Meu Diário Secreto
4 Capítulo 4: Revelações inusitadas
Horas mais tarde acordei com notificações de mensagem em meu celular. Peguei o aparelho e me surpreendi ao olhar as horas e perceber que já era noite. As notificações eram de JC.
JC: Ei, como você está?
CS: Acho que bem, e você?
JC: Ainda com um pouco de ressaca da festa de ontem, mas bem.
CS: Que bom!
Não me dei ao trabalho de continuar o assunto. Por mais que gostasse de conversar com JC, não sentia vontade de falar com ninguém nesse momento. Tudo o que eu queria era ligar minha playlist indie favorita, pedir uma pizza e deitar no chão do quarto escuro, e foi o que eu fiz. Algum momento depois ouvi o som de outra notificação do garoto.
JC: Tenho uma coisa importante pra falar com você.
CS: O quê???
JC: Não sei como te dizer isso, e não sei como tamanha coincidência foi acontecer, mas já que aconteceu, não tenho o que fazer a não ser te contar...
CS: Você tá me matando de curiosidade, anda logo com isso!!!
Me sentei e fiquei encarando a tela do celular, intrigada. Não era capaz de imaginar o que de tão importante ele poderia querer me dizer.
JC: Ontem durante a festa eu estava no andar de cima da casa conversando com alguns amigos, quando vi o Garrie Wilson do time de futebol subindo as escadas aos beijos com uma garota. Até então achei a situação normal. Por mais que soubesse que o cara é um grande babaca, tinha consciência de que as garotas estão constantemente na cola dele. Mas quando vi ele entrando no quarto do Davison, reparei na garota e ela não me parecia nenhum pouco sóbria, na verdade seus olhos estavam confusos e seus movimentos lentos demais, o que acabou me deixando curioso. Me aproximei da porta do quarto, já fechada, e tentei ouvir o que acontecia lá dentro. A menina exclamava algumas negações, enquanto o Garrie dizia pra ela colaborar com ele e que aquilo ia acontecer, ela gostando ou não. Nesse momento eu tirei minhas próprias conclusões do que tava acontecendo e entrei no quarto. Infelizmente estava certo em minha suposição, porque ela se encontrava apenas com a lingerie, enquanto ele a forçava a ficar quieta. Não tive controle da minha fúria e parti pra cima do Garrie, dando um soco na sua cara de bêbado nojento e mandando ele ir embora dali.
Não conseguia acreditar naquelas palavras. Já estava relendo o SMS pela terceira vez, quando chegou a continuação da história que eu sabia como acabava.
JC: Depois disso, peguei a roupa da garota no chão e a vesti. Também tinha um celular ali, que presumi ser dela, então procurei em suas mensagens o número de alguma amiga que poderia ir ajudá-la. Nas mensagens recentes estava o contato "Sarah BFF*", então liguei para a menina e pedi pra que ela fosse ao quarto. Antes de desligar o aparelho, não pude deixar de notar que o contato "JC" também estava nas mensagens recentes. Tinha que ter certeza que meus olhos não estavam me pregando uma peça, então rolei algumas mensagens, confirmando que a garota dona do celular, que estava deitada ao meu lado apreciando o teto do quarto, era a minha querida diária. Dito isto, CS, eu te pergunto novamente e preciso que seja sincera ao me responder: como você está?
O final de semana não poderia ficar mais esquisito do que isso. Quais eram as chances do garoto que me salvara de Garrie ser justo o garoto que não podia saber a minha identidade? Aparentemente o universo estava gostando bastante de zoar com a minha cara.
Eu encarava atônita a tela do celular, sem ideia do que responder após uma revelação como aquela. Não há dúvidas de que eu tinha várias perguntas em minha mente. Ele também havia descoberto meu nome? Como ele esperava que eu reagisse a isso? O que aconteceria entre nós agora? Ele também revelaria quem era?
Nada disso seria uma boa primeira reação. Mas ficar sem enviar uma resposta por cinco minutos também não era, porque ele mandou:
JC: Você está aí?
CS: Sim, estou aqui.
Foi tudo o que consegui responder. Não dá pra me culpar por não conseguir. Não depois da avalanche de informações jogadas em cima de mim de uma hora para outra. Eu já estava ficando irritada com a parte de mim que não conseguia obter reações específicas às coisas impactantes que aconteciam. Não poderia ser tão emocionalmente fraca a esse ponto.
CS: Ainda estou tentando elaborar uma resposta.
JC: Leve o tempo que quiser! Só...
JC: Não se feche pra mim, por favor. E não se sinta envergonhada. Tomar a decisão de te contar foi muito difícil, porque eu sabia que correria esse risco de fuder com a nossa, bem...com a nossa amizade.
CS: Você descobriu o meu nome?
JC: Sim, seria um pouco difícil mexer no seu celular e não ver em algum momento.
CS: Eu não sei bem por onde começar, mas acho que se não tentar, aí é que não vou saber mesmo. A noite de ontem é como um borrão em minha cabeça, e até saber a sua perspectiva dos acontecimentos, tudo o que eu tinha era o relato de Sarah. Isso me deixa muito frustrada, sabe? Não me lembrar de nada. Ainda estou tentando entender como me sinto em relação a tudo, mas algo dentro de mim não consegue parar pra refletir, é como se meu subconsciente tivesse evitando a todo custo lidar com o fato de que eu quase fui estuprada por um cara que eu mal conheço. Uau, dizer (ou digitar) isso pela primeira vez torna tudo muito mais real, e consequentemente mais assustador.
