Metamorfose
12 Capítulo 12
Notas iniciais
Acordei com um bipe. Levantei da cama ainda enrolada nas cobertas e sai a procura do meu celular no meio das milhares de coisas que estavam em cima do meu tapete. Achei-o dentro da minha bolsa e abri a nova mensagem de Emily.
"Acho melhor você não vir na aula hoje."
Joguei meu celular contra a parede com a maior força possível, como se de algum modo aquilo pudesse resolver meus problemas. Eu tinha certeza de que Emily estava falando sobre Chery, que devia estar com vontade de me matar.
Ela havia descoberto sobre minha conversa com Samuel, e isso não me surpreendeu. Eu sabia que não conseguiria esconder isso por muito tempo.
Enquanto colocava minha calça, eu tentava entender o que eu estava sentindo. Raiva, insatisfação, nervosismo, um pouco de medo e preocupação. Me concentrei no medo e parei o que eu estava fazendo. Eu não deveria sentir isso. Chery era minha amiga, e por mais que ela conseguisse ser assustadora as vezes, eu não deveria ter medo dela. Mesmo que eu entendesse — em parte — seus motivos para ficar brava comigo.
Eu precisava me acalmar e pensar em como resolveria aquilo.
Eu não havia feito nada realmente ruim. Samuel me procurou para conversar, não era bem minha culpa. Com certeza ela dirá que eu não deveria nem mesmo ter chegado perto dele, mas quantas vezes ela já havia feito aquilo comigo? Chery nunca se preocupou em manter distância dos garotos que eu pretendia matar, talvez porque eu nunca dera a menor importância para isso. Então por que ela não podia fazer o mesmo?
Senti o medo me deixar a medida que eu pensava. Eu iria enfrentar Chery e acabar com aquilo de uma vez por todas.
Terminei de me vestir, peguei meu celular no chão do outro lado do quarto e sai.
A aula já deveria ter começado, então fui até a cafeteria. Pedi meu café, e quando ele chegou sai de lá com o copo na mão em direção a uma das pequenas praças do campus.
Ela estava vazia, exceto por poucos grupos de adolescentes sentados na grama, que provavelmente estavam estudando ou algo do tipo. Me sentei em um dos bancos de madeira de costas para a fonte central. Pequenas gotas de água me atingiam de lá, e faziam um som baixinho ao caírem de volta na fonte. Tomei meu café e me ajeitei no banco para ficar confortável.
O sol estava forte, mesmo àquela hora da manhã, e queimava minhas costas. Provavelmente eu ficaria com as marcas da minha blusa, mas não me importei. Abri um dos livros que carregava na minha bolsa e comecei a ler, entre um gole de café e outro, mas não consegui me concentrar.
Minha mente viajava por diversos lugares e situações, desde minha ultima conversa com Victória até uma tarefa de casa que eu não havia feito. O que mais prendia minha atenção era a guerra. Victória não havia dado muitos detalhes sobre o que estava acontecendo, mas eu não estava com um bom pressentimento.
Eu já havia presenciado outras guerras antes, e não precisei que ninguém me avisasse sobre elas. Para saber se estavam acontecendo problemas entre o Céu e o Inferno bastava olhar os jornais. Quase todos os conflitos na Terra eram um reflexo do que acontecia entre os anjos e os demônios.
Na maioria das vezes isso acontecia porque as legiões decidiam se enfrentar por aqui, e os humanos os acompanhavam, mesmo sem saber o real propósito da guerra. Mas também havia guerras em que os humanos lutavam contra si mesmos. Eles se sentiam divididos entre seus dois lados, o bom e o ruim, e nem todos aguentavam a pressão. Muitos sucumbiam à loucura, dando origem a psicopatas dos tipos mais variados, e consequentemente surgiam assassinos e líderes de estado loucos que arrastavam seus exércitos uns contra os outros. Resumindo, tudo sempre terminava em guerra, dos dois lados.
