Metallica's All Access The Pit
1 Inferno em Vegas
Vamos esclarecer uma coisa antes de mais nada.
Se você perguntasse pra metade da juventude americana em 1989 o que faria pra passar uma noite com o Metallica, muitos responderiam: “qual rim você quer?”
O esquerdo.
O direito.
Talvez os dois.
A Damaged Justice Tour era esse tipo de fenômeno. E conseguir um passe pros bastidores era o equivalente a ganhar na loteca.
A fila de gente disposta a vender a própria dignidade por alguns minutos ao lado dos quatro titãs do thrash metal atravessava Los Angeles, passava por San Diego, chegava em Tijuana e ainda sobrava gente esperando.
Só que a Hannah Cameron não estava nessa fila.
A única coisa que ela não conseguia tirar da cabeça era o fato de que o aluguel do conjugado caindo aos pedaços na Sunset Strip vencia todo dia cinco, e que o senhorio — um desgraçado com bigode de astro pornô fuleiro dos anos 70 — tinha duas paixões na vida: cobrar aluguel e não aceitar desculpas.
Naquela época, Hannah era só mais uma mané saída do subúrbio barra-pesada tentando sobreviver à faculdade, com uma conta bancária deprimente e uma geladeira ainda mais deprimente.
Metallica?
Essa era a banda que o vizinho colocava no último volume às duas da manhã enquanto ela tentava estudar.
Coisa da qual Hannah nem reclamava, na verdade.
Era melhor do que escutar o casal do andar de baixo brigando porque a mulher jurava que o marido estava traçando a garçonete do bar da esquina.
Ainda assim, Hannah também não ia fingir que se importava, e se alguém perguntasse quem era o baixista da banda, ela provavelmente responderia: "e tem baixista?"
Enquanto isso, pra pagar o aluguel daquele ovo de apartamento, ela engolia sapos no décimo andar da Q-Prime, uma das maiores empresas de gerenciamento de turnês da Costa Oeste.
E, não... o trabalho era muito menos glamouroso do que parecia.
Hannah era estagiária de logística. Traduzindo: passava o dia organizando o caos que outras pessoas criavam, organizando planilhas e ganhando menos do que a empresa gastava por mês abastecendo a máquina de café.
Uma existência perfeitamente medíocre.
Até que o destino — ou Deus, ou o Diabo, ou quem quer que estivesse de plantão em Los Angeles naquele sábado insuportável de abafado — resolveu se divertir às custas dela.
Na sala da diretoria, Peter Mensch e Cliff Burnstein — dois dos empresários mais bem-sucedidos dos Estados Unidos — estavam tentando evitar um AVC simultâneo.
O motivo? Howard.
Esse era o assistente pessoal do Metallica até quinze dias antes, quando sofreu um colapso nervoso tão espetacular durante a Damaged Justice Tour que simplesmente... desapareceu.
Literalmente.
Não pediu demissão com antecedência, não entregou o crachá.
Não deixou um bilhetinho dizendo “vão se foder e não me procurem”, e ninguém sequer o viu sair do hotel em Portland.
As teorias diziam que ele tinha voltado pra casa da mãe, em Ohio, enquanto outros juravam que Howard estava meditando num mosteiro tibetano — havia até quem garantisse que ele tinha largado tudo pra vender coco numa praia de Cancún.
Mas a verdade? Ninguém fazia a menor ideia.
O mais engraçado era o fato de que, depois de duas semanas tentando acompanhar o Metallica naquela turnê, ninguém podia culpá-lo por ter desaparecido.
— Sabe o que você pode fazer com esse relatório da companhia aérea, Cliff?
Peter nem esperou a resposta.
Arrancou o maço de folhas das mãos do sócio e tacou sobre a mesa de reunião com tanta força que uma delas escapou, planando devagar até pousar no carpete.
Então Peter apontou pra cara dele.
— Enfia no cu. É isso que você pode fazer com ele.
Existe uma coisa sobre turnês daquele tamanho que pouca gente entende: nunca foi só sobre a música.
A música acontece no palco e dura umas horas. Três, se a banda estiver inspirada. Depois que as luzes apagam, a plateia vai embora rouca, a crítica publica e mídia publicam meia dúzia de “boas notas de performance” e pronto.
O resto... bom, o resto é o que mantém tudo de pé.
Esqueça a MTV e as capas da Rolling Stone, vendendo suas fotos bonitas de guitarras erguidas contra um mar de isqueiros acesos.
Uma banda daquele tamanho não se tratava apenas de quatro caras fazendo barulho:
- Sem o técnico de som, não existe show.
- Sem os roadies, ninguém encontra os instrumentos.
- Sem a equipe de iluminação, o palco é só um galpão escuro.
- Sem o motorista, a banda sequer chega à próxima cidade.
- Sem a camareira, os camarins viram um aterro sanitário em poucas horas.
E sem o assistente pessoal?
Bom... Portland respondeu essa pergunta por todo mundo.
Desde o desaparecimento de Howard, os bastidores tinham entrado num efeito dominó de pequenos desastres — um voo perdido aqui ou um hotel reservado errado ali, enquanto o caminhão chegava atrasado ou um equipamento era esquecido porque ninguém lembrou de conferir.
Isolados, nada parecia grande coisa.
Juntos? Era o caos que fazia uma turnê milionária trincar por dentro.
