Meu Amor De Uma Noite
1 Capítulo único
Notas iniciais
Vou resumir um pouco o que aconteceu. Então, eu sou a maior fã da Charlotte Granger, aquela da saga de sucesso. Um belo dia eu estava estava vendo televisão e passou o trailer do filme novo dela e disseram que Charlotte e Percy que também faz parte do elenco viriam para o Brasil divulgar o filme. Eu fiquei: AI-MEU-DEUS!
E pra completar eles anunciaram um concurso em que o ganhador com tudo pago passaria dois dias no mesmo hotel que eles e mais um dia inteirinho com os dois. Coloquei na minha cabeça que precisava ganhar esse concurso, eu pre-ci-sa-va. Caso de vida ou morte.
Cada vez mais a data se aproximava e finalmente anunciaram o ganhador, isso mesmo: EU!
Foi divino! E agora, estou aqui contando tudo até nos detalhes mais sórdidos a partir de agora.
No avião a caminho da cidade que conheço como a palma da minha mão: minha mente prestes a explodir; uma vontade louca de gritar; friozinho na barriga; e Charlotte no coração.
Um carro da empresa que patrocinou o concurso a minha espera no aeroporto para me levar ao hotel na grande metrópole. A viagem segue tranqüila, mas meu coração palpita alto, sinto que vai escapar pela boca. Chego ao hotel cinco estrelas. Decoração moderna, uma fonte no fundo e um grande relógio a minha direita. Faço meu cadastro e sigo pro meu quarto. Está tarde, a Charlotte chega em algumas horas. Pego uma Coca Cola no freezer e me jogo na cama deliciosa. Fecho os olhos. Estou apenas devaneando com ela.
Acordo assustada com a luz adentrando através da janela que me esqueci de fechar. Sete e doze da manhã! Charlotte chega às oito! Atordoada, tomo uma ducha quente e pego a roupa mais especial (para mim) que podia escolher pra essa ocasião. Um vestido de decote reto, bege com estampa florida. Uma sapatilha e perfume.
Dois minutos!
Sento na cama para refletir. Droga! Meu dia com a Charlotte só começa as treze e ainda vai ter o Percy para atrapalhar...
Então o que dizer? O que fazer na presença dela? Eu não pensei em nada disso.
Meio dia! Hora do almoço. Levanto da cama e vou ao restaurante do hotel. Ao entrar, cada célula do meu corpo congela. Cada neurônio em minha cabeça morre. Tudo que eu consigo fazer é observar seu sorriso, seus olhos, sua mão segurando o garfo, suas boche...
– Senhorita, está atrapalhando a passagem. – reclama o garçom me tirando do caminho e fazendo-me sair do transe.
Vou até lá? Fico aqui feito idiota? Almoço?
Desatenta, monto meu prato colocando qualquer coisa nele, estou morta de fome, mas ainda estou fora de mim. Caminho até a mesa da Charlotte. Ela dá uma gargalhada. Um arrepio gelado faz todos os pêlos do meu corpo se arrepiarem. Continuo andando até lá. Cheguei.
– Charlotte? – acho que não poderia parecer mais retardada, ridícula, boba, demente e cega do que fui quando fiz essa pergunta.
Ela vira o olhar para mim. Sorri do jeito mais lindo que alguém já sorriu no mundo. Coloco a bandeja na mesa porque minhas pernas estão bambas e meus braços tremem. Tudo está girando. Tudo fica cinza. Puf!
Ai! Alguém bateu no meu rosto. Abro meus olhos aos poucos.
– CHARLOTTE!
Levanto num impulso. Lembrei!
– Cadê a...
– Calma. Você desmaiou.
Sem dar atenção ao funcionário, observo ao redor, ali está ela. A sensação volta. Sigo em sua direção.
Paro em sua frente. Estou sem reação. Estico minha mão para um cumprimento. Ela sorri e me abraça. Acho que vou desmaiar de novo... Não! Não! Estou bem acordada! Não vai acontecer de novo.
Seu abraço me leva nos céus. Ela tem um cheiro doce e suave de tudo que é bom, flores, mel, chocolate... Seus braços parecem nuvens delicadas me envolvendo. Seu cabelo é tão macio...
– Você é incrível! – falo quase como um sussurro. Minha voz está sumindo.
Ouço uma risada gostosa que só conhecia pelos vídeos. Bem melhor pessoalmente. Próxima ao meu ouvido. Próxima a minha bo...
