Metallica's All Access The Pit

2 Munição de Calibre "Extra Grande"


Notas iniciais
Eu tava pensando bastante no que botar nas notas iniciais aqui, então resolvi que, antes de seguirmos com o capítulo, precisamos alinhar as expectativas. Essa fanfic se passa no final dos anos oitenta, no submundo FDP da indústria fonográfica do rock — ambiente retratado não é um conto de fadas, é um circo de horrores cheio de excessos, ego, testosterona, sexismo estrutural, abuso de substâncias, linguagem imprópria e uma total ausência de filtros morais que eram a norma daquela época. Só pra não passar batido: retratar esses comportamentos, trejeitos e preconceitos faz parte do retrato histórico e da proposta de comédia ácida deste universo. Isso não é — em hipótese alguma — uma tentativa de glorificar, incitar, romantizar ou passar pano pra esses hábitos. Além disso, não esperem encontrar aqui os ídolos maduros, polidos e politicamente corretos que conhecemos hoje, e muito menos encararem os músicos como anjos salvadores. Eles eram jovens problemáticos, arrogantes e autodestrutivos no auge do caos deles (especialmente por causa da morte do Cliff Burton). E a protagonista? Esqueça a mocinha puritana, perfeita e pacifista. Hannah Darling Cameron é cínica, exausta e falida, cheia de defeitos enquanto tenta sobreviver num ambiente hostil (enfim, nós, famosos CLTs). Dito isso, a trilha sonora mental pra esse capítulo foi: Somebody's Watching Me, do Rockwell --- Psycho Killer, dos Talking Heads --- Whatta Man, da Salt-N-Pepa Boa leitura!

A porta fechou com um clique pequenininho.

Três minutos antes, aquilo era só uma porta de hotel com maçaneta dourada.

Agora?

Tinha o exato som de um portão de segurança máxima fechando — ou, pra ser dramático na medida certa, as portas do inferno trancando alguém pelo lado de dentro.

No caso, era eu.

Hannah continuou plantada no meio daquele carpete fofo.

​A ficha não caiu... ela despencou de um penhasco de cem andares direto nos ombros dela.

Meu Deus... eu não tô mais na baía três reclamando do café ruim da copa.

Estava na maldita Las Vegas, dentro de cobertura do Caesar’s Palace.

“Boa sorte, Hannah”... boa sorte?!

​A coitada mal tinha vinte anos e nem conseguia juntar o suficiente pra pagar o aluguel daquele ovo de galinha em Los Angeles.

Ainda guardava uma coleção de péssimas decisões da adolescência que rezava ao Altíssimo e à todos os santos pra nunca virem a público.

​Sem falar que dependia do pai pra continuar na faculdade.

E tudo isso porque, num lapso de demência, aceitou entrar num avião.

Pra quê, meu Deus?

Pra ser babá de quatro milionários do rock cuja especialidade um era transformar qualquer alma viva em veterana de guerra com TEPT.

​Uma corda de E grave arrebentava no palco? A culpa era dela.

Um vaso de cristal sumia no lobby? A culpa era dela.

O baterista sendo preso antes da apresentação? Adivinha de quem era a culpa.

​Se a menor coisinha desse errado — e olha que o destino sempre faz questão de foder com os outros —, a primeira cabeça a rolar na guilhotina da seria a dela.

Aquilo não era sorte, era uma roubada de proporções épicas, com direito a bônus em caso de sobrevivência.

— Não, não, não... para com isso.

Hannah já estava desfilando de um lado pro outro no anexo.

— Calma. — pediu a si mesma.

Ela apontou o indicador pra moldura na parede.

— Vai dar pé. Vamo’, fala sério... vai dar tudo certo, né?

Como se o maldito lorde inglês de nariz empertigado e cara de tacho naquela pintura a óleo fosse concordar.

O nobre cavalheiro, naturalmente, permaneceu rigorosamente mudo — o que, considerando o estado mental dela, foi uma baita de uma decepção.

