— Zumbis são ridículos, eles não me dão medi — disse Nora. — Eles são lentos e estúpidos, tudo o que você precisa fazer é sair correndo. E aquela história de que eles comem cérebros? Que bobagem! Como vão conseguir fazer isso com aqueles dentes podres? Por isso acho que não devemos assistir Madrugada dos Mortos.

Artie — que estava agachado ao lado dela no tapete da sala de estar da casa de Lynn, com uma pilha de fitas VHS com variados títulos de filmes de terror — acabou concordando.

— É verdade. Que tal esse do Freddy Krueger? — perguntou ele.

— Não, vamos assistir alguma coisa mais gore.

Artie ergueu as sobrancelhas, surpreso, e comentou:

— Você não me parece o tipo de garota que curte gore.

— Eu sei! — riu Nora — Ficaria surpreso com a quantidade de coisas que aparento não gostar.

Nora aparentemente era uma pessoa inofensiva e tranquila. Porém, na verdade, ela era exatamente o contrário. Suas roupas de marca e seu cabelo louro estilo Barbie, eram apenas um disfarce para uma garota fã de música punk, que fumava e falava palavrão tanto quanto Vincent e que gostava de filmografia gore. Além disso, Nora era uma amiga fiel e que sabia dar ótimos conselhos. Era ótimo tê-la por perto.

— E pânico? Este é bem novo.

— Hum... um cara mascarado com uma faca na mão? Tão clichê! Daqui uns dez anos ninguém vai mais lembrar que este filme existiu.

— Ai, então eu desisto. O que você quer assistir então?

— Uma noite alucinante. Pode ser?

— Por mim tudo bem.

Nora foi então chamar Lynn, que estava estourando pipoca na cozinha. Era sexta-feira treze e os pais de Lynn haviam ido para Londres para um seminário, deixando a casa livre para ser usada como point para a galera se reunir para assistir filmes de terror e se empanturrarem de besteira.

Aquela seria a primeira vez que Artie ficaria cara a cara com Stanley desde aquela cena horrível na lanchonete. Ele ainda não sabia como iria reagir quando chegasse a hora. Esteve evitando o garoto a semana toda, dizendo para sua mãe mentir que ele estava doente e não poderia atender o telefone. Enquanto isso, ficava escondido em seu quarto assistindo filmes depressivos, ouvindo Radiohead e tomando contêineres de sorvete de morango. Fossas são um inferno — era uma provocada por um “rompimento” com um amor platônico, mas continuava sendo uma fossa.

Pouco depois das nove, a campainha tocou e Nora foi atender. Artie não pôde deixar de notar a animação dela ao se deparar com Vincent na entrada.

— Ué, mas onde está a decoração de abóboras e morcegos? — perguntou Vincent.

— É só sexta feira treze, não o Halloween — riu Stanley, atrás dele.

Vincent entrou, seguido de Stanley e Andrew. Permanecendo sentado ao lado de Lynn, Artie manteve uma expressão impassível, mesmo estando um caos emocional por dentro. Raiva, alegria, frustração, arrependimento. Queria se desculpar com Andrew pelo seu comportamento hostil no carro, e ao mesmo tempo queria soca-lo por ele estar ali tão... tão Andrew! E quanto a Stanley, se apenas não demonstrasse sua decepção quanto a ele e agisse normalmente, já seria o suficiente. ~

Stanley sentou-se ao lado de Artie, que instantaneamente se encolheu. Ele estava com aquele seu sorriso alegre e despreocupado de sempre.

— Você está melhor?

Artie ficou confuso por um tempo, para então perceber que o garoto estava se referindo à sua doença fictícia.

— Hum, sim — gaguejou Artie — Estou bem melhor.

— Foi uma pena você não poder ter ido no Rogers segunda. Foi muito divertido.

Imagino que tenha sido mesmo, pensou Artie, se repreendendo logo em seguida. Tinha que aprender a manter seu sarcasmo interior sobre controle.

— Uma pena mesmo, fica para a próxima.

— Você tinha que ir lá em casa dia desses, para poder pegar aqueles gibis do x-men emprestado que você disse que queria.

Estava prestes a responder quando notou dois pares de olhos levemente apertados fuzilando-o lá do canto da sala.

Andrew.

O sangue de Artie gelou.

Primeiro, Andrew nunca olhava para ele. Nunca. Basicamente na maior parte do tempo ele agia como se Artie nem existisse. E segundo, ele obviamente sabia que Artie estava mentindo.

Que merda.

Será que ele ficaria de boca fechada ou iria dedurá-lo?

Tirou os óculos dos olhos e fingiu limpar as lentes, um gesto que fazia sempre que se sentia pressionado. Na primeira oportunidade que teve para sair correndo da sala, quando Lynn falou que precisariam de mais pipoca, Artie se ofereceu e quase saiu correndo para a cozinha — e teve a impressão de que dois pares de olhos o seguiram quando fez isso.

Ficou mais do que feliz em escapar por alguns minutos. Só então percebeu o quanto estava tenso. Olhava para a panela como se as respostas dos seus problemas fossem saltar dali como aquelas pipocas estouradas. Era o mesmo que ficar folheando revistas na sala de espera do consultório do dentista: apenas um alívio momentâneo antes de encarar a dor.