Mas essa era diferente. Não havia nada de novo nos jornais, além das desgraças de sempre, mas nada grande o suficiente para denunciar uma guerra, e era isso que me preocupava. A guerra era exclusiva entre o Céu e o Inferno. Era provavelmente importante demais para que os humanos fossem envolvidos, e eu não queria nem mesmo pensar sobre o que aquilo significava.
Eu não sabia se era pelo meu instinto de sobrevivência, ou em nome de tudo que eu acreditava, mas eu precisava que o Lúcifer vencesse. E para que isso acontecesse, eu teria que me esforçar para conseguir soldados para o nosso lado.
Pensar nisso me fez lembrar que eu não havia matado ninguém na noite anterior. Justo quando eu mais precisava, quando eu havia sido pedida para cumprir aquele que era o único objetivo da minha existência, eu havia falhado. E o que eu menos queria naquele momento era um sermão de Emily ou de Chery. Eu precisava focar no que era realmente importante e evitar as distrações.
Repeti isso várias vezes na minha mente, tentando convencer a mim mesma. Eu sabia que eu deveria fazer meu trabalho e pronto, mas a diversão era sempre a melhor parte.
Quando pensei novamente nas distrações, a primeira coisa que veio a minha cabeça foi Samuel. Se não fosse por ele eu teria matado o garoto na festa e teria voltado para o meu quarto em paz. Simples, fácil e rápido. Mas não foi bem isso que aconteceu, e agora eu estava com um milhão de preocupações e alguns problemas relacionados à minha inutilidade.
Era como se o mundo estivesse conspirando para que eu me afastasse dele, mas alguma coisa em mim se incomodava – e não era pouco – com isso. E mais uma vez eu me sentia dividida.
Queimei minha língua com o café quente e submergi dos meus pensamentos. Passei a sentir novamente as gotas d’água atingindo minhas costas, e aliviando um pouco do ardor causado pelo sol quente, e pude ouvir novamente o barulho dos outros adolescentes.
Acendi um cigarro e senti meus músculos relaxarem. Joguei o copo do café fora e observei um grupo de garotas que passava na minha frente. Consegui ouvir que falavam da tragédia que era uma unha se quebrar e ficar de um tamanho diferente das demais. Eu teria ido até lá apenas para rir da cara delas se não fosse gastar tanta energia. Não importava quanto tempo eu passasse com esse tipo de pessoa, a futilidade delas sempre iria me impressionar. O mundo poderia estar desabando sob seus pés, e as fofocas sobre as celebridades continuariam sendo as únicas coisas que as deixariam preocupadas.
Eu teria dado graças a Deus, se isso não soasse tão ridículo vindo de mim, quando elas desapareceram entre as árvores da praça. Mas a mistura nauseante e extremamente doce dos seus perfumes continuou no ar, quase me sufocando, e decidi sair dali.
Pisei no meu cigarro, após jogá-lo na grama, e andei com passos lentos pelo caminho de concreto, margeado por pequenas flores vermelhas, que levava até a rua.
Foi só quando levantei a cabeça que avistei Emily e Chery perto de um dos prédios da reitoria. O sol ofuscava minha visão, mas pude perceber que elas conversavam com alguém. As duas se despediram e começaram a descer a rua.
Chery parecia alegre, com um grande sorriso estampado no rosto, e um dos braços ao redor do pescoço de Emily, que também ria. Aquilo definitivamente não era o que eu esperava, mas senti certo alívio ao perceber que Chery não estava soltando fumaça nem nada do tipo.
Acelerei o passo e desci a rua tentando alcançá-las, enquanto repetia para mim mesma que eu tinha que resolver meus problemas com Chery, e o momento era aquele.
Notas finais
Espero que tenham gostado e deixem reviews, porque acreditem em mim, não faz cair o dedo kkkk
Até o próximo cap!
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