Metamorfose

11 Capítulo X


“My brain's repeating: ‘If you've got an impulse let it out!

But they never make it past my mouth.”

— The Sound Of Settling – Death Cab For Cutie

- Você... Nunca mais a viu? – Frank perguntou assustado depois de Stefan terminar sua história; o mais velho vez que não com a cabeça – nem ela, nem seu pai ou sei lá...?

- Não realmente. Na época eu não quis dar o braço a torcer e agora não é como se faça alguma diferença – declarou, respirando fundo em seguida – mas não se preocupe, tudo vai dar certo para você.

Sorriu e levantou do banco com dificuldade, entrando na casa em seguida, piscando para Gerard antes de desaparecer pela porta, o que quase fez o garoto entrar em desespero. Frank estava visivelmente abalado. Olhava fixamente para o chão e respirava com dificuldade, soluçando às vezes, embora as lágrimas ainda não caíssem de seus olhos. Parecia estar completamente fechado em sua bolha de ar própria, não se importando com o resto do mundo, apenas com os problemas que tinha agora.

Gerard sentia-se impelido a ir ajudá-lo. Abraçá-lo, dizer algumas palavras de conforto. O problema é que nunca soubera confortar pessoas; quando ele estava mal, triste ou sei lá, não gostava que as pessoas ficassem dizendo que estava tudo bem, gostava de sofrer sozinho. Sabia que fazia parte de uma minoria, mas por esse motivo nunca sabia o que dizer quando alguém precisava de ajuda.

E Stefan? Ah, esse merecia apanhar! Onde já se viu dizer esse monte de coisas e fazer Frank surtar e depois sair, deixando a bomba para explodir na mão dele. Gerard bufou, praguejou, xingou. Convenceu-se de que era melhor ir embora, mas existia algum tipo de força desconhecida que o obrigava a não deixar Frank sozinho.

Ele dizia “Oh, mas ele já está brabo comigo, então foda-se, não é?”

A voz dizia “Essa é a sua chance de concertar tudo, idiota!”

Permaneceu em conflito por uns bons minutos, e a cena pareceria bem estranha a qualquer outro que não tivesse acesso a seus pensamentos e ações como nós temos. Pois imagine dois garotos suando frio, um deles quase chorando, um ao lado do outro, e mesmo assim ignorando a companhia.

Foi só quando Gerard pensou nisso que ele se deu por vencido e decidiu-se que tentaria dizer alguma coisa, mesmo que fosse uma tentativa muito fracassada. O que vale é a intenção, não é mesmo? Pigarreou e ergueu a cabeça para examinar Frank, a fim de chamar a atenção do pequeno. Não funcionou. Não sem antes praguejar um tanto, o menino levantou-se e foi sentar no lugar antes ocupado por Stefan. Nem assim Frank olhou, e ele começou a ficar realmente preocupado, de modo que não hesitou mais do que o necessário para passar um dos braços sobre as costas do menor e inclinar-se para falar próximo ao seu ouvido.

Sentiu Frank estremecer ao toque, denunciando que dessa vez ele percebera que Gerard estava ali. O maior respirou fundo algumas vezes antes de realmente falar, com medo de que suas palavras parecessem ridículas.

- Frank, hm... Sabe que vai tipo... Acabar bem, não é? Por que o Stefan, veja... Aconteceu tudo há muito tempo, as coisas eram diferentes naquela época e... – ele interrompeu a si mesmo sentindo seu rosto corar, percebendo que as palavras eram ridículas.

Queria sair correndo, desaparecer. Queria que um buraco abrisse no chão e ele fosse engolido ali mesmo. Não aconteceu. O que aconteceu foi que Frank tombou a cabeça para o lado, escondendo o rosto no peito de Gerard e deixando finalmente as lágrimas que ele tanto evitara, caíssem.