E a paciência — que nunca foi exatamente uma qualidade abundante entre quatro músicos presos num ônibus de turnê havia meses — estava por um fio.
Naquele ritmo, não era questão de “se”.
Era questão de “quando”.
E, quando o Metallica resolvesse explodir... a bomba ia estourar bem no colo da Q-Prime.
Peter inclinou o corpo sobre a mesa.
— A Marge ligou mais cedo — ele avisou. — aquela megera vai meter o pé de Vegas assim que o show acabar hoje. Então me explica uma coisa... quem é que vai organizar a vida daqueles cretinos a partir de amanhã?
Cliff abriu a boca.
— Precis—
— Precisamos de um assistente fixo nessa merda pra ontem! — Peter o atropelou, passando a mão pelos cabelos. — Pra antes de ontem!
Cliff esperou alguns segundos até ter certeza de que o amigo tinha terminado.
— Los Angeles tá seca, Peter — ele soltou um suspiro pesado, esfregando as têmporas. — mas eu dei uma olhada nuns currículos júnior...
Cliff fez uma pausa estratégica, medindo a distância entre o próprio rosto e o punho do parceiro.
— Não é exatamente o que a gente procura... mas tem umas garotas promissoras—
— Não, caralho!
Peter esmurrou a mesa com tanta força que alguém do outro lado da parede de vidro chegou a se engasgar com o café.
— Eu já falei que não quero mulher metida no meio dessa história.
— Porra, irmão... — Cliff finalmente se exaltou. — você quer que eu tire um assistente do meu rabo? Porque é isso que você tá me pedindo, e a gente tá sem opção e sem tempo pra essa merda.
Peter cruzou os braços.
— Você escuta a KNAC, cara?
Lá vem.
Cliff fechou os olhos.
— Escuto, irmão, eu escuto sim...
— Então você sabe o que metade das malucas da Costa Oeste manda praquela rádio.
Peter abriu os braços, indignado.
— Não são cartas de fã, Cliff. São prontuários psiquiátricos! — e foi contando nos dedos: — Confissão de amor, poesia masoquista, foto pelada... até calcinha usada.
Peter balançou a cabeça, sem saber se ria porque achava tão absurdo a ponto de ser engraçado, ou realmente preocupante.
— Calcinha usada, meu camarada. Calcinha usada—
Cliff suspirou.
— Tá, tá bom, cara. Eu entendi na primeira vez que você falou...
— Não, "tá bom" nada! — Peter apontou pra ele. — As mulheres mandam roupa íntima pelo correio pra uma estação de rádio! Se isso não é um atestado coletivo de insanidade, eu não sei mais o que é.
Cliff passou a mão pelo rosto.
— Cara... você tá exagerando.
— Ah, eu tô?
Peter estendeu o braço em direção à janela panorâmica, como se a Sunset Strip inteira estivesse prestes a vomitar groupies pelas calçadas.
— Se a gente coloca uma dessas malucas naquele ônibus até o fim da perna americana da turnê, sabe o que acontece?
Cliff nem se deu ao trabalho de responder.
Peter respondeu por ele.
— Termina com ela na cama de um deles antes do bis de terça-feira. Depois disso, é só escolher o desastre: gravidez, um escândalo, processos. Ou uma capa do National Enquirer dizendo que o Metallica é o responsável pela decadência moral da juventude americana.
Cliff soltou uma risada pelo nariz.
— A decadência moral da juventude americana começou muito antes desses quatro aprenderem a afinar uma guitarra, Mensch.
E ele apontou a caneta pro sócio.
— O que me preocupa é o tempo que falta pra você tomar um processo por discriminação, seu maldito sexista do caralho.
Peter deu de ombros enquanto voltava a se recostar na cadeira.
— Pode me chamar do que quiser, mas prefiro responder por preconceito do que por um escândalo de milhões de dólares.
Peter pescou um cigarro no maço largado sobre a mesa, estalou o isqueiro.
— Esse ramo ainda é mundo de homem, Cliff. — disse ele, e a chama iluminou seu rosto por um instante. — Eu não fiz as regras, só sobrevivi tempo suficiente pra aprender quais eram.
E deu uma tragada longa antes da fumaça deixar sua garganta numa nuvem espessa.
— Agora, já que você virou um grande defensor do sexo frágil, me diz uma coisa... cadê o profissionalismo nessa porra de país?
Cliff esperou uns três segundos, só pra ter certeza.
— ...vai me deixar falar agora ou pretende interromper cada palavra minha com um piti diferente?
Peter bufou.
— Piti é o caralho. Isso aqui se chama experiência, irmão. Você devia experimentar qualquer dia desses.
E Cliff riu, mais cansado que disposto a discutir.
— Eu experimento toda vez que você abre essa maldita boca, meu velho—
— Nós não precisamos de uma fã.
A frase veio do outro lado da sala com uma calma quase irritante.
Peter e Cliff viraram a cabeça ao mesmo tempo.
Até então, Roman — o chefe geral de logística da Q-Prime — permanecia quieto, largado no sofá de couro no canto da sala com um cotovelo apoiado no braço do estofado e um copo de café morno na outra mão.
Aquele cara já tinha sobrevivido a problemas muito maiores do que dois empresários discutindo igual um casal em terapia.
Porque, convenhamos...
Aquilo nem chegava perto de uma crise.
