Mesmo Que Não Venha Mais Ninguém
4 Acima das nuvens
12 de agosto de 1996
Querido diário,
Estou pirando. Quero dizer, não pirando de verdade. Só estou meio paranoico. O motivo? Bem é que cheguei a uma conclusão muito importante: só existe três maneiras de Stanley ficar comigo. E quando digo ficar, quero dizer fazer sexo, igual aquelas cenas daquele filme do tango em Paris, com o uso da manteiga e tudo.
Bem, uma dessas maneiras é acontecer um apocalipse na Terra e eu e ele formos os únicos sobreviventes. Pois em algum momento a necessidade de sexo dele o obrigar a querer transar com o único outro ser humano vivo no planeta: euzinho. Outra forma é eu da noite para o dia me transformar em uma garota linda, mas isso seria terrivelmente desagradável, simplesmente porque ser uma garota deve ser desagradável. E por último, bem, eu poderia simplesmente sequestra-lo e transformar ele no meu escravo sexual.
Ainda não sei se...
Artie interrompeu sua escrita quando ouviu o telefone tocar no andar de baixo, levantou-se da sua escrivaninha, onde suja máquina de escrever descansava ao lado da sua xícara de chá. Era segunda-feira de manhã, e sua mãe estava no seu trabalho de corretora de imóveis. Desceu as escadas com a sua animação característica: parecendo um paciente terminal.
— Alô.
— Artie?
Oh não. Era a Dra. Hathaway e sua vozinha de apresentadora da MTV que irritava Artie de mil maneiras diferentes.
— Sou eu.
— É sobre a Trace... ela teve um colapso nessa manhã. E acho que... você é o único amigo que era tem. Ela não quer falar com mais ninguém Artie, mas acho que falaria com você. Sei que será difícil para você fazer isso, mas, viria até aqui? Para falar com ela.
Artie sentiu como se o chão tivesse sumido sob as suas pernas, que agora pareciam feitas de gelatina e estavam prestes a desabar. Seu estomago revirou, ameaçando expulsar tudo o que ele comera no café da manhã.
— É claro. É claro que eu irei.
* * *
O trajeto de ônibus até a clínica foi um inferno. Artie sentia aquela ansiedade que sempre aparecia quando Trace tinha um “colapso”. Ela era, basicamente, a pessoa mais importante para ele no mundo inteiro. Ficaram amigos instantaneamente quando ele se internou na clínica. Apesar de terem problemas muito diferentes, espelharam as suas lutas um no outro. Mas apesar de toda a força de vontade dos dois, algumas lutas eram mais difíceis que as outras: Artie tinha melhorado, Trace não.
A clínica ficava acima de uma encosta montanhosa, que era coberta de árvores de grandes copas, e de onde se podia ver os pequenos condados lá de baixo. Se você soubesse exatamente onde ir, poderia ver um pôr do Sol mais bonito do que qualquer fotografia ou filme que tiver visto antes, era como estar acima das nuvens, como o ver o mundo de cima.
A beleza daquele lugar era até terapêutica para os pacientes da clínica. O próprio Artie havia ficado encantado pelos belos jardins de tulipas e pelo céu que mudava de tom ao decorrer do dia.
Ao entrar na clínica, Artie foi abarrotado por um deja vu. Lembrou-se da primeira vez que cruzara aquele corredor, quando os únicos pensamentos na sua mente trabalhavam em uma forma de enganar as enfermeiras e conseguir improvisar uma forca com os lençóis. Lembrou-se de sua mãe tentando não chorar, por estar deixando-o em um lugar de onde não sabia se ele sairia com vida. Lembrou-se também de Trace encontrando-o no banheiro masculino, chorando desesperadamente, e dizendo para ele que tudo iria ficar bem. Lembrou-se que aquela fora a primeira vez que acreditara naquelas palavras: “tudo vai ficar bem”. Não seria absurdo afirmar que aquela frase salvou a sua vida.
O lugar era um prédio vitoriano que havia sido reformado após a Segunda Guerra Mundial, quando costumava ser um orfanato para as crianças filhas de soldados mortos. O ambiente vintage era o que Artie mais gostava do local, era como se ele estivesse caminhando num cenário dos livros de Jane Austin.
Enquanto caminhava pelos corredores, avistou muitos conhecidos, funcionários e pacientes. Acenava tristemente para eles, não conseguia disfarçar seu estado de nervos. Estava muito preocupado com Trace.
Quando chegou na porta do quarto dela, encontrou Dra. Hathaway saindo de lá. Ela tinha a mesma aparência cansada de sempre — óculos meia lua tornos, cabelos louros presos em um coque e aquele seu mesmo batom vermelho. Apesar de sua aparência abatida, ela sempre mantinha um sorriso no rosto, como se estivesse completamente satisfeita pelo trabalho que estava realizando, o que, para Artie, não fazia o melhor sentido.