CS: Então respondendo a sua pergunta: não, eu não estou bem. E nem sei quando ficarei bem, mas no meio de toda essa bagunça em minha cabeça, uma coisa é certa, a gratidão que sinto pelo que você fez. Só Deus sabe o que poderia ter acontecido comigo se você não tivesse entrado naquele quarto. Não tenho como lhe agradecer por isso, de verdade. Muito obrigada por ter me ajudado em um momento que ninguém mais me ajudou. Obrigada por ter me salvado, JC.
JC: Eu estava no lugar certo, na hora certa. Não é como se eu fosse um super-herói ou coisa do tipo. Eu só fiz o que era certo.
CS: De qualquer forma sou grata.
JC: Sendo assim, não há de que, senhorita Sanders.
CS: Oh, por um momento eu me esqueci completamente que não sou mais um diário tão secreto Hahahahaha
JC: aheuahehahe belo nome, aliás ;)
CS: E quando eu saberei o seu nome?
JC: No fim do projeto, claro. Mesmo não sendo mais secreta, você continua sendo a minha diária.
CS: Eu não acredito que você não vai me contar! (imagine aqui uma Claire muito brava)
JC: Posso não ter visto o seu rosto por muito tempo, mas penso que o rosto da Claire brava é tão intimidador quanto um filhote de cachorro rosnando. Ele pensa que está assustando, quando na verdade todo mundo fica "iti malia coisa fofa rosna mais"
CS: Hahahahahahahahaha vai tomar naquele lugar!!!
JC: Que boca suja a sua, Claire Sanders ;)
—
Enfrentar uma manhã de aulas nunca foi tão difícil. Eu tentava parecer relaxada e normal, mas meu corpo permanecia em estado de alerta para qualquer aparição de Garrie no próximo corredor. Não sabia se seria capaz de olhá-lo e seguir meu caminho como se estivesse tudo bem.
Sarah entendeu que eu não queria falar sobre aquele assunto e fez o que uma boa melhor amiga faria, ou seja, ficar ao meu lado e tentar me fazer sorrir de vez em quando. Não me senti à vontade para contar que o garoto que me salvara foi JC, então achei melhor deixar como estava. A única coisa que ela disse sobre a noite da festa foi o quanto ela se arrependia de ter ido, não só pelos desastres ocorridos comigo, mas também pelo papel de trouxa que ela fez para Peter Davidson por várias horas, para ele acabar a noite beijando uma caloura qualquer.
—Eu vou focar nos meus livros, é isso o que vou fazer! — ela exclamou, revirando os olhos, enquanto fechava seu armário.
—Mas você já foca nos seus livros! — respondi, checando mais uma vez as pessoas no corredor, esperando que um certo alguém não estivesse ali.
—E agora eu vou focar ainda mais! — ela revirou os olhos, irritada. — Homens são uma merda, e eu já estou cansada de me apaixonar por esses escrotos do caralho.
—Ei, quem sabe agora você não investe na sua diária secreta?! — sugeri, lembrando que Sarah demonstrava constante empolgação quando se tratava da garota com quem conversava.
—Ah, claro, Claire. Só porque você tá caindo de amores pelo garoto que te escreve, não significa que eu vá cair pela minha também. Além do mais, eu nem sei se sinto atração por garotas também!
—Primeiro: eu vou ignorar o que você disse sobre eu cair de amores pelo JC. — respondi, enquanto andávamos em direção a sala de aula. — Segundo: nunca é tarde pra descobrir! Você fala na garota o tempo inteiro, não só como alguém legal que te dá atenção e conselhos, mas como alguém com quem você quer conversar 24 horas por dia. Aí tem coisa!
—Você é que está com uma imaginação muito fértil. — ela disse, tentando parecer irritada, mas percebi o sorriso no canto da boca que Sarah miseravelmente tentou disfarçar.
Meu celular vibrou com uma notificação assim que nos sentamos em nossos assentos no final da sala.
JC: Você aparenta muito melhor à luz do dia.
CS: Estar sóbria ajuda hahahahaha você me viu? Onde???
JC: Entrando na sala de aula. Com todo o respeito, Claire, mas você é linda.
CS: Olha, você deve estar precisando ir ao oftalmologista!
JC: Fui no mês passado e ainda fiz óculos novos ;) pode tentar achar vários argumentos, não vai mudar a minha opinião.
CS: Então você usa óculos? Muito bom saber, reduz bastante as minhas buscas. Além do mais, você está louco da cabeça, JC.
JC: Isso aí eu sempre fui aheuahehaheha Então você tem uma busca?
CS: Busca? Que busca? Eu não disse nada sobre isso :) Pare com essa risada estranha e presta atenção na aula.
JC: Duvido que você esteja prestando atenção na sua aula. E tô trabalhando em uma causa maior aqui.
CS: E que causa seria essa?
JC: Fazer você sorrir ;)
CS: Então você tá fazendo errado, porque não estou sorrindo.
JC: Eu aposto que está!
CS: Vou guardar o celular, a professora não para de me encarar.
Coloquei o aparelho na mochila e abri o livro na página que a professora anotara na lousa. De fato ela estava me encarando, mas não era só por eu estar usando o celular, e sim por estar rindo igual uma boba para ele. Pela primeira vez naquela manhã eu não tinha pensamentos ruins.
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