Meu CEO de estimação
10 O ponto de vista do CEO
Notas iniciais
— Shin Minyoung!
Eu exclamei e esperei pacientemente pelos exatos três segundos que Minyoung levava, sempre pontualmente, para percorrer às pressas o simplório caminho que separava o seu cubículo da minha sala sempre que eu a chamava, não importava a situação ou o tom da minha voz — eu tinha contado uma vez por pura curiosidade e, depois dessa fabulosa descoberta, cronometrar aqueles tão precisos três segundos tornou-se um dos meus hobbies mais divertidos e pessoais do dia. Em seguida, depois daquele curtíssimo espaço de tempo, a Shin entrava pela imponente porta do meu escritório sempre como se tivesse acabado de ver um fantasma: os olhos escuros arregalados, a boca, essa habitualmente pintada por um batom cor de rosa bem clarinho e quase imperceptível, entreaberta pela falta de fôlego e a mão pressionando a maçaneta como se estivesse segurando o pedaço de metal para que não despencasse direto no chão; isso tudo depois de abrir a porta sem sequer bater, algo que eu mesmo havia a autorizado fazer para que os seus três segundos pudessem se tornar um pouco mais confortáveis.
Assim, eu comecei a contar. Um. Dois. Três. Ajeitei-me na minha cadeira, já pronto para receber o furacão Shin Minyoung e...
Nada.
Mas como assim “nada”? Minyoung nunca me desapontava com os três segundos, a não ser que não estivesse na empresa. Mas eu não me lembrava de tê-la mandado fazer nada na rua, então...
— Ah. — deixei o som frustrado escapar da minha boca assim que me dei conta do porquê daquele atraso. — Ela está de folga hoje.
Não se tratava de um atraso daqueles preciosos três segundos, mas sim do fato de que ela simplesmente não viria ao ouvir o meu chamado naquele dia em específico porque bem, ela não conseguiria escutar o meu grito da sua casa nem se eu estivesse rodeado por dez megafones enquanto berrava. Isso se ela estivesse em casa, óbvio. Mas é claro que ela estava em casa naquele momento, caso contrário, onde mais estaria? Todos na empresa sabiam que tudo o que Shin Minyoung via na sua frente era o trabalho e mais nada além disso; por isso, arrisco eu a dizer que ela sequer saberia o que fazer com o seu dia de folga. Sinceramente, eu não fazia ideia do porquê ela se esforçava tanto daquele jeito, mas também não tinha por que reclamar sobre aquilo. Ela sempre chegava antes e ia embora depois de mim sem nunca ter reclamado do horário, fazia tudo o que eu lhe pedia e raríssimas eram as vezes que cometia algum erro, então tudo o que eu podia fazer era me sentar na minha confortável cadeira de couro e agradecer mentalmente por ter a melhor secretária de toda a empresa trabalhando para mim. Minyoung não me trazia problemas e é nisso que consiste a figura de uma boa secretária, certo?
Mas maldição, quem eu estava tentando enganar afirmando que tinha certeza de que ela estaria em casa naquele momento? A verdade era que eu não conhecia nem um terço da pessoa Shin Minyoung, o que, inclusive, causou o meu espanto ao descobrir que ela era próxima de alguém como Joshua Hong; que já era meu amigo de longa data, aliás. Onde eles teriam se conhecido? Talvez tivessem estudado juntos em algum momento, quem sabe. Teriam se conhecido na cidade natal dela?
Espera, de onde a Secretária Shin disse que era mesmo?
Bufei e me deixei escorregar pela cadeira, desistindo da minha habitual postura de executivo confiante e bem-sucedido — não que eu não fosse, claro, mas de vez em quando a minha coluna praticamente gritava por um descanso, o qual eu lhe dava de presente sempre que ficávamos à sós.
— Por que eu estou gastando o meu precioso tempo pensando na Secretária Shin? — murmurei para mim mesmo enquanto girava a cadeira tediosamente. — Um diretor da minha importância não deveria estar fazendo algo igualmente importante?
Continuei girando a minha cadeira enquanto fitava o teto, que parecia estar me seguindo naquela altura do campeonato. Todo aquele processo giratório estava começando e me deixar tonto e enjoado quando, de repente, fui surpreendido pela porta do meu escritório sendo aberta sem nenhuma cerimônia.