Em mais de dez anos trabalhando com gerenciamento de artistas, Roman já tinha visto praticamente tudo que um ser humano podia ver sem ser preso.
Um vocalista detido na véspera de um show.
O baterista desaparecido por quarenta e oito horas.
Um caminhão inteiro de equipamentos retido na fronteira canadense por “irregularidades alfandegárias” que, segundo um agente extremamente constrangido, envolviam um urso empalhado, três quilos de maconha e uma espada samurai que ninguém soube explicar de quem era.
Era o tipo de ocorrência que fazia qualquer escritório comum entrar em colapso.
Mas na Q-Prime? Era só mais uma terça-feira.
E, até aquele momento, Roman tinha resolvido todas elas da mesma maneira: com bom senso e dois telefonemas.
Ele nunca precisou de um terceiro.
Logo, enquanto a fumaça do cigarro do Peter se desfazia, ele ajustou os óculos na ponte do nariz com a ponta do indicador.
— Precisamos de alguém que saiba ler um itinerário — disse por fim, a voz grave e arrastada. — e que não tenha medo de quatro caras movidos a raiva, álcool e cocaína.
Ele se levantou do sofá de couro com tranquilidade, trazendo debaixo do braço uma pasta preta que estava com ele desde o início da reunião.
Atravessou a sala sem pressa, largou a pasta sobre a papelada espalhada na mesa e a abriu. Depois, com dois dedos, empurrou o arquivo até o centro.
Peter e Cliff baixaram os olhos ao mesmo tempo, pra fotografia 3x4 grampeada ao currículo — uma garota loira, olhos claros, expressão de quem não estava nem um pouco interessada em agradar.
Roman deixou o silêncio fazer seu trabalho por um instante. Então deu uma batidinha seca com a ponta do dedo sobre a foto.
— Hannah Darling Cameron — anunciou. — estagiária de logística que contratei faz dois meses. Ela trabalha na baía três deste prédio.
Mas Peter nem chegou ao segundo sobrenome, e bastou os olhos pararem no “Darling” pra ele soltar uma risada amarga.
— Ah, claro — disse. — quando os rapazes precisarem de água com gás, a gente chama a sua estagiária.
— Cala a boca, Peter. — Cliff o interrompeu, fazendo um gesto pro gerente prosseguir. — você dizia?
— O pai dela é um sargento aposentado — continuou Roman, abrindo outra página da pasta. — e, pelo que consegui levantar, antes da Hannah ele já tinha criado cinco filhos homens.
Peter estava no meio de uma tragada quando a fumaça entrou pelo lado errado.
— O-o que?! Cinco?!
O acesso de tosse durou três segundos antes do empresário recuperar o fôlego, puxar o arquivo mais pra perto e dar outra olhada. Só pra garantir.
— Quer dizer que o velho criou seis filhos? — então deu um assobio baixo. — Rapaz... o velho era bom de foda como era de farda, hein? Isso é o que eu chamo de servir à pátria, senhores.
— Jesus Cristo, Peter. — Cliff fez uma careta.
— O quê? — seu sócio ergueu as sobrancelhas, surpreso.
— Você consegue ser mais desprezível, homem?
— Consigo — disse ele, apoiando os cotovelos na mesa com um sorriso. — me dá só mais cinco minutos.
— Considerando o ambiente onde cresceu — Roman prosseguiu apesar dos dois. —, podemos assumir que ela tem experiência lidando com marmanjos, certo?
— Sim, justo. — Cliff assentiu, voltando a atenção pro arquivo.
— E ela trabalha bem. Muito bem.
— E quanto é “muito bem”?
Roman finalmente ergueu os olhos da pasta.
— Na terceira semana dela na empresa, entreguei um exercício de logística — respondeu o gerente. — um mapa com cronogramas e um orçamento “limitado”, então mandei que ela organizasse um planejamento completo pra turnê do Suicidal Tendencies do ano que vem.
Roman fez uma pausa.
— Dei à Hannah uma semana de prazo.
Cliff inclinou o corpo pra frente.
Peter permaneceu quieto, uma sobrancelha ainda arqueada e o cigarro queimando esquecido entre os dedos.
— E aí? — Cliff perguntou, já temendo a resposta.
Roman fechou a pasta com a mesma lentidão com que abrira.
— Ela terminou antes do fim do serviço.
— Como é? — Peter soou mais aguda do que gostaria.
Roman alisou a capa de couro preto como se estivesse acariciando um gato.
— Quatro horas e trinta e seis minutos — ele deu de ombros. — cronometrados, senhores.
Peter olhou pra pasta, depois o gerente engomadinho e então a pasta de novo.
— Você tá me dizendo que uma estagiária de vinte anos...
— Vinte, sim. — Roman anuiu.
— ...resolveu em menos de cinco horas o que um dos nossos coordenadores sênior levaria uma semana?
Roman não precisou responder, e dessa vez havia qualquer coisa parecida com um sorriso no canto da sua boca — ou talvez fosse só um truque da luz. Com ele, nunca dava para saber.
Cliff quebrou o gelo com um riso que veio de algum lugar entre incredulidade e um orgulho quase paternal.
— Três horas, Roman... — repetiu ele, balançando a cabeça.
— E trinta e seis minutos — o gerente reforçou, levantando um dedo: — cronometrados.
