Mesmo Que Não Venha Mais Ninguém

9 Uma xícara de porcelana com a asa rachada


Notas iniciais
Primeiro quero agradecer a todos que comentaram e/ou favoritaram a fic. E depois, quero me desculpar por ter demorado a postar um capítulo novo, é que passei por um momento bad e até pensei em excluí-la, e nem respondi alguns comentários antigos, mas agora estou bem. Bjs a todos, boa leitura.

Artie lia sua edição de número sete de Sandman enquanto aguardava no corredor. Sua mãe estava no consultório da Dra. Hathaway conversando com ela. Ele estava frustrado e com raiva por ter sido privado da conversa, não era nada agradável saber que falavam dele sem que ele próprio pudesse saber o que — até tentara ouvir através da porta, mas a acústica não era muito boa ali.

Era a terceira vez que visitava a clínica naquela semana, tinha feito vários exames e uma longa entrevista para listar os sintomas. Artie estava obviamente preocupado com a própria saúde, só que ainda havia questões martelando em sua cabeça. Como o fato de já ter uma semana que não via ou falava com Lynn, e a julgar pela forma que o último encontro deles terminara, deixava incerto sobre como a amizade deles seria dali para frente.

Oh, Deuses, Iria ter algum momento em sua vida na qual ele teria alguma paz? Ele já estava farto daquele constante estado de inquietude e incerteza.

— Ei, garoto bonitinho.

Artie ergueu os olhos e encontrou Trace parada na frente dele. Ela usava uma camiseta extralarga escrito “fuck this shit” que quase alcançava seus joelhos. Trace sempre vestia roupas muito grandes para disfarçar sua exagerada magreza.

Artie admirava cada pequeno gesto que ela fazia para superar os problemas, ela era uma guerreira e uma grande fonte de inspiração para ele. Para pessoas que passam por problemas como os deles, conjugar o verbo tentar era tudo o que lhes restava.

— Oi — disse ele, sorrindo.

— Você já está pronto?

— Não, minha mãe ainda está lá dentro.

— Ah.

Foi impossível não notar a cara de decepção que Trace fez. Era o “dia da visita” para ela, na qual os pacientes ganhavam permissão de visitar o mundo exterior. Poucos tinham aquela regalia, e seria a primeira vez de Trace. Então ela obviamente estava bastante ansiosa e animada.

— Mas não precisamos esperar por ela — afirmou Artie, disposto a não frustrar o momento da amiga. — Posso conversar com ela mais tarde.

Trace sorriu.

— Tá bom.

Artie se apressou em escrever um bilhete para a mãe avisando que iria sair e jogou-o por debaixo da porta do consultório. Depois ele e Trace foram para o ponto de ônibus, para então seguirem até o centro da cidade.

Trace sentou-se no assento da janela. O olhar que ela destinava à paisagem brilhava como um pedacinho de espelho no Sol. Ela agia como um passarinho voltando a voar depois de passar muito tempo trancado numa gaiola. Artie pegou a mão dela e a apertou, feliz por ela.

— Você tem certeza de que vai mesmo fazer isso? — perguntou Trace depois de um tempo.

— Tenho — respondeu Artie, com total certeza em sua voz.

— Uma tatuagem é para sempre, sabe disso, não é?

— Sim. Mas mesmo daqui cinquenta anos ela vai continuar tendo um grande significado para mim. E não é como se estivesse tatuando o nome de um futuro ex.

Os dois desceram na estação em frente a um restaurante chinês. O estúdio de tatuagem ficava a apenas uma quadra dali, por isso eles não demoraram para chegar lá. O Gideon ficava aninhado entre uma loja de discos e o prédio do Departamento de Transportes. O aspecto não era dos melhores, parecia a toca de um traficante de heroína, com direito a pichação de marca de gangue e pôsteres de bandas punk londrinas colados na porta. Mas Vincent, quem havia indicado o lugar para Artie, garantira que o estúdio era um dos melhores da região.

Ao entrarem, encontraram um grande ponto vermelho, que depois se mostrou ser o cabelo da recepcionista parecendo estar prestes a morrer de tédio.

— Graças a Deus! — gritou ela — Um cliente!

Artie e Trace riram da reação exagerada dela e se aproximaram. O ambiente tinha um cheiro de pizza e era todo decorado de preto, desde os móveis gastos ao papel de parede, era pouco iluminado e muito abafado. Artie teve que usar a identidade falsa para poder fazer a tatuagem, a recepcionista — que se apresentou como Lola — lhe ofereceu o catálogo com modelos, mas ele disse que não iria precisar.

— Por aqui — chamou Lola, indo em direção a um corredor estreito que ficava no fundo da recepção.

Artie se despediu de Trace, que já estava acomodada em um puf preto lendo um mangá tirado de uma pilha cheia jogada ao lado,

O corredor era mais cumprido do que parecia, eles passaram por várias portas, cada uma tinha um nome escrito com tinta fluorescente e de dentro dava para ouvir uma música baixa tocando. Lola parou em frente à penúltima porta, que tinha o nome Rothfuss escrito.

— Ah, só um aviso — disse Lola, com a mão na maçaneta da porta. — Ele é um pouco mal humorado e chato, mas ele é bem legal. Só não ligue para aquele sarcasmo todo.

Artie murmurou um “okay” para ela, que abriu a porta e lhe deu passagem. Lá dentro era iluminado por uma luz monocromática azul, Artie teve que piscar várias vezes até seus olhos se adaptarem. Uma música lenta e triste que ele desconhecia tocava no toca fitas que ficava em uma mesa no canto esquerdo da sala. Havia alguém sentado numa cadeira giratória de costas para ele. Um alguém que, ao virar-se, mostrou-se ser ninguém menos que Andrew.

Típico.

Aquela teria sido uma surpresa caso Artie já não estivesse acostumado a encontrar Andrew nos lugares ou situações mais improváveis. Sua reação se limitou a um revirar de olhos.

Andrew, porém, sorriu. Aquele seu sorriso sarcástico de James Dean.

Nossa, aquilo sim era uma surpresa.

* * *

— Ora, ora — disse Andrew. — Se não é o Sr. Erva-daninha*, crescendo e aparecendo onde é inconveniente.

Andrew desejou ter consigo uma Polaroid ali com ele para fotografar a cara de bravo que Andrew fez ao ouvir aquela frase. Aquele garoto ficava muito bonitinho quando estava nervoso. Claro que Andrew xingou-se mentalmente depois de pensar isso. Palavras como “bonitinho” nunca estiveram no seu vocabulário, mesmo que em pensamento. Artie era um especialista em despertar nele reações que não faziam parte do seu feitio

— Mesmo? — perguntou Artie. — Engraçado eu pensar o mesmo sobre você.

— A diferença é que eu não sou inconveniente aqui, estou trabalhando.

— Pois bem, e eu estou pagando. Isso não devia ser uma inconveniência para você.

A cada palavra dita Artie ficava mais vermelho. Andrew se segurou para não rir daquilo. Os dois pareciam duas crianças no jardim da infância discutindo aquele jeito. Ele sabia que a culpa daquilo era a tensão sexual que existia entre os dois, porém, Artie por sua vez parecia não ter consciência disso.

Geralmente, Andrew trava vantagem da tensão sexual que ele causava nas pessoas, tanto garotas como garotos. Sempre acabava resultando em uma transa rápida, apenas prazer simultâneo. Mas com Artie iria ser diferente. Precisava ser diferente. Andrew manteria uma distância saudável daquele garoto, para o bem dos dois.

— Podemos ficar discutindo aqui a noite nota — disse Andrew. — Ou podemos terminar isso logo.

Artie fez uma carranca, tirou os óculos e foi se sentar na cadeira reclinável que ficava no centro da sala.

— A grana que eu paguei também inclui poder escolher a música?

— Claro que não — respondeu Andrew. Ele começou a preparar os instrumentos para fazer a tatuagem. — Minha sala, minha música.

— Então poderia colocar algo menos depressivo pelo menos. Que banda é essa?

— The Piexes. Sua ignorância me ofende.

— Seu mal gosto também me ofende.

Andrew sentou-se no banquinho ao lado da cadeira reclinável, vestiu as luvas e pegou a máquina de tatuar. Aproveitou que Artie estava distraído olhando para cima para encará-lo. Mesmo naquela semiescuridão, era possível enxergar as profundas olheiras em sua pele. Apesar disso, ele era muito bonito, seu rosto era anguloso e elegante, com uma boca desenhada e com covinhas nas bochechas e no queixo. Seu porte físico podia a princípio aparentar fragilidade, mas a bravata em seus olhos logo dissipavam essa ideia. Ele tinha olhos velhos demais para a sua idade, com um brilho de quem já havia carregado muito peso nas costas, e que agora usava sua experiência como armadura para afastar novas mágoas.

Esta última característica era o que mais o atraia em Artie, a empatia que Andrew sentia com aquele tipo de sentimento era muito forte. Ele também sabia o que era querer ser forte após ser ferido por alguém. Depois de um tempo, as maiores feridas se tornam as maiores defesas.

— Então, o que vai ser?—questionou Andrew, forçando-se a focar no presente e parar de vaguear com a mente.

Artie olhou para ele e ergueu a sobrancelha.

— O quê?

— A tatuagem. O que você quer fazer?

— Ah — sussurrou, corando logo em seguida. Mesmo sob aquele forte luz azul ele conseguia enxergar a pele de Artie ficando vermelha. — Um ponto e vírgula.

Andrew franziu a testa. Por que alguém tatuaria aquilo? Quis fazer um comentário, mas lembrou-se que nos seus seis meses trabalhando no Gideon já havia recebido pedidos muito mais bizarros.

— Onde? — perguntou.

Artie puxou a manga do seu moletom cinza e apontou para o pulso direito.

— Aqui.

Sem pensar, Andrew aproximou-se e segurou o pulso de Artie. Ficou impressionado com extrema palidez e com pequena espessura, ele parecia estar literalmente segurando um pedaço de osso. E então, ao analisar melhor, notou uma linha horizontal e branca em relevo na pele branca. Uma cicatriz.

Não precisou de nenhuma explicação para ele conseguir entender o significado daquela cicatriz.

— Tudo bem — disse ele. — Vamos fazer isso.

Subitamente tenso, Andrew precisou levantar e ir acender um cigarro. Gideon não gostava que fumassem ali, mas ele não ligava.

Minha nossa.

Andrew já havia notado a tristeza em Artie desde a primeira vez que o vira. Artie sempre estava tentando escondê-la com sorrisos e com a sua postura passivo agressiva, mas para alguém observador como Andrew, ainda era possível notá-la. Muita vezes pegou-se observando-o com o seu semblante deprimido, olhando para o nada quando achava que ninguém estava olhando para ele. A tristeza era tão característica em Artie como os seus olhos claros ou seu cabelo acinzentado.

Só que ainda assim, uma tentativa de suicídio era algo... ele nem conseguia descrever em palavras.

Ali, dando a primeira tragada no cigarro, ele começou a ter dúvidas se realmente deveria manter mesmo uma “distancia saudavel” daquele garoto. Comparou-o com uma xícara de porcelana com a asa rachada, Andrew poderia ficar junto a Artie e agir como uma supercola para mantê-lo inteiro... ou poderia ser apenas um observador distante que não toca na xícara por medo de deixá-la cair das suas mãos desastradas, destruíndo-a ainda mais.

Todas aquelas contradições fervilhando dentro dele eram quase insuportáveis.

Após mais alguns minutos, terminou de fumar e voltou para perto de Artie, que o olhava com uma expressão intrigada. Andrew fingiu não notar e pegou o instrumento de tatuar novamente.

Tiveram uma breve conversa para que Artie decidisse a fonte o tamanho do desenho.

— Uma seção vai bastar? — perguntou Artie.

— Sim.

Infelizmente. Bem que ele podia querer tatuar um dragão enorme ou algo assim, gastariam muito mais dias e seria um ótima desculpa para passarem mais tempo juntos.

— Pronto? Posso começar?

— Pode,

— Vai doer um pouco no começo, mas depois você se acostuma.

— Não se preocupe — Artie riu secamente. — Já estou acostumado com essa espécie de dor.

Andrew fingiu não ter ouvido, ligou a máquina e começou a trabalhar no pulso de Artie — que, de fato, não esboçou nenhuma reação.

Um silêncio cobriu a sala, quebrado apenas pelo barulho da máquina e pela música que tocava baixinho. Andrew esforçou-se para focar no seu trabalho e ignorar o arrepio causado pela eletricidade vinda da proximidade entre eles.

— Você não vai perguntar?

Andrew levantou a cabeça.

— Perguntar o quê?

Artie ficou encarando-o por alguns segundos antes de responder, e quando o fez, sua voz saiu fraca e vazia.

— O motivo por eu ter tentado me matar.

Notas finais
* erva-daninha em inglês (weeds) também é usado como gíria para maconha, nessa fala o Andrew faz referência àquela cena na casa da Lynn. - - Beijos, não se esqueçam de comentar