Mas espera um minuto aí... A Shin era a única autorizada a entrar sem bater e, se ela não estava na empresa hoje, quem diabos tinha sido o inconveniente a...
— Jeonghan-ah! — ouvi a voz masculina me chamar tão informalmente e, mesmo que eu ainda estivesse no meio do caminho entre parar a minha cadeira e finalmente descobrir quem entrava pela porta feito um furacão, de imediato eu já soube de quem se tratava.
— Choi Seungcheol. — pronunciei o nome sem muito entusiasmo e, como eu já esperava, foi o próprio quem eu encontrei ao me endireitar na cadeira. Eu o encarei, sério. — Eu sinceramente não acredito que a Sra. Choi, aquele doce de mulher, não tenha lhe ensinado a bater antes de entrar em algum lugar.
Eu simplesmente detestava aquele ato explícito de falta de educação e, justamente por saber e muito bem disso, era que Seungcheol o fazia sempre que tinha a oportunidade. Se nós não nos conhecêssemos desde crianças, eu certamente já teria o demitido mesmo que o Choi fosse um excelente e extremamente criativo diretor de marketing — ele me irritava e aquilo já era motivo mais do que suficiente para colocá-lo na rua, ponto final.
— Ela não me ensinou a bater na sua porta. — ele rebateu, ainda que a piadinha não tivesse muito sentido, e riu. Em seguida, aproximou-se da minha mesa com o seu terno cinza e o cabelo preto que sempre balançava sedoso conforme o vento. Ele só não era mais bonito do que eu dentro daquela empresa, isso eu tinha que admitir. — Eu preciso lhe perguntar uma coisa.
Ah, finalmente alguém para reconhecer a minha importância! Mesmo me irritando, seria bom que Seungcheol estivesse ali, muito que provavelmente para pedir a minha autorização ou conselho para finalizar alguma decisão elementar, pois assim eu poderia ocupar a minha mente brilhante com algo que não fosse a minha secretária.
— Eu estou um pouco ocupado, mas pode falar. — eu disse enquanto fechava um botão do meu terno roxo escuro impecavelmente passado e esticava a minha postura.
— Na verdade... — o Choi iniciou e, depois de uma olhadela na direção da porta, voltou a me encarar. — Eu só queria saber onde está a Secretária Shin.
Meus ombros automaticamente caíram diante daquela afirmação tão descarada. Céus, a minha importância nunca foi tão negligenciada assim antes.
— E para que você precisa dela? — indaguei. — Eu estou bem aqui, resolva comigo.
Seungcheol riu exatamente na minha cara, transbordando a falta de noção do perigo que tinha.
— Jeonghan–ah, não é porque você é o chefe dela que sabe de tudo que ela faz. — ele rebateu e, por um momento, eu inconscientemente me perguntei se o Choi se referia apenas ao âmbito profissional. — Eu tinha pedido à Secretária Shin o balanço de vendas de discos de todos os meses do ano passado para a reunião que teremos mais tarde, com o pessoal do financeiro. Você sequer sabe onde encontrar isso?
Ele estava realmente falando do âmbito profissional, óbvio.
— Espera. — franzi o cenho quando me dei conta de algo preocupante em sua frase. — Nós temos uma reunião com o pessoal do financeiro mais tarde?
— Isso é sério? — o Choi retrucou incrédulo e bufou logo em seguida. — Talvez você devesse começar a chamar a sua secretária de Babá Shin, porque você claramente não sabe fazer nada sem ela por perto.
Tudo bem, agora eu estava ofendido de verdade.
— A Minyoung está de folga! — exclamei no ápice da minha revolta, me levantando da minha cadeira no meio do processo sem nem perceber. — Satisfeito? Agora, se você quiser tanto esse maldito documento, vá até a casa dela ou dê outro jeito de consegui-lo.
Eu confesso que sabia da existência de uma inovação tecnológica incrível nomeada de celular, contudo, o efeito dramático não teria sido o mesmo se eu tivesse sugerido uma simples ligação telefônica. Em resposta, Seungcheol se inclinou na minha direção com um indicador acusador balançando no ar.
