Notas iniciais
Capitulo novo, demorou mas saiu

Teve a sensação de estar boiando em água escura, vendo as luzes da costa retrocederem ao longe. Logo ele estaria abandonado no oceano, céu gelado acima e uma eternidade de escuridão vazia abaixo.

Artie abriu os olhos, que agradeceram pelo ambiente estar escuro. Ficou um momento confuso por não saber que lugar era aquele em que acabava de acordar. Contudo, ao ver um enorme pôster da Sailor Moon pregado na parede esquerda ele percebeu que estava no quarto da Lynn.

Como diabos ele tinha ido parado lá?

Sua última lembrança da noite passada era ter ido na cozinha acender um cigarro de maconha e ... oh. Que droga. Não conseguia acreditar que tinha tido uma overdose logo na primeira vez.

Olhou para o rádio relógio na mesa de cabeceira. Era quatro e meia da manhã. Então não tinha ficado tanto tempo apagado. Resolveu ir ver se outros tinham ido embora ou se estavam desmaiados de bêbados em algum lugar. Teve uma leve vertigem ao se levantar. O mundo parecia estar literalmente girando ao seu redor. O chão estava gelado sob os seus pés, que mal o sustentavam devido ao cansaço. Cada músculo, osso e vértebra de seu corpo doía ao mesmo tempo. Sua garganta estava seca como o Saara e seu estômago dava-lhe apertos de tanta fome. Havia inclusive uma grande dor em sua consciência, mas dessa ele poderia cuidar mais tarde.

Após conseguir se equilibrar melhor, Artie desceu até a cozinha. Ficou atento para não fazer nenhum barulho. Abriu o armário, ficando feliz ao achar um lindo e maravilhoso saco de cheetos que parecia brilhar.

— O que você está fazendo?

Artie quase enfartou de susto, apertou o cheetos contra o peito e engoliu um grito. Não havia percebido Lynn se aproximar. Olhou para trás e encontrou o olhar furioso dela. Furioso e cansado. Sua aparência estava decaída, a maquiagem borrada e o nariz e olhos vermelhos mostravam que ela esteve chorando recentemente.

— Eu só estou pegando algo para comer — respondeu Artie, ainda abalado pela aparência da amiga. Ela, que sempre ficava escondida sob uma áurea de perfeição, naquele estado era... perturbador.

Lynn fez uma cara emburrada e foi sentar-se no balcão.

— Não é disso que eu estava falando — falou ela. — Estou falando de outra coisa.

— Outra coisa?

— É.

Artie teve um péssimo pressentimento quanto aquilo. Chegou até a perder a fome, deixando o cheetos de lado.

Então Lynn tirou algo do bolso e entregou a Artie, que pela segunda vez naquele dia, quase sofreu de um ataque do coração. Foi um susto cru. Como se um balde água com gelo tivesse derramado sobre ele, paralisando-o.

— Onde você encontrou isso? — questionou Artie, já um pouco nervoso pela amiga ter mexido nas coisas dele.

—Não sabíamos direito o que você tinha, você vomitou muito e depois ficou todo duro e gelado. — contou ela. Artie fechou os olhos, podendo imaginar a cena. Tentou medir o tamanho da sua humilhação. — Não dava para te levar para o hospital, todos estávamos meio bêbados. Mas ficamos com medo e eu fui olhar na sua mochila para ver se você tinha algum remédio... foi então que encontrei isso.

“Isso” era a pulseira de paciente da clínica em que Artie tinha ficado internado, ele a guardou como um lembrete de como já passara por momentos cheios de trevas e caos, e de que, apesar de ainda estar vivendo momentos difíceis, já tinha vencido demônios maiores. Agora que Lynn sabia do seu segredo. Ela provavelmente também devia ter encontrado as suas pílulas da felicidade que ele mantinha escondido dentro da mochila.

Derrotado, Artie sentou-se no chão e escorou as costas na geladeira.

— É agora que eu digo aquela frase? — Perguntou ele, com a voz baixa. — “Eu posso explicar”.

— Sim. E eu vou repetir a minha pergunta: o que você está fazendo? Bebendo cerveja que nem um caminhoneiro em um bar da estrada, fumando maconha. Escondendo segredos desse tamanho... essa não é perigoso? Desse jeito você pode desmoronar de novo.

Um acesso de raiva atingiu Artie, que odiava aquele tipo de discurso moralista.

— Mas tô me divertindo, ué — protestou. — Não é isso que mandam a gente fazer? Não fica todo mundo dizendo para a gente parar de tanto drama e ir se divertir? Que a vida é curta e que só se vive uma vez? Então, só tô obedecendo todo mundo.

— Eu não chamaria depressão de apenas “tanto drama”.

— Talvez eu não ligue para o nome que você dá para essa merda toda.

Artie ficou espantado pela amargura das suas palavras. Esteve prendendo um oceano de mágoa e rancor em uma frágil represa, e agora a água estava transbordando e ele não conseguia escapar da forte correnteza.

Culpado pela expressão magoada que causara em Lynn, decidiu que era melhor simplesmente ir embora para casa. Já havia causado problemas o suficiente por uma noite. Ela não tinha culpa de nada, era melhor se afastar do que magoá-la ainda mais. Não era justo com nenhuma das partes, mas era a única solução.

Saiu da cozinha calado e começou a subir as escadas. Só que Lynn aparentemente não tinha terminado.

— Então não existiu férias nenhuma na Califórnia? Foi uma grande mentira, não é. Você internado durante esse tempo todo.

Artie não respondeu, apenas continuou subindo os degraus. Seu silêncio teve o mesmo efeito que um sonoro “sim” teria.

— O que aconteceu para ter te deixado tão mal? — continuou Lynn. —Foi a morte do seu pai?

— Não.

Se ele fosse listar esses motivos, daria para escrever um livro completo. Talvez, se sobrevivesse àquilo tudo, seria o que ele iria fazer.

Lynn sentou-se na cama, observando-o calçar o all star e a juntar as suas coisas de volta na mochila.

— Então o que foi? O que aconteceu?

Artie deu um suspiro cansado e massageou a própria nuca, como se isso fosse diminuir o estresse.

— A vida. A vida aconteceu.

Aquilo pareceu bastar para ela, que pareceu compreender o que ele queria dizer com aquilo. Que bom. Era uma afirmação simples, porém verdadeira. Uma verdade feia e cruel. Um dia você está bem, aproveitando as maravilhas proporcionadas pela felicidade mais ou menos, para então, de repente, a vida acontecer e levar tudo embora.

— Por que você nunca me contou? Os amigos servem para isso também, sabia? Não é apenas para te levar para uma noite de bebedeira.

— Lynn, nossa amizade já não era lá essas coisas muito antes disso, você sabe.

Um insustentável silencio se seguiu. Artie queria ir embora o mais rápido possível. Precisava correr para o refúgio no seu quarto. Contudo, antes de ir, tinha que fazer duas últimas perguntas.

— Você contou a eles?

Ela negou com a cabeça.

Ufa.

A última coisa de que Artie precisava era os outros descobrindo sobre a sua doença. Inevitavelmente iriam começar a tratá-lo de um jeito diferente de antes, para o bem ou para o mal. Ele não queria que começassem de ser tratado como uma frágil boneca de porcelana, ele só queria ser tratado como uma pessoa normal.

— Obrigado por não contar. E, eu queria saber... o que aconteceu com Andrew depois que eu apaguei?

Lynn olhou para ele com uma expressão confusa.

— Nada. Quer dizer, ele te carregou até lá cima e... foi embora depois.

O que? Ele havia carregado Artie? Que estranho. Quer dizer, em um momento Andrew o tratava como se ele fosse lixo, e depois fazia coisas como se... como se ele se importasse.

Artie estava cansado demais para ficar debatendo sobre as inconstâncias daquele garoto.

— Agora eu preciso ir.

Sem mais nenhuma palavra, ele saiu do quarto de Lynn, que continuou parada no mesmo lugar. Ao chegar na rua, tirou o seu walkman de dentro da mochila e colocou seu fone de ouvido. Aquele era um momento em que precisava escapar para o mundo da música, um que fazia muito mais sentido. Como precisava de um estímulo para desentristecer, pulos as faixas mais depressivas e optou oi uma música mais agitada: what is love, do Haddway. Chegou até a mexer um pouco os pés e os quadris no ritmo do refrão. Ele provavelmente estava ridículo fazendo aquilo, mas não havia ninguém na rua àquela hora mesmo para vê-lo.

O crepúsculo da manhã tornava o céu escuro em um céu acinzentado, e as lindas estrelas já se despediam para dar lugar ao Sol. Isso trouxe um conforto quentinho para Artie, que caminhava olhando para cima. Ele enxergava na passagem de um dia para outro, uma sublime mensagem de como apesar de haver momentos em que ele se sentia preso nos braços da escuridão, sempre haveria uma luz para tirá-lo de lá.

Ele já se sentia melhor quando chegou em casa. Entrou e foi direto para a cozinha assaltar a geladeira e matar a sua fome. Improvisou um sanduíche de queijo e foi para a sala assistir televisão, foi quando encontrou sua mãe deitada no sofá. Aquilo já estava virando uma espécie de rotina, e ele não gostava nada disso.

—Mãe? — chamou ele, dando tapinhas no ombro dela na tentativa de acordá-la, mas ela não moveu nenhum músculo.

Artie tentou mais algumas veze, mas acabou desistindo. Comeu seu sanduíche e subiu para o quarto.

Entrou no banheiro e tomou um pequeno susto ao olhar-se no espelho. Estava com uma aparência abatida, seus olhos claros estavam com as pupilas dilatadas e com olheiras profundas, quase roxas sob sua pele muito branca. Seu cabelo estava com a tintura desbotada, o antes loiro agora aparentava um tom acinzentado parecido com o da sua vó Mary. De fato, ele sentia-se velho por dentro.

— Quem é você? — perguntou para o reflexo no espelho.

Continuou encarando-se no espelho até que sentiu o estômago dar um grande nó. Conseguiu chegar no vaso sanitário a tempo de depositar ali um grande volume de uma mistura de vômito e sangue.

— Que porra é essa? — arquejou Artie, ainda sentindo alguns espasmos na barriga. Ficou justificadamente preocupado, qualquer idiota saberia que ter sangue vomitado não era um bom sinal.