Metamorfose
16 Capítulo 16
Notas iniciais
– Alice. — uma pausa. — Alice, acorde!
Senti um dedo cutucando meu ombro.
– Caramba Alice, você está drogada?
Abri os olhos lentamente e encarei o vulto preto que havia agarrado meus ombros e me sacudia pra cima e pra baixo.
– Ahn.
– Ah, graças a Deus, você está viva. Tem ideia de quanto tempo eu fiquei aqui te chamando? — pisquei, e vi Danielly na minha frente revirando os olhos. — Não importa. Samuel está batendo na nossa porta há séculos dizendo que precisa falar com você. Eu, é claro, não deixei ele entrar, mas por favor, tire esse menino logo daqui, eu preciso terminar um trabalho.
Danielly me largou e voltou e foi para o computador, bufando. Então eu ouvi três batidas lentas na porta e ela soltou um grito de ódio. Apontou para a porta com uma cara zangada e voltou à atenção para o seu trabalho.
Eu ainda não havia levantado da cama, e estava com uma sensação estranha. Uma mistura de confusão e medo, mas não consegui identificar do que. Corri para o banheiro com um macacão e um top em mãos, me vesti e corri para a porta, que ainda levava pancadas de Samuel.
Coloquei minha mão na maçaneta, e quando estava prestes a virá-la, levei um leve choque, e um mau pressentimento percorreu minha espinha.
Abri a porta e me deparei com Samuel. Ele estava debruçado na parede com o rosto escondido pelo braço esquerdo, como se estivesse cansado de passar tanto tempo de pé, e com o direito continuou batendo em uma porta que não estava mais lá.
Ao perceber seu mágico desaparecimento, ele levantou a cabeça e abriu um sorriso bobo ao me ver.
– Oi.
– Oi? Você fez todo esse escândalo para me falar oi? — disse.
Tentei agir normalmente, mas não consegui afastar o sentimento sufocante que parecia gritar na minha cabeça que tinha algo errado.
Samuel pareceu não notar, e abafou uma risada. Eu poderia jurar que ele estava sem graça, e ao notar isso alguma parte do meu peito se aqueceu.
– Hm... não. É que eu queria — fez uma pequena pausa, como se estivesse pensando no que dizer. — conversar com você.
Me senti impelida a dizer que não, mas não soava como se fosse realmente eu. A verdade é que eu queria ir, mas parecia estar dividindo meu cérebro com outra pessoa que morreria para não ter que chegar perto de Samuel. E essa pessoa sabia o porquê disso, o que me deixou bastante irritada. Então eu a ignorei.
– Ok. — disse, e peguei a mão que ele me estendia.
–---
O céu estava incrível. Era quase meio dia e o sol estava totalmente encoberto pelas nuvens. Eu e Samuel estávamos no teto do anfiteatro da faculdade. Tudo à minha volta era puro concreto, exceto por algumas antenas de metal que surgiam do topo de todos os prédios dali. Aquela era a construção mais alta de todo o campus, e era possível ter uma vista quase que completa da cidade.
Nos sentamos sobre uma das clarabóias e ficamos parados em completo silêncio, apenas observando o céu.
Eu ainda me sentia estranha, mas Samuel parecia anular essa sensação, e por alguns momentos consegui me esquecer do mau pressentimento que ainda pairava sobre mim.
Ele estava sentado com as pernas esticadas, e apoiava as mãos na clarabóia. Seu cabelo estava levemente bagunçado, e não pude deixar de notar mais uma vez o quanto ele era lindo.
– Eu sonhei com você hoje. — disse quebrando o silêncio.
– E como foi? — perguntei, sem tirar os olhos do céu.
Ele sorriu apenas com o canto da boca.
–Não me lembro muito bem.
Percebi que ele estava mentindo, e que não fazia questão nenhuma de esconder isso. Ele apenas moveu sua mão de encontro a minha e se virou para mim.