— O seu mau humor está pior do que o normal hoje. — disse, espreitando os olhos relativamente grandes para o padrão asiático. — Aconteceu alguma coisa para ela ter pedido folga?
— Ela não pediu nada, eu que dei. — respondi. — Ela trabalhou muito ontem à noite e eu não achei justo fazê-la trabalhar mais hoje, ainda mais tendo passado a madrugada praticamente inteira em claro.
Por um momento, a imagem da Shin dormindo sobre uma pilha interminável de papéis me voltou à cabeça, o que me fez rir inconscientemente. Ela chegou a babar debruçada sobre a mesinha de centro da sua sala de estar e, se eu não tivesse recolhido as fichas assim que percebi que ela tinha pegado no sono, ela provavelmente teria estragado o próprio trabalho com a sua própria baba. Fazia frio naquela noite, porém, eu não tinha ideia de onde poderia encontrar um cobertor naquela casa e também não achei adequado sair procurando, então eu apenas a deixei dormir confiando que uma única noite naquele estado não lhe faria mal.
Já eram quase cinco horas da manhã quando eu resolvi que já passava da hora de encerrar os trabalhos e, ao pousar novamente os olhos em Minyoung, que ainda dormia profundamente, achei que seria injusto ela ter que acordar dentro de tão poucas horas para vir à empresa, pelo menos depois de tudo o que tinha feito por mim naquela noite. Por isso, eu alcancei um pequeno bloco de post-it jogado sobre a mesa e lhe escrevi um bilhete para que ficasse em casa. Fitei a Shin, que dormia com a boca aberta e a cabeça repousada sobre o braço direito, e logo achei o lugar perfeito para colar o pequeno papel fluorescente: a sua testa. Com cuidado, eu me aproximei da secretária dorminhoca, afastei o cabelo que caía sobre o seu rosto e colei o post-it centralizado na sua testa enquanto segurava uma gargalhada. Percebi que deixar as mechas de cabelo caírem novamente acabaria arrancando o papel e estragaria a minha traquinagem, então eu as levei silenciosamente para a parte de trás da orelha de Minyoung, prendendo-as ali.
E então, a lembrança do meu coração repentinamente acelerado também me veio à tona. Talvez fosse culpa do cansaço que me atingia, do sono ou ainda dos tímidos raios solares que já começavam a invadir a sua confortável sala pela janela, mas o modo pacífico e relaxado com que a Shin dormia ali, visto de tão perto e do ângulo de onde eu estava, a deixava extremamente... bonita. Tratou-se de um momento bem curto, pois eu logo percebi meus olhos fixos nela e a salivação excessiva tomando conta da minha boca, tratando de me afastar o mais rápido possível — mas que, ainda assim, estava presente e estranhamento vívido na minha memória.
Céus, como ShinMinyoung poderia ter me causado todo aquele efeito? Eu realmente estava precisando descansar e recolocar a minha mente no seu devido lugar.
Talvez eu também devesse ter tirado um dia de folga, quem sabe.
— Mas como você sabe que ela passou a madrugada inteira acordada? — Seungcheol indagou sorrateiramente me arrancando dos meus pensamentos e só então eu me dei conta do quanto que ele tinha se aproximado, agora quase debruçando-se sobre a minha mesa. — Por acaso, vocês... estavam juntos?
Se eu estivesse bebendo qualquer tipo de líquido naquele momento, tenho certeza de que teria acontecido uma das duas únicas opções cabíveis:
(A) Eu teria cuspido tudo na cara pálida e sugestiva de Seungcheol.
(B) Eu teria me engasgado até uma quase-morte.
Para a minha felicidade, não havia sequer água por perto naquele momento.
— É claro que nós estávamos juntos. Se não, como eu saberia disso? — eu respondi num tom óbvio, ainda que algo estivesse me deixando extremamente incomodado e inquieto diante do olhar malicioso do Choi. — Havia um trabalho que precisava ser terminado com urgência e nós usamos a madrugada para isso, fim. Pelos céus, você não conhece o conceito de espaço pessoal não?
Sem perder tempo, eu o afastei de mim e retornei para a minha cadeira, assumindo a expressão facial que era de se esperar de um diretor de respeito e, assim, esperando que o Choi se tocasse de que já tinha passado da hora de me deixar em paz. Ele, por sua vez, riu e sacudiu a cabeça.