— Artie! Como é bom ver você. Como está indo a vida lá forma.
Ele forçou-se a não agir com grosseria com ela. Quem ligava se ele estava bem? Trace era o assunto importante ali.
— Bem. E Trace? Como ela está.
O sorriso dela fraquejou.
— Ela desmaiou ontem enquanto caminhava nos jardins, revistamos o quarto dela e descobrimos que ela estava jogando a comida na privada e dando descarga. Nem sabemos a quanto tempo ela não se alimente. Estou tentando fazê-la comer, mas ela nem responde as minhas perguntas. Perdeu dez quilos no último mês. Se ela não melhorar, os órgãos vão começar a falhar... e vai ser o fim para ela. Temo que vamos ter que colocar uma sonda a força nela.
Foi como se mil flechas perfurassem o coração de Artie naquele momento, ele quase podia sentir o peito sangrar. E o arqueiro era a propia vida, que sempre fodia com tudo.
Oh Trace, por que voce fez isso?
Ele engoliu em seco e forçou-se a falar:
— Vou entrar e conversar com ela.
A Dra. Hathaway lhe lançou um sorriso grato, afagou lhe os ombros e desejou boa sorte a ele.
Artie deu tres passos a frente e abriu a porta.
Trace estava sentada na cama, de frente para a janela. Artie não soube se era impressão sua, mas ela parecia ainda mais magra do que antes, coisa que ele achava que era impossivel. Trace sofria de anorexia e de bulimia, problemas causados pela sua infância, quando a mãe dela a obrigava a frequentar aqueles concursos estúpidos de beleza para crianças. Trace nunca ganhou nenhum, e culpava o seu peso por isso. Aos doze anos ela já media todas as colorias que comia, aos treze já vomitava todas as suas refeições, e agora, aos dezessete, ainda tinha o metabolismo de uma garota de treze anos. Seu corpo mal conseguia sustentar sua necessidade de proteínas, não sobrava energia para produzir hormônios. E Trace era linda. Parecia uma boneca de porcelana. Tinha o rosto em formato de coração e cabelos castanhos cortados na altura dos ombros.
— Trace?
Ela se virou para ele no mesmo instante. Esfregou os olhos com o pulso, como se quisesse saber se ele estava lá de verdade ou se ele era só uma ilusão. E sorriu. O sorriso mais lindo que Artie teria a chance de ver na sua vida.
Ele foi até ela e abraçou, com muita delicadeza.
— Gordinha, o que você andou aprontando? Quer me matar de susto?
— Eu sinto muito, Artie — cochichou ela, com a voz fraca.
Sentaram de frente um para o outro na cama, em posição de lótus, como costumavam fazer. Ficaram em silencio por um instante. Artie sabia que não poderia ir direto ao assunto. Para falar com Trace sobre a sua doença, precisava ir bem devagar, como se estivesse andando no gelo.
— Eu conheci um garoto — disse ele.
Trace pareceu surpresa.
— Que maravilha! Como ele é?
— Um Deus. Um Deus do Sexo.
— Como aconteceu?
Artie narrou suas “aventuras” que aconteceram com ele depois que ele saíra da clínica. Falou sobre Lynn e de como ficara receoso em falar com ela novamente. Falou sobre ter ficado bêbado no Rogers e sobre a festa na piscina. E, claro, falou sobre como Stanley era maravilhoso.
— Ele parece ser maravilhoso — suspirou Trace, olhando para o teto com uma expressão sonhadora.
— Sim, Stanley é. é como se um soldado espartano tivesse cruzado com Clark Kent.
— Não, ele não. Andrew.
Artie ergueu as sobrancelhas.
— Andrew?
— Sim.
— Não mesmo, ele é um chato.
— Os mal-humorados são os mais charmosos, todo mundo sabe disso. Você não poderia me apresenta a ele?
— Você está louca.
— Estou mesmo. Tenho um atestado do governo que comprova isso.
Artie deu uma rizada. Depois, percebeu que era a hora de falar sério.
— Trace, estou preocupado com você.
Ela ficou séria, e começou a olhar para as próprias mãos, constrangida.
— Não precisa ficar.
— Preciso sim, é o meu trabalho. É isso que os amigos costumam fazer, eles se preocupam uns com os outros.
— Não. Artie, você tem sua vida lá fora agora. Não quero que perca seu tempo pensando em mim aqui.
— Trace! Isso não é perda de tempo. Olha, a Hathaway disse que vão colocar uma sonda em você!
Trace revirou os olhos, parecendo aborrecida.
— Eles não fariam isso.