Peter apagou o cigarro no cinzeiro com mais força do que o necessário.
O gesto dizia tudo o que não admitia em voz alta: que estava começando a ficar impressionado, e que odiava ficar impressionado com qualquer coisa que não fosse ideia sua.
Mas Roman continuou, de toda forma:
— Então, senhores, a pergunta não é se a minha estagiária dá conta dos seus rapazes...
E o intervalo entre as frases parecia até uma ameaça.
— A pergunta é se os seus rapazes que vão dar conta da minha estagiária.
Peter, no entanto, nunca se dava por vencido.
— A garota pode ser eficiente quanto for — insistiu, mais controlado, menos afetado. — mas crescer no meio de cinco irmãos no subúrbio não é a mesma coisa que ficar presa por dias na estrada com quatro roqueiros.
Cliff absteve-se por um momento, infelizmente tendo que levar o argumento em consideração.
— É — disse por fim, coçando a barba com os nós dos dedos. — o Peter tem razão, Roman.
Peter virou a cabeça na direção do sócio com uma expressão de leve surpresa.
— Obrigado, meu amigo.
— Não me agradece ainda — Cliff ergueu um dedo. — você pode ter razão nesse ponto específico mas ainda não é uma pessoa razoável.
— Aceito — Peter levantou as mãos. — uma vitória por vez.
Cliff o ignorou e voltou-se pro gerente.
— Aquilo não é exatamente um ambiente saudável pra uma mocinha. Você sabe disso melhor do que eu, Roman.
Ele fez uma breve pausa.
— E ela, a Hannah, não vai poder sair correndo depois que um deles resolver gritar na cara dela... ou passar a mão na bunda dela.
Peter aproveitou a deixa.
— Nem transar com um deles e transformar isso aqui numa novela mexicana — completou.
Roman tirou os óculos. Limpou uma das lentes com a ponta da gravata e os recolocou no rosto.
— Tudo bem — disse ele.
— Tudo bem o quê? — Peter perguntou, desconfiado.
— Vocês têm razão — admitiu Roman. — não é um ambiente saudável pra uma mocinha, mas tem uma coisa que eu ainda não contei sobre a Hannah.
— E o que seria? — Cliff perguntou.
— Ela quase foi demitida ontem à tarde.
Peter piscou.
— Como é que é?
Cliff estreitou os olhos.
— O que ela fez?
— A Hannah ameaçou enfiar uma caneta tinteiro no pescoço do entregador da FedEx.
Os empresários encararam a pasta preta e a fotografia 3x4 de uma garota de vinte anos que, aparentemente, tentou cometer um homicídio com material de escritório.
— O atraso na entrega das fitas master deixou ela bem irritada — Roman explicou. — felizmente, o garoto correu mais rápido do que ela.
— Puta que me pariu — murmurou Peter, ainda decidindo se a situação é cômica ou assustadora. — puta que me pariu.
— E sabem qual é o melhor de tudo?
— Ainda tem mais? — Cliff já não sabia se estava preocupado com o Metallica ou com a estagiária.
— A Hannah não faz ideia do que é um moshpit.
— Ah, vai se foder. — foi Peter quem duvidou..
— Estou falando sério — Roman insistiu. — ela escuta Nancy Sinatra, The Doors, e pelo que as meninas do RH andam comentando, a Hannah tem frequentado umas festas onde toca aquela porcaria nova de gangsta rap.
A palavra saiu da boca dele como se fosse uma ofensa pessoal.
— Pra ser sincero com os senhores — ele concluiu, cruzando os braços. —, acho que ela nem gosta de metal.
Considerando que uma turnê multimilionária estava prestes a descarrilar por falta de um sargento nos bastidores, a lógica se provou bem simples pro Cliff — e, já que precisavam de alguém, aquela garota era a melhor opção num raio de mil jardas.
Pouco importava se o Peter concordava ou não.
Cliff bateu a palma da mão na mesa.
— Chama a criatura.
Peter ergueu a cabeça num sobressalto que chegou a estalar seu pescoço
— Espera aí— Como é?!
— Você ouviu, meu velho. — respondeu o sócio. — Ah, é... Roman?
O gerente virou o rosto pra ele.
— Vamos providenciar um cheque gordo pras boas vindas — emendou Cliff. — eu quero essa garota no aeroporto de Los Angeles em uma hora.
E então Roman fez algo que raramente fazia.
Ele sorriu.
Peter, por outro lado, arregalou os olhos como se tivesse acabado de testemunhar um atropelamento.
— Vocês enlouqueceram — não era uma pergunta. — vamos entregar a responsabilidade da maior turnê do ano nas mãos de uma desequilibrada de vinte anos?
— Tecnicamente, não... — Roman puxou a pasta de volta pro seu lado da mesa. — estamos entregando nas mãos de uma universitária mal paga, criada por um militar e cinco irmãos possivelmente violentos.
— É isso aí.
Cliff já até estava com o telefone na mão, começando a discar pro setor de logística.
Não, não, não... decididamente não.
Peter levantou da cadeira num tranco violento.
Ele precisava sair dali, descer até o bar mais próximo e tomar uma dose dupla de uísque antes que sua cabeça explodisse e sujasse a diretoria com seus miolos fervendo.
— Isso vai acabar em merda — avisou ele enquanto cruzava a sala a passos largos e furiosos. — escuta o que eu tô te falando, Cliff.
