Meu Anjinho Da Guarda.

2 II - Primeiro (e último) dia na casa da Sra Briggs


Ontem foi meu primeiro dia na casa da Sra. Briggs. Ela foi muito legal comigo. Mesmo sabendo apenas uma parte da história que eu contei, ela me acolheu na sua casa e me ajudou a enterrar o moço da casa ao lado. Quando ela ouviu meus gritos e me viu correndo pela rua, toda ensanguentada, foi logo me acolher. Me disse que tudo ficaria bem e que a gente precisava encontrar um lugar pra colocar o que sobrou do corpo do moço. Contei pra ela que o moço me levou pra algum lugar escuro e queria cortar meus braços e pernas. Ela me disse que ele era muito estranho com o pessoal da cidade e que ninguém gostava de fazer cirurgias com ele, acho que sei o porquê. Por um momento, notei algo de estranho nela. Ela não era mais uma velhinha simpática e que sorria. "Deixe que eu enterro o Sr. Montes", disse ela, me deixando dentro de sua casa, enquanto ela ia para o porão e enterrava o corpo. Mesmo com medo, eu queria muito ajudar a velhinha, mas ela estava diferente. Aproveitei que ela não estava em casa e fui ver o que tinha lá. Encontrei na parede várias fotos de uma mulher idêntica à ela ao lado de um homem muito bonito. Uma foto me deixou, em especial, mais encantada. Não resisti e tirei ela da parede, precisava ver de pertinho. Era a mesma moça dos outros quadros, mas agora estava séria, em frente à um celeiro no meio de um deserto. Senti um calafrio na nuca, como se algo trágico tivesse ocorrido ali. Lembrei dos quadros que tinha na minha casa do papai e da mamãe jovens, eles sempre vinham com uma legenda atrás com alguma descrição. Sem pensar duas vezes, eu virei o quadro e li: "SANDY BRIGGS, 1979, DESERTO DO T...". Quando fui ler o local que havia o celeiro, ouvi uma batida na porta. Fui correndo para a sala de estar ver se a Sandy estava lá. Engano meu. Não era nada, apenas o vento batendo a porta. Eu tinha certeza que vi a Sra. Briggs trancando-a. Estranho. Morta de cansaço, deitei no sofá e dormi, não liguei se a velhinha me acordaria ou algo do tipo. "Acorde, mocinha", disse a velha, colocando um prato de pão com hambúrguer no meu colo e um copo com achocolatado na mesa. Comi muito rápido, já que havia comido pouco, apenas um McLanche Feliz na última noite. Ela me contou aonde tinha escondido o corpo do moço e que eu poderia ficar na casa dela para sempre. Adorei a ideia e aceitei na hora. A tarde toda fiquei assistindo TV e comendo x-búrgeres e sorvete de morango, o meu predileto. À noite, ouvi denovo um barulho na porta da sala de estar, fui lá para e ver e não havia nada. Quando me virei para voltar para o quarto que a Sr. Briggs arrumou para mim, vi novamente a silhueta de um homem. "Pazuzu!" gritei. Fui correndo do seu lado. Eu gostava muito dele. Desde a última vez que nos vimos, me sentia com medo e vergonha de falar dele para outras pessoas, então decidi guardar ele comigo como um segredo. Ele me disse que eu precisava seguir meu trajeto, já que a primeira missão que eu fiz, tinha completado. Acho que eu sou uma ótima espiã. Bom, pelo menos é isso que Pazuzu me disse. "Cuidado com a Sra. Briggs" ele me disse. "Ela pode estar sendo legal com você, mas você é só mais uma na lista dela, assim como era para o Sr. Montes.". Claro que não! Sra. Briggs era uma ótima velhinha, me acolheu quando eu estava perdida, compreendeu o que eu tinha ocorrido anteontem, mesmo não sabendo toda a história, e por cima, eu comia hambúrguer toda hora. Fui dormir. Acordei com um barulho estranho vindo do sótão. Era alguém pedindo socorro? Fiquei curiosa, e fui lá em silêncio. Depois de muito esforço, consegui abrir a pequena portinha que levava âo sótão. Era um lugar bem aconchegante, se não fosse pelo que vi mais ao fundo. Na parede, haviam várias partes humanas. Desde cabeças de adolescentes à dente de crianças. Era um lugar muito assustador, mas eu não me sentia amedontrada. Na verdade eu até gostava de ver aquilo, mas tentei repreender o sentimento e procurar a voz. O sótão da Sra. Briggs