— Se você diz, então tudo bem. — deu de ombros, preparando-se para finalmente ir embora. — Eu vou indo, vou procurar o documento em outro lugar e tudo mais... Não esqueça dessa reunião, Jeonghan–ah.
Eu apenas acenei positivamente e logo estava sozinho em minha sala novamente, suspirando fundo e deixando meus ombros caírem. Voltei a girar a minha cadeira enquanto me perguntava o quão inconveniente Seungcheol poderia ser.
Pelo visto, aquele seria um longo e tedioso dia.
***
Até esperar pelo elevador naquele dia estava sendo solitário e monótono e, sinceramente, aquilo já estava começando a me aborrecer. Eu admito que não costumava ser a pessoa mais paciente e simpática do mundo quando algo me incomodava ou irritava, contudo, eu infelizmente tenho que confessar que hoje o meu pavio estava duas vezes menor. Há pouco, um dos executivos do setor de planejamento tinha parado ao meu lado enquanto falava ao telefone num tom desnecessariamente alto e, por um momento, eu cogitei virar para o lado e demiti-lo — e a única coisa que me impediu foi notar, de última hora, que isso não ajudaria em nada no plano de conquistar os funcionários que eu havia passado a noite inteira montando com Minyoung. Bufei e pigarrei tão alto quanto a voz do homem, que logo notou a minha insatisfação e tratou de sumir do meu campo de visão
Sábio homem.
Agora, eu esperava pelo elevador enquanto tentava decidir onde deveria almoçar. Eu não estava com fome, contudo, o tédio era tanto que eu tinha simplesmente optado por sair e comer, ainda que agora me faltasse o lugar. Geralmente, como eu fazia quase todo dia, eu teria apenas pedido uma sugestão a Shin Minyoung, que sempre me indicava o restaurante certo até quando eu mesmo não sabia o que queria comer, mas não era como se eu simplesmente pudesse gritar pela minha secretária naquele momento. Bufei novamente, me perguntando porque diabos eu tinha escolhido um dia tão péssimo para dar folga a Shin.
As portas do elevador se abriram e eu entrei seguido por mais duas mulheres, uma delas, inclusive, era a secretária de Seungcheol. Ambas me cumprimentaram com um aceno educado e rápido de cabeça e pararam alguns passos na minha frente dentro do cubículo metálico. De repente, lembrei-me de Minyoung comentando na noite passada que a secretária do Choi tinha acabado de descobrir uma gravidez, o que vinha sendo um assunto bastante comentado no setor de marketing na última semana.
Era a chance perfeita.
— Secretária Do? — eu a chamei com um sorriso educado estampado no rosto e a mulher automaticamente se virou para trás, um tanto assustada com o meu repentino pronunciamento. — Eu não quero atrapalhar, apenas queria lhe desejar parabéns e felicidades pela gravidez. Mais tarde eu envio um presente propriamente dito, prometo.
As duas mulheres pareceram extremamente espantadas no começo, contudo, a secretária de Seungcheol logo sorriu de volta.
— Imagina, Diretor Yoon, não precisa de presente nenhum. — comentou. — Eu fico feliz apenas pela consideração do senhor.
Em seguida, as portas do elevador se abriram e as duas mulheres se despediram cordialmente, deixando-me para trás aos cochichos. A Secretária Do parecia realmente tocada e feliz pelo meu comentário e, sinceramente, eu também estava satisfeito comigo mesmo por ter lembrado da sua gravidez e tomado uma atitude como aquela, ainda que se tratasse de algo simples. Eu pretendia fazer daquele o primeiro de muitos passos que ainda daria na direção dos funcionários da Price e, felizmente, tinha Minyoung ao meu lado para me ajudar com aquilo.
Bem, parecia que não tinha como escapar daquela mulher.
