Metamorfose

12 Capítulo XI


“If anyone could make me a better person, you could

All I gotta say is I must have done something good

You came along one day, and you re-arranged my life

All I gotta say is I must have done something right,

I must have done something right.”

- I Must Have Done Something Right – Relient K

Quando Gerard acordou naquela sexta-feira, ele sabia que as coisas teriam de ser diferentes. Sabia que se ignorasse Frank novamente ele jogaria todo seu esforço por água a baixo, e algo dentro de si o dizia que ele não podia deixar isso acontecer. Ele continuava confuso, mas mais convencido do que nunca de que ele realmente sentia algo por Frank. É claro que ele se condenou algumas vezes, que ele se sentiu estranho, mas ele realmente não podia mais negar. Pelo menos não para si mesmo. Quanto às outras pessoas, bem... Ele sentia que não era a hora certa para dizer qualquer coisa, ainda mais depois de toda aquela história de Stefan. Por isso ele tentou, de todas as maneiras, evitar encontrar Frank pelos corredores enquanto estava com os amigos, mas por fim foi impossível, e ele teve de murmurar um tímido ‘oi’ para o pequeno no intervalo entre a quarta e a quinta aula, fazendo Quinn e os outros meninos tossirem desconfortavelmente e trocarem olhares significativos. Gerard os ignorou, sabendo que o que fazia era a coisa certa.

Quando foi para casa aquela tarde, sentia-se absurdamente leve e feliz consigo mesmo. Como se alguma vez na vida ele tivesse feito algo direito, e o culpado disso tudo era Frank. Lembrou-se de se perguntar se toda aquela mudança era boa ou ruim, e logo se convenceu de que, definitivamente, era boa. Antes ele não podia ver tudo isso. Vilões sempre julgam estarem certos, eles nunca pensam “oh, eu vou fazer isso por que é realmente malvado.” Eles o fazem, pois julgam ser a coisa certa. Quando ele xingava Frank, ele julgava ser esta a coisa certa a se fazer. Assim como quando o bateu.

É claro que agora ele via como aquilo era absurdamente errado e preconceituoso de sua parte, mas não podia condenar-se tanto assim. Admitir o erro e tentar melhorar era tudo que ele podia fazer. Concertá-lo também seria bom, mas não estava certo de como fazer para apagar tantas coisas ruins.Tinha o palpite de que, partindo do pressuposto de que Frank gostava dele (como Mikey dizia), bastava ele confessar a Frank todas as coisas que estavam entaladas em sua garganta, e tudo ficaria bem. O pequeno, provavelmente, perdoaria todas as suas mancadas do passado.

Mas ele não podia fazer isso. Se confessar para uma garota já seria difícil, quanto mais se confessar para um garoto, tendo que, além de admitir-se apaixonado, admitir-se gay também. Sim, era realmente complicado. Ninguém chega para outra pessoa e diz:

- Olá, eu gosto de você.

O mundo seria incrivelmente mais simples se o fizessem, mas não, não é uma atitude cabível.

Passou horas e mais horas pensando no que faria, sem realmente chegar a uma conclusão. Sabia que não havia jeito ‘mais fácil’ ia ser difícil e não tinha jeito, então ele precisava se preparar psicologicamente para tudo, embora soubesse que era impossível.

Ele admirava Frank por ser corajoso, e este nunca admitira gostar dele, imagine ele então, que era muito mais covarde. Ele precisava de ajuda. E ele recaiu no clichê de pedi-la exatamente para a pessoa em que você está pensando agora.

Março se aproximava, e com ele o tempo vinha esquentando. O clima já permitia que os moradores saíssem apenas de mangas curtas nas ruas e, com a chegada da primavera, as árvores da rua da St. Martin haviam se enchido de flores de todas as cores e formatos, que por vezes caíam no asfalto, criando quase que um cartão postal, o qual Gerard invadiu com seu carro naquele sábado de manhã. Após desligar a música que ouvia e apagar o cigarro que tragava, o garoto desceu do carro, imerso demais em suas dúvidas para reparar na bonita paisagem antes descrita.

Era dia de faxina, de modo que havia muitos serviços domésticos a serem feitos. Por sorte, Gerard a muito se acostumara com estes, e por isso não teve dificuldade em passar pano no chão ou tirar pó dos móveis. Aos poucos viu o tempo que teria para conversar com Stefan se esvaindo e ficou com medo de ter de permanecer mais uma semana com todas as perguntas lhe martelando.

Tanto medo que convenceu-se a dizer tudo por conta própria.

Frank cantarolava baixinho com os fones lhe tampando os ouvidos enquanto passava pano pelas mesas do refeitório. Seus olhos bonitos estavam totalmente concentrados no que fazia, mas sua mente parecia estar bastante longe. Alguns pingos de suor escorriam dos cabelos e os movimentos que fazia com o braço em cima da mesa seguiam o ritmo da música que ele provavelmente ouvia.

