lugar.
Minha amiga riu, provavelmente imaginando a situação e entendendo que essa realmente seria a minha reação. Entramos em algumas lojas e deixamos os currículos, e a cada "não estamos contratando no momento" meu otimismo descia mais um metro rumo ao fundo do poço.
—Eu desisto! — exclamei, desiludida. — Ninguém me aceita, o que há de errado comigo?
—Bem, você é uma adolescente sem experiência alguma, isso já basta pra ninguém te aceitar. — Sarah comentou, sincera.
Dei de ombros.
—Ei, olha aquela loja ali. — Sarah apontou para o outro lado da rua.
Nos aproximamos da pequena entrada do local, que em meio a tantas lojas com vitrines decoradas e letreiros coloridos, poderia muito bem passar despercebida. A fachada era simples: um fundo preto com letras brancas estampando o nome "Caverna Geek*". As portas de vidro também eram pretas, de modo que não era possível ver a parte interna do lugar. Adesivos de séries de TV, HQ's** e filmes aclamados da cultura pop complementavam a decoração na entrada, e um papel escrito "Contrata-se" pairava em meio a eles.
Abrimos a porta e ouvimos o som de um pequeno sino batendo. Não sabia que ainda existiam lojas com esse "sistema super tecnológico" para avisar que um cliente havia entrado. A pequena entrada da Caverna Geek não fazia jus ao seu tamanho interno, pois era um cômodo consideravelmente espaçoso. Nas paredes ficavam prateleiras cheias de canecas personalizadas e bonecos de super-heróis e de personagens de jogos. Ao contrário da parte externa, o ambiente era cheio de cores fortes e vivas. Os balcões em formato de L abrigavam consoles de vídeo-games (tanto de última geração, quanto os mais antigos, considerados relíquias), assim como todos os tipos de jogos. Em um dos cantos localizava-se uma arara com várias camisetas estampadas de séries, filmes, bandas e jogos. No canto oposto estavam alguns puffs de frente para duas televisões, que no momento exibiam clipes de músicas de rock, mas aparentemente eram voltadas para os clientes jogarem vídeo-games.
Um rapaz estava sentado atrás do balcão cantarolando a canção que passava nas televisões enquanto balançava suas mãos como se tivesse tocando com baquetas imaginárias. Ele se assustou com a nossa presença e se pôs de pé assim que ouviu o barulho do sino.
—Olá! — ele exclamou, animado. — Em que posso ajudá-las?
Nos aproximamos do balcão e percebi que ele tinha cabelos castanho escuro meio bagunçados e olhos exatamente da mesma cor, que se encontravam escondidos atrás de um óculos de armação redonda (à la Harry Potter). Sua camiseta preta com uma estampa escrita "Arctic Monkeys" me chamou a atenção.
—Na verdade estou aqui por causa do anúncio ali de fora. — expliquei, sorrindo. — Vocês estão contratando mesmo?
—Estamos sim. Você que está interessada?
—Isso mesmo. — respondi prontamente.
—Bom, vamos conversar um pouco então! O seu currículo tá aí? — o rapaz perguntou, enquanto procurava por uma caneta.
—Está sim. — retirei uma das cópias de dentro da mochila. — Aqui.
—Vamos nos sentar ali naqueles puffs pra ficarmos mais à vontade. Por aqui, por favor.
—Vou dar uma olhada nas camisetas enquanto isso. — Sarah avisou, aparentemente empolgada com a loja. Para uma nerd como ela, aquilo deveria ser o paraíso.
Segui até os puffs e me sentei de frente para o rapaz. Notei que ele tinha algumas sardas nas bochechas, e me repreendi imediatamente ao perceber minha súbita atenção a cada detalhe do rosto do meu possível futuro chefe.
—Então... — ele começou a dizer enquanto lia meu pobre currículo. — Meu nome é Jess e, apesar de não ser gerente ou coisa do tipo, estou encarregado por essa contratação.
—Muito prazer, Jess! Meu nome é Claire, Claire Sanders. — respondi, sorrindo, mas sentindo um pequeno nervosismo tomar conta de mim. Ainda que estivéssemos sentados praticamente no chão ouvindo a um rock aleatório, aquilo continuava sendo uma entrevista de emprego. A minha primeira entrevista de emprego. Era totalmente compreensível ficar um pouquinho nervosa.