— Qual foi, cara? — ela estreitou os olhos para o quadro, balançando a cabeça. — Eu vim lá de Los Angeles, tá me ouvindo?

E voltou a marchar.

— Eu fui saco de pancadas desde os sete anos de idade, sobrevivi a coisas muito piores...

O carpete em seus pés era tão macio que dava raiva — que pessoa gasta o PIB de um país do terceiro mundo forrando o chão com pele de animal morto?!

Até a porcaria do assoalho desse quarto tem mais dinheiro que eu.

Hannah esfregou as palmas geladas nas bochechas, sentindo o oxigênio rarear nos pulmões.

— Anda, Hannah, são só quatro caras.

Ela balançou a cabeça, parando um segundo pra reavaliar a própria lógica:

— Quer dizer... quatro malucos que ganham a vida balançando um pedaço de madeira com cordas de aço e berrando igual desalmados num palco... qual é a pior coisa que pode acontecer?

E, como sempre acontecia quando fazia essa pergunta idiota, seu cérebro fez questão de ajudar:

Uma risadinha fina, estrangulada e psicótica escapou por entre seus dentes.

— Sei lá...

Hannah encarou a porta de madeira maciça que levava à suíte principal.

— Eles decidirem matar alguém no meio da sala e mandarem a estagiária aqui sumir com o corpo?

Hannah travou na metade do passo, pálida igual a um maço de papel sulfite.

Brilhante, Cameron.

Linha de raciocínio maravilhosa.

Nada como fechar os olhos e se visualizar no breu do deserto de Nevada, às três da matina, empurrando um corpo enrolado em tapete persa pra dentro de uma cova rasa.

Seu estômago deu um cavalo de pau e caiu direto nos joelhos dela.

— Puta que pariu...

Ela ficou encarando o nada, como se o nada tivesse acabado de confessar um assassinato.

— Eu vou em cana por ocultação de cadáver....

Voltou a marchar, agora em ritmo de emergência.

— ... a minha ficha vai pro buraco... a faculdade vai me chutar sem pensar duas vezes...

Deu mais um giro no eixo, tonta.

— Como é que eu olho na cara do meu velho e explico que joguei minha vida no lixo por causa da porcaria de uma banda de rock?!

Mais uma volta, com os dedos enfiados até o talo no próprio cabelo:

— E, pior de tudo... eu vou passar o resto da vida usando laranja.

Ela torceu o nariz, com cara de quem chupou limão.

Pelo amor de Deus, tudo menos isso.

De todas as desgraças possíveis, ser abatida pelo sistema penitenciário americano vestindo um macacão cor de abóbora era, de longe, a pior de todas.

Hannah tentou colocar a casa mental em ordem.

— Vai ver foi isso que aconteceu com o tal do Howard... — sussurrou pro papel de parede.

Porque ninguém larga tudo e some no meio de uma turnê multimilionária... a não ser que o infeliz tivesse visto o que não devia.

— Mas que droga...

PLAFT!

Ela acertou sua própria bochecha, a esquerda, com um tapa.

Não chegou a desalinhar os dentes, mas foi o suficiente pra desligar o projetor daquele filme de terror.

— Acorda, Cameron — ralhou. — seu velho foi sargento do Exército americano.

PLAFT!

Vez da bochecha direita.

— Você cresceu com cinco marmanjos e sobreviveu a tiroteios... agora cria vergonha nessa cara lavada, sua vaca.

Ela puxou o ar com força, estufou as bochechas até doerem e cuspiu o ar de uma vez só.

Foca. Pensa.

O que o velho Bill falava toda santa vez que levava a tropa pra caçar no meio do mato em outubro?

“Entrou em ambiente hostil, mantenha o dedo fora do gatilho”... não, não era isso.

Ah, lembrei: “Ao entrar em território hostil, a primeira regra é o reconhecimento de perímetro.”