A Shin já estava há três anos ao meu lado e, sendo sincero, só muito recentemente eu me dei conta de que venho fazendo-a trabalhar demais; explorando seria o termo certo, mas usá-lo também me pareceu radical demais. De um jeito ou de outro, vê-la tão cansada na noite passada, dormindo toda torta e debruçada sobre uma mesinha de centro de madeira velha por minha causa, me fez perceber que ela precisava de um descanso vez ou outra, ainda que isso significasse que eu passaria a ter mais dias como aquele pela frente. Ela vinha me ajudando muito nesses anos, inclusive indiretamente com a própria Secretária Do agora mesmo, então eu chamaria aquilo de bônus não-monetário e me obrigaria a fazer aquele sacrifício de lhe dar suas merecidas folgas.
— O que será que ela está fazendo agora? — eu murmurei sozinho enquanto caminhava pelo térreo do prédio em direção ao estacionamento.
— Deixa de ser burro, cara! — um entregador de comida passou por mim parecendo discutir com alguém ao telefone, me assustando ao ponto de me fazer parar de andar. — Todo mundo tem alguma rede social hoje em dia! Procura a dela e descobre tudo, oras.
O garoto sumiu com a mesma rapidez com a qual apareceu, porém, me deixou para trás com uma pulga atrás da orelha — ou melhor, com uma lâmpada imaginária acesa sobre a minha cabeça. Era óbvio que ele não tinha falado diretamente comigo, contudo, uma ideia solta no ar estava lá para ser aproveitada por qualquer um, certo?
Apressei o passo até o meu carro e, já dentro do mesmo, saquei meu celular do bolso da calça e entrei naquela tal rede social na qual as pessoas adoram se expor; essa mesma, o Instagram.
Mas como eu conseguiria encontrá-la?
Primeiro, tentei seu nome completo, mas nenhuma das dezenas de Shin Minyoung’s que apareciam como resultado da minha pesquisa eram a minha secretária. E agora? Bem, talvez ela usasse algum apelido, travessão ou...
— Mas é claro! — exclamei para mim mesmo, estalando os dedos no ar ao ter uma ideia tão genial. No campo de busca, eu pesquei por Min Mine não demorei a encontrar alguém com aquele apelido e mais alguns seguidores em comum comigo, ainda que poucos. — Tão previsível, Min Min...
O perfil da Shin era discreto e, para a frustração dos meus planos, tinha sido atualizado pela última vez há dois anos. Ela muito mal tinha fotos de si própria, o que refletia bastante da sua personalidade simples e reservada, mas não me ajudava a sanar a minha curiosidade sobre... Bem, sobre o que exatamente eu estava curioso mesmo? Era só para saber o que ela fazia nos seus dias de folga que eu estava parecendo um completo stalker de filmes policiais?
Céus, o que estava acontecendo comigo? Talvez o tédio fosse tanto que...
De repente, uma atualização inesperada na página interrompeu os meus pensamentos e revelou uma foto de alguns pratos típicos da culinária coreana. Logo acima, havia a localização de um restaurante bem popular no centro da cidade, o qual eu conhecia apenas por nome. Ela tinha atualizado o seu perfil depois de dois anos de um completo sumiço e justamente quando eu estava o olhando... Quais eram as chances de isso realmente estar acontecendo? Atualizei a página em busca de mais alguma coisa, contudo, a única diferença que notei foi um comentário na foto recém-postada.
“@shin_songyoung: Unnie, é realmente você que está usando essa conta? Nem acredito que saiu para se divertir um pouco! Guarde um pouco para a sua irmãzinha caçula, por favor.”
Então Minyoung tinha uma irmã mais nova? Eu não fazia ideia disso, até porque ela parecia morar sozinha naquela casa e nunca tinha me falado sobre a sua família antes. Céus, parecia que eu nunca iria parar de descobrir coisas sobre essa mulher! E isso não ajudava muito com a minha curiosidade, sendo sincero.
Fitei a foto novamente. O churrasco coreano exposto bem no centro de diversos outros pratos de acompanhamento fez o meu estômago roncar pela primeira vez naquele dia e, por isso, eu não hesitei em ligar o carro e me dirigir até o restaurante que vendia a minha carne favorito em Seul e que, inclusive, não ficava muito longe da empresa. O lugar acabou por estar relativamente vazio e eu pude ter a minha refeição em paz, saboreando toda aquela carne até a minha barriga começar a pedir socorro de tão cheia.