Seu parceiro nem tirou o telefone do ouvido, só ergueu a mãozinha num aceno vago entre "até logo" e "já vai tarde".
— Deixar uma psicopata cheia de estrogênio no meio daqueles imbecis...
Peter parou com a mão no trinco da porta e se virou pra trás com um dedo em riste.
— ...vai acabar em merda!
E a porta de vidro bateu com força.
[Family Affair — Instrumental, Mary J. Blige]
Ah...
Qualquer fã teria vendido a própria alma a Satanás por uma oportunidade daquelas.
Hannah Cameron, por outro lado, aceitou o bilhete para o inferno por um motivo consideravelmente mais nobre: grana.
Mais especificamente, grana o bastante pra impedir que a Southern California Edison cortasse a luz do seu apartamento naquela mesma semana — e ela vinha evitando olhar praquele papel cor-de-rosa com AVISO FINAL havia dias.
Logo, quando Roman apareceu na baía três com um cheque de adiantamento que cobria fácil três meses do seu conjugado, o cérebro dela fez a única conta que importava:
Dinheiro → aluguel pago → eletricidade garantida → não ter que congelar o bumbum com banho frio no escuro.
→ Sim, por favor.
Ela pegou o cheque e encarou por alguns segundos, só pra se certificar que os zeros não eram alucinação provocada pelo fato de que ela não tinha almoçado... ou tomado café. Ou jantado noite passada.
Mas continuavam lá. Três deles. Alinhados igual soldadinhos em formação.
Então, ela dobrou o papel e o enfiou no bolso de trás da calça jeans.
— Alguma pergunta?
— Só se esse cheque já tem fundos. — ela respondeu enquanto se abaixava pra apanhar suas coisas embaixo do balcão.
Roman já tinha visto de tudo pra se surpreender com qualquer coisa. Mas, naquele exato segundo, ele soube.
Ela duraria mais que o coitado do Howard.
Muito mais.
— Tem, sim — respondeu ele.
Hannah pegou a bolsa surrada que estava pendurada no encosto da cadeira e a jogou no ombro.
— Então não tenho mais nenhuma pergunta.
E, pra quem aceitou o emprego achando uma porra de um escritório itinerante enquanto os roqueiros faziam sei-lá-o-quê em sei-lá-onde, embarcar na primeira classe da United Airlines foi um belo soco no estômago.
Mal cruzou a entrada da aeronave e foi abordada por uma aeromoça muito educada e de sorriso perfeito, que se ofereceu pra guardar sua mochila surrada e indicar seu lugar, onde uma taça de champanhe esperava com um bilhetinho: “cortesia da Q-Prime”.
E Hannah bebeu, mas não que gostasse de champanhe — ela tomava cerveja morna, uísque barato, qualquer coisa que queimasse a garganta — mas porque recusar parecia falta de educação... e todos iam descobrir que ela era uma fraude.
Ergueu a taça e tomou um gole. Sentiu as bolhas estourarem na língua como pequenas agressões douradas.
O assento reclinava... reclinava de verdade! Não aquela inclinaçãozinha de cinco graus que só serve pra te deixar ainda mais desconfortável.
E havia um cardápio também. Um cardápio pra um voo de uma hora e trinta minutos.
Então Hannah pediu o salmão defumado. De novo, não porque gostasse de salmão — ela odiava frutos do mar —mas só porque podia pedir a porra do salmão naquele dia.
Comeu de olhos abertos, sentindo o gosto amanteigado do peixe derreter na boca enquanto observava as nuvens cortando o céu da Califórnia.
Por um instante, se permitiu imaginar sendo outra pessoa...
Alguém com grana. Alguém importante. Alguém que não precisava escolher entre pagar o aluguel e comprar a própria comida.
E, se fosse idiota o suficiente, quase acreditaria que estava vivendo um maldito conto de fadas.
Mas Hannah Cameron não era idiota.
Roman já tinha tratado de arrancar qualquer fantasia da cabeça dela durante o caminho até o aeroporto:
— Você vai ficar num dos anexos do Caesar’s Palace.
Ela quase sorriu.
Erro número um.
— Tá de sacanagem, né?
— Não se empolga. Você não tá sendo paga pra tirar férias em Las Vegas.
— Ah, não? Porque, daqui de onde eu tô sentada, parece exatamente isso.
Ele soltou um ruído pelo nariz. Não chegou a ser uma risada.
— Parece porque você ainda não entendeu a sua posição aqui — disse, deslizando pela Franklin Avenue enquanto trocava de marcha. — se um daqueles quatro resolver fazer merda às três da manhã, você precisa estar perto o suficiente pra impedir.
Fez uma pausa.
— Ou, no pior dos casos, impedir que apareça na CNN antes do café da manhã.
O sorriso dela vacilou um pouquinho.
— Achei que meu trabalho fosse organizar horários... reservar hotel... esse tipo de coisa.
Roman fez uma curva sem pressa, desviando de um Buick que resolveu trocar de faixa sem avisar.
— É isso que a gente diz antes da pessoa assinar o contrato.
Hannah virou o rosto devagar.
— Sei.. vem cá, o que aconteceu com o cara antes de mim?
Roman demorou tanto pra responder que ela chegou a pensar que o cara estivesse escolhendo as palavras.