Seus olhos pareciam me perfurar, e hesitei antes de olhar de volta para ele, estranhando o modo como eu me sentia tímida. Eu não costumava ter problema nenhum com garotos, afinal eu havia nascido com tudo que eu precisava para fazê-los ficar aos meus pés, mas ele era diferente.
Samuel não estava enfeitiçado por mim, como todos os outros. Ele parecia enxergar algo em mim que nem eu mesma conseguia ver. Não havia nada que o prendesse a mim, a não ser sua própria verdadeira, e perceber aquilo era reconfortante.
Senti meu coração martelar no meu peito a medida que ele se aproximava de mim. Quando seu rosto ficou a poucos sentimentos do meu fui capaz de sentir sua respiração contra a minha. Seus lábios tocaram os meus primeiro lentamente, e depois com mais e mais pressa.
Coloquei minhas mãos em volta do seu pescoço, e percebi que eu jamais seria capaz de matá-lo. Eu não queria perder todas aquelas sensações novas, nem o ardor que surgia dentro de mim toda vez que eu olhava bem fundo em seus olhos.
Ele me puxou para mais perto, e foi então que os fios se conectaram no meu cérebro. O reconhecimento foi quase torturante, e me lembrei porque eu estava me sentindo tão estranha desde que acordara.
Cada detalhe do meu sonho veio à tona, queimando minha consciência e fazendo tudo girar. Me lembrei de Samuel, do beijo, e principalmente de Lúcifer.
Me afastei de Samuel, e senti o coração apertar ao ver que seus olhos faiscavam. Eu precisava ir embora dali.
Lúcifer havia me avisado. Eu precisava mais do que nunca ficar na linha, e aquilo era exatamente o que eu não estava fazendo. Essa isso havia me deixado quase com tanto medo quanto o fato de ele ter vindo pessoalmente — ou quase — até mim.
Me levantei, evitando o olhar confuso de Samuel e corri pra bem longe dali.
–----
–Mais uma dose? — perguntou.
Encarei o barman com a melhor cara de nada que eu conseguia fazer e afirmei com a cabeça. O garoto de cerca de 19 anos encheu meu copo e se voltou para os outros homens bêbados que cercavam a bancada que dividia as estantes com as bebidas do resto do bar.
Tudo cheirava a uma mistura de álcool e suor, as paredes eram do verde mais encardido que se podia imaginar, e o chão estava imundo. Eu havia perdido a conta de quantos sujeitos mal encarados me olhavam e faziam comentários sujos, e eu simplesmente fiz a delicadeza de mostrar meu dedo do meio a todos eles.
Bebi o que estava no meu copo em um único gole e senti minha garganta queimar.
O bar ficava em uma parte bem distante da faculdade, que eu havia encontrado após andar sem rumo durante horas procurando ficar bem longe de tudo e de todos.
A noite já havia chegado, e minhas pernas doíam pelo esforço, mas me senti agradecida por não haver ninguém conhecido ali.
Eu ainda estava atordoada pela lembrança do meu sonho, mesmo depois de tanto tempo pensando sobre isso. O medo parecia maior do que qualquer outra coisa, e somente o álcool conseguia relaxar meus músculos, ainda tensos.
Tudo o que eu queria era simplesmente conseguir parar de pensar naquele sonho. Lúcifer preenchia cada parte do meu cérebro, e suas palavras ecoavam cada vez mais na minha mente. Nem mesmo o que Chery acharia do fato de eu ter beijado Samuel parecia ter importância. O que importava eram os problemas que eu poderia ter com Lúcifer.
Eu era diferente, ele dissera. E isso obviamente não era bom, caso contrário ele não teria ido até mim. Tenho certeza que a Estrela da Manhã tem coisas mais importantes pra fazer.
A única certeza que eu tinha naquele momento é que eu jamais diria o que aconteceu para ninguém. Absolutamente ninguém.
Enterrei minha cabeça entre meus braços, e só levantei quando vi que meu copo estava cheio novamente. Foi quando avistei a ultima pessoa que eu desejava ver passando pelas portas do bar.
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