— Fariam sim. Lembra quando ameaçaram colocar uma camisa de força em mim se eu não parasse de me morder à noite? É a mesma coisa. Eu sei o que você pensa sobre ela, que a Hathaway é uma chata que só quer se intrometer na sua vida. Sei disso porque também já me senti assim. Mas eu percebi que ela só queria me ajudar. Você precisa comer, Trace.
Trace deu um suspiro alto e fechou os olhos, parecia prestes a chorar. Artie avançou e deu lhe um abraço. Ele sabia que as vezes, um abraço cura mais do que qualquer remédio. Um abraço pode sanar dores que nem morfina conseguiria.
— Vai ficar tudo bem, Trace.
— Eu sei.
— Vamos fazer um trato?
— O que?
— Eu arrumo um encontro seu com o Andrew, só que você vai ter que voltar a comer. Para estar linda para ele.
Trace se afastou e olhou desconfiada.
— Está falando sério?
— Sim.
Ela ficou calada por um instante, parecendo estar considerando a ideia.
— Tudo bem, eu topo.
Artie estendeu a mão, com o dedo mindinho erguido. Trace fez o mesmo, e eles selaram o acordo. Artie sentiu como um agente 007 depois de uma missão cumprida. Tentava fortemente acreditar nas suas palavras, “vai ficar tudo bem”.
E então, ele olhou o relógio na parede. Já era quinze horas.
— Eu tenho que ir, combinei de encontrar o Stanley.
Trace deu uma risadinha e desejou-lhe boa sorte. Artie se despediu com mais um abraço, prometendo que viria visitá-la em breve para contar mais novidades e para ver se ela estava cumprindo sua parte no acordo.
— Ah, Artie? — chamou ela quando ele estava prestes a fechar a porta.
— Sim?
— Vê se para de ficar ouvindo aquelas coisas depressivas, okay?
* * *
Era seis horas quando Artie descia a rua comercial da cidade, estava terrivelmente atrasado. Rezava para que Stanley não tivesse ido embora ainda.
Estava frio, sua respiração era visível no ar de fim de tarde. Parou em frente ao Rogers e respirou fundo. Tudo o que ele precisava era ser normal, que daria tudo certo. Ok. Um, dois, três. Pronto. Abriu a porta do Rogers e correu os olhos pelo local e encontrou...
...
...
...
... Stanley. Ele estava no balcão. Ao lado de uma garota. Beijando-a. Com uma mão no pescoço dela e outra na coxa.
E então, algo se apagou dentro de Artie. Que ficou, literalmente, sem reação. Ele devia estar parecendo um completo idiota parado ali, encarando duas pessoas dando merda de um beijo na merda de um bar. O que de estranho tinha naquilo?
Ah, claro. Todas as suas fantasias idiotas tinham sido massacradas, pisoteadas, estilhaçadas, e qualquer outro adas possível.
Deu meia volta, e saiu.
Começou a correr.
Se não estivesse tão surpreso, estaria chorando.
Mas por que ele estava surpreso? Tinha mesmo acreditado que Stanley ficaria com ele? Que faria com ele o mesmo que estava fazendo com aquela garota desconhecida? No meio de tantas pessoas? Tinha mesmo sido tão idiota a acreditar nisso?
Continuou correndo, e em algum ponto, enquanto atravessava a rua, viu uma luz forte aparecer no nada a sua frente, seguida do barulho de uma buzina. Artie instintivamente jogou-se para o lado e desabou na rua. Por sorte ( ou não) o carro conseguiu frear a tempo, e tido o que ele sofrera foi alguns arranhões e uma roupa empoeirada. Talvez o carro devesse ter passado por cima dele e triturado os seus ossos.
Ainda caído no asfalto, ouviu alguém abrir a porta do carro e correr em sua direção.
— Ai meu Deus! Artie? Você está vivo?
Mesmo naquele estado de estupor, Artie conseguiu reconhecer aquela voz.
Ai que merda. Não não não não! Estou morto. Por favor, quero morrer.
— Artie? — chamou Andrew novamente. — Que merda!
Andrew e agachou ao lado de Artie, e colocou um dedo no pescoço dele, para ver se o coração ainda batia. Artie ergueu o corpo. Tinha uma linha cortando sua visão, o que significava que seus óculos tinham arranhado.
— Me deixe em paz — disse ele.
Andrew deu suspiro aliviado.
— Ufa, ainda bem que você não morreu.
— E desde quando você se importa se estou vivo ou não.
Andrew deu um sorriso sarcástico.
— Eu não importo, desde que você não morra por minha culpa e eu vá preso por isso, pode morrer se quiser.
Artie quis esmurrá-lo. Já estava estressado por causa da montanha russa de emoções que fora aquele dia, não precisava daquele garoto idiota para piorar ainda mais as coisas.
— Andrew?
— Sim?
— Vá se foder.
Andrew, por algum motivo, deu uma risada.
— Olha só, agora sim está falando a minha língua.
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