Mesmo Que Não Venha Mais Ninguém

5 Os sentimentos guardados dentro da caixa em formato de coração


— Você é a carona mais calada do mundo — disse Andrew, soprando uma nuvem de fumaça.

Artie, que estava com a cabeça apoiada no vidro, nem respondeu àquele comentário. Matinha o corpo curvado de modo a ficar o mais longe possível do seu quase-atropelador-barra –motorista, o que era fácil devido a sua baixa estatura. Normalmente, ele não teria aceitado a carona — ainda mais de um babaca como Andrew — só que seu péssimo estado de cansaço e frustração o obrigava a querer em casa logo. Além disso, seu tornozelo esquerdo doía um pouco. Mas com a dor física ele estava acostumado a lidar, só a dor emocional que era uma barra mais pesada.

Claro, a culpa era toda dele. Havia construído um castelo de expectativas em cima de um terreno de sonhos impossíveis. A agora que o castelo havia caído, só restava lamentar.

— Não sou do tipo que fica jogando conversa fora com estranhos — disse Artie, com os lábios se movendo contra o encosto da porta do carro.

O “carro” era simplesmente um Bel Air 1979 azul marinho, super estiloso e classudo. Artie até chegava a sentir uma pontinha de inveja.

— Eu sou um estranho?

— Sim, você é. Só porque eu te vi algumas vezes não significa que te conheço.

Andrew ficou calado por um tempo. Artie diria que ele estava pensativo, mas Andrew sempre parecia estar assim, pensando sobre tudo a sua volta. Era uma pessoa observadora, que prefere ficar parado dentro de seu próprio silencio. Artie não admitiria isso em voz alta, mas admirava aquela qualidade. Pois as pessoas que falam pouco, quando abrem a boca, é porque realmente têm algo a dizer.

Olhando pela janela, Artie percebia o quanto aquela paisagem era sem graça e insípida, apenas uma estrada com buracos aqui e ali, cercada por uma pequena floresta de eucaliptos, que servia como uma linha que separava o centro da cidade dos bairros residenciais. Era deprimente saber que vivia e lugar tão... apagado. Não era o tipo de cidade legal e “urbana” que se via nos filmes. Era tão sem graça como um bolo de aniversário sem glacê.

Andrew abriu a janela para jogar sua bituca de cigarro na estrada e falou:

— Então, se for para pensar desse jeito. Todo mundo vai ser um entranho para você. E não vai poder “jogar conversa fora” com ninguém.

— Como assim? — perguntou Artie, que tentava se concentrar na conversa, a música tocando no rádio o estava deixando sonolento.

Com ousadia, adiantou-se em girar o controle do rádio para encontrar uma estação melhor. Se Andrew ficou surpreso por aquele gesto, não demonstrou. E então, a voz nada suave de Kurt Cobain começou a sair dos autofalantes.

Come as you are, as you were, as I want you to be, as a friend…

— Ué, ninguém realmente conhece outra pessoa. Nem se a pessoa abrisse a cabeça de alguém e olhasse para dentro do cérebro dela, não iria descobri-la totalmente. Todo mundo é um mistério invendável. Mesmo aqueles que juramos conhecer bem, em algum momento, chega para nos surpreender e mostrar que estávamos enganados o tempo todo.

Artie sabia exatamente o que Andrew queria dizer... Havia experimentado aquilo pouco tempo atrás com o próprio pai, que passara de “melhor amigo” para o “monstro atrás da porta” em poucos dias.

— Entendi o seu argumento, me convenceu a jogar conversa fora com você.

Andrew ensaiou um sorriso. Não, era apenas um leve enrugar no canto esquerdo da boca, não chegava a ser um sorriso de verdade.

Take your time, hurry up. Choice is yours, don't be late…

— Tudo bem, então podemos começar pelo motivo de você estar andando como um doido na rua sem nem olhar para os lados. O que aconteceu?

Ficou surpreso por Andrew perguntar aquilo — e por se importar.

— O de sempre. Imagino coisas que não existem e me fodo no final.

— Puxa vida, que profundo. Quem foi uma bela moça que quebrou seu coração?

Artie quis gargalhar; “Bela Moça”, que piada.

— Quem disse que tem amor no meio? Não podia ser outra coisa?

— Podia, mas para mim parece óbvio que você é uma pessoa que romantiza demais na vida. O que é uma pena, deveria ser um pouco mais realista quanto ao amor, que nem eu.

— Realista quanto ao amor?

As a trend, as friend. As an old memoria

— Sim — respondeu Andrew. — O amor é que nem esses como combos do McDonald´s. Nas fotos tudo é melhor, maior e mais apetitoso. Na vida real, tudo é meio decepcionante e meio sem gosto.

Artie ficou surpreso com aquela frase. E com a verdade que ela carregava. Mas era muito deprimente pensar isso. Se todas as pessoas pensassem assim, os relacionamentos estariam cada vez mais raros, e as pessoas continuariam presas às suas rotinas de solidão, que não eram nada divertidas. O que era pior, sentir os sombrios sentimentos que uma decepção amorosa proporcionava, ou não sentir nada?

And I swear that I don't have a gun. No, I don't have a gun

— Este grunge está quase fazendo meus ouvidos sangrarem — comentou Andrew.

Artie revirou os olhos.

— Essa música é tão maravilhosa que devia ser proibida.

— Que absurdo.

— Kurt sabia falar sobre o amor como ninguém. Em cada verso das músicas, é como se ele destrancasse os sentimentos guardados dentro da sua caixa em formato de coração.

Andrew sorriu (de verdade, desta vez) e estalou a língua. Pelo menos pareceu ser um sorriso, Artie não tinha certeza, já que só o olhava pelo reflexo no vidro do carro — por algum motivo, não se sentia à vontade de olhar para ele diretamente.

— Isso é uma metáfora para dizer que ele sabia falar o que sentia?

— Sim.

— Que piegas.

Artie revirou os olhos de novo e cruzou os braços, aborrecido. Andrew conseguia tirá-lo do sério com a mesma rapidez que o pápa léguas fugia do coiote.

— Não é piegas... é poético.

— É piegas exatamente por ser poético. E você desviou do assunto com as suas metáforas absurdas, esta música continuas sendo uma merda.

Andrew mudou a estação do rádio, que reproduziu um chiado até alcançar um canal que tocava reggae. Grrr! Artie odiava Bob Marley, e agora odiava Andrew também.

— Você é sempre babaca assim ou eu sou especial?

— Acho que sou sempre assim. Sabe, ser um babaca tem suas vantagens.

— Mesmo? Não consigo imaginar quais são.

Artie deu uma tossida sarcástica e abriu o vidro, querendo parecer estar apenas querendo uma brisa, quando na verdade queria era se distrair do cheiro de colônia masculina misturada com cigarro de cereja que Andrew tinha.

— Bem, quando se é um babaca, as pessoas nunca esperam muito de você. Posso viver sem o peso das expectativas alheias. E quando faço ou digo alguma coisa boa, é totalmente inesperado. Tipo eu ter te oferecido uma carona.

Artie sorriu.

— Nem vêm! Você só fez isso por medo de eu ir até a delegacia te denunciar por atropelamento e por dirigir bêbado — disse, apontando para a pilha de latas de cerveja no banco traseiro, que estavam ao lado de embalagens de comida de fast-food, papéis de bala e (Deuses!) embalagens de camisinhas.

Que nojo.

Artie ficou imaginando o que Trace, com a sua mania de limpeza diria daquilo. Podia até chegar a imaginar a cara de horror que ela faria. Pensar em Trace o lembrou do acordo que tinha feito com ela mais cedo naquela manhã, podia perguntar ali mesmo para Andrew se ele concordaria em se encontrar com ela, aproveitando que o garoto estava todo falante. Porém... Artie não queria fazer isso, por algum motivo... Ciúm... não! Que coisa mais estúpida para se pensar.

— Essa é uma desvantagem de ser um babaca — disse Andrew, tirando-o de seus devaneios idiotas. Quando você pratica uma gentileza de verdade, sempre desconfiam que você tem segundas intenções.

O tom sério e oco na voz de Andrew deixou Artie desconfortável.

Olhou para o seu relógio de pulso e percebeu que já estava a mais de vinte minutos. Isso era estranho, uma vez que o percurso de carro até a sua casa geralmente leva apenas dez minutos. Percebeu também pela primeira vez que Andrew tinha pegado um caminho mais lingo, e que estava dirigindo bem devagar.

— Por que você está dirigindo nessa vagareza toda? — perguntou Artie, em um misto de confusão e desconfiança.

— Por nada — respondeu Andrew. — Você está com pressa?

— Talvez.

Andrew acelerou o carro, mais que o necessário até, e aumentou o volume da música. O clima dentro do carro pareceu pesado depois disso. Artie arrependeu-se de ter dito aquilo. Queria ter uma tesoura por perto para poder cortar sua maldita língua fora.

Em poucos minutos depois, chegaram até o quarteirão da casa de Artie.

— Pode estacionar na esquina por favor? Minha mãe iria fazer mil perguntas se me visse chegando de carro com alguém.

Andrew não respondeu, apenas freou bruscamente e estacionou o carro.

As mãos de Artie estavam suadas e suas pernas tremiam como gelatina.

A sua caixinha em formato de coração dava grandes pulos dentro dele. Caixinha idiota.

— Hum. Obrigado pela carona.

— De nada — respondeu Andrew, com a voz baixa quase imperceptível sob o volume do rádio.

— Tchau.

— Tchau.

Artie ficou parado um instante, sem saber o que fazer.

É só abrir a porta e sair, idiota.

Queria dizer alguma coisa. Algo engraçado ou inteligente. Mas as ideias lhe escapavam e acabou não dizendo nada. Engoliu em seco e saiu do carro. Começou a caminhar na calçada em direção a sua casa. Ouviu o carro cantar pneu dando marcha ré e se afastando em alta velocidade.

Quando entrou em casa, foi até a sala e encontrou a mãe dormindo no sofá. A televisão mostrava uma reprise de um episódio de Arquivo X. Na verdade, parecia que ela havia era desmaiado, levando em conta a garrafa de conhaque vazia jogado no chão ao lado do sofá. E em cima da mesa de centro, havia restos de uma pizza e lenços de papel usados. Ela havia chorado.

Oh, que droga. O que tinha acontecido.

Artie ficou abalado com aquela cena. E ainda em estado de choque, foi até o quarto buscar um cobertor para cobri-la. No caminho, viu que a luz vermelha da secretária eletrônica estava tocando. Apertou o botão para ouvir as mensagens.

Oi, aqui é o Andrew. Artie, por que você não veio hoje? Fiquei te esperando um tempão. Aconteceu alguma coisa? Ei, Cindy, espera, eu tô falando no telefone! Hahaha. Artie, tenho que desligar, te vejo depois.

[Bip]

Katy, por favor, me liga quando puder. Eu posso explicar tudo. Não é o que você está pensando. Eu te amo, beijos.

[Bip]

O quê? Quem era aquela voz masculina? E por que estava chamando sua mãe de “Katy”? Ouviu as próximas mensagens, que se tornavam mais desesperadas e mais bêbadas a cada próximo bip. Artie não tinha um bom pressentimento quanto aquilo, mas resolveu deixar para lá. Já tinha seus próprios problemas, podia conversar com a mãe depois.

Foi para o quarto de se deitou. Ficou angustiado pelo silencio. Durante os vinte minutos que passara no carro de Andrew, não pensou no quanto seu coração estava despedaçado. Apesar de sempre achar que as decepções da vida não conseguiriam mais tirar nenhum pedacinho mais dele, sempre acabava provando que estava errado, sozinho no silêncio e no escuro. Afogando-se em algum dos seus repertórios de decepções.

Fechou os olhos, mas sabia que não conseguiria dormir.

Aquela seria uma noite em que ficaria refém dos seus pensamentos ruins.

Notas finais
Argh, demorei séculos para postar esse capítulo ( e um pequeno como esse). Mas é que tive um seminário do curso e mais mil trabalhos da faculdade para fazer, e não sobrou tempo. Na verdade, tenho mais cinco cap manuscritos no meu caderno, mas e a preguiça de digitar/editar junto é enorme. Obrigado pelos comentários e por ler!