Metamorfose
20 Capítulo 20
Notas iniciais
O quarto estava completamente vazio quando abri os olhos. À medida que eu despertava as lembranças do dia anterior voltaram a minha mente, e soltei um gemido de insatisfação. Seria tão bom se o sono conseguisse apagar pra sempre as lembranças ruins da nossa mente.
Me levantei e o vento frio que veio da sacada me fez arrepiar. O céu estava nublado, e parecia que uma chuva forte viria a qualquer momento. Eu odiava chuvas. Fui até o banheiro, lavei meu rosto, escovei os dentes e arrumei meu cabelo. Passei uma sombra preta que fazia meus olhos parecerem ainda mais azuis do que eram e depois voltei para o quarto e coloquei uma calça jeans, botas e uma blusa de frio.
Peguei minha bolsa e sai dali, tentando não pensar em nada. Apenas segui o caminho até a sala de aula e me senti aliviada ao ver que ela ainda estava vazia.
Olhei para a mesa na qual eu, Chery e Emily costumávamos nos sentar e senti minha garganta apertar. Desviei dela e me sentei na segunda mesa da fileira da esquerda, que costumava ficar vazia. Eu não queria companhia de ninguém.
Coloquei os fones de ouvido e vi os minutos passarem, à medida que a sala começava a se encher de alunos. Meu coração pulou uma batida quando vi Emily e Chery passarem pela porta. As duas se sentaram no lugar de sempre, e pareceram não me ver. Fiquei satisfeita e magoada ao mesmo tempo, ao ver como elas pareciam despreocupadas.
Passei a aula inteira tomando cuidado para não virar a cabeça nem mesmo um milímetro para elas, mas no fundo eu sabia que elas nem mesmo notariam caso eu decidisse encará-las por horas. Eu parecia não existir mais.
A aula acabou, e novamente a sala ficou vazia. Senti meu estômago roncar, e fui até o bistrô. Não vi ninguém conhecido por ali, nem mesmo Danielly, e me sentei em uma das mesas. Comi sem pressa alguma, mas também não senti o gosto de absolutamente nada. Então ouvi o bipe do meu celular. Enfiei a mão dentro da minha bolsa e lutei para achá-lo no meio de tantas coisas, até que enfim o encontrei. Quando vi que a mensagem era de Victória quase senti vontade de vomitar.
“Não acha que está na hora de caçar?”
Não, eu acho que está na hora de você desaparecer, gritei na minha mente. Meus dentes rangeram de tanta raiva. Enfiei o celular de volta na bolsa e tentei voltar a comer, mas minha fome havia desaparecido.
Senti vontade de descer até o Inferno somente para dar um soco no estômago daquela idiota. Eu tinha tantos problemas, tantas preocupações, e ela achava que tinha o direito de me trazer ainda mais. Respirei fundo e tentei me acalmar, mas não funcionou muito.
O céu anunciou com um trovão que poderia chover a qualquer momento, então sai do bistrô, pisando duro, e voltei para a sala.
Faltavam vinte minutos para a aula da tarde, e me sentei no mesmo lugar de antes. Coloquei meus fones de ouvido, abri meu caderno e comecei a desenhar, fazendo daquilo uma terapia. Eu duvidava que qualquer outra coisa conseguisse me acalmar.
A sala se encheu mais uma vez, mas não avistei Chery ou Emily. Voltei a desenhar, mas continuei me perguntando onde elas estariam, até que olhei para a porta da sala.
Samuel estava lá, e Chery também. Os dois estavam conversando, e pude percebe, mas ele não notou, e parecia falar normalmente com ela. Foi impossível evitar a leve pontada de satisfação que senti naquele momento.
Os dois entraram na sala, ainda conversando, e quando Samuel começou a se afastar dela, Chery pegou sua mão e o puxou até sua mesa, fazendo-o sentar no lugar de Emily.
Tentei não identificar o que eu estava sentindo, e apenas voltei a desenhar, pelos minutos que foram os mais longos da minha vida.
Metade da aula já havia passado, e senti minha mão doer de tanto desenhar. Tirei os fones de ouvido e tentei prestar atenção no que o professor dizia, mas foi quase impossível.
Foi quando alguém puxou a cadeira ao meu lado e se sentou.
Olhei apenas com o canto do olho, e vi que era Samuel. Meu coração começou a bater descompassadamente, e tentei manter a calma.
Ele olhava fixamente para o quadro, e me perguntei se eu era a única a sentir a eletricidade que dançava entre nós. Olhei para o quadro também, mas não consegui ouvir nenhuma palavra que saia da boca do professor, apenas a respiração lenta de Samuel.
Senti uma vontade imensa de falar com ele, mas eu não sabia ao certo o que dizer. Eu queria contar a verdade. Contar que estava apaixonada por ele, que sentia muito por ter fugido, mas também queria contar que minha ex melhor amiga queria matá-lo, e que Lúcifer destruiria a nós dois se ficássemos juntos.
Então ele colocou sua mão sobre a minha.