era muito iluminado na parte do fundo, mas quando apertei o interruptor da parte mais longe da porta, pude ver muito melhor o que estava dos meus lados. Além de partes humanas, havia no chão brinquedos estragados. Bicicletas, bonecas e ursinhos de pelúcia. Neste momento, me lembrei do Teddy e quase chorei de saudades. Queria o Teddy agora, mas ele já estava na casa do moço, não queria voltar lá. Novamente ouvi um pedido de socorro, e quando me virei, vi Sandy Briggs com um bisturi em frente à uma maca com uma menina. Corri para o lugar aonde os brinquedos estavam, me escondi lá e fiquei observando. Delicadamente, Sandy começou a cortar o peito da menininha, provavelmente uns 5 anos de idade, parecia comigo. A cada grito, mais sangue jorrava do peito da criança. Finalmente ela parou de gritar. A velha enfiou a mão no peito da menina de um jeito estranho e arrancou uma bola grande de lá. Acho que era o coração dela. E sem pensar duas vezes, comeu o coração! Neste momento, os cabelos dela foram ficando mais escuros, a pele dela menos enrugada e um rosto mais bonito pude ver. Ela parecia agora, não mais ter 80 anos e sim uns 30. Neste momento, ouvi um "hihi, eu te AMO! *smack*" e vi a Sandy vindo do meu lado. Era uma boneca! Sem querer, apertei a boneca com meus pés enquando me escondia no meio dos brinquedos. Ela vinha sem parar, até que, sem medo, pulei da frente dos brinquedos e fui para a maca da menina. Agora eu consegui ver como ela estava de verdade. Além de estar mais nova, seus olhos não haviam pupilas, eram apenas brancos. Ela gritava com muita raiva e com uma voz mais grossa, como a de uma pessoa possuída. Ela foi correndo até mim e levantou sua mão, mostrando a sua palma. Não sei como, mas isso me jogou contra a parede e me deixou imóvel. Não conseguia me mexer. "Você é uma menina muito atrevida. Susy também era assim. Olha aonde ela está agora" disse Sandy com sua voz normal, apontando o dedo sujo de sangue para a cama. "Um demônio disse que tem ótimos planos para você, certo?". Então, Sandy veio até mim e ficou me observando. Eu fazia muita força pra tentar me mexer, mas não conseguia. Por um minuto, senti uma dor muito forte na minha cabeça e depois desmaiei. Acordei amarrada na maca. Algumas marcas de sangue ainda estavam no couro velho. Estava com muito medo. "Pazuzu!" eu gritava. "Venha me ajudar! Estou em perigo. Venha, por favor!" dizia, mas ele não respondia. Ouvi alguns passos vindo ao meu lado. Era Sandy. Ela chegou mais perto de mim e abriu a boca de um jeito muito estranho. Sua boca ficou enorme e começou a aspirar alguma coisa na minha frente. Eu gritava muito pedindo ajuda a Pazuzu, mas a cada segundo, minha voz ia ficando mais distante, enquanto Sandy ia ficando mais jovem. Quando ela terminou de aspirar daquele jeito estranho, minhas forças tinham acabado, e quando olhei para o lado vi um pano branco na minha cabeça. Ele não estava ali antes. Forcei um pouco mais minha vista e vi o que era: meu cabelo tinha ficado branco. Olhei para baixo e vi algo muito pior: minha pele estava toda enrugada, meus dedos tortos. Eu estava velha! "O que você fez comigo?" perguntei, assustada. "Digamos que trocamos de corpo", ela me respondeu. Quando olhei para ela, vi uma pessoa igualzinha a mim. Os cabelos, o rosto e tudo mais. Era eu! Ela pegou um espelho e colocou em frente a mim. Eu me transformei em Sandy Briggs mais velha. "Quer saber seu futuro, mocinha?" disse ela, com a minha voz. "Eu sou você, daqui vários anos. Você acha que Pazuzu quer te ajudar? Errado. Nós somos a escolhida para o plano dele, mas saiba que você fez algo muito errado e a única chance de consertar tudo isso é eu me matando quando tudo começou. Assim, eu e você seremos uma novamente, porém estaremos mortas." Quando ela acabou de dizer, eu estava tremendo. Um calafrio percorreu toda a minha espinha e não senti mais nada em meu corpo. Não gritava mais. Ela pegou uma estaca enorme de metal e penetrou em minha barriga. Minha vista ficou embaçada e, então, eu morri.