Metamorfose
17 Capítulo 17
Notas iniciais
Chery estava usando um short, meia arrastão e apenas uma jaqueta aberta pela metade cobria seu sutiã de renda. Seu longo cabelo loiro balançava a cada passo, e não houve um homem sequer que não a olhou enquanto ela atravessava as mesas, ficando cada vez mais perto de mim.
Tive vontade de sair dali de fininho, mas meu plano foi por água abaixo quando ela olhou nos meus olhos e abriu um sorriso enorme. O sorriso não parecia exatamente amigável.
À medida que ela se aproximava, o som do salto agulha de suas botas ficava mais alto, trazendo também uma apreensão que eu definitivamente não precisava por estar naquele estado.
Ela se sentou ao meu lado e pediu uma cerveja ao barman.
– Olá. – cantarolou.
– Oi. – respondi desanimada.
– O que foi, Alice? Você está tão tristinha.
Chery nem mesmo fez questão de esconder o tom de deboche da sua voz. E eu apenas respirei fundo e decidi que eu não era obrigada a aturar aquilo.
– Por favor, Chery. – falei secamente. – Pare de se fazer de desentendida. Não combina nada com você.
– Verdade. E sabe o que mais não combina nada comigo? Ser traída e não fazer nada a respeito.
Tive força de vontade apenas para revirar meus olhos e esvaziar meu copo novamente.
– Ótimo Chery, então vamos lá. Faça o que você veio fazer.
Ela soltou uma pequena risada.
– Eu não preciso.
– Por quê?
Pegou a cerveja e deu um longo gole.
– Você já fez isso por mim, Alice. Você está completamente destruída, e nem mesmo precisou da minha ajuda para isso.
Senti suas palavras pesarem nos meus ombros, e não respondi.
– Quando foi que você ficou tão patética, Alice? Olhe só para você. Um completo fracasso. Não consegue nem mesmo se manter longe de um humano insignificante.
– Já que Samuel é tão insignificante porque é que você está incomodada com o que nós fazemos? – perguntei, tentando atingi-la, mas não pareceu funcionar.
– Samuel? Quem é que está falando de Samuel? – estreitou os olhos – O assunto aqui é você. Você, a personificação da incompetência e de todo o lixo que alguém pode se tornar.
Permaneci calada.
– Nada a dizer? – permaneci atenta ao meu copo, e ouvi sua risada mais uma vez. Ela parecia deliciada com aquela discussão, mas principalmente com a minha incapacidade de respondê-la. O problema é que no fundo eu sabia que ela estava certa. E ela também. – Sabe, eu sinto falta de quando você não era tão... fraca.
– Antes ser fraca do que me tornar uma psicopata como você. — não consegui convencer nem a mim mesma, mas continuei mesmo assim. – Você é louca Chery, completamente louca.
– Louca? – se levantou, ficou atrás de mim e colocou sua cabeça ao lado da minha, deixando sua boca bem perto do meu ouvido. Então ela apenas sussurrou – É, talvez eu seja louca. Mas sabe o que você é, Alice? – uma pausa que fez minha nuca arrepiar. – Nada.
Eu não achava possível ela conseguir fazer eu me sentir pior do que eu já estava, mas ela conseguiu. Dei o meu máximo para segurar a vontade que eu tinha de sair dali – o que só pioraria as coisas — e a ignorei enquanto ela voltava para o seu banco e pedia mais uma cerveja.
– Tive um sonho bastante interessante hoje.
– É, — reuni todo o sarcasmo que consegui encontrar dentro de mim, o que não era muito, e continuei – parece que todos tiveram.
– Não, não. Mas esse não foi um sonho qualquer. Foi mais um... encontro. Com nosso querido pai. – sorriu para mim.
Ouvir aquilo foi como levar um choque mortal. Todos os meus músculos tencionaram, me causando mais dor e cansaço do que eu já estava sentindo, e tudo pareceu girar. Chery percebeu o efeito que aquelas palavras haviam causado em mim, e pareceu ainda mais certa de estava no caminho para acabar de vez comigo.
– Ora, ora. Parece que eu não fui a única a ter revelações incríveis noite passada. Mas acho que as suas foram um pouco diferentes das minhas. – arrumou o cabelo e retocou o batom vermelho. – O negócio é que agora eu tenho um novo trabalho. Agora sou oficialmente sua babá. Vai ser tão divertido.
Fui capaz apenas de me virar para ela e franzir as sobrancelhas.
– O que?
– É isso mesmo. Lúcifer me deixou encarregada de uma pequena tarefa, mas não se preocupe, não é nada demais. Eu só tenho que ficar de olho para que você continue na linha. E é exatamente isso que eu estou fazendo, tentando fazer você acordar para a vida de uma vez.
– Isso é ridículo.
– Ridículo é você achar que pode ficar de gracinhas com um humano, começar a se apaixonar, – pronunciou a palavra com uma expressão de nojo – e achar que vai ficar tudo por isso mesmo. Você está cada dia mais parecida com eles, Alice. Posso até sentir o cheiro de algo podre em você, e pelo visto Lúcifer também.
– Chega! – gritei. – Você não sabe de absolutamente nada. Eu não estou apaixonada. – Falei lentamente. – E faça o favor a você mesma de largar esse seu novo emprego ridículo, porque a minha vida não é problema seu.
Eu havia passado a conversa inteira me sentindo o pior ser do mundo, mas me cansei. Eu não deixaria que Chery saísse dali se sentindo vencedora, não depois de tudo o que ela havia dito.
Larguei o copo que eu segurava, me levantei e comecei a andar, mas parei após alguns passos e me virei para ela.
– Ah, e não se esqueça de arranjar outra pessoa para arrumar sua bagunça, porque eu não vou mais.
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