—Muito prazer, Claire. — ele sorriu. O sorriso dele era lindo. Só pra constar mesmo. — Bom, pelo que eu vejo aqui você não tem experiência alguma a não ser organizar voluntariamente os livros da Watertown Library. Tem 17 anos, está no último ano do colegial. Interessante. Quer fazer faculdade de que?
—Isso ainda é um grande ponto de interrogação. — respondi, sincera. — Gosto de pensar que ainda tenho alguns meses pra decidir o que quero ser para o resto da vida.
Ele sorriu novamente e eu me contive para não mandá-lo parar de me distrair com seus sorrisos.
—Sei como se sente, também estou nessa. — Jess confessou e abaixou o papel do meu currículo, colocando-o no chão. — Olha, Claire, em qualquer outro lugar eu aposto que você seria descartada de primeira, sem ofensas.
Sorri, dessa vez constrangida. Lá vinha mais uma rejeição. Então ele continuou:
—Mas aqui não. Seria muita hipocrisia não te dar uma chance só por isso, afinal, eu sou apenas um ano mais velho que você e também tinha zero experiência antes de entrar aqui.
Eu respirei aliviada. Isso significava que eu estava contratada?
—Então vou te dar algumas informações sobre a vaga e o processo seletivo padrão da loja, ok?
Aparentemente ainda não.
—Tudo certo! — respondi, confiante.
—Essa vaga é para vendedora, é um trabalho de meio período e, particularmente falando, eu acho que é bem tranquilo. Uma das coisas que as pessoas mais têm dificuldades é para saber sobre os nossos produtos. — explicou. — Se você vai vender um jogo, tem que saber explicar para o cliente sobre ele. Se vai vender uma camiseta de determinada banda, tem que saber ao menos o gênero musical da banda. E assim para todos os demais produtos, por isso você vai precisar fazer uma espécie de teste escrito sobre algumas perguntas, digamos, de assuntos geek. Não só sobre os produtos, mas o universo geek no geral. Caso você atinja a média necessária, ao longo do tempo vai conhecendo direitinho tudo o que vendemos aqui.
—Tudo bem! E quando eu faço esse teste? — perguntei, na esperança de que não fosse hoje. Mesmo sabendo que eu tinha conhecimento satisfatório sobre o assunto, a nerd dentro de mim sentia que precisava estudar pelo menos um pouco antes de fazer o teste. Afinal, eu conhecia muita coisa, mas não chegava a ser uma nerd de carteirinha como Sarah. Ela sim seria perfeita para o trabalho.
—Amanhã fica bom pra você? — ele perguntou, se levantando e estendendo a mão para me ajudar a levantar também.
—Perfeito. — respondi sorridente.
—Combinado então. — ele voltou para trás do balcão. — Eu posso ajudá-las em algo mais? A sua amiga se interessou por alguma coisa?
Olhei para Sarah e vi seus olhos brilhando ao ver uma réplica da varinha do Harry Potter, então disse:
—Com certeza ela se interessou por tudo o que viu, mas minha obrigação como melhor amiga é não deixar com que ela roube o cartão de crédito da mãe e volte aqui, então acho melhor a gente ir.
Ele riu alto. O desgraçado ficava cada vez mais fofo.
—Tudo bem então, até amanhã, Claire!
Nos despedimos e saímos. Sarah passou todo o caminho de volta choramingando sobre como ela queria ser rica ao ponto de entrar em uma loja daquela e comprar tudo sem ao menos perguntar o preço. Quando consegui fazer com que parasse de drama, ela me explicou sobre alguns conceitos do mundo geek que eu desconhecia, assim como reforçou a importância de certos filmes, livros e jogos. Não falamos sobre os gêneros musicais porque isso ela sabia que eu dominava. Veja bem, eu só não conseguia decorar fórmulas físicas para as provas da escola porque todo o espaço do meu cérebro era ocupado por conhecimentos inúteis como letras de centenas — eu diria até milhares — de músicas.
