Metamorfose.
2 Capítulo 02 - Nova Beatrice
Capítulo 02
Eu me sentia tão indignada. Meus passos pela casa eram ensurdecedores e, por fim, só pensava no Ethan e no simples fato de que eu teria que conviver com esse crápula até ir pra faculdade.
Logo em seguida, sentei-me, perdida em pensamentos, em uma cadeira, cruzando as pernas. Sabia que eu não podia descumprir a promessa que fiz para mamãe, pois lembro toda manhã quando acordo, quando abro meus olhos, o que fiz no passado e o tanto que me envergonho. Além de ter plena noção do quanto me machuquei e a machuquei enquanto agia daquela maneira. Mas de uma coisa tinha certeza, no fim de tudo, se eu fosse a Beatrice de antes, não teria hesitado em quebrar a garrafa de vidro na cabeça dele.
"Agora entendo porque você estava feliz pela mamãe. Pessoas fúteis combinam demais com você. É o que você ama, não é? Esbanjar o que não tem." Hannah disse em tom de fúria e cruzou os braços na minha frente.
"Hannah, o que foi dessa vez? Você nunca está satisfeita. Sempre reclamando de algo. Custo te entender, sinceramente. Sorrir, em alguns momentos, faz bem." Eu repreendi, cruzando também os braços.
"Bea, eu te conheço. Acha mesmo que eu esqueci quem é Beatrice? Essa sua mudança não me engana. Estou curiosa para ver até aonde você aguenta com esse teatro."
Eu simplesmente não sabia o que responder. Meus olhos se encheram de lágrima e, em seguida, foquei no chão, sentindo-me envergonhada. E sim, o nome disso era exaustão e por culpa dela, duvidava de tudo que um dia poderia conquistar e ser.
"Vai te a merda, Hannah." Eu gritei com as lágrimas transbordando e a encarei profundamente. "Se já me conhece, então me deixa em paz. Se está tão infeliz, vai buscar novos caminhos. Só, por favor, para de ser uma vaca chata."
"Beatrice." Ouvi minha mãe gritar, horrorizada. "Pare agora com isso."
"Não, por favor, continue. Eu estou amando." Ethan se intrometeu, colocando um dos braços em volta do pescoço de Lana."Beazinha, faltou um pouco mais de ódio. Seu problema é reprimir demais, pelo o que estou vendo. Sabia que sentimento reprimido faz mal à saúde?"
"Ethan, cale a boca." Paul rebateu furioso. "Pessoal, me desculpe pelo transtorno. Adolescentes, sabe?"
Paul puxou Ethan pelo braço para o andar de cima e mamãe fez o mesmo comigo. Eu não relutei, muitos menos ele. Dessa maneira, nos sentaram na cama e começaram a nos repreender.
"Ethan, olha esse cheiro de bebida alcoólica. Você não tem amor a vida? Toda vez que passar por um momento complicado, desconta na bebida. Você está fazendo mal a si mesmo." Paul rosnava enquanto Ethan parecia olhar para o além. "Beatrice, sei que sua irmã não fez algo legal, eu escutei, pois estava próximo a vocês duas, na realidade, estava prestes a chamar vocês para nos conhecermos melhor, mas você como irmã mais velha, deve aprender a se controlar e ser o exemplo. Respeite para que assim, seja respeitada."
Paul acabou seu discurso, todavia ainda andava de um lado para o outro. Sua mão pairava pela cabeça e ele parecia pensativo.
"Me desculpa, por favor." Eu disse com a voz macia.
"Você se rende muito fácil. Quando eu falo que te falta fúria..." Ethan sussurrou com uma das mãos na boca e, em seguida, cruzou os braços.
"Enfim, não é dessa maneira que eu queria que vocês se conhecessem." Paul disse aborrecido. "Quero muito que isso dê certo. Todos nós."
"Paul, por mim já deu." Mamãe respondeu, abraçando-o.
"Vontade de vomitar." Ethan sussurrou.
"Vontade maior que a minha de dar um soco na sua cara, eu acho difícil."
"Então dá."
"Não me subestime. Tome cuidado." Ameacei-o entre o vai e vem de sussurradas.
Ele gargalhou e levantou.
"Terminou com o discurso, pai? Preciso ir ao banheiro ver se continuo bonitão. Uns amigos meus vão chegar daqui há pouco pra deixar essa festa mais animada."
"E quem permitiu isso, Ethan?" Paul aumentou o tom de voz.
"Minha mãe, ora. Esqueceu que essa casa também é dela? Ah, sim, esqueceu e bem rápido, por sinal." Ele concluiu, encarando minha mãe de cima a baixo. “Até porque ela ainda não assinou o divórcio e continua sendo minha mãe, sua esposa e também proprietária dessa casa, mas acho que a opinião dela não te importa tanto assim.”