Gerard, que descera para pegar mais lustra-móveis, encostou a cabeça no batente da porta e ficou observando o menino, com um sorriso bobo nos lábios. Sabe-se lá por quanto tempo permaneceu assim, até que algo em sua mente o acordasse e ele finalmente pusesse-se a andar em direção a dispensa. O olhar de Frank o acompanhou, assim como um sorriso doce em seus lábios. Gerard acenou brevemente e fechou os olhos assim que virou as costas. Ele precisava falar. Precisava. Mas o que? Por que? Como? Tinha mesmo que ser agora? Bem, agora ou depois, ia dar na mesma.

Pegou o frasquinho marrom avermelhado e voltou para o refeitório, onde Frank continuava a limpar as mesas e rebolar ao ritmo da música. Gerard deixou escapar uma risada que o pequeno não ouviu por culpa dos fones de ouvido. Aproximou-se deste, ainda um pouco nervoso, e tocou de leve seu ombro, fazendo-o virar rapidamente e derrubar os fones com a ponta dos dedos.

Ao ver que era Gerard, sorriu e deu um impulso com os braços, sentando-se na mesa. O maior pigarreou.

- É... Sua mãe... Está melhor? – Não sabia por que estava fazendo rodeios, mas não conseguiria de outra forma.

- Na verdade não – o pequeno respondeu, encarando o trapo encardido que tinha em mãos – mas minha tia está tomando conta dela. Ela diz que não quer que eu deixe de ir ao colégio, essas coisas. Minha tia, digo. Minha mãe não diz mais nada – deu nos ombros após terminar.

- Que péssimo – Gerard comentou, sem saber o que mais dizer, e tendo consciência de que se deixasse o assunto morrer, não teria outra chance – mas, hm, eu queria falar com você sobre...

- Vocês estão fazendo o que conversando com tanto trabalho a fazer? – A Sra. Lee entrou no refeitório com as mãos na cintura – vamos, trabalhando – e passou pelo portal que levava a cozinha resmungando.

Gerard deu nos ombros para Frank, aproveitando a chance para sair do local, visto que sua coragem, que já era pouca, acabara completamente naquele momento.

Definitivamente ele não conseguiria fazer isso sozinho.

Foram terminar a faxina pouco antes da hora de Gerard ir embora e, com a desculpa de que ele não poderia mesmo sair meia hora antes, ele foi fazer companhia a Stefan no jardim. O mais velho ocupava-se de regar algumas plantas que começavam a florescer agora. Atravessou o gramado, encostando-se no muro de frente para o outro, e pigarreando para chamar sua atenção. Stefan sorriu ao ver Gerard, e depois se voltou para o que fazia.

- Eu incomodo demais com todas as minhas perguntas? – Gerard deixou escapar, encarando o cadarço de seu coturno com atenção. Stefan riu.

- De maneira alguma – disse, parando, pois a água de seu regador havia acabado – tem mais alguma?

Gerard riu, observando o outro abaixar-se para encher o regador azul com a água da torneira que ficava ali perto.

- Tenho – confessou assim que Stefan se levantou, fazendo o outro rir.

- Pois faça – murmurou e deu um passo para o lado, molhando as flores um pouco mais distantes. Gerard mexeu-se levemente, apoiando-se em uma parte do muro mais próxima do outro.

- Como foi quando você e Brian finalmente ficaram juntos?

Stefan respirou fundo e parou o que fazia. Com cuidado colocou o regador em um canto da calçada e foi encostar-se no muro ao lado de Gerard. Os dois passaram a observar a rua enquanto o mais velho falava.

- Acho que eu mencionei que fiquei com ciúmes de uma namoradinha dele, não? – Gerard murmurou afirmativamente.

Depois que eu bati a porta na cara dos dois, eu devo ter passado algumas horas no meu quarto me condenando pelos meus sentimentos. Veja, eu os controlava melhor do que você controla os seus, por que não tentei me negar ou ignorar. Quando eu percebi ser aquilo, eu já tinha certeza.

Mas eu e Brian éramos amigos há tempo suficiente para que eu não surtasse tanto sobre contar para ele o que eu sentia. Foi difícil tomar coragem, veja bem, mas não foi tão horrível.

Eu fiquei na minha janela, imerso em meus pensamentos, observando o jardim de Brian até que ele aparecesse. Estava sozinho e nem olhou para minha casa, de modo que não fui percebido ali. Ele atravessou o jardim e, depois de se demorar um tanto na porta, adentrou a casa.

Eu me enrolei mais um pouco. Fiquei entre sair e não sair, telefonar ou não telefonar por alguns minutos. Até que por um impulso eu desci até a sala e peguei o telefone esverdeado da minha mãe. Com as mãos tremendo eu disquei o número dele, e esperei tocar um pouco.

- Alô – pude ouvir a mãe dele dizer do outro lado.

- Sra. Molko? Deixa eu falar com o Brian? – pedi.

Ela enrolou um pouco, me disse para aparecer qualquer dia que ela faria o bolo de laranja que nós gostávamos. Eu a respondi, torcendo para que ela não percebesse a minha voz falhando, e vendo a minha coragem se esvair a cada segundo.