— Será que ela já terminou de almoçar? — falei sozinho enquanto mastigava o último pedaço de carne e logo saquei o celular do bolso, indo diretamente até o perfil de Minyoung no Instagram.
Outra atualização. Dessa vez, uma foto de um ingresso de cinema para um filme de suspense policial que tinha acabado de ser lançado, essa acompanhada de uma legenda animada que vinha logo abaixo. Engraçado, eu esperava que a Shin fosse preferir comédias românticas ou filmes de drama, mas ela acabou me surpreendendo mais uma vez. Contudo, suspenses policiais eram realmente mais interessantes... Talvez, eu devesse procurar por um filme do mesmo gênero para assistir mais tarde, quem sabe.
Espera, por que mais tarde? Aquele dia estava tão tedioso, que uma pequena distração ao longo da tarde não me faria mal. Assim, com esse pensamento em mente, eu voltei para a empresa e me tranquei em minha sala, abrindo um aplicativo qualquer de filmes no celular e escolhendo um filme policial que há muito tempo estava querendo ver. E eu devo confessar que valeu a pena, pois agora, já chegando no final do mesmo, eu estou morrendo de curiosidade para saber quem...
De repente, tive o filme brutalmente interrompido pelo toque do meu celular, o que me fez resmungar em alto e bom som. O nome de Seungcheol piscava na tela do aparelho e, mais uma vez naquele dia, eu cogitei demiti-lo por me irritar tanto.
Atendi a chamada.
— Choi Seungcheol, eu espero que você tenha um ótimo motivo para interromper o meu...
— Quanto tempo mais você pretende se atrasar para a reunião com o financeiro, Yoon Jeonghan? — Seungcheol me interrompeu e eu, espantado, fitei o relógio que cobria o meu pulso esquerdo.
— Reunião? Mas é só daqui a duas horas.
— É agora, Jeonghan–ah! — ele exclamou e eu pude sentir a sua frustração palpável do outro lado da linha. — Céus, venha imediatamente para cá e, pelo bem da humanidade e principalmente dessa empresa, nunca mais dê um dia de folga para a sua secretária.
Mesmo extremamente ofendido com a sua afirmação, eu não pude retrucar, já que o Choi havia desligado o telefone na minha cara e, bem, eu precisava literalmente correr para a sala de reuniões e não tinha tempo para mais nada no meio do caminho. Infernos, eu ia ficar sem saber quem matou a mocinha no final do filme...
— E antes eu tivesse ficado na minha sala assistindo ao filme. — foi a conclusão na qual eu cheguei ao término da tal reunião, resmungando aquilo para mim mesmo, ainda que alguns executivos ainda estivessem pela sala.
Felizmente, todos pareciam ocupados demais para notarem a minha carranca e, mesmo se tivessem notado, ninguém seria louco de me questionar quanto àquilo. Bem, ninguém menos uma única pessoa.
— O que diabos está acontecendo com você hoje? — Seungcheol perguntou num sussurro revoltado ao se aproximar de mim. Ela estava com alguns documentos em mãos e, por um momento, eu me perguntei se ele realmente tinha achado o tal relatório que tinha pedido à minha secretária. — Fazia anos que você não se atrasava para uma reunião.
Três deles, mais especificamente.
— Eu estava ocupado com outra coisa. — menti e dei de ombros, sempre mantendo a postura firme.
O Choi me fitou e soltou um suspiro contido, esperando que os executivos restantes deixassem a sala para me encarar como se estivesse prestes a perder o seu réu primário.
— Eu preciso beber. — concluiu, por fim, e deixou os ombros caírem em cansaço. — Você paga a rodada de hoje para compensar pelos meus danos psicológicos.
— Não posso ir hoje. — eu o respondi imediatamente.
Fitei o relógio no meu pulso, que marcava a falta de vinte minutos para as oito da noite. Eu mal podia acreditar que aquele dia tinha acabado por passar tão rápido, ainda mais por causa do Instagram de Shin Minyoung — e que, agora, eu estava prestes a chegar na melhor parte de todas.
— Por que não? — o Choi perguntou, revoltado. — Hoje nem é sexta-feira!
Seungcheol, assim como qualquer outra pessoa que me conhecia, sabia sobre o meu compromisso inadiável das sextas-feiras à noite, apesar de não fazer ideia do que se tratava. Ele tinha desistido de descobrir há alguns bons anos e, depois disso, tinha apenas passado a não contar comigo para nada naquele dia da semana.