Sua saída foi escandalosa e rápida. Eu fiquei boquiaberta e encarando mamãe e Paul.
“Seu filho é sempre assim? Insano?” Eu resmunguei, apontando para a direção que Ethan se retirou. “Porque, de verdade, ele é uma das pessoas mais mal educadas que eu já conheci.”
“Beatrice, a gente precisa te explicar algo.” Mamãe entrelaçou as mãos e disse pacientemente. “A gente não te falou antes, mas a mãe de Ethan sofreu um acidente de carro, querida. Enfim, ela está em coma desde então. Já tem uns meses do ocorrido, porém é algo que o Ethan sofre muito ainda.”
Eu não sabia como reagir. A princípio tudo que sentia por ele era raiva, agora a maior parte era pena. Então era por isso que estava tão indignado. Porque, no fundo, ele ainda tem esperança dela voltar e tudo voltar ao normal. Como era antes. E diante de toda essa situação, senti-me com necessidade súbita de ir falar com ele. Quem sabe até, caso ele permita, abraça-lo. Eu perdi alguém e sei como é essa sensação. Também entendo a revolta da Hannah. Ela mostrou durante o dia que estava magoada e eu insensível nem ao menos fui conversar com ela. Sim, estou me sentindo um monstro e preciso solucionar essas questões. Beatrice, você agora é uma menina diferente, então haja como uma.
Sai do quarto a procura de Hannah e a encontrei no jardim. Sua linguagem corporal era de tristeza súbita. Como não sabia como agir, apenas me sentei ao lado dela, olhando a paisagem.
“Hannah, me desculpa” Eu finalmente disse. “Me perdoa por ter sido ignorante, me perdoa por não ter feito meu papel como irmã de ter te escutado. Eu me arrependo muito de não termos sido tão próximas antes, mas agora quero muito fazer diferente. Entendo também sua revolta, porém quero te deixar claro que ninguém jamais vai substituir o papai em nossas vidas.”
Hannah me olhou, abraçou-me e desabou.
Eu não sabia como agir. De verdade, nunca fui uma pessoa muito amorosa, entretanto em meio a tudo isso, meu impulso foi a envolver em meus braços, colocar minha cabeça contra a dela e dizer que tudo ficaria bem, que ela podia contar comigo. E sim, me senti transbordar.
“Me desculpa por ter te subestimado. Eu te amo, irmã.” Ela falou em meio aos soluços.
“Eu também te amo muito.”
Ouvi um barulho de carro parar em frente a nossa casa e algumas vozes se aproximarem.
“Ethan, meu gostoso, cadê você?” Uma voz feminina berrou. “Abre aqui que chegamos.”
Ethan passou por nós fingindo que não existíamos. A porta de entrada abriu automaticamente e vi um grupo de pessoas invadirem a festa. Quatro homens e três mulheres. Todos bem vestidos e animados. Por fim, uma das meninas pulou sobre o colo de Ethan e o beijou ardentemente.
“Estou sentindo seu cheiro de álcool de longe. Guardou para mim, não é?” Ela brincou e o beijou novamente. “Te amo, meu lindo.”
Ethan não respondeu de volta, apenas permitiu que seus lábios se misturassem com os dela, colocou-a no chão, ordenou, em seguida, que todos se sentassem nas mesas disponíveis do jardim e terminou dizendo “Comportem-se, mas nem tanto.”
Ele voltou a passar por nós da mesma forma que surgiu, ignorando-nos. Solicitou a um dos garçons que levasse bebida e comida ao jardim.
“Hannah, um instante. Eu já volto.” Falei enquanto levantava e ia até Ethan.
Ele me olhou sem compreender o que estava acontecendo.
“Perdeu alguma coisa?” Ele brincou, como sempre.
“A gente pode conversar? Prometo ser breve.” Indaguei. “A gente começou mal, mas sinto que podemos conviver bem.”
“Beatrice, esse é o seu nome, não é? Já pensei em algo para solucionar essa situação. Por favor, fique na sua e eu fico na minha. Cada um vive sua vida. Não tente conversar comigo novamente. Já soube que sua mãe contou o ocorrido e não quero que sinta pena de mim. Entendo bem esse olhar e estou exausto.”
“Eu perdi meu pai também, Ethan. Vim conversar porque sei o que você está sentindo.”
“Eu não perdi minha mãe. Ela está viva.” Ele aumentou o tom de voz.
“Ethan, meu amor, quem é essa aí?” A menina que o beijou se aproximou e se manifestou, avaliando-me de cima a baixo. “Ela está te irritando, querido?”
“Não, Blair. Me irritaria se eu me importasse com algo que ela diz.” Passando por mim, ele respondeu e seguiu para o seu grupo.
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