Quando Brian pegou o telefone, eu quase não consegui falar. Ele estava bravo por que eu tinha sido grosso com a tal menina. E eu tentei explicar, não me lembro do que eu disse.

Lembro que, por fim, murmurei:

- Queria falar com você.

Ele me respondeu que eu falasse, e eu pedi que fosse pessoalmente. Pedi que fôssemos até a casa da árvore, assim ninguém iria nos interromper. Alguns minutos depois, eu acho, nós estávamos lá, sentados no chão de madeira podre, torcendo para que a velha casinha não desabasse.

Brian, assim que terminou de subir a escadinha, fez sinal para que eu falasse. Eu não sabia por onde começar. Nem sabia o que afinal eu queria dizer. Mas tinha uma coisa da qual eu precisava me certificar antes de tudo.

- Aquela garota...

- Mary – ele me cortou e depois fez sinal para que eu prosseguisse.

- O que for. Ela é mesmo a sua namorada?

- Sim – ele respondeu, sorrindo alegre – por quê?

- Eu só não... Consigo imaginar você e uma garota, só isso – e realmente não conseguia. Brian era feminino demais, pequeno demais, delicado demais para estar com uma menina. Quando se olhava para ele você automaticamente subentendia que ele era... Diferente.

Ele se ofendeu com o que eu disse, de qualquer forma.

- O que quer dizer com isso? – ele perguntou, aumentando o tom de voz – está dizendo que eu sou... Sei lá... Feio demais para que alguém me queira? – era uma pergunta incrivelmente infantil. Me fez rir e Brian pareceu ficar mais bravo ainda. Fez menção em descer da árvore.

Eu o segurei pelos braços, mantendo-o sentando em minha frente. Ele ergueu as sobrancelhas e me encarou, rendendo-se ao meu esforço de mantê-lo ali. Desci minhas mãos por seus braços até que elas encontrassem as dele, pequenas e branquinhas. Entrelacei nossos dedos, atraindo a atenção dele para nossas mãos juntas.

- Você é lindo, sabe disso – declarei, meio sem pensar.

Ele corou violentamente e não tirou os olhos das mãos. Mexeu-se desconfortavelmente e depois ergueu os olhos para mim, fitando-me.

- Por que não consegue me imaginar com uma garota então?

Existiam muitas respostas que eu podia dar a ele. Eu podia dizer “por que eu te vejo como uma” ou “por que eu te imagino comigo”. Mas nessas respostas eu só pensei muito tempo depois, no momento eu não pensei em nada.

- Você sabe – eu murmurei, abaixando minha cabeça.

- Não, Stef, eu não sei – ele se curvou para entrar em meu campo de visão, inevitavelmente nos aproximando mais. Eu ergui de leve a cabeça e sorri. Eu tinha que dizer... O que eu tinha que dizer?

Eu estava completamente hipnotizado pela proximidade, a respiração quente dele, seus olhos azuis me fitando. Eu não seria capaz de responder por mim. Soltei uma das mãos que ainda seguravam as dele e a levei a sua bochecha, afastando seus cabelos de sua face, e depois cumpri o espaço que nos separava devagar, como se pedisse permissão. Os olhos de Brian encaravam meus lábios e, de certa forma, ele se aproximou de mim também, de modo que logo nossos lábios se tocaram, gerando um leve formigamento no local. Depois de algum tempo apenas assim, aproveitando a sensação, Brian entreabriu os seus lábios num convite subentendido. Eu não me lembro realmente do que senti com o beijo, mas não vou mentir e dizer que foram fogos de artifício ou coisas do gênero. Eu acredito que isso não existe. Mas me lembro de ficar extremamente feliz com tudo aquilo, quase explodindo por dentro.

Quando nós finalmente nos separamos, Brian começou a rir imediatamente, quebrando totalmente o clima do local. Eu fiquei preocupado, achei que ele estava rindo de mim, ou que achava que tudo fosse uma simples brincadeira.

- O que? – Perguntei, fazendo-o rir com mais intensidade. Perguntei mais algumas vezes sem obter resposta e logo me irritei – Ah, vá se ferrar, Molko! – disse, entrando pelo buraquinho que levava a escada no momento.

Ouvi que ele parou de rir, e quando eu já terminara de descer a escada e ia em direção a minha casa, quase chorando, senti ele tocar meu ombro.

- Desculpe – ele murmurou, puxando-me em direção à arvore novamente – É só que isso explica a sua opinião sobre mim e as garotas – ele disse, segurando o riso de uma forma adorável.

Eu bufei e girei os olhos, e antes que eu pudesse dizer mais alguma coisa, ele colocou a mão em minha nuca, puxando-me para outro beijo. Eu estava completamente feliz com isso, mas eu sempre fui mais racional que ele. Segurei seu rosto, impedindo-o de prosseguir.

- Alguém pode nos ver.

- Não vão – ele disse, dando nos ombros e se libertando da minha mão para juntar nossos lábios novamente.