Mas não, ele só estava checando o tráfego pelo retrovisor.
— Portland, Oregon.
Hannah esperou que Roman contasse o resto da história, mas só ouviu a estatica do rádio, e depois alguma coisa do Three Dog Night:
I seen so many things I ain’t never seen before...
Don’t know what it is...
I don’t wanna see no more...
Por algum motivo, os pelos da nuca dela arrepiaram.
Hannah fez uma careta, balançou a cabeça.
— Isso não explica muita coisa.
— Exatamente. — respondeu ele, com um suspiro cansado.
Seu Cutlass parou num semáforo, onde o vermelho se refletiu no capô igual uma poça de sangue.
— Olha, esquece a baboseira da assistente pessoal da banda... essa empresa precisa de alguém que mantenha aqueles quatro vivos e, com sorte, na linha.
Roman encarou a garota ao seu lado, em perfil carmim.
E ela o encarou de volta.
— Essa provavelmente vai ser uma das experiências mais desagradáveis da sua vida, garota.
Parecia até um aviso que ele mesmo gostaria de ter recebido anos atrás.
Hannah não o respondeu, contudo, assentiu firme e isso pareceu agradá-lo.
O sinal abriu e Los Angeles tornou a desfilar pela janela outra vez.
O LAX surgiu alguns quilômetros adiante — Roman enfiou a mão no banco de trás enquanto deslizavam com o carro até a guarita de acesso restrito da empresa.
— Hannah, eu tenho tempo nesse ramo e nunca cometi um erro em relação ao meu trabalho.
Ele pescou uma pasta.
— ...e agora, por algum motivo que Deus ainda não me explicou, tô apostando em você.
Jogou-a sobre o colo dela antes de puxar sua credencial do bolso interno do paletó e mostrar ao segurança, que mal olhou antes de acenar com a cabeça.
Ninguém fazia perguntas pra gente da Q-Prime.
A cancela subiu.
Hannah abriu a pasta.
Era a mesma que Roman havia levado para a reunião naquela manhã, e agora havia páginas extras e observações rabiscadas nas margens, junto de um crachá novinho e plastificado:
HANNAH D. CAMERON.
Tudo preparado e separado.
Muito antes de Peter e Cliff sequer aceitarem contratá-la.
Ambos atravessaram a área de serviço, onde caminhões abasteciam aeronaves, funcionários empurravam carrinhos de bagagem e uns jatos particulares taxiavam ao fundo.
Roman puxou o freio de mão e ficou olhando através do para-brisas por alguns segundos antes se inclinar sobre o banco do carona e abrir a porta.
— Vê se não me decepciona.
E foi assim que, não muito depois, Hannah desceu do táxi em frente ao Caesar’s Palace.
Uma mochila surrada pendurada num ombro, a boca ligeiramente entreaberta diante de fontes que lançavam água dourada ao redor de estátuas de deuses que nunca existiram.
Tudo naquela mentira era ridículo, extravagante e cafona pra caralho.
Provavelmente financiado por um sujeito que cheirava cocaína enrolada em notas de cem dólares e decidiu que queria morrer cercado por Roma.
Ainda assim... era a mentira mais linda que tinha já tinha visto até então.
Um casal atravessava a praça rindo enquanto discutiam a melhor posição pra uma fotografia; uma garotinha errou o arremesso de uma moedinha na fonte, que quicou no mármore e foi parar perto do pé de Netuno.
Um sujeito vestido de centurião romano discutia o preço de cinco dólares pra uma foto com um turista japonês.
Hannah abriu um sorriso besta.
Nunca tinha visto tanta gente gastando dinheiro pra fingir que estava em outro lugar.
BEEEEEEEEP!
A buzina quase a deixou surda, e ela virou num pulo tão grande que sua mochila quase escorregou do ombro.
O taxista colocou metade do corpo pra fora da janela.
— Ei! Princesa! Vai morar aí ou vai fechar a corrida? — questionou o cara.
Ela piscou duas vezes.
— Ah... desculpa.
Ela enfiou a mão no bolso da calça, puxou a carteira e entregou as notas que o motorista conferiu o dinheiro numa velocidade assustadora.
— Moça, eu tenho uma convenção de bêbados chegando no aeroporto em quinze minutos. Não faz isso comigo.
Hannah soltou uma risadinha sem graça.
— Foi mal.
O homem guardou as notas no bolso da camisa, ligou a seta e já ia arrancando quando tornou a baixar o vidro.
— E toma cuidado com quem sorrir pra você aqui.
Hannah franziu a testa.
— Como assim?
Ele apontou com o polegar pro Caesar’s Palace.
— Em Vegas, todo mundo tá à venda.
E deu de ombros.
— Só descobre o seu preço antes dos outros, tá legal?
O cara engatou a marcha e desapareceu no fluxo de carros da Strip.
— Tá... — ela murmurou pra ninguém. — isso foi específico pra cacete.
Mas aquilo podia esperar, porque o problema realmente específico veio uns cinco minutos depois de entrar no lobby do hotel e cassino, onde Hannah tomou um coice na boca estômago.
O Metallica não estava hospedado em qualquer andarzinho de luxo.
Não.
Os filhos da puta tinham alugado a porra da cobertura inteira.
E ela nem soube direito como aconteceu.