Pois mal sabia ele que agora a minha semana tinha um total de três noites de sextas-feiras.
— Mas é quarta, o que dá no mesmo.
Segundas, quartas e quintas. A escolha daqueles dias em específico pela parte da Shin ainda me intrigava, contudo, não era como se eu tivesse alguma oposição àquilo. Assim, eu deixei para trás um Seungcheol um tanto inconformado e parti em direção à casa de Minyoung sem sequer passar no meu próprio apartamento primeiro, já que eu já havia deixado tudo do que precisava na casa dela — e ela não tinha gostado muito da ideia, contudo, não havia o que ser feito contra o meu incrível poder de persuasão.
A ideia do pet play me encantava de um jeito único e diferente. Não pela parte sexual, como um fetiche que muitos tinham entre quatro paredes, mas sim pela ideia de ser cuidado daquele jeito por alguém. Ser alimentado, banhado, acariciado... Eu não sabia explicar, apenas expressar o quão bem aquilo me fazia. E os clubes que eu já tinha frequentado tinham satisfeito a minha necessidade, contudo... eu nunca tinha encontrado alguém tão bom naquilo quanto ShinMinyoung. Apesar de desconfortável no começo, ela nitidamente tinha começado a se acostumar com a ideia e, no fim das contas, percebido que não havia outro jeito além de satisfazer as minhas vontades como o seu encantador gatinho. Eu ainda conseguia sentir os seus dedos esfregando com delicadeza e cuidado o meu couro cabeludo, como se eu realmente fosse um filhotinho pequeno e frágil. Eu confesso que ainda tinha as minhas desconfianças em relação a Shin e como ela lidaria com toda aquela situação, contudo, naquele momento em específico, eu soube que não poderia ter tido uma ideia melhor quando sugeri que ela me adotasse.
Dali em diante, eu soube que ela seria a dona perfeita.
Quando me dei por mim, já estava entrando na rua da casa de Minyoung, porém, fui impedido de estacionar em frente à sua casa. Já havia outro carro ocupando aquela vaga, o que me fez parar alguns bons metros atrás, desconfiado, e espreitar os olhos para ver o que conseguia enxergar em meio à pouca luz da noite e da rua um tanto mal iluminada. Contudo, o que eu acabei encontrando fez com os meus olhos passassem de dois pequenos traços curiosos para um par orbes arregaladas e prestes a saltar do meu próprio rosto.
— Joshua? — constatei surpreso, fitando a figura alta e elegante do Hong parada ao lado do seu próprio carro.
Era a primeira vez que eu o via usando roupas tão casuais, um dos motivos da minha demora em reconhecê-lo. Os meus olhos, ainda chocados, desviaram dele diretamente para uma outra figura parada diante de si, a qual eu reconheci imediatamente.
ShinMinyoung.
Ela coçava a nuca um tanto sem jeito e, quando abaixou a cabeça para fitar os próprios pés, eu notei um sorriso largo surgir nos lábios do Hong. O que ele estava fazendo? Sobre o que estariam conversando? Céus, eu nunca quis tanto ser uma mosca em toda a minha vida. E das mais varejeiras possíveis, para conseguir espantar logo aqueles dois dali.
Em seguida, para piorar o meu estado catatônico, os dois começaram a caminhar. Primeiro, Minyoung saíra na frente, mas Joshua logo havia se apressado para acompanhá-la ao seu lado. Eles andavam na direção oposta de onde eu estava e, de costas para mim, pareciam um estúpido retrato de um casal jovem e feliz. Foram caminhando com tranquilidade, um passo mais animado do que o outro, e, de repente, sumiram do meu campo de visão. Eu fiquei para trás, imóvel e com a boca pateticamente entreaberta, e fitando o relógio pude ver os ponteiros marcando exatas oito horas da noite.
— Yah, Shin Minyoung! Você não está planejando sair saltitante com o Hong e me deixar aqui plantado e esperando por você, está? — exclamei apontando na direção de onde a minha visão tinha conseguido alcançá-la pela última vez. — Você não ousaria fazer isso...
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