Senti o calor que vinha dele me inundar, aquecendo cada parte de mim, e me fazendo esquecer de tudo, exceto da sensação maravilhosa que era tê-lo perto de mim.
Não dissemos nada, nem olhamos um pro outro. Apenas continuamos ali, aproveitando ao máximo aquele momento.
A aula acabou, e quando a sala ficou vazia ele soltou minha mão, pegou seus cadernos e saiu com passos lentos, como se me desse tempo para decidir se iria atrás dele ou não, mas eu não consegui me mover.
Então ele sumiu pela porta. Me vi completamente sozinha, e precisei de alguns segundos para decidir o que faria.
O que eu mais queria era sair correndo dali e procurar Samuel, mas eu não podia, então tentei afastar esse pensamento.
Ouvi o barulho da chuva batendo na janela, peguei minha bolsa e sai da sala.
O vento era frio, e a chuva, apesar de fraca, havia mandados todo para seus quartos, deixando as ruas completamente vazias. O sol, que deveria estar se preparando para se pôr, estava completamente escondido pelas nuvens.
Eu não tinha guarda-chuva, e não tentei pegar atalhos que passassem somente por lugares cobertos, já que seria inútil. Eu ficaria molhada de qualquer jeito.
Senti as gotas de chuva encharcarem minhas roupas, me fazendo tremer, mas não acelerei o passo. Senti um forte aperto no peito ao lembrar de Samuel. O que eu mais queria era ficar ao seu lado e simplesmente criar coragem para enfrentar as consequências, independente de quais elas fossem.
Tanta coisa havia acontecido em tão pouco tempo. Eu havia perdido amigos, me apaixonado, conhecido o que tecnicamente era meu pai, e descoberto que minha companheira de quarto era um anjo, tudo em apenas alguns dias, e a compreensão disso fez minha cabeça girar.
Eu me sentia desesperada para fugir daquilo tudo, mas na minha mente a fuga só valeria à pena se fosse ao lado de Samuel. Me assustei ao notar a dimensão que meus sentimentos por ele havia tomado em tão pouco tempo. Eu o conhecia há apenas alguns dias, mas meu coração parecia não saber disso. Tudo em mim implorava pela sua presença, e tê-lo por perto apagava qualquer outra coisa da minha mente, ao mesmo tempo em que a angústia que eu sentia por não poder ficar ao seu lado me corroía.
O que mais doía em mim era perceber que ele parecia sentir o mesmo. Havia horas em que eu desejava que ele não me quisesse, apenas para afastar o pensamento de que se o meu mundo fosse diferente nós poderíamos ficar juntos.
Senti as lágrimas escorrerem pelo meu rosto e me entreguei àquela tristeza pelo menos por alguns instantes. Eu precisava sentir alguma coisa, nem que fosse uma única vez.
Andei até a praça, me sentei em um dos seus bancos, e não me movi mais. Senti um gosto amargo na garganta enquanto minha vontade de chorar aumentava ainda mais, e as lágrimas continuaram, se confundindo com as gotas de chuva que caíam no meu rosto.
Foi quando alguém se sentou ao meu lado, e colocou um braço a minha volta. Naquele momento um raio, seguido por um trovão ensurdecedor cortou os céus, como se alguém lá em cima estivesse bastante zangado com algo que estava acontecendo por aqui. Olhei para o lado e vi Danielly, que deu um sorriso triste, e me apertou em seu abraço. Ela permaneceu em silêncio, e me senti tão agradecida que a única coisa que fui capaz de fazer foi chorar ainda mais.
Continuamos ali até que o céu ficou completamente escuro e a chuva finalmente ficou mais calma. Até aquele momento meu choro havia se reduzido apenas a alguns soluços, e Danielly se levantou, me oferecendo sua mão.
Peguei-a e fomos para nosso quarto, ainda em silêncio, e por um momento me esqueci do abismo que deveria nos separar por sermos seres completamente opostos. Naquela hora percebi o que realmente era ter uma irmã.
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Tomei um banho quente, sequei meu cabelo, coloquei roupas secas, e voltei para a minha cama. Danielly estava no computador, provavelmente fazendo outro trabalho, e não falou uma só palavra sobre o que havia acontecido.
Também não senti necessidade de falar. Eu já havia colocado para fora tudo o que eu conseguia em um único dia, e temia que algo em mim explodisse caso eu tentasse ultrapassar esse limite.
Acendi um cigarro e encostei minha cabeça no travesseiro, enquanto olhava para o teto, e vi os minutos passarem, enquanto eu continuava sem mover um músculo sequer.
Então meu celular começou a tocar. Cada milímetro do meu corpo se tencionou, e senti uma aflição inexplicável. Eu e Danielly olhamos juntas para o meu celular, e pela sua expressão soube que ela havia sentido o mesmo. O telefone tocou mais uma vez, e respirei fundo antes de atendê-lo.
–Alô.
– Oi, Alice.
A voz fria de Chery me fez arrepiar, e meu coração falhou assim que pensei no único motivo pelo qual ela me ligaria. Samuel estava morto.
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