Gerard ficou sem jeito. De todas as reações que havia imaginado, essa era a menos provável, de modo que ele se sentiu desconfortável no momento. Meio sem saber o que fazer, deu palmadinhas nas costas de Frank e envolveu-o com o outro braço. O pequeno ficou ali, molhando a malha da camiseta de Gerard com as lágrimas salgadas.

Ele não sabia bem por que estava fazendo isso. Ele queria dizer a Gerard que não era necessário todo aquele fingimento. Que ele sabia que o maior não estava nem aí para ele, e não se importava. Mas se importava, e aquele contato, ainda que estranho, era gostoso de se sentir. E fácil de se deixar iludir, ainda que ele tenha passado o último mês todo lutando para não fazê-lo.

Permaneceram por vários minutos assim, abraçados. Gerard aos poucos foi se soltando e esquecendo o desconforto, deixando-se levar pelo calor de Frank e seu cheiro inconfundível, quase que esquecendo as perguntas que aquele simples abraço levantariam assim que o pequeno se acalmasse. E o fez, aos poucos. Os soluços e as lágrimas foram cessando, e por fim ele, cuidadosamente, livrou-se do abraço de Gerard, limpando os olhos com as mangas do moletom.

Gerard afastou-se levemente no banco, ainda ignorando a estranheza da situação. Em sua cabeça era como se tudo tivesse ficado bem com aquele abraço. Observou Frank limpar as lágrimas; ele ficava ridiculamente adorável o fazendo. Seu lábio inferior estava um tanto projetado para frente, esboçando um bico, e ele segurava a ponta da manga da blusa entre o dedão e o indicador, utilizando do tecido que cobria os pulsos para limpar o rosto, todo borrado com o pouco lápis de olho que ele se atrevera a passar no dia.

Gerard sorriu involuntariamente, mesmo sabendo que não era a situação mais apropriada para se ficar encantado com alguém.

- Está sujo aqui – disse, esticando o braço e limpando em baixo dos olhos de Frank com cuidado, mordendo o lábio inferior, concentrado.

O pequeno prendeu a respiração, acompanhando as mãos de Gerard aproximaram-se de seu rosto e depois o acariciarem. Sabia que não era isso que estavam fazendo, mas era assim que as via. Isso o preocupava.

- Gerard, olha, você não precisa ser legal comigo só por que... Ok? – disse com dificuldade, gaguejando um pouco. Gerard afastou as mãos do rosto do pequeno, deixando-as cair em seu colo.

- Não é por isso que eu estou sendo legal com você – declarou, como se a frase fosse óbvia, e não necessitasse de mais informações – estou fazendo isso por que... Quero – disse, ao ver Frank fazer cara de quem não entendera.

Só então as lembranças daquela manhã em que magoara o pequeno e de todas as semanas de silêncio voltaram à sua mente, fazendo com que ele se condenasse por ter agido tão estranho aos olhos do menino.

- Escute Frank, sei que eu tenho sido um completo idiota. Mas estou... Confuso – disse, tentando explicar tudo que acontecera sem revelar nada, de fato – só não tenho a mesma coragem que você para... Você sabe, enfrentar o julgamento das pessoas.

- Você não é gay, Gerard – Frank pontuou, seu tom indicando que não aceitava aquilo como desculpa.

Gerard corou violentamente e tossiu para disfarçar.

- Ah, mas andar com você faria com que as pessoas pensassem... – tentou concertar, disfarçando seu surto sem motivo aparente.

- Só por que são um bando de idiotas – Frank reclamou.

- Sim, mas faria – completou o maior, aliviado por que Frank não reparara em nada. O pequeno deu nos ombros.

- É uma escolha sua.

- Eu sei que é, eu estou tentando – disse, encarando a madeira do banco, incapaz de dizer isso olhando nos olhos do pequeno – é por isso que eu estou te pedindo desculpas agora. Juro que vai ser diferente e tal – após terminar, ergueu os olhos para observar Frank, que não parecia respirar.