Entre um funcionário do hotel explicando onde ficava a cobertura e o elevador terminando a subida, Hannah simplesmente... chegou.
Quando percebeu, estava parada no meio de um quarto gigantesco, e o anexo reservado pra ela era — sozinho — maior que seu conjugado fuleiro em Los Angeles.
Ela girou devagar no próprio eixo... cacete.
Quanta grana.
Quanta obscenidade.
Ninguém precisava de um banheiro de mármore daquele tamanho, ou de uma televisão com tantas polegadas.
E Hannah tinha quase certeza de que a fruteira de cristal na mesa de centro custava mais do que o carro dela — o que, pensando bem, também não era exatamente um parâmetro exigente.
Seu carro custava menos que uma torradeira.
Mas a vista...
A vista era sacanagem.
Las Vegas brilhava inteira do outro lado da panorâmica — letreiros brilhantes refletidos no trânsito onde a Flamingo Road cortava feito uma cicatriz de neon.
Era bonito pra caralho.
E não era à toa que chamavam aquilo de Cidade do Pecado.
Hannah largou a mala aos pés da cama king size, e, quando afundou as costas no colchão, quase levou um susto.
Jesus.
Fazia tempo que não deitava numa cama tão macia.
Na verdade, a última vez provavelmente tinha sido quando ainda morava com o pai.
...ou talvez no quarto daquele quarterback idiota que tirou sua virgindade depois a festa de formatura.
Ela encarou o teto.
...É.
Aquilo era outra história.
O devaneio durou exatamente três segundos,
A porta dupla que ligava o anexo à suíte principal estalou antes de ser escancarada sem a menor cerimônia.
— Uma beleza, né?
— Caralho!
Hannah deu um salto brusco e quase se enrolou nos lençóis.
— Não se acostumada. — a desconhecida entrou como se fosse dona do quarto. — Vai ter sorte se os lençóis não tiverem pulgas quando a turnê passar por Reno.
Ela usava um crachá de staff preso à lapela de uma jaqueta jeans gasta e devia ter cinquenta e poucos anos — ou uns quarenta muito mal vividos — e dentro desse tempo o estresse já tinha roubado boa parte do preto do cabelo curto e repicado.
E o cigarro tinha levado quase todo o resto, inclusive metade da voz.
Hannah endireitou a postura na cama.
— Você deve ser a...
— Marge — ela nem esperou a novata terminar. — tô segurando as pontas desde que o coitado do Howard foi embora.
Marge cruzou o quarto em meia dúzia de passos e largou uma prancheta abarrotada de papéis sobre a mesa de centro.
O impacto fez até a fruteira de cristal tremer.
— E, graças a Deus, você apareceu. — ela soltou um suspiro que parecia acumulado havia quinze dias. — Mais três dias e eu começava a aceitar qualquer substituto... qualquer um mesmo.
Ela gesticulou pra pilha de documentos.
— Rotas. Reservas de hotel. Estúdios. Contatos locais. Telefones de emergência. Confirmações de voo. A papelada até o fim da turnê.
E olhou pra Hannah.
— Se perder isso aí, pode começar a correr.
Hannah encarou aquela montanha de folha que parecia pesar mais do que sua própria bagagem.
— Os rapazes estão no Mack Center agora — Marge explicou. — se preparando pro show. Vai ser casa cheia, então eles devem voltar lá pela meia-noite.
A garota fez uma conta rápida na cabeça.
Dava tempo de desfazer a mala, talvez tomar um banho — quem sabe até ligar pro seu velho.
— Eu preciso ir até lá? — ela perguntou.
— Deus, não!
Marge respondeu tão rápido que parecia ter medo daquela pergunta virar realidade.
Depois soltou uma risada.
— Deixa os produtores locais cuidarem deles. Seu trabalho de babá só começa quando o James e os outros atravessarem aquela porta.
Ela apontou pra porta dupla que ligava o anexo à cobertura principal e Hannah olhou pra madeira escura e as maçanetas douradas...
Não parecia nada demais.
Ainda assim...
Do jeito que Marge falou, parecia que aquela porta não levava pra uma suíte e sim pra uma alcateia de lobos famintos esperando do outro lado.
— Vou te dar um conselho, novata. — disse a veterana.
Marge pescou um Virginia Slims no bolso da jaqueta, bateu o filtro duas vezes no maço e acendeu o cigarro.
— Esses rapazes não são uns degenerados iguais ao pessoal do Mötley Crüe nem do Guns N' Roses, tá legal? São trabalhadores. No geral, até que são gente boa...
Ela apertou os olhos contra a fumaça antes de continuar.
— ...quando não estão completamente bêbados nem drogados.
Hannah assentiu, com uma expressão séria e muito atenta.
Quase profissional.
Mötley... o quê? Aquilo era nome de banda ou de doença venérea?
Guns N' Roses? Parecia a loja do tio Eddie, em São Francisco... se vendesse flores junto das pistolas 9mm e escopetas pump-action.
— Tá. Entendi.
E respondeu com tanta convicção que quase acreditou em si mesma.
Ela não tinha entendido porra nenhuma.
— Só que isso aqui é Vegas, a porra da Cidade do Pecado — Marge tragou até o filtro quase brilhar. — ...e estamos falando de quatro rapazes na casa dos vinte, cheios de raiva, fama e dinheiro suficiente pra fazer merda em escala industrial.