Cheguei em casa ao pôr do sol e encontrei minha mãe sentada na sala de estar esperando por mim. Achei esquisito porque ela sempre ia para um happy hour*** após o trabalho se embebedar com os seus colegas.
—Oi, Claire. — ela cumprimentou. — Venha, sente-se aqui.
Me direcionei ao sofá enquanto percebia seus olhos vermelhos, como se tivesse chorado por horas, e já esperei sentir o cheiro de álcool quando me aproximei dela. Para minha surpresa, não havia nenhum cheiro de álcool, mas sim o seu perfume floral suave, que eu adorava sentir quando era criança. Não o sentia há tanto tempo que pensei que ela tivesse parado de usá-lo, mas talvez o cheiro de bebida sempre apagasse o aroma da fragrância.
—Oi, mãe. — respondi, seca. — Aconteceu alguma coisa?
—Aconteceu sim. — ela disse, e acrescentou ao perceber a preocupação em meu olhar. — Mas nada de ruim, pode ficar tranquila. Na verdade é uma coisa boa.
—Coisa boa? — indaguei, descrente.
—Sim. Olha, Claire, antes de tudo eu queria começar me desculpando com você. Sei que não é tão simples me desculpar depois de tudo que fiz, mas em algum momento eu teria que te pedir isso. — ela continha as lágrimas que surgiam em seus olhos, tentando parecer forte. — Durante os últimos anos eu fui tudo, menos uma mãe. Não vou tentar me justificar ou colocar a culpa em seu pai, porque nada poderia justificar uma mãe ter agido como eu agi com a única filha.
Desviei o olhar dela para a janela que tinha atrás. Precisava conter as minhas lágrimas também. Há meses eu havia prometido a mim mesma que não choraria mais na frente da minha mãe.
—Eu errei, e muito, mas agora reconheço esses erros e estou disposta a nunca mais cometê-los. — ela respirou fundo. — Comecei a frequentar o grupo de Alcoólicos Anônimos essa semana e pretendo fazer tudo o que for necessário para nunca mais depender do álcool. Também farei terapia com uma psicóloga para aprender a lidar com toda a carga emocional que me tortura. Além disso, Claire, eu quero compensar pra você. Se você me der essa oportunidade, eu quero voltar a ser a sua mãe.
Minha mãe não fazia ideia de quanto tempo eu passei chorando no quarto, frustrada com tudo o que ela fazia e a maneira que me tratava, desejando que ela dissesse essas palavras. Exatamente essas que estava dizendo agora. Diante disso, foi impossível cumprir a minha promessa e conter as lágrimas, porque elas escorreram sem parar pelas minhas bochechas. Fechei os olhos e abaixei a cabeça, sem saber o que pensar e muito menos o que dizer. Eu e minha irritante mania de não saber reagir às coisas importantes. Só conseguia chorar. Chorar por finalmente ter esse momento com minha mãe. Chorar pelo abuso de Garrie. Chorar por não saber fazer outra coisa a não ser isso.
De repente, senti seus dedos macios acariciando minha face e limpando as lágrimas que continuavam descendo. O cheiro do seu perfume ficou mais evidente conforme ela se aproximava, então senti seus braços me envolvendo em um abraço pelo qual esperei por incontáveis meses. Toda a angústia e raiva desapareceram quando a abracei. Não sabia o quanto sentia falta do carinho materno que nunca me faltava na infância, até passar tanto tempo sem ele. Naquele momento eu soube que havia perdoado minha mãe. Ela não precisava fazer muita coisa ou tentar me compensar algo. Eu era a sua filha, afinal. Não seria capaz de negar perdão a pessoa que me colocou no mundo e que eu sempre soube que tanto me amava. Entendia o problema pelo qual ela estava passando e estava disposta a dar tudo de mim para ajudá-la a ficar bem novamente. Não tinha nada que eu não faria para ver essa mulher feliz de novo.
—Vai ficar tudo bem, mãe. — disse em meio aos soluços.
—Vai sim, meu amor. — ela respondeu, beijando a minha testa logo em seguida.
E eu sabia, do fundo da minha alma, que enquanto ela estivesse ao meu lado, tudo realmente ficaria bem.
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