O pequeno estava confuso. As coisas estavam acontecendo como aconteciam em sua imaginação, quando ele fechava os olhos para tentar dormir e ia para o seu próprio mundo. Lá ele podia controlar as pessoas, as falas, a hora de entrada e saída, tudo. Era como se ele fosse o diretor, e ele sempre soube separar muito bem esse mundo paralelo da realidade. Sempre soube que o que ele imagina não acontece. E estava acontecendo, de modo que ele se sentia estranho. Não sabia o que dizer. Apenas respirou fundo e encarou Gerard profundamente, acenando de leve com a cabeça. O maior sorriu.

- Fico feliz que me entenda Frankie, de verdade – respondeu, soltando o ar aliviado.

Frank acenou afirmativamente com a cabeça novamente, nervoso ainda. Sabia que tinha que dizer alguma coisa, mas não conseguia. Estava assustado com a mudança repentina de Gerard. E o maior, por sua vez, ficou olhando para Frank por alguns momentos, esperando que ele falasse algo. Quando viu que o pequeno não o faria, começou a ficar preocupado com o que Frank estava pensando de tudo e então se levantou rapidamente, num impulso. Pigarreou.

- Eu, hm... Vou pra casa então – sorriu amarelo, virando as costas em seguida para disfarçar o tom avermelhado em suas bochechas. Frank ergueu a cabeça, acordando do seu transe. Demorou alguns segundos para perceber que Gerard estava indo embora e, quando o fez, levantou rapidamente, quase correndo até o outro que já acabava de descer as escadas da varanda.

- Espere – disse, segurando o braço de Gerard, fazendo este quase desequilibrar-se. O maior virou-se para Frank e, na tentativa de não cair em cima deste, acabou por deixar os rostos próximos demais.

Sentindo o hálito quente de Frank em seu rosto, ele não disse nada, nem se afastou. Era quase que uma repetição daquele dia no vestiário, e ele estava tão incapacitado de se afastar quanto daquela vez. Ficou apenas olhando nos olhos do pequeno, que, por sua vez, olhava para os lábios de Gerard. Sabe-se lá quantos segundos se passaram enquanto os dois assistiam a acirrada luta de suas mentes dizendo que se afastassem, mas seus corpos lutando para aproximarem-se. Foi Frank quem quebrou o silêncio primeiro, por medo de estragar o clima bom que se instaurara entre os dois. Pigarreou e deu um passo para trás, subindo um degrau da escada e ficando da altura de Gerard.

- Pode... Me dar uma carona? – a voz saiu fraquinha, ainda um pouco abalada.

Gerard chacoalhou de leve a cabeça antes de murmurar ‘ok’ e virar as costas calmamente, o constante conflito voltando a sua mente com mais força do que nunca. Só quem já passou por isso sabe o que é ter um grande e pesado ponto de interrogação na cabeça. Não, vários destes. Ele te incomoda o tempo todo, te persegue, parece ter vida e falar com você. Gerard ainda se perguntava se era isso que ele queria. Ainda não tinha certeza de nada, mas seu corpo insistia em denunciá-lo a cada segundo. Como ele podia transparecer isso pras outras pessoas se nem tinha convencido a si mesmo completamente? Era uma dúvida constante e chata, que ele tinha vontade de arrancar a força da sua cabeça.

Por que tudo não podia ser mais fácil? Por que ele não podia simplesmente falar:

- Eu gosto de garotos.

Sem o medo que ele sentia. Sem o preconceito que ele tinha contra si mesmo. Sem... Tudo isso o sufocando. E cada vez que ele sentia isso, ele se sentia mais canalha. E tudo que ele fez com Frank quando o pequeno passava exatamente por isso que ele estava passando agora? Era abominável, medonho, insira os adjetivos mais horríveis que lhe vierem à cabeça aqui. Se alguém resolvesse fazer coisas como aquelas com ele agora, ele não tinha dúvidas que não teria a mesma coragem que Frank. Ele negaria. Frank era uma pessoa admirável, realmente.