Depois soltou a fumaça devagar.
— Quando o show acabar, essa cobertura vai receber a afterparty oficial.
Ah, de festa Hannah entendia.
— Sem problemas.
Marge parou no meio da tragada, ergueu uma sobrancelha e depois a outra.
Será que aquela menina escutou alguma palavra do que tinha acabado de dizer?
— Sem problemas? — Marge repetiu. — Querida... eles vão sair daquele elevador trazendo a procissão do inferno: amigos, empresários, gente querendo aparecer.
Ela deu mais uma tragada.
— Gente querendo comer alguém e todo tipo de lixo que Las Vegas consegue produzir depois da meia-noite.
Mas, pra uma branquela que já precisou escalar o muro de uma escola abandonada pra fugir de um confronto armado entre traficantes e a LAPD durante uma block party clandestina em Compton, aquilo parecia um tiquinho exagerado.
Ela até riria da lembrança
...se não tivesse arregaçado o joelho numa cerca de arame, mancado três quarteirões e quase servido de jantar pro pastor-alemão que morava no quintal da casa onde ela resolveu cair.
Hannah fez uma careta.
O cachorro era enorme e o dono era um velhinho — um velhinho completamente cego, diga-se de passagem.
Tá... talvez aquele não fosse o melhor exemplo do mundo mas ela tinha dezessete anos.
E, em sua defesa, a festa estava ótima antes dos tiros começarem.
— Acho que eu aguento uma festinha em Vegas.
Hannah deu de ombros com um sorriso de canto.
Marge não retribuiu.
Confiança juvenil era um negócio curioso e ela já tinha visto aquilo em artistas, empresários, roadies, promotores... todos jurando que tinham tudo sob controle.
Depois, era só uma questão de descobrir em qual hospital a ambulância ia parar.
A veterana sustentou o olhar dela por mais um segundo, depois puxou um trago longo do Virginia Slims.
— Hannah?
E a garota não gostou nem um pouco daquele tom raso.
— Senhora?
— Faz a sua papelada agora, depois tranca essa porta pelo lado de dentro. Você me entendeu?
O quarto pareceu ficar um pouco mais silencioso.
Seja lá o que Hannah estivesse imaginando sobre aquele emprego...
...a brincadeira começou a perder a graça.
Ela lançou um olhar pra porta dupla, depois voltou pra expressão de pedra na cara da veterana.
E engoliu em seco.
— Eu... tenho mesmo que trancar—
— Você me entendeu?
Hannah Cameron não era estúpida — podia ser impulsiva, teimosa e temperamental até dizer chega... mas estúpida com certeza não.
Crescer sob o teto de um velho sargento tinha servido pra alguma coisa, aprender cedo a diferença entre um sermão e um aviso — uma piada de quartel e o tom que dizia isso aqui não é mais brincadeira.
O velho Bill Açougueiro costumava repetir a mesma coisa desde que ela mal alcançava a bancada da cozinha:
Você respeita a patente, respeita a experiência e, acima de tudo, escuta quem voltou vivo do front.
— Sim, senhora. — ela respondeu.
O mais ridículo foi perceber depois que tinha alinhado sua postura por puro reflexo condicionado.
— Melhor assim. — Marge anuiu, satisfeita. — Ah, é... se ouvir vidro quebrando de madrugada, não se desespera, tá legal? Só se finge de morta, costuma funcionar.
Certo, ali a Hannah realmente esperou a velha abrir um sorriso, dar um tapinha no ombro dela e dizer “tô brincando, novata.”
Mas não era piada.
Então ela assentiu devagar.
— Certo... — e pigarreou baixinho — eu entendi.
Marge esmagou o Virginia Slims num cinzeiro de prata sobre a mesa de centro.
— Ótimo.
A veterana se abaixou, pegou a própria mala e ajeitou a alça no ombro.
— Meu táxi tá esperando lá embaixo.
Caminhou até a porta sem olhar pra trás, mas já com a mão na maçaneta, resolveu deixar um último presente:
— Bem-vinda ao inferno de Vegas, querida.
E foi isso.
Só isso.
A filha da puta tava indo embora como se não tivesse acabado de largar uma granada sem pino no colo de uma estagiária que, cinco minutos atrás, ainda achava que estava numa viagem de trabalho.
E a única certeza que Hannah tinha agora... era que não tinha mais certeza de absolutamente porra nenhuma.
Ela ficou mastigando aquela merda por alguns segundos.
Não... tavam sacaneando a novata, claro.
Só podia ser isso.
Exagero de uma mulher cansada, frustrada e que com certeza não sabia o que era sexo desde a época da Lei Seca.
— Ei, Marge!
A veterana parou no vão da saída, virando só o suficiente pra enxergá-la por cima do ombro.
— Sim?
Hannah hesitou.
E, pela primeira vez desde que chegou, realmente pensou na possibilidade de estar entrando numa roubada.
— É tão ruim assim?
Marge ficou olhando pra ela, não respondeu na hora.
Só abriu um sorriso pequeno e cansado
Daqueles que só aparecem quando alguém mais jovem faz exatamente a mesma pergunta que você fez vinte anos atrás.
E que, agora, podia dizer com toda a ironia do mundo: Minha filha... você não faz a menor ideia.
— Boa sorte, Hannah. — ela respondeu.
CONTINUA...
Fale com o autor