– Você é um amor, sabia? – disse ela fazendo meu coração bater mais rápido, se é que isso é possível.
E quase que impossivelmente a gente larga do abraço que eu queria que fosse eterno.
– Me abraça de novo? – peço.
Sinto seus braços me envolverem outra vez. Que sensação maravilhosa.
– Então, quer sentar com a gente? – pergunta uma voz masculina.
E pela primeira vez, noto a sua presença, Percy Wade.
– Ér... claro. – sorrio bobamente.
Puxo uma cadeira e sento-me.
Estou parada faz algum tempo, acho que ainda em estado de choque.
– Não vai comer? – pergunta Percy apontando pro meu prato.
Meus olhos esbugalham-se. Está mesmo acontecendo! Meu estômago ronca. Pego o garfo e encho-o aos poucos. Não consigo desviar o olhar da Charlotte. Creio que ela percebeu, porque está corando.
– Qual o seu nome, linda? – pergunta Charlotte docemente.
Coloco minhas mãos no colo por baixo da mesa, porque não param de tremer.
– S-sam. – respondo quase que inaudível.
Ela sorri. Meu coração bate tão forte e rápido que dói.
– Então... você vai nos mostrar a cidade hoje? Ouvi dizer que é linda! Estou louca para conhecer as praias... – ela fecha os olhos como se estivesse imaginando. Seu lindo sorriso ainda ali estampando aqueles belos lábios rosados.
– Ér... claro. – e parece que essas são as únicas palavras que eu consigo pronunciar.
– Você está bem? – pergunta Percy me olhando atentamente.
– Ér... claro.
Charlotte sorri. Sinto borboletas no estômago.
– Desculpem. – finalmente consigo dizer algo decente desde que cheguei aqui.
– Não se desculpe por isso. – ela passa a mão carinhosamente nos meus ombros. Preciso me acostumar.
– Podemos ir quando você quiser... – sorrio tolamente perdida em seus olhos.
Percy pigarreia alto.
– Digo, quando vocês quiserem. – ruborizo.
– Ótimo! – Percy sorri animado.
– Posso levá-los pra conhecer o Pão de Açúcar ou o Cristo Redentor. – eu falo entusiasmada retribuindo o belo sorriso da Charlotte. Parece que minha voz voltou.
– Tenho certeza de que vou amar! – ela diz colocando sua mão sobre a minha na mesa.
Dentro de mim uma guerra acontece entre a razão e o sentimento. A razão diz que ela está somente sendo gentil. A emoção diz que vai além.
Uma onda de silêncio e adrenalina invade o cenário. Charlotte não para de sorrir e Percy parece desconsertado. Algum tempo depois já tínhamos acabado o almoço.
– Podemos ir? – sorrio.
– Claro! – ela retribui.
Ambos levantamos das cadeiras e lá estava ela, ao meu lado. Pela primeira vez, desvio o olhar de seus lábios e olhos e posso ver seus cabelos loiros presos num coque com alguns fios soltos. Ela veste um short jeans, havaianas, óculos escuros sobre o cabelo, e uma blusa que diz: EU AMO BRASIL. Não quero falar do Percy porque para mim ele apenas está atrapalhando nosso encontro.
Saímos do hotel e entramos no carro que a empresa colocou a nosso dispor. Nosso primeiro destino: O Pão de Açúcar. Converso alegremente com a Charlotte durante toda a viagem. Pergunto sobre seus filmes. Sobre como ela consegue manter tudo equilibrado e ela sempre responde vivamente. Ela é incrível.
– Você é incrível! – opa! As palavras escaparam antes que eu as pudesse controlar.
Ela sorri me dando um beijo na bochecha. Sinto meu coração pulsar em toda parte do meu corpo. Cada pêlo em mim se arrepia. Meu rosto parece estar anestesiado de qualquer coisa. Eu poderia levar um murro agora e perder meus olhos, que eu não sentiria nada.
– Você é incrível. – ela segura minha mão.
A batalha interior retorna. Razão x Sentimento, façam suas apostas!
– Chegamos! – anuncia o motorista abrindo a porta de trás para sairmos. Quanta regalia!
O sol está bem forte, mas o vento geladinho que vem da praia cria um clima gostoso. Charlotte parece encantada, pega logo sua câmera e bate fotos até de um homem tocando violão no outro lado da rua.
– Entendo agora porque chamam de Cidade Maravilhosa! – diz ela excitada apertando minha mão agradavelmente.
Contemplo nossas mãos entrelaçadas por alguns segundos até Percy nos chamar.
– Vamos!
Durante todo o percurso, não desgrudo da Charlotte, mostro o Pão, o Cristo, falo um pouco sobre eles; tiramos infinitas fotos – algumas com o Percy, é claro; andamos de bondinho; fazemos muitas compras – que deixamos no carro é claro –; lanchamos várias vezes; e vamos até a praia.
– Essa é a praia mais famosa daqui. – não parava de sorrir, tampouco ela.
Descalçando as havaianas e soltando as minhas mãos, ela corre pela areia de braços abertos. Como um pássaro, ou um anjo. Ao chegar na água rasa molhando seus pés, ela gira olhando pro céu. A cena mais linda que já vi. Então, vira-se para nós e grita:
– VENHAM! ISTO É UMA DELÍCIA! – gargalha amavelmente.
Tiro minha sandália e carrego a minha e a dela. Olho pro Percy.
– Ta esperando o quê? – sorrio – Vamos!
Ele segura minha mão, o que faz os pêlos da minha nuca saltarem, e corremos juntos ao encontro da Charlotte que parece uma criança.
Ela tira a blusa e exibe o biquíni – e o corpo, que por sinal é lindo.
Com um impulso mais forte do que eu poderia controlar, a abraço. Ela retribui o abraço e tira os pés do chão. Eu a giro. Que clichê! O clichê mais fantástico que alguém no mundo sonharia em viver!
Abro a bolsa, pego uma canga e estendo sobre a areia. Mas lá estava ela, já dentro da água. Molhando o Percy e rindo à toa. Solto tudo no chão, tiro a blusa e vou até eles.
– É incrível, não é? – ela sorri.
– A praia? É sim! – sorrio de volta.
– Não, a vida... – Percy completa me dando um tapinha leve nos braços e rindo. Ele é agradável, talvez não esteja atrapalhando tanto assim...
Gargalhamos desfrutando de tudo. A tarde passa, o tempo voa. Sentamos numa barraca da praia tomando água de coco.
– Você é a melhor guia turística de todas! – Charlotte comenta.
– Tenho lá meus dons... – estou tão feliz que se acenderem um fósforo eu explodo como fogos de artifício.
– Pena que vamos embora amanhã. Teremos que ir à São Pato divulgar o filme. – lamenta Percy.
– Ah é. – tinha me esquecido desse detalhe. Estava tudo tão intenso que delirei que fosse interminável... Mesmo com toda essa felicidade, isso me desconforta.
– Não vamos lastimar! Vamos aproveitar esse pouco tempo que temos! Faremos cada minuto eterno! – diz Charlotte que não parou de sorrir em momento algum, esticando a mão sobre a mesa.
Sorrio por dentro e por fora. Os fogos de artifício voltaram.
– Estou dentro! – ri-se Percy colocando a mão sobre a dela.
Junto minha mão à deles. Parecemos velhos amigos revivendo a infância.
Passamos a maior parte da tarde na praia e agora está escurecendo.
– Pra onde querem ir agora? – pergunto risonha.
– Você que manda, chefia! – brinca Percy.
– Balada? — proponho.
– Não sei... – diz Charlotte desconsertada.
– Vamos! Vai ser ótimo! Estou louco pelas brasilei... – Percy hesita e pigarreia – músicas brasileiras.
Rimos.
– Você é mesmo um bobo, Wade! – Charlotte lhe dá uns tapas leves.
– E aí? – minha veia vai se arrebentar a qualquer momento de tão forte que bate meu coração agora. É a minha chance! Na balada tudo pode acontecer [...].
– Já que vocês insistem... – ela conclui mostrando a língua.
– Então vamos ao hotel nos arrumar! – falo um pouco mais entusiasmada do que esperava. – Para tirar a areia... – disfarço e sorrio.
Voltamos pro carro.
Ao chegar no hotel, combinamos de nos encontrar às vinte e uma horas e meia no saguão de entrada. Nos despedimos e seguimos cada um para seu quarto.
Estou ansiosa e suando frio. Ligo o ar-condicionado e sento-me na cama. Reflito por alguns instantes sobre o meu dia. Não há palavra para descrever. Não há nada que eu possa dizer para descrever o quanto foi melhor que bom. Foi mágico. Nem nos mais loucos sonhos eu poderia imaginar tudo isso acontecendo.
Coloco a banheira pra encher e escolho a roupa que levei especialmente pra isso. Não exatamente pra isso, mas para uma festa que aparecesse.
O vestido é preto, em malha fina ele forma um tomara-que-caia justo, mas sobre o tecido macio, cai uma renda delicadamente costurada, formando o busto transparente que mostrará o sutiã preto e sexy que vou usar. Para completar, um ankle boot preto com algumas tachas douradas e parte inferior do salto vermelho. Eu nunca fui tão ousada assim, mas é uma ocasião especial. E hoje é o dia de ousar!
Entro no banheiro, me dispo, encho a banheira e despejo alguns produtos afrodisíacos do hotel. Banho-me caprichadamente. Lavo os cabelos. Fecho os olhos. Tudo está tão maravilhoso...
Saio da banheira, arrepio-me. O ar está altamente gelado, principalmente pra quem acabou de sair da água quente. Enrolada na toalha, seco meu cabelo com o secador e parto-o de lado para parecer sexy.
Visto-me e contemplo meu reflexo no espelho. Essa sou eu e as coisas estão dando certo. Passo uma maquiagem leve para não pesar o look.
Nove e vinte e três.
Sento-me na cama. Fecho os olhos.
Seis minutos.
– Você é incrível. – aceno e sorrio para o espelho. Pego a pequena bolsa com o essencial e seguro a maçaneta tentando evitar ao máximo tremer.
Desço ao saguão e encontro Percy sentado no sofá que provavelmente custou mais que minha casa. Ele me olha mais admirado quê surpreso. Sento ao seu lado.
– Linda! – sorrio desconsertada com o elogio.
– Você também está um gato! – dou-lhe um tapa no ombro.
E ele realmente estava. Trajava calça jeans preta com um cinto branco e azul descolado. Uma blusa social cinza com gola branca do modo mais sensual que alguém poderia usar: com um botão desabotoado com uma parte do busto a mostra e mangas dobradas acima dos cotovelos casualmente.
A porta do elevador se abre tirando minha atenção de Percy. Ali o motivo de tudo – tudo de bom. Usando um vestido azul marinho tomara-que-caia de comprimento acima do joelho, e um peep toe nude. Seu cabelo estava solto e milimetricamente bagunçado.
– Boa noite! – ela sorri caminhando em nossa direção.
Prontamente me ponho de pé e sorrio do jeito mais atraente que consigo ser.
– Assim você mata o papai! – diz Percy revirando os olhos e jogando a cabeça para trás.
– Cala boca! – Charlotte empurra-o e nós rimos.
Saímos do hotel e quando estamos quase dentro do carro, vejo um paparazzi nos fotografando. Devia ter previsto, eles provavelmente nos seguiram durante todo o dia. Mas isso não importa.
– Liga o som pra gente entrar no clima, Ernesto! – pede Percy rindo.
– Vocês que mandam! – responde.
Tocam algumas músicas durante o trajeto, já que a balada é um pouco longe. Mas a maioria eu não conhecia.
Chegamos e a porta do carro se abriu. Compro nossas entradas na mão de cambistas e entramos. Está lotado e quente. Mal se vê alguma coisa. Toda claridade que há, vem das luzes coloridas e do flash que pisca pela festa. Algumas pessoas – a grande maioria – dançando e outros sentados ao bar. Puxo os dois para o meio da pista. O local é gigante. A música está alta, então paro pra prestar atenção. Charlotte e Percy já dançavam eletricamente ao meu lado, todos rindo. Danço também.
I’ve had the time of my life
And I never felt this way before
And I swear, this is true
And I owe it all to you
Cantamos animados com a música.
Estamos dançando os três juntos. Mas eu quero dançar com ela. Depois de umas quatro músicas, vamos ao bar e bebemos um pouco. Voltamos pra pista. Dançamos como se fosse nossa última dança da vida. Não sinto meus pés, mas isso é melhor que senti-los doer. Percy diz que está com sede. Aponto o bar e não contenho um grande sorriso. Charlotte está mais linda que nunca, é agora.
A pista está cheia, mas tudo que vejo sou eu e ela. Aproximo-me mais. Dançamos juntas agora. Seguro sua mão e giro-a pela pista. Ela sorri e eu seguro-a pela cintura e ela em meus ombros. Parece que estamos dançando uma música lenta, mas está tudo bem agitado. Cada vez mais quente. Meu coração pulava conforme a batida da música.
Aproximo meu rosto, nossos narizes se encontram e ela encosta sua testa na minha.
You wanna know how to make me smile
Take control, own me just for the night
And if I share my secret
You’re gonna have to keep it
Nobody else can see this
Ela canta com a música e sorri marotamente. Não poderia estar mais claro. Fecho os olhos e encosto meus lábios nos seus. Tudo ao meu redor para. Seus lábios estão quentes. Sua língua percorre cada canto da minha boca deliciosamente. Puxo-a pela cintura e nossos corpos se encontram. A temperatura aumenta. Suas mãos agora na minha nuca me deixam arrepiada. Deslizo minha mão pelo seu corpo. O beijo poderia ser inacabável. Depois do que pareceu alguns minutos, nos desgrudamos. Sorrimos uma para outra respirando ofegantes. A música desacelerou. Ela envolve seus braços no meu pescoço e deita o rosto no meu ombro. Retribuo envolvendo-a nos meus braços pela cintura. Estamos dançando docemente à música lenta.
– Nunca gostei de alguém em tão pouco tempo. – ouço-a dizer apesar de todo tumulto da festa.
Sinto meus olhos lacrimejarem. Não posso chorar. Contenho-me.
– Nunca amei tanto alguém, quanto amo você. – respondo e sinto suas unhas acariciando meus cabelos gostosamente.
– Você é meu amor de uma noite. – sinto-a encostar os lábios no meu pescoço. Minhas pernas tremem.
– Isso viverá eternamente em mim. – digo agora sem conter as lágrimas. Ainda bem que a balada está cheia e ninguém presta atenção em nós. Como é escuro, ninguém sabe que é Charlotte Granger aqui, nos meus braços.
– Em nós. Eu prometo. – ela levanta o rosto fitando-me com aqueles lindos olhos, que percebo também estarem molhados.
Ela puxa meu rosto docemente para o seu e me dá um selinho.
Agora já toca uma música acelerada.
– Vamos, sorria, curta o momento. – ela me anima e volta a dançar.
Sorrio e danço com ela.
– Estou com sede, vamos beber alguma coisa? – chamo.
– Claro! – sinto sua mão segurar a minha.
Sentamos no bar.
– Duas bebidas da noite. – peço ao garçom e sorrio pra Charlotte.
– Cadê o Percy? – pergunta ela olhando ao redor.
Observo um pouco e não custa a achá-lo. Rio e aponto para um casal se engolindo encostados na parede. Ela ri também.
– Ele está aproveitando a noite! – brinco.
– Como nós. – retruca rindo.
Aproximo e mordo seu lábio de leve. Ela sorri e morde o meu. E como isso é bom...
Bebemos a bebida e voltamos pra pista. Dançamos muito e nos beijamos saborosamente também. Após algum tempo vejo Percy a alguns metros de nós. Vamos até ele.
– E aí garanhão? – provoca Charlotte.
– Falei que queria conhecer as brasileiras! – ele ri.
– A boca delas, você quer dizer. – revido rindo.
– Eu também vi vocês...
– Shh! Cala boca! – Charlotte lhe dá uns tapas e ri. – Ei, que horas são?
Olho no celular.
– Cinco e dezoito.
– JÁ? – ela esbugalha os olhos.
– Ai meu Deus! Tenho que estar no aeroporto às quatorze. – lamento.
– Nós às dez! – Percy contesta.
Corremos para o estacionamento e entramos no carro quase sem ar.
– Você ficou aqui a noite toda? – espantei-me.
– É meu trabalho. – o motorista sorri a contra gosto.
Não falamos nada durante o trajeto. Talvez porque estamos demasiados cansados ou porque nunca mais nos veremos em algumas horas. Minha mente agora parece que vai explodir, não mais como fogos de artifícios, como uma dinamite.
Chegamos ao hotel.
Charlotte vai direto para o seu quarto.
– Não se preocupe, ela só está abalada porque... Você sabe. – consola-me Percy.
– Eu sei, eu também. – abaixo a cabeça.
– Não, não, e não! Que você vai ficar triste! Depois de hoje? Ontem quer dizer... Foi bom enquanto durou, foi especial. E ainda é. Não chore pelo que passou, fique feliz pelo que vai vir. – diz abraçando-me.
– Obrigada, mesmo. – estou sendo sincera, pois essas palavras realmente me tocaram.
– Estaremos aqui às oito e meia, venha se despedir. – sussurra ele no meu ouvido.
Retribuo o abraço e vou para o meu quarto.
Jogo-me na cama. Aperto meu rosto contra o travesseiro para abafar o som e grito o mais alto que posso. Choro, choro até não restar lágrimas. Após despejar toda angústia que consigo, crio coragem e levanto. Vou à banheira. A água de ontem ainda está lá. Esqueci de tirar o aviso da porta para a camareira não entrar. Tanto faz. Entro e fecho os olhos. Depois de um tempo refletindo, lavo-me de verdade.
Oito horas!
Corro pelo quarto molhando tudo. Visto uma calça jeans, blusa branca e um suéter rosado e listrado. Prendo o cabelo num coque alto e desgrenhado, mas não há tempo para arrumar. Calço minhas havainas brancas e desço as escadas correndo, não há tempo para elevadores também!
Chego ao saguão. O grande relógio aponta oito e vinte.
Sento-me no grande sofá. Os minutos se arrastam. Milhões de perguntas rondavam minha cabeça: O que eu vou fazer quando ela aparecer? Ela vai me ignorar novamente? O que falar? Será que foi tão especial pra ela quanto foi pra mim?
Oito e meia.
Meus olhos pregaram no elevador. Finalmente ele abriu-se, mas era um homem e com certeza não era o Percy ou a Charlotte. O outro elevador abre-se logo em seguida. É ela.
Levanto e vou a seu encontro. Ela toca meu rosto e me beija, diferente dos outros beijos que demos na festa. É um beijo de despedida. Triste, desesperado, ao mesmo tempo alegre pelos momentos que passamos. Nossas línguas se encontram em movimentos devagar. Seguro-a em meus braços e ela tira os pés do chão envolvendo as pernas em minha cintura. Como naqueles filmes. Filmes de reencontro. Aqui é uma despedida.
O beijo acelera, nossas línguas estão loucas, não podem aceitar que é o último. Eu sinto agora todas as palavras não ditas mais cedo. Ela sente tanto quanto eu. Esse amor impossível, eternizado em menos de 24 horas. Meu coração arde, de dor, de amor, agonia. Sinto seu batimento cardíaco estourar no seu peito colado ao meu, está tão acelerado quanto o meu. Sinto suas lágrimas molharem meu rosto enquanto nos beijamos, sei que as minhas molham o seu também. Como isso é possível? Esse amor? Ah, não é.
Após um longo tempo que eu gostaria que fosse ainda mais longo... ela desce do meu colo. Estamos olhando nos olhos. Eu a abraço.
– Eu... – começo.
– Te... – ela sussurra.
– Amo! – completo apertando o abraço.
Olho pro lado, o funcionário do hotel enxuga os olhos com um lenço. Se não fosse tudo isso acontecendo, poderíamos rir dele.
– Precisamos ir... – lastima Percy.
Ah, o Percy! Até me esqueci que ele estava ali o tempo todo.
– Eu sei. Me espera no carro... – diz Charlotte.
Percy me abraça e esfrega os olhos, mas antes eu pude ver que ele também chorava.
– Você é incrível! – ele diz e sorrimos, pois eu disse isso muitas vezes para Charlotte.
– Você é incrível! – respondo.
– Desejo a felicidade do mundo para você! – ele aperta minha mão e sai do saguão para o estacionamento.
Estamos apenas eu e ela.
– Desculpe por ontem... – ela começa.
– Não se desculpe por isso. – sorrio.
– Me abraça de novo?
Abraço-a novamente como se minha vida dependesse disso, e depende.
– Adeus. – todo controle que tive até agora, perdeu-se. As lágrimas caem como quando eu estava no travesseiro. Minha ficha caiu. É o adeus.
Ouço-a chorar também. Ela aperta os braços envoltos do meu pescoço, também não quer me deixar ir.
– Nós nos veremos novamente! Eu prometo. – Ela encosta seus lábios trêmulos nos meus e aperta forte minha mão. Daria tudo para congelar esse momento para sempre. Ela solta aos poucos os dedos dos meus e se vai. Antes de virar a curva para o estacionamento ela olha para trás e eu a vejo mexer os lábios dizendo “eu amo você”.
Resta-me agora tornar eternas minhas lembranças. Se o que ela falou for mesmo verdade, não foi uma despedida. Bom, volto pra casa em algumas horas e tudo que eu sei é que vivi para sempre, toda minha vida valeu a pena. Nada vai mudar o que aconteceu, porque foi real. E vai sempre ser.
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