E ao ter esse pensamento, foi como se uma lâmpada clareasse toda a sua mente. Ele não gostava de garotos. Ele gostava do garoto. Gostava de Frank, e apenas dele. Não sentia atração por nenhum outro. Não olhava os outros jogadores se trocando no vestiário, não podia dizer “Oh, como aquele cara do Out-Door é malditamente gostoso” ou qualquer coisa do gênero. Ele só podia fazer isso com Frank. Somente Frank parecia mexer com seus hormônios ao ficar de cueca na sua frente, e só ele era adorável daquela maneira, com aquele sorriso lindo e aqueles olhos inocentes e ao mesmo tempo sofredores. Somente Frank.

Isso mudava tudo.

Os dois estavam constrangidos de mais para falar, de modo que a viagem até a casa de Frank foi totalmente silenciosa, e a única coisa dita foi um ‘tchau’ do pequeno depois de deixar o carro.

Sabia que a mãe devia estar bem, por estar em companhia da irmã, mas não deixava de estar preocupado, de modo que atravessou rapidamente o jardim em direção a casa. Sua mãe dormia, era só o que fazia ultimamente. Sua tia estava fazendo café e tinha o rosto cansado. Frank entendia, ela devia estar morrendo de preocupação com Linda, assim como ele. Dizendo que logo desceria para tomar o café, subiu para tentar convencer a mãe a sair da cama, mesmo que por alguns minutos apenas.

Bateu de leve na porta e, não obtendo resposta, adentrou o quarto assim mesmo. Ela dormia, de fato, e o menino foi até a sua cama, a fim de acordá-la.

Sentou-se ao lado dela na cama e chamou:

- Mãe? – ela murmurou – Mãe, acorde.

Ela abriu de leve os olhos, demorando para focalizar o menino. Assim que o fez, murmurou novamente. Tinha os olhos vermelhos, quase fechados. Estava dopada.

- Mãe, quantos comprimidos você tomou?

Ela ignorou, balançou a cabeça negativamente. Frank respirou fundo.

- Você não pode continuar assim, você tem que reagir, eu já disse. Não é por que você não tem mais o papai que vai ficar desse jeito. Volte a pintar, arranje outra pessoa ou...

Linda suspirou.

- Eu não quero. Vai fazer diferença para quem? – ela respondeu sem emoção, a língua enrolando um pouco devido aos muitos medicamentos – não há ninguém que se importe comigo, eu não preciso mais viver.

- Eu me importo – Frank respondeu, sentindo o nó formar-se em sua garganta pela quinta vez no dia – eu sou seu filho e preciso de você.

Ela virou-se na cama de modo a ficar de costas para o menino.

- Você já é um homem, pode e virar sozinho – e adormeceu imediatamente, os remédios fazendo efeito.

Frank suspirou e segurou as lágrimas. Era horrível, ele sentia como se ela não se importasse com ele. Queria dizer que não importava se ele tinha oito, dezoito ou sessenta e oito anos, Linda continuaria sendo sua mãe. Continuaria sendo indispensável e insubstituível como qualquer mãe. Mas ela não o deixava dizer isso. Era desesperador.

Limpou algumas lágrimas rebeldes que haviam insistido em cair de seus olhos e foi ao quarto colocar uma roupa mais confortável antes de descer para comer. Estava vestindo uma calça de moletom quando o seu celular tocou. Ele jogou-se na cama e atendeu, deitando-se de barriga para cima e encarando o teto enquanto falava:

- Alô.

- Frankie? – Julian. Frank murmurou algo, desanimado – estive pensando se você não gostaria de...

- Julian, me desculpe, mas não mesmo. Já disse que não posso sair.

- Tem certeza que é esse o motivo? – o outro perguntou, e Frank não respondeu. Não sabia se era. Só queria ficar sozinho, será que era difícil entender que ele estava passando por um momento difícil? – ok, eu ligo depois – a linha ficou muda.

Notas finais
De novo, estou meio sem tempo pra responder os reviews, mas eu queria dizer que eu li todos e estou muito feliz por vocês estarem lendo e gostando :3

Assim que possível atualizarei de novo.