— Exato — ela assentiu pro próprio reflexo invisível. — reconhecer a porra do perímetro.

Muito mais produtivo do que planejar desova de cadáveres em tapete persa, com certeza.

Hannah deu uma alisada rápida na camiseta, puxou a barra da calça jeans e mandou toda aquela história de cova no deserto pro quinto dos infernos.

Pousou a palma da mão na maçaneta e mandou uma precesinha rápida pra quem estivesse de plantão lá em cima.

Não que fosse uma devota fervorosa, mas por pragmatismo de quem sabe que vai precisar de um milagre.

Girou a maçaneta.

E, pela primeira vez, cruzou a fronteira do seu anexo, invadindo a suíte principal do tal Metallica.

O espaço estava entulhado com a tralha que banda e pelo pelotão de frente da equipe tinham deixado pra trás.

​Hannah passeou pelo cômodo sem pressa.

Primeira parada: um bar particular inteirinho abastecido com uísque e vodca suficiente pra desacordar um regimento russo.

​No chão: toalhas encharcadas de uma umidade bastante duvidosa, camisas atiradas e meias pretas jogadas.

​E, coroando o sofá em formato de U, duas edições da Hustler abertas de par em par nas páginas centrais.

Pelo naipe da bagunça, alguém tinha desistido do exercício de autoajuda bem no meio da sessão.

Hannah passou desviando de um monte de flight case e capas de guitarra largada no canto, até que...

Ôpa... o que que a gente tem aqui?

Parou na frente da mesa de centro.

Tinha um cartão de visitas dobradinho e um resto de pó branco em cima do vidro.

Ela deu aquela arqueada de sobrancelha clássica — crescer em Los Angeles te ensina desde cedo a diferença exata entre açúcar de confeiteiro e neve importada do cartel.

A garota colou o rosto mais perto, só pra tirar passar a limpo, e torceu a boca.

— Coisa chique, hein? — resmungou, arrastando o indicador por cima da parada.

Ficou encarando a pontinha nevada do dedo por dois segundos.

— É...

Fez careta e limpou a mão na lateral da calça jeans.

— ...eu continuo preferindo maconha.

Retomando a patrulha, ela conferiu:

Bar intacto.

Banheiros checados.

Quartos sem corpos pendurados.

Tudo nos conformes.

Até que o radar travou e Hannah pisou no freio.

Jogada de qualquer jeito no encosto de uma poltrona, havia uma jaqueta de couro enorme.

— Misericórdia...

Hannah aproximou-se e pescou a peça.

Couro legítimo de primeira linha, pesado pra um caralho... ostentando um buquê aromático bem peculiar à base de tabaco escuro, cerveja morna e um toque persistente de gasolina.

Ela escorregou os dedos pela manga grossa e áspera.

James Hetfield.

O vocalista.

O chefão da quadrilha.

Faz todo o sentido do mundo.

A carcaça precisava ser de um armário de duas portas pra conseguir preencher todo aquele volume.

E, ela tinha que admitir, o sujeito tinha bom gosto.

Hannah deu aquela olhadinha de esguelha, checando se alguém não ia aparecer de repente.

— Ah, qual é... vai ser rapidinho.

Enfiou um braço, depois o outro, as mangas eram tão grande que engoliram suas mãos inteiras.

Jogou o cabelo loiro pra fora da gola, endireitou os ombros caídos e foi arrastando os pés até o espelho do bar.

— Pior que tá ridículo. — deu uma risada, sozinha no meio daquele silêncio de hotel de luxo.

O pensamento deu uma guinada lá pro quintal de casa, na Califórnia — veio aquele cheiro de grama cortada e café coado da cozinha.

Parecia a mesma coisa de quando era pirralha e roubava os casacos dos irmãos mais velhos, toda vez que o inverno resolvia dar as caras.

Bob e Ricky berravam, xingavam, ameaçavam arrancar suas mãos fora se ela encostassem nas “paradas” deles... e o que ela fazia? Saía correndo pro quintal dando gargalhada, engolida por uma flanela três números maior que ela.

Mas a graça daquela nostalgia sumiu mais rápido que amor de stripper.

Porque o cérebro dela decidiu dar play no arquivo de áudio seguinte:

“Portland, Oregon.”

“Essa vai ser uma das piores experiências da sua vida.”

“Tranca a porta e se finge de defunta.”

O sorrisinho murchou na hora.

Ela tirou a jaqueta e voltou a segurar a carcaça de couro nas mãos, desconfiada.

Vai saber, né?

Se um gorila daqueles resolve ter um ataque de pelanca e perder o pouco de juízo que tem, parecia uma ótima ideia averiguar de antemão se o camarada andava com artilharia pesada.

— Foi mal aí, grandão...

Hannah enfiou a mão nos bolsos externos, e não achou nada.

Depois mergulhou nos internos, tateando o forro na procura de uma coronha de revólver, pelo ferro de um soco-inglês ou o relevo de um canivete borboleta.

Qualquer coisa que justificasse o nível de pânico psicótico que haviam enfiado naquela cabeça.

— Vamo’ lá... cadê?

​Os dedos dela varreram o tecido escuro, e, de repente, esbarraram num quadradinho.

​Mais neve?

Não.

Nenhum traficante tinha o capricho de embalar pó em plástico laminado com selagem térmica.

​Hannah pescou e ergueu o objeto contra a luz dos lustres de cristal.

​— Ah...

​Definitivamente não era um coldre.

​Pelo menos, não de uma pistola que disparasse balas de chumbo.

Hannah congelou, igual uma idiota, encarando a embalagem dourada na palma da sua mão.

Uma camisinha.

E, pra ser cruelmente específica: uma Trojan Magnum, tamanho XG.

A pálpebra esquerda chegou a dar um espasmo involuntário.

Ela alternou o olhar entre o pacotinho de ouro e a proporção descomunal daquela jaqueta de couro vazia.

Seu cérebro traidor — que deveria estar mais centrado em como não ser demitida no primeiro dia — fez uma continha geométrica sem a menor autorização.

E o resultado dessa equação desgraçada despencou em calor líquido, denso e terrivelmente quente entre as suas coxas.

Eita, cacete... literalmente...

Hannah Darling Cameron passava longe de ser uma puritana, mas, encarando a circunferência daquele anel de borracha...

Meu Pai Amado.

O cara podia não carregar uma .38 no bolso, mas com certeza desfilava por aí com uma escopeta Remington de cano duplo no meio das pernas.

E ela francamente não conseguia — e, se quisesse manter o mínimo de sanidade mental, nem devia — imaginar o estrago que um calibre daquele porte causaria numa pobre coitada.

Hannah sacudiu a embalagem no ar, mordendo o lábio inferior com um risinho meio incrédulo, meio fascinado.

— É, meu camarada...

Ela balançou a cabeça pra jaqueta inerte do tal James Hetfield.

— ...eu juro, tenho muita pena da pobre alma que for abrir as pernas hoje à noite.

​Hannah devolveu a munição ao bolso do dono, agraciando a peça com um tapinha respeitoso antes de varrer o cômodo com o olhar:

Toda aquela bagunça de álcool, drogas, revistas pornô, roupas jogadas...

... Santo Deus...

Eu realmente tinha passado a última hora morrendo de medo daquilo? Aqueles caras não eram sicários do Cartel de Medellín.

Eram só uns riquinhos safados, cheirados e bagunceiros.

E, no fim do dia? Eram apenas homens.

Ela girou o pulso, conferindo o visor do seu fiel relógio analógico de dez dólares: 6:24 P.M.

Tinha uma margem de tempo generosa pra colocar a burocracia em ordem antes que o circo chegasse.

— Bem, Cameron... — assentiu, estalando os dedos com um sorriso confiante. — hora de trabalhar, garota.

CONTINUA...

Notas finais
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