Metamorfose.
1 Capítulo 01 - Querido diário
CAPÍTULO 01
Querido diário,
Mais um ano se inicia e cá estou eu deprimida. Acordei ontem cumprindo as mesmas metas: tomar meu café, escovar os dentes, ler meus livros, ver série e dormir. Sim, esse é o ciclo de férias que nem eu aguento mais. Tudo bem que hoje as coisas mudarão. Estamos de mudança de Nova Jersey para Nova York.
Digo tudo isso, pois prevejo intensas modificações na rotina, que convivo em uma relação de amor e ódio, no momento que colocar meus pés em Nova York. Me deseje sorte. Tenho que ir agora, pois minha mãe está me gritando.
Adeus e até,
Beatrice Hill.
***
Querido diário,
Estou chegando em Nova York. Desculpa se minha letra sair borrada, por favor, visto que estou escrevendo dentro do carro. Por ora, digo que a viagem está sendo tranquila. Mamãe está dirigindo e cantarolando uma música da Madonna. Ela canta e toda hora comenta o quanto essa mulher é incrível. Minha irmã Hannah, que está ao meu lado no banco de trás, parece inquieta e em todo momento morde o lábio inferior e brinca com seu cabelo loiro ondulado. Já eu, sinceramente, não sei o que sentir. Espero de verdade não me estressar esse ano. Apenas isso que almejo.
Adeus e até daqui há pouco,
Beatrice Hill.
***
Querido diário,
Chegamos na casa do noivo da mamãe. Não parece uma casa e sim, uma mansão. Desci do carro e veio um senhor buscar as malas, mas recusei que ele pegasse tudo sozinho e o ajudei a carregar. Agora estou no meu novo quarto e preciso urgentemente arrumar as coisas do meu jeito. Em cima da cama tinha um presente e admito que fiquei um pouco envergonhada, afinal, prefiro dar presentes a receber. No final das contas, quando abri, era um lindo vestido vermelho. Sim, já cheguei descobrindo que mais tarde haverá um jantar de família com alguns amigos próximos de Paul. Quase me esqueci de informar que Paul é o nome do futuro marido da mamãe. E, de verdade, estou muito feliz por ela. Se ele a faz feliz, é o que importa para mim, pois desde a morte do papai, tudo andava muito turbulento e agora vejo uma luz no final do túnel.
Adeus e beijinhos,
Beatrice Hill
***
Levantei da cama rapidamente e desci as escadas de madeira.
A casa era de um design encantador. Era notável o quanto cada detalhe era bem preservado. Logo em seguida, observei atentamente os quadros nas paredes. Era um mais bonito que o outro. De tirar o folego.
Uma senhora uniformizada varria o chão, entretanto, no instante que me viu, interrompeu seu balançar de vassoura para me saudar. Ela rapidamente abriu um sorriso e perguntou quem eu era com uma voz macia e energética.
“Olá, senhora. Eu sou Beatrice.” Respondi com um belo sorriso. “A senhora trabalha aqui há muito tempo?”
“Ah, me chamo Amelia.” Ela disse. “Beatrice, trabalho desde que o filho do senhor Paul, Ethan, nasceu. 17 anos mantendo essa casa arrumada... Obviamente em conjunto com a outra empregada doméstica. Imagina ter que arrumar essa casa inteira sozinha? Impossível”
“Um instante, senhora. Paul tem filho? Mamãe nunca me disse antes e muito menos o vi pela casa.” Questionei, enrugando a sobrancelha.
“Ele foi visitar a mãe tem uns dias. Então, a situação anda meio complicada. Ele está meio chateado com a separação dos pais e preferiu não ficar por aqui por um tempo. Imagino que venha ainda hoje, afinal, mais tarde tem um jantar importante, não é?”
“Então, pelo visto, temos um adolescente irritado para lidar mais tarde. Enfim, respire fundo, Beatrice. Você não pode se estressar e nem perder o controle. Por favor, lembre-se da promessa que fez para mamãe.” Dando um sorriso amarelado, pensei.
“Beatrice. Você se parece muito com sua mãe” Paul comentou, entrando no cômodo e, logo em seguida, abraçou-me. “Sabe onde está Hannah?”
Eu respondi que não fazia ideia e olhei para minha mãe, assim que ela apareceu por trás de Paul. Ela sorria de orelha a orelha. Havia tanto tempo que não a via assim. Diferentemente de Hannah e desse tal Ethan, imagino que eu seja a única feliz pelos dois. Todos nós temos que viver. Mesmo que um ciclo termine, é importante iniciarmos outros sem medo. Amar, ainda mais para minha mãe Lana, é um ato de coragem. Nós perdemos uma pessoa importante. E sim, sofro até hoje com a perda e meu coração se quebra só de pensar, porém merecemos ser felizes. Acho que é o que papai desejaria para todos nós.
“Estou aqui. O que vocês querem?” Hannah falou com tonalidade ríspida, descendo as escadas.
“Hannah, por favor, não precisa falar dessa forma.” Lana rebateu e cruzou os braços.
“Desculpinha, galera.”
“Hannah...” Mamãe manteve o timbre.
E a sala se silenciou. Todos se entreolhavam de uma forma confusa. Ninguém sabia como agir. Eu mesma não sabia se mudava totalmente o assunto ou me mantinha em silêncio, esperando que desgraça estava por vir. Hannah, por fim, desviou o olhar para todos, deu meia volta e subiu as escadas, indo diretamente para o quarto.
“Desculpa, meu amor. Ela vai se acostumar com tudo isso... É tudo muito novo.” Mamãe se desculpou. “E você sabe, não é? Para Beatrice é mais compreensível essa situação porque ela tem 17 anos, já para Hannah não. Jovens de 14 anos são complicados. Rebeldes.”
“Lana, eu te amo e sei muito bem disso. Não posso dizer muito, pois Ethan, mesmo com seus 17 anos, não está aceitando muito bem a situação. Inclusive, em algumas horas, ele estará por aqui. Precisaremos ter paciência ao extremo.”
“Enfim, já está quase na hora do jantar, vou subir e me arrumar.” Interrompi, subindo para o andar de cima e indo diretamente para o quarto.
Não demorei muito no banho e para me vestir. Felizmente, o vestido que compraram, coube perfeitamente em meu corpo. Era uma roupa de muito bom gosto. E, para dizer a verdade, quando me olhei no espelho, fiquei muito admirada com minha beleza, uma vez que nunca fui de me namorar dessa forma. Logo depois, penteei meu cabelo loiro longo e me maquiei com todo cuidado e zelo. Meus grandes olhos pretos contrastavam com o vermelho do vestido. Decidi, portanto, manter o padrão de cor e passei um batom cor cereja. Por fim, um blush suave, um delineado bem feito e um rímel. Era tudo o que eu precisava.
Não demorou muito para ouvir a música, os falatórios e as risadas. Respirei fundo, assim, tomando coragem para descer e saudar a todos. Finalmente, consegui e não demorou muito para as pessoas se aproximarem. Respondi, desse modo, diversas perguntas sem pestanejar. Por fim, vi Hannah sentada em um canto de braços cruzados. Seu semblante era de desprezo. E, de vez em quando, via ela me encarar com raiva e olhar de decepção.
Depois de ter dado as devidas atenções a todos, peguei um copo de bebida e fui para o jardim. E não tinha como negar, a vista era incrível. A iluminação sobre o cenário mantinha as cores vivas, de certa forma. As flores desabrocham, o vento batia contra as folhas das árvores e saia delas quase que uma trilha sonora.
“Também não aguenta todo mundo lá dentro?” Escutei uma voz ecoar.
Virei-me para o lado esquerdo e vi um homem sentado de baixo de uma das árvores. Ele parecia entediado e segurava uma garrafa de whisky. Seu semblante era de cansado, seu cabelo castanho escuro, mesmo com toda situação em que ele se encontrava, estava perfeitamente arrumado. Ele continuava me encarando com seus olhos verdes vazios, parecia aguardar uma resposta.
“Na realidade, não. Eu só queria um tempo mesmo para respirar. Gosto de ficar sozinha. Não tenho nada contra ninguém.” Respondi, dando um sorriso simpático. “Enfim, você parece que tem dias que não dorme. Não gostaria de beber uma água ao invés de whisky? Eu posso ir lá buscar pra você.”
Ele gargalhou e esfregou o nariz, desviando o olhar.
“Você deve ser uma das filhas dela...”
Eu arqueei a sobrancelha e esperei a continuação de sua fala, porém ele apenas levantou e cambaleou em minha direção.
Ficamos em silêncio nos encarando. Eu não sabia o que falar. Sinceramente, sentia apenas um frio na espinha. Tanto que da minha boca não saia nada. Era quase como se eu tivesse esquecido minha língua materna. Enquanto ele, parecia autoconfiante o suficiente para não desviar o olhar e de certa forma, dar goles e mais goles de whisky com tranquilidade.
Não demorou muito para eu raciocinar. O quebra cabeça tinha sido construído, finalmente. Agora com ele de perto, vi o quanto ele parecia com o Paul. Ele era bonito. Seu rosto era angelical, na verdade. Pessoas assim tem sorte, ainda mais quando se tem dinheiro. Então esse era o rebelde.
“Prazer, Ethan. Sou Beatrice.” Eu conclui, entregando-lhe a mão.
“Irmãzinha, quanto tempo!” Ele respondeu debochadamente. “Estava morrendo de saudade.”
Ele não quis apertar minha mão de volta. Um ogro. Pois bem, sou reciproca. Aqui se faz, aqui se paga. Então, abaixei minha mão, dei-lhe as costas e entrei na casa.
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