Quando voltou para a sala, encontrou as luzes já apagadas. Nora estava resetando a fita VHS para o início do filme enquanto Lynn fechava as cortinas para deixar o ambiente mais escuro. Artie colocou o balde com pipoca na mesa de centro e foi se sentar na poltrona que ficava mais afastada.

No fim das contas, o que era para ser aterrorizante acabou sendo engraçado. Era impossível se assustar com aquele filme. A estética trash mais provocava risos do que medo. Ademais, havia os comentários certeiros do par de comediantes do grupo: Nora e Vincent.

— Gente, tem que ser muito, mais muito idiota para entrar num porão escuro sozinha numa cabana no meio do nada — disse ela. — Se fosse eu, já teria fugido a muito tempo.

Vincent discordou:

— Se fosse você, seria a primeira a morrer.

— Claro que não, seu machista de merda. Mulheres inteligentes sabem se cuidar e sobreviver a filmes de terror.

— Não interessa, as gostosas sempre morrem. É uma lei.

Nora jogou uma almofada nele, que retrucou atirando um punhado de pipocas. Ela deu um pigarro de irritação e os dois começaram a se encarar.

— Ah não, nem pensem nisso! — implorou Stanley.

Tarde demais.

— Guerra! — gritou Nora.

De repente, havia pipoca e cachorros quentes voando para tudo quanto é lado e as risadas ficaram estridentes. Uma batata atingiu em cheio a lente do óculos de Artie, que num reflexo acabou derrubando refrigerante em alguém. A sala agora parecia mais uma cozinha de um cego tentando cozinhar, havia comida por todo lado.

Artie levantou do sofá e saiu correndo para escapar daquela bagunça. Acabou indo parar na área de serviço, onde começou a sentir um odor estranho.

Deu mais dois passos e encontrou Andrew escorado na máquina de lavar. Tinha um cigarro na mão, e o cheiro vindo daquela fumaça denunciava que aquilo certamente não era tabaco. Não, era outra coisa.

— Que foi? — perguntou Andrew, com aquela sua voz rouca e irritante. — Quer um também?

Artie revirou os olhos e estava pronto para manda-lo ir para o inferno, quando ouviu a própria boca, que agora parecia ter vida própria se abrir e dizer:

— Quero.

Andrew olhou para ele com desprezo, como de costume, provavelmente pensando que estava brincado. Artie sustentou o olhar dele, e uma espécie de tensão surgiu naquele pequeno espaço entre eles. Uma tensão tão forte, que se ele estendesse a mão poderia senti-la. Os pelos da nuca de Artie se arrepiaram e sua boca ficou seca.

— Você está brincando, né?

— Não.

Andrew finalmente notou que ele falava sério, franziu o cenho e tirou outro cigarro de dentro do bolso interno da sua jaqueta de couro. Ofereceu-o para Artie, que o pegou tentando fazer suas mãos pararem de tremer.

— Não vou te convencer a não fazer isso, o que você faz ou deixa de fazer não é problema meu.

— Eu sei — concordou Artie — E há uma primeira vez para tudo.

Andrew deu uma risada seca.

— Isso é o que todo covarde diz para encobrir o medo.

A quem ele estava chamando de covarde?

— Eu não estou com medo — protestou Artie — E nem sou um covarde.

— Ah, não? Então porque mentiu para o Stanley? Por que não contou para ele que fugiu dele na segunda por estar apaixonado por ele?

O chão sob os pés de Artie sumiram de repente, e ele sentiu-se cair. Como Andrew sabia daquilo? Mais do que nunca quis ser um pouquinho mais alto e menos fraco para poder dar um soco bem dado no nariz daquele idiota. Por que ele tinha que ser tão desagradável? E sem motivo. Pelo que se lembrava, Artie nunca tinha feito nada de mal a ele. Não entendia o motivo daquele ódio gratuito.

— Espera aí, Sherlock. Não sei do que você está falando.

Andrew deu outra risada, só que desta vez parecia menos sóbria e mais forçada.

— Ah! Sabe sim. Eu vi do jeito que você olha para ele, só ele que é estúpido demais para não notar.

Iria mandar ele ir se foder e parar de chamar Stanley de estúpido, mas...

...

... uma soprada de fumaça depois bastou para Artie perceber que Andrew não estava mais totalmente ali. Apesar de ver a proximidade e a solidez do seu corpo, seus olhos vermelhos encarando lugar nenhum e sua boca entreaberta mostravam o quão distante ele estava. E o seu rosto agora estampava uma tristeza tão crua que espantou Artie, que imediatamente quis perguntar porque. Por que ele estava tão triste?

Dizem que uma alma solitária reconhece outra quando se encontram. Artie já havia estado perto dele antes, mas nas outras ocasiões Andrew estivera usando sua inquebrável armadura de falsa indiferença. Só naquele momento, naquela área de serviço, naquela fria sexta-feira treze, Artie pôde enxergar além da superfície.

Foi invadido por uma estranha vontade de chorar descontroladamente. Queira escapar dali. Queria escapar de si mento. Talvez aquele cigarro em suas mãos o levasse para longe. Para bem longe.

Deu meia volta e andou até a cozinha. Ainda conseguia ouvir os risos vindos da sala. Ligou uma chama no fogão e acendeu seu bilhete para uma viagem até o País das Maravilhas.

Sentou ali mesmo no chão e deu sua primeira tragada.

Notas finais
Não esqueçam